domingo, 5 de julho de 2026

O que um coro aprende ouvindo outro coro (uma reflexão)

Saí de um encontro de coros pensando, mais uma vez, sobre uma pergunta que parece simples, mas não é: o que um coro aprende quando ouve outro coro?

Costumo dizer que não gosto muito de encontros de coros. A frase pode soar antipática, eu sei, mas ela nasce de uma experiência acumulada. Muitos desses encontros carregam uma atmosfera menos generosa do que anunciam. Por fora, fala-se em troca, confraternização, celebração da música coral. Por dentro, quase sempre existe alguma comparação silenciosa. Um coro escuta o outro, mas também se mede diante dele. Quer cantar bem, quer ser reconhecido, quer sair dali com a sensação de que sua apresentação teve valor. Quando isso não acontece, vem a frustração, mesmo que ninguém diga nada. Coro também tem vaidade, só que em naipes.

Ainda assim, seria injusto reduzir tudo a isso. Vivi encontros belíssimos, daqueles em que havia expectativa real de escuta, alegria em ver o outro cantar, curiosidade pelo repertório, vontade de permanecer na plateia. Houve tempos em que a sensação de pertencimento era muito forte, especialmente quando as articulações entre os coros criavam uma vida comum mais presente. Íamos ouvir outros grupos com interesse verdadeiro. Era festa, mas também era escola.

Um coro aprende muito quando senta para ouvir outro coro. Aprende, antes de tudo, a escutar de fora aquilo que normalmente vive por dentro. O cantor, quando está cantando, participa da engrenagem. Ouve o próprio naipe, tenta seguir o regente, procura a afinação, sustenta texto, respiração, entrada, corte, intenção. Mas, na plateia, o som aparece inteiro. A afinação deixa de ser uma cobrança abstrata do ensaio e se torna uma experiência concreta. O equilíbrio entre as vozes, a clareza das palavras, a qualidade do silêncio, a maneira de entrar no palco, tudo se revela de outro modo.

Há coisas que um regente pode repetir durante meses e que um cantor só compreende quando ouve outro grupo. De repente, percebe por que a dicção importa, por que o excesso de força endurece o som, por que um naipe desequilibrado desmonta uma frase, por que a postura antes da primeira nota já diz alguma coisa. Um coro experiente e cuidadoso mostra sua história antes mesmo de cantar. A entrada no palco, a organização interna, o olhar para o regente, a espera pelo gesto inicial, tudo isso informa. O coração que bate por dentro costuma aparecer no silêncio que antecede o primeiro acorde.

Mas um coro não aprende apenas com aquilo que admira. Aprende também com o incômodo.

Durante muito tempo, ouvi coros que me provocaram admiração imediata. Alguns mudaram minha maneira de pensar a arte coral, abriram repertórios, alteraram expectativas, criaram objetivos. Depois de escutar certos grupos, eu voltava para o ensaio querendo buscar outro tipo de som, outro tipo de disciplina, outra relação com o texto ou com o palco. Nessas horas, o outro coro se torna uma referência palpável. Mostra que algo é possível.

Em outros momentos, o aprendizado vinha pelo desconforto. Eu ouvia um coro considerado bom e alguma coisa não se ajustava dentro de mim. Com o passar dos anos, entendi melhor essa reação. O problema nem sempre estava no outro coro. Muitas vezes, o incômodo nascia da distância entre aquela maneira de pensar a música coral e o ideal que eu carregava comigo. Desde cedo, tive na cabeça uma imagem de coro que venho perseguindo, corrigindo, ampliando, desfazendo e refazendo. Quando um grupo se apresentava bem, mas a sua concepção não se aproximava dessa imagem, aquilo me obrigava a pensar de novo. Não para condenar o outro, mas para compreender melhor o que eu buscava.

Esse é um aprendizado importante. Um coro pode aprender ouvindo aquilo que deseja ser, mas também ouvindo aquilo que não deseja ser. A diferença ensina. O contraste afina a identidade.

