Conheci Anna Tawaqu, do compositor argentino Juan Camilo Stafforini, em um livro de partituras que me foi dado pela Liliana Sánchez e Elizabeth Guerra, amigas de Mendoza. A peça me chamou a atenção e lá fui eu pesquisar para descobrir o por que dela ter me encantado. De cara, tem um característica que chama a atenção: é uma obra coral escrita em aimará. A língua, falada sobretudo na região andina da Bolívia, do Peru e do Chile, está muito distante dos idiomas que normalmente aparecem numa sala de ensaio coral brasileira. Mas o que me interessou na peça não foi simplesmente essa novidade. Foi perceber que a escolha da língua fazia parte da própria construção musical.
Baseado no que encontrei nas redes, Stafforini escreveu Anna Tawaqu em 2018, para cinco vozes femininas a cappella, por encomenda de Virginia Bono para o Coro Femenino del Instituto Coral de Santa Fe. A personagem que dá nome à obra é uma criação do compositor, associada à juventude feminina, à força e à liberdade. Não se trata, portanto, de uma harmonização de melodia tradicional andina nem da utilização de um antigo texto indígena. É um compositor argentino contemporâneo escolhendo o aimará como matéria para uma obra nova.
Estamos acostumados, na música coral, a pensar primeiro no significado de um texto. Procuramos a tradução, estudamos o poema, tentamos compreender suas imagens e somente depois pensamos em como a música se relaciona com aquelas palavras. Mas uma língua é também som. Tem vogais, consoantes, acentos, durações, ataques e maneiras particulares de organizar as palavras. Antes mesmo que eu compreenda o que está sendo dito, já existe ali uma matéria sonora.
E isso me fez pensar numa questão maior sobre o repertório coral que fazemos na América Latina. Nossa formação musical ainda segue um padrão de tradição europeia. Boa parte daquilo que aprendemos sobre contraponto, harmonia, formas musicais, escrita vocal e prática coral chegou até nós por esse caminho. Não vejo qualquer sentido em negar essa herança, muito menos em substituí-la artificialmente por outra. Palestrina não deixa de me interessar porque sou brasileiro, assim como Brahms não precisa nascer deste lado do Atlântico para ter alguma coisa a me dizer.
Mas talvez possamos perguntar onde mais estamos procurando música. O continente em que vivemos é linguisticamente muito mais complexo do que o repertório de nossos coros costuma fazer parecer. Espanhol e português ocupam naturalmente um espaço enorme, mas convivem com quéchua, aimará, guarani e centenas de línguas indígenas brasileiras, além de muitas outras. Cada uma delas traz consigo não apenas palavras diferentes, mas maneiras particulares de produzir som e organizar a experiência.
Nos últimos anos, tenho encontrado compositores latino-americanos interessados justamente nesse território. O próprio Stafforini não faz de Anna Tawaqu uma experiência isolada. Em outras obras corais, trabalha também com kichwa, mapudungun e qom. Há aí uma procura que me interessa: descobrir materiais para a criação contemporânea dentro da própria diversidade cultural e linguística do continente.
Mas há uma dificuldade que não gostaria de contornar. Usar uma língua indígena não torna automaticamente uma composição mais latino-americana, mais legítima ou mais interessante. Uma língua pode ser incorporada profundamente à concepção musical, mas também pode ser reduzida a uma sonoridade exótica. Para quem não conhece aquele universo cultural, a fronteira nem sempre é fácil de perceber. E nós, regentes, também participamos dessa questão quando escolhemos uma obra, estudamos sua origem e decidimos como apresentá-la aos cantores e ao público.
Talvez por isso Anna Tawaqu tenha me interessado para além da própria peça. Ela me colocou diante de uma pergunta que raramente faço ao abrir uma partitura nova: de onde eu estou escutando a obra que vou interpretar?
🎵 Juan Camilo Stafforini - Anna Tawaqu - Score