O projeto Coral BDMG na Estrada Real: a música colonial mineira em suas origens foi uma iniciativa que intentava, e conseguiu, e voltar aos lugares onde parte importante da nossa história musical, aqui das Minas Gerais, nasceu.
Criado em 2005, o projeto levou o Coral BDMG a cidades ligadas ao percurso histórico da Estrada Real, interpretando peças sacras compostas em Minas Gerais nos séculos XVIII e início do XIX. Os concertos aconteciam, em geral, em igrejas coloniais, com entrada gratuita e tinha uma preocupação que ia além da apresentação musical. Antes de cantar, eu tinha o cuidado de situar o público: falar das obras, dos compositores, do contexto histórico e da cultura musical que sustentava aquele repertório. Isso fazia diferença porque a música colonial mineira não é apenas um conjunto de partituras antigas. Pelo contrário, ela é música funcional e pertence a espaços, ritos, comunidades e memórias.
Quando cantada dentro de igrejas coloniais, cercada pela arquitetura, pela reverberação e pela história desses lugares, essa música reencontra uma parte de sua condição original porque volta a ocupar um ar mais próximo daquele para o qual foi pensada. Era, e é, importante mostrar para os mineiros que Minas não se fez apenas de ouro, caminhos, igrejas e casarões. Fez-se também de música.
O BDMG Cultural tinha relação direta com esse patrimônio, especialmente pela participação na aquisição do acervo Curt Lange, fundamental para a história da música em Minas Gerais. A presença desse acervo reforçava a ideia de que preservar não é apenas guardar documentos, mas também criar condições para que essa música volte a circular.
E foi nesse ambiente de valorização da Estrada Real que o projeto ganhou forma, e lá fomos nós para cidades históricas, igrejas inúmeras que não conhecíamos e acústicas perfeitas para o canto coral. Levávamos partituras resgatadas de acervos musicais importantes e que continham uma memória sonora que precisava ser novamente escutada.
Entre 2005 e 2016, o projeto passou por 75 localidades de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Em 2008, como registro desse percurso e em comemoração aos 20 anos do BDMG Cultural, foi lançado o CD Coral BDMG na Estrada Real: a música colonial mineira em suas origens.
Das muitas viagens, me lembro de uma Minas rica em igrejas, em casario, em acervos, em memória. E, principalmente, rica em gente. Com essa gente, aprendi algo muito importante: quando um coro viaja por cidades, ele não leva apenas repertório, leva também uma escuta. E também recebe. Recebe o espaço, o silêncio, a acústica, a reação do público, a presença dos lugares. A música coral, nesse caso, não funciona como enfeite cultural. Ela atua como gesto de devolução.
A partir de 2017, o projeto ganhou nova configuração, ampliando-se para outras regiões de Minas Gerais e incorporando também músicas contemporâneas, compositores e arranjadores mineiros, além de peças brasileiras e internacionais. Era outro momento, outra etapa. Mas a origem do projeto permanece como exemplo forte de como a música coral pode se ligar ao território de maneira concreta.
O Coral BDMG na Estrada Real mostrou que a música colonial não pertence apenas aos arquivos, às pesquisas ou às gravações especializadas, mas, principalmente, pertence às igrejas, às cidades, às pessoas que a escutam no lugar onde essa história ainda deixa marcas.