O risco está na imitação. Coros jovens precisam de modelos, e isso é natural. Ninguém começa do nada. Todos nós ouvimos alguém, admiramos alguém, seguimos rastros deixados por outros grupos. Mas uma referência deve abrir caminho, não ocupar o lugar da própria voz. Quando um coro tenta copiar outro, empobrece antes mesmo de começar. Pode copiar repertório, gesto cênico, tipo de sonoridade, figurino, maneira de se apresentar, até os vícios. Mas não copia a história que produziu aquele resultado. E coro sem história própria soa como casa mobiliada com móveis de vitrine: tudo está no lugar, mas ninguém mora ali.

Ouvir outro coro deve ampliar a escuta, não substituir a própria voz.

Talvez esse seja o ponto principal. Quando um coro escuta outro, aprende música, mas aprende também convivência, postura, limite, possibilidade e diferença. Aprende que há muitas formas legítimas de construir som coletivo. Aprende que técnica sem presença pode esfriar a música. Aprende que emoção sem cuidado pode se desfazer rápido. Aprende que alguns grupos impressionam pela precisão, outros pela entrega, outros pela maturidade, outros pela coragem de repertório. Aprende, enfim, que ser coro é sempre uma escolha estética, humana e coletiva.

Também aprende humildade, embora essa palavra seja perigosa quando usada em excesso. Prefiro dizer que aprende proporção. Ao ouvir outro grupo cantar, um coro percebe que não está sozinho no mundo. Há outras pessoas ensaiando à noite, enfrentando ausências, procurando tenores, negociando repertórios, tentando afinar acordes impossíveis, carregando pastas, acreditando que aquele esforço todo ainda faz sentido. Isso cria uma espécie de parentesco, mesmo quando há comparação. Talvez os encontros de coros sejam imperfeitos justamente porque os coros são vivos. Onde há vida, há generosidade e disputa, admiração e vaidade, escuta e julgamento.

O melhor que pode acontecer é sair de um encontro com o ouvido maior.

Não necessariamente satisfeito. Nem sempre encantado. Às vezes incomodado, às vezes provocado, às vezes animado, às vezes frustrado. Mas com o ouvido maior. Um coro que ouve outro coro volta para si de maneira diferente. Volta com perguntas. E, se tiver maturidade, transforma essas perguntas em trabalho.

No fim, talvez seja isso que um coro aprende ouvindo outro coro: aprende que sua própria voz ainda está em construção.




sábado, 4 de julho de 2026

Camila Malloy: o coro como sistema visual - Série “Programas antigos, memórias vivas” (4)

Na sequência dos cartazes antigos do Madrigale, chego agora aos trabalhos de Camila Malloy.

Camila tem uma relação antiga com o coro. Esteve por perto desde muito cedo, acompanhou ensaios, conviveu com cantores, viu o Madrigale existir antes de transformá-lo em imagem. Mas esse dado, embora importante, não deve conduzir a leitura. O que interessa aqui é observar a maneira como uma designer olha para o coro e organiza visualmente aquilo que ele apresenta ao público.

Nos cartazes de Camila, o que mais chama atenção é a ideia de sistema. Ela parece pensar menos no cartaz isolado e mais em conjuntos, séries, famílias gráficas. Isso fica muito claro na série dos 3 Requiems, de 2019, em que Mozart, Brahms e Fauré receberam cores e formas próprias: o vermelho de Mozart com uma geometria angular, o amarelo de Brahms com círculos entrelaçados, o azul claro de Fauré com triângulos sucessivos. O cartaz geral reúne as três formas sobre fundo preto, criando uma solução simples e muito eficiente. Cada obra tem identidade própria e, ao mesmo tempo, pertence a uma programação comum.

Gostei especialmente dessa escolha porque ela evitava o caminho mais previsível. Um Requiem costuma atrair imagens de morte, vela, sombra, túmulo, céu carregado, mãos em oração. Ali, Camila transformava cada obra em uma estrutura abstrata, como se a música aparecesse em forma de pensamento visual, ou de desenho de forças. Mozart ganhava tensão; Brahms, circularidade; Fauré, uma espécie de ascensão geométrica. Talvez essa leitura não tenha sido programada exatamente assim, mas o bom cartaz permite essas camadas e ele continua trabalhando mesmo depois de pronto. (E quem diria que logo depois de 3 Requiems teríamos uma pandemia?…)

Nos Concertos Espirituais na Boa Viagem, a lógica foi outra. A série trabalhava com textura: pedras, fumaça, nervuras de folha, terra rachada. A espiritualidade aparecia deslocada da iconografia religiosa direta. Não representava o sagrado pelos símbolos mais habituais, mas os aproximava da matéria do mundo observada de perto. Superfície, detalhe, silêncio. A pedra, a folha, a terra, a forma que se desfaz no ar. Um concerto espiritual não precisa ser anunciado apenas por cruzes, igrejas, vitrais ou anjos. Pode nascer também de uma atenção mais demorada às coisas.

Há nesses cartazes uma sobriedade que combina com a escuta. A informação fica organizada na parte inferior, a imagem ocupa o alto, o pequeno “m” aparece como assinatura discreta. Nada grita. E isso, em tempos de excesso visual, já é quase uma forma de resistência.

O cartaz de Madrigale canta Renascença Sacra seguiu outro caminho. A imagem do vitral, tomada em detalhe, aproxima o repertório sem transformá-lo em ilustração didática. Não vemos a igreja inteira. Vemos fragmento, vidro, cor, textura, mão, matéria. A tradição aparece recortada, ampliada, quase tátil. O título atravessa a imagem com peso suficiente para sustentar a leitura, e o repertório antigo não surge como objeto distante, mas como presença visual ainda ativa.

Já o cartaz de Beatles in Voices assumia outra natureza, mais pop, mais direta, mais teatral. As figuras coloridas, a composição aberta, o fundo claro, a chamada “Come Together” e o título em destaque indicam um concerto de outra energia. Aqui o Madrigale não aparece recolhido em atmosfera sacra ou em construção abstrata. Aparece em situação de espetáculo, dialogando com uma memória musical compartilhada por muita gente.

O conjunto desses trabalhos revela uma mudança importante na comunicação visual do coro. Era menos acúmulo e mais hierarquia, menos ornamento e mais conceito, menos vontade de explicar tudo e mais confiança na organização da imagem. A marca aparecia reduzida, os espaços respiravam, as séries se sustentavam por continuidade interna. Isso pertence a outro momento do design e também a outro momento do Madrigale.

Esses cartazes mostram um coro que já podia ser apresentado de maneira mais depurada, sem necessidade de colocar todas as informações no primeiro plano para afirmar sua existência. A imagem podia sugerir, organizar, criar atmosfera, construir continuidade entre os concertos. É por isso que esses materiais importam. Eles não apenas divulgaram apresentações; ajudaram a construir uma maneira de ver o Madrigale.

Nos trabalhos de Camila, o coro aparece como projeto visual articulado: às vezes abstrato, às vezes material, às vezes pop, às vezes mergulhado na tradição, mas sempre pensado com clareza. Quando um cartaz consegue fazer isso, ele deixa de ser apenas aviso e passa a fazer parte da história do concerto.
















sexta-feira, 3 de julho de 2026

Fred Aflalo: quando o cartaz pensa o concerto - Série “Programas antigos, memórias vivas” (3)

Na sequência desses cartazes antigos do Madrigale, volto agora a alguns trabalhos criados por Fred Aflalo.

Fred chegou à história do coro por um caminho que explica muito sobre a vida coral. Sua colaboração não nasceu de uma relação profissional distante, dessas em que alguém recebe informações, entrega uma arte e desaparece. A ligação dele com o Madrigale passava também por Clara Guzella, uma das cantoras mais importantes da nossa trajetória, e isso criava uma proximidade diferente porque ele olhava o coro de fora, mas não de muito longe. Talvez essa distância justa ajude a entender alguns desses cartazes.

Há neles uma capacidade de síntese que sempre me impressionou. Fred não transformava o cartaz numa explicação do concerto, ele escolhia uma imagem, uma ideia gráfica, um gesto visual, e deixava que aquilo abrisse a porta para o repertório. Um vitral, uma cruz, uma caixa de fósforos, uma flor, nuvens carregadas, linhas circulares quase obsessivas sobre o nome de Bach. Em cada caso, parecia encontrar um sinal capaz de preparar o olhar antes da escuta.

O cartaz do Concerto MPB, com Hely Drummond, sempre foi o meu preferido. A caixa de fósforos no alto, a composição em preto, branco e vermelho, a frase “contém 01 pianista convidado”. Sempre achei aquilo de uma inteligência rara. Havia humor, mas não piada. Havia leveza, mas sem descuido. O cartaz parecia entender algo do próprio Hely: aquela capacidade de chegar ao piano e acender o ambiente quando começava a tocar. Uma pequena faísca, e a música começava a pegar fogo.

Outros cartazes seguem por caminhos completamente diferentes. No Concerto de Natal, não aparecem os símbolos mais óbvios do período. Nada de árvore, neve, vela sentimental ou anjo domesticado. O que aparece é uma construção de linhas e cores, quase um vitral moderno, com verdes atravessados por uma faixa vermelha. O Natal ali não surge como enfeite, mas como forma, como espaço construído, como uma arquitetura de cor.

Nos cartazes de Música Sacra, a imagem se desloca outra vez. Em um deles, a cruz luminosa surge como vitral, feita de fragmentos coloridos. No outro, a cruz fotografada aparece entre galhos e céu, pesada, concreta, mineira de algum modo. São duas maneiras de tocar o mesmo universo: uma pela luz organizada da linguagem gráfica; outra pela presença física do símbolo no mundo.


Os cartazes do Réquiem de Mozart também dizem muito sobre aquele momento do Madrigale. Em um, as nuvens em preto e branco criam uma atmosfera densa, quase suspensa. Em outro, o roxo e o preto deixam Mozart pequeno no centro de um espaço escuro, como se a obra surgisse de um silêncio anterior. Não há excesso de teatralidade. O Requiem, para nós, já era uma espécie de rito recorrente, e o cartaz não precisava gritar isso. Bastava preparar a escuta.

Há ainda o cartaz dos arranjos de MPB de Hely Drummond para coro feminino, com aquela delicadeza quase de objeto oferecido: “De: Hely / Para: Elas”. Uma flor, uma etiqueta, muito espaço branco. É simples e, por isso mesmo, preciso. O concerto aparece como gesto de oferta, e era isso mesmo. Aquele repertório nascia de uma parceria, de uma escuta das vozes femininas do Madrigale, de um modo muito particular de Hely escrever para aquelas cantoras. Eu diria que o nome "HelyElas" surgiu desse cartaz.

Olhando esses materiais agora, percebo como eles documentam uma fase importante do coro. Não registram somente os concertos. Guardam uma maneira de produzir cultura. E um coro também se constrói assim. Com ensaios, claro, com repertório, estudo, vozes e convivência, mas também com quem pensa a imagem, com quem organiza a informação, com quem dá forma pública ao que ainda está sendo preparado em sala fechada. Antes de o público ouvir o primeiro acorde, já havia uma ideia em circulação: um cartaz na mão de alguém, um arquivo enviado por e-mail, uma imagem colada em algum mural.

Esses cartazes de Fred fazem parte dessa história. Entram como pensamento visual, como colaboração silenciosa, como mais uma camada desse trabalho coletivo que fez o Madrigale aparecer no mundo de tantas maneiras. Às vezes, a memória de um coro está numa gravação; às vezes, numa fotografia; às vezes, num nome pequeno no rodapé; e, às vezes, numa caixa de fósforos que ainda parece pronta para acender alguma coisa.

Obrigado demais, Fred!!!

Outros cartazes do Fred Aflalo:









quinta-feira, 2 de julho de 2026

Gustavo Fonseca: o cantor que desenha(va) o coro - Série “Programas antigos, memórias vivas” (2)

Eu guardo os cartazes de minhas apresentações, sobretudo as do Madrigale. Alguns voltaram agora, meio por acaso, meio porque esse blog tem feito com que eu reveja um percurso para reflexões acerva do passado, presente e futuro. Com isso, é natural que a gente abra uma pasta, procure uma data, tente confirmar um nome, e de repente aparece ali uma imagem que, no primeiro olhar, parecia apenas divulgação de concerto. Depois, quando a gente mira um pouco mais aquelas figuras (e isso só é possível porque tenho quase tudo digitalizado), alguma coisa se desloca. O cartaz começa a falar de novo, mas já não fala somente do concerto que anunciava. Foi assim que voltei aos cartazes criados por Gustavo Fonseca.

Gustavo é um dos cantores mais antigos do Madrigale, e essa informação importa muito. Quando de suas criações, ele não desenhava o coro de fora, como quem recebe apenas um título de concerto, uma data, um horário e a lista de patrocinadores. Sabia o que estava por trás daquilo: o cansaço dos ensaios, a ansiedade antes das grandes obras, as conversas atravessadas, os sonhos talvez grandes demais para as condições que tínhamos. Sabia também das pessoas, e isso muda uma percepão, porque um cartaz feito por alguém de dentro guarda uma intimidade difícil de explicar.

Quando olho hoje para o cartaz do Requiem de Mozart, de 2002, vejo ainda um Madrigale em afirmação. A imagem é direta, grave, com o nome de Mozart atravessado por aquele vermelho que imediatamente cria tensão. O meu nome ainda aparece inteiro, comprido, quase solene demais para quem depois simplificaria a própria assinatura. Esse detalhe me faz sorrir, porque a juventude também tem suas liturgias. 

  

Poucos anos depois, no Romancero Gitano, a imagem já respira outro mundo: o desenho, a tipografia, a figura quase popular, quase grotesca, quase saída de uma Espanha inventada pela nossa imaginação brasileira. Na minha percepção de hoje, Gustavo não tentou explicar Lorca, tentou criar uma porta de entrada. Talvez fosse exatamente isso que o cartaz precisava fazer: preparar um estado de escuta antes que a música começasse.

O mesmo acontece nos outros materiais. A Missa Afro-Brasileira aparece com uma teatralidade própria, com personagens, corpo, rito, batuque. No cartaz de Música Barroca, de 2009, a imagem caminha para outro lugar: instrumentos, papéis, objetos antigos, uma espécie de gabinete sonoro. No Requiem Alemão, de Brahms, a árvore seca e o vermelho sobre a paisagem criam uma atmosfera de recolhimento duro, sem sentimentalismo. Ainda bem. Brahms não pede açúcar (e esse continua sendo um dos meus favoritos).

O que me chama atenção, revendo tudo isso, é a variedade. Os cartazes não tentam prender o Madrigale a uma única cara. Eles mudam conforme o repertório, e isso diz muito sobre o coro que fomos construindo, um coro que cantava Mozart, Brahms, Carlos Alberto Pinto Fonseca, música barroca, música brasileira, repertório sacro, obras contemporâneas. Por ser tão eclético, seria falso dar a tudo isso a mesma aparência e Gustavo parecia entender isso muito bem. A unidade do Madrigale não estava numa fórmula visual repetida, mas na disposição de atravessar repertórios diferentes mantendo alguma verdade de grupo.

Esses cartazes também contam outra história, menos aparente: a da produção cultural. Cada nome pequeno no rodapé, cada logomarca, cada indicação de pianista, solista, igreja, teatro, horário, parceria ou patrocínio revela a engrenagem que sustentava os concertos. O público via a apresentação, mas antes dela havia outro coro trabalhando em silêncio: gente fazendo arte, buscando apoio, fechando programa, corrigindo informação, imprimindo material, carregando pasta, telefonando, resolvendo o que sempre precisava ser resolvido. Em grupos como o Madrigale, as funções raramente ficam separadas por paredes muito claras: quem canta também ajuda; quem desenha também ensaia; quem organiza também sobe ao palco. Talvez por isso esses materiais tenham uma vibração tão particular, porque eles não nasceram de uma estrutura distante, nasceram de uma convivência.

Por isso não quero olhar para esses cartazes apenas com saudade. Ela aparece, claro, e entra sem pedir licença, como cantor atrasado que abre a porta no meio do ensaio achando que ninguém percebeu. Mas ela não pode ser a única lente. Esses cartazes são vestígios de trabalho coletivo. Guardam fases do coro, escolhas estéticas, modos de produção, ambições, limites, parcerias, afetos. Guardam inclusive aquilo que esquecemos.

Talvez seja essa a força dos programas antigos, dos cartazes, dos papéis que sobrevivem em pastas e arquivos meio desorganizados: eles nos lembram que um concerto começa antes do primeiro som, muitas vezes quando alguém olha para aquilo tudo e inventa uma imagem capaz de dizer ao mundo que este coro vai cantar.

Outros cartazes do Gustavo Fonseca:












quarta-feira, 1 de julho de 2026

Por que esperar o público? (uma reflexão)

Há pouco tempo reencontrei um projeto que escrevi no início dos anos 2000. Em determinado momento, aparece uma expressão que hoje quase ninguém usa: funcionalizar a música. Confesso que parei alguns minutos diante dela. Na época, a ideia me parecia natural. Hoje, depois de tantos anos, continuo achando que ela faz sentido.

Durante muito tempo, acostumamo-nos a pensar a música de concerto como um acontecimento: marcamos dia, horário e local, abrimos as portas do teatro e esperamos que o público venha. Mas, essa lógica tem um problema: ela parte do pressuposto de que as pessoas já adquiriram o hábito de frequentar concertos. E se não adquiriram?

Foi essa pergunta que orientou vários projetos dos quais participei. As Missas Cantadas, por exemplo, nasceram dessa inquietação. As obras haviam sido compostas para acompanhar celebrações religiosas. Em vez de levá-las imediatamente para uma sala de concertos, resolvemos devolvê-las ao ambiente onde haviam surgido, não por uma questão de religião, mas porque ali aquela música ainda cumpria uma função. Ela fazia parte da vida das pessoas. Com o Coral BDMG, essa mesma ideia apareceu no Quatro Cantos: em vez de esperar que o público procurasse os coros, levávamos os coros para a Praça da Liberdade. O concerto deixava de ser um destino e passava a fazer parte da cidade.

Hoje vejo iniciativas semelhantes acontecendo em hospitais, escolas, praças, parques e museus. A música ganha outra dimensão quando deixa de ser apenas um evento e volta a ocupar a vida cotidiana. Talvez seja justamente isso que eu queria dizer, vinte anos atrás, quando escrevi aquela expressão. A função da música não é utilitária, ela não existe para decorar ambientes nem para preencher silêncios. Sua função é criar encontros, provocar escuta, transformar um espaço comum em experiência, formar pouco a pouco o hábito de ouvir. Porque ninguém nasce frequentando concertos, assim como ninguém nasce gostando de literatura ou de teatro. Esses hábitos são construídos e uma das responsabilidades de quem faz música seja justamente ajudar a construí-los.

Hoje usamos outros nomes para isso. Mas continuo gostando daquela expressão antiga, porque ela ainda me parece dizer exatamente o que penso. A música precisa voltar a fazer parte da vida das pessoas e, para isso, às vezes é ela quem precisa dar o primeiro passo.





terça-feira, 30 de junho de 2026

Quando um coro decide criar palco para outros coros (Projeto 4 Cantos - Coral BDMG na Praça)

Alguns projetos que nascem para mostrar um grupo e outros para fortalecer um movimento inteiro. O Quatro Cantos, projeto do Coral BDMG, foi um deles.

Quando pensamos na história do Coral BDMG, é fácil lembrar dos concertos, das viagens, dos discos e dos repertórios. Mas existe uma realização que talvez tenha produzido um impacto ainda maior: a criação de um espaço permanente para que outros coros também pudessem cantar.

A ideia era simples. Uma vez por mês, quatro grupos se reuniam para um concerto gratuito. O Coral BDMG estava sempre presente, mas nunca como protagonista absoluto porque dividia o palco com coros infantis, adultos, populares, eruditos, folclóricos, grupos da capital, do interior e, muitas vezes, de comunidades que dificilmente encontravam oportunidades semelhantes de apresentação. O palco deixava de ser um lugar de disputa e passava a ser um lugar de encontro.

Ao longo dos anos, centenas de coros passaram pelo Quatro Cantos. Alguns já bastante conhecidos, outros fazendo ali uma de suas primeiras apresentações para um público maior. Muitos voltariam anos depois, outros seguiriam seus próprios caminhos, mas todos encontravam o mesmo ambiente: um encontro sem caráter competitivo, construído a partir da ideia de que o movimento coral cresce quando os grupos cantam e, principalmente, quando se escutam. Um coro aprende muito nos ensaios, mas aprende também ouvindo outros coros, descobrindo repertórios, percebendo sonoridades diferentes