E O Messias estava praticamente pronto para o concerto e eis que surge aquele problema que muitos músicos convivem com ele pela vida afora: não conseguíamos tirar o projeto do papel. Havíamos conseguido a aprovação na Lei de Incentivo à Cultura, mas a captação dos recursos simplesmente não acontecia. Os ensaios avançavam enquanto a insegurança crescia e nos perguntávamos se conseguiríamos realizar aquele concerto.
E foi em um dos ensaios que aconteceu um episódio de que nunca vou me esquecer, por vivência própria, porque isso acontece na vida prática de muitos colegas.
Naquela época, Kátia Malloy era presidente do Madrigale. Além de soprano do coro, era uma professora admirável e uma administradora extremamente competente que exercia uma liderança muito natural sobre o grupo. Todos confiavam em seu equilíbrio, em sua capacidade de analisar as situações e, principalmente, no compromisso que tinha com o grupo. Em meio a uma das conversa sobre as dificuldades e de uma possível desistência do concerto, ela interrompeu a discussão com uma frase muito simples:
— Vamos fazer de qualquer jeito.
Não houve discurso e nem tentativa de convencer ninguém. E estava decidido. O mais curioso é que ninguém respondeu dizendo que era impossível. Ninguém perguntou de onde viria o dinheiro ou começou a listar os problemas que ainda precisavam ser resolvidos. Era como se todos já soubessem que aquele concerto precisava acontecer e estivessem apenas esperando alguém dizer isso em voz alta.
Ali percebi uma coisa importante. Até então, O Messias era uma ideia que eu havia levado ao coro. Naquele ensaio, deixou de ser um projeto do regente e passou a ser um projeto do Madrigale. Existe uma diferença enorme entre essas duas situações. Um grupo amadurece quando deixa de apenas executar propostas e passa a assumir, como suas, as responsabilidades e os sonhos que constrói.
E o concerto aconteceu.
Hoje é fácil olhar para trás e enxergar apenas o resultado. Mas aquela apresentação só existiu porque um grupo inteiro decidiu que não abriria mão dela diante da primeira dificuldade.
Seria injusto, porém, dizer que a história começou naquele ensaio. Quando a Kátia pronunciou aquela frase, boa parte do trabalho já estava feita havia meses. Enquanto ainda discutíamos como viabilizar financeiramente o concerto, outro desafio vinha ocupando silenciosamente muitas horas dos meus dias: preparar todo o material que permitiria aos músicos colocar O Messias sobre as estantes e, finalmente, começar a transformá-lo em som.