Sempre me perguntam sobre o equilíbrio entre técnica e expressão. A resposta depende de outra pergunta: o que você espera da música? Eu quero me emocionar. Talvez por isso nunca tenha gostado muito de concursos. Reconheço sua importância, mas quase sempre a balança pesa para a perfeição técnica. E eu nunca ouvi música apenas para admirar perfeição.
Já fui embora de concertos no intervalo, não porque fossem ruins, muito pelo contrário. Coros afinados, equilibrados, organizados, tudo exatamente no lugar, mas eu não sentia nada. Isso nunca deixou de me incomodar.
A técnica, para mim, nunca foi o problema, porque ela é indispensável. Um coro sem técnica encontra rapidamente seus limites: canta menos repertório, entende menos estilos e tem menos recursos para construir uma interpretação. A técnica, portanto, amplia possibilidades. O problema começa quando ela passa a ser tratada como objetivo e isso ela não é. É ferramenta e ferramenta existe para servir a alguma coisa.
Do outro lado também existe um equívoco. Às vezes se acredita que basta sentir para fazer música. Não basta!!! Emoção sem compreensão pode estragar uma obra tanto quanto a falta de técnica. Basta ouvir interpretações cheias de rubatos, agógicas exageradas ou efeitos que acabam deformando o estilo da peça. Expressão também pede conhecimento e cada obra traz consigo um modo próprio de respirar. Palestrina não se canta como um spiritual. Rutter não pede a mesma linguagem de Villa-Lobos...
Nos ensaios, procuro mostrar isso mais do que explicar. Sento ao piano, canto uma frase, experimento um caminho diferente. Sempre achei que certas coisas entram pelo ouvido muito antes de entrarem pelas palavras. No fim, continuo acreditando na mesma ideia: a técnica amplia o domínio sobre o instrumento coral, e a expressão dá sentido ao que fazemos com esse instrumento. Uma sem a outra perde força. Mas, se um dia eu tiver de escolher entre um concerto impecável que não me diz nada e outro cheio de humanidade, ainda que com pequenas imperfeições, continuo escolhendo o segundo. Porque nunca saio de casa para ouvir técnica. Saio para ouvir música.