Em 1961, o Madrigal Renascentista partiu para nova excursão internacional, numa de suas viagens mais difíceis. A turnê estava prevista para a Argentina e o Uruguai, com apresentações em Buenos Aires, cidades do interior argentino e Montevidéu. O coro vivia ainda o impulso de sua fase de maior visibilidade, sob a regência de Isaac Karabtchevsky, que havia retornado ao Brasil trazendo uma notícia importante: sua bolsa de estudos na Alemanha fora renovada em caráter excepcional.
Tudo indicava mais uma etapa de afirmação internacional do Madrigal. Mas o Brasil entrou em crise com a renúncia do presidente Jânio Quadros em agosto daquele ano e a posse do vice João Goulart passou a ser contestada por setores militares e políticos. O país ficou suspenso, aeroportos foram fechados e a movimentação das Forças Armadas afetou diretamente viagem do coro, isso porque o Madrigal deveria seguir para Buenos Aires em um avião da Força Aérea Brasileira e por tudo o que ocorria, o voo não aconteceu. Uma apresentação prevista no Teatro Colón precisou ser transferida.
O grupo, que havia se preparado para cantar, viu-se preso numa engrenagem muito maior do que qualquer programa de concerto. É uma imagem curiosa: um coro mineiro, com malas, partituras e expectativa de palco, tentando embarcar enquanto o país discutia sua própria legalidade.
Segundo relatos de ex-cantores, a solução veio por intervenção do Itamaraty. Uma aeronave espanhola que seguia para Buenos Aires teria pousado no Rio de Janeiro, permitindo que o Madrigal finalmente chegasse à capital argentina. A música, naquele momento, dependia da diplomacia para continuar seu caminho. Esse episódio revela algo que às vezes esquecemos quando olhamos para a história dos coros apenas pelos concertos realizados. Uma excursão internacional não é feita só de repertório, ensaio e palco. Ela depende de política, transporte, acordos, circunstâncias e, em alguns casos, de pura insistência.
O Madrigal chegou a Buenos Aires em 5 de setembro de 1961 para cantar enquanto o Brasil atravessava uma crise profunda. João Goulart seria empossado dois dias depois, em 7 de setembro, já sob o regime parlamentarista, solução negociada para reduzir seus poderes e permitir a posse. Enquanto isso, o coro cantava.
Há algo de forte nessa cena. O Brasil atravessava um impasse político; o Madrigal atravessava fronteiras levando música brasileira e repertório coral para palcos estrangeiros. A viagem carregava, sem escolha, o peso de seu tempo. Talvez por isso essa excursão tenha ficado tão marcada na memória dos cantores. Ela começou antes mesmo do primeiro acorde. Começou na dificuldade de sair do Brasil.
O coro quase não chegou à Argentina... mas chegou.
Fonte de base: trecho do livro o_coro_do_brasil_o_madrigal.pdf sobre a excursão do Madrigal Renascentista à Argentina em 1961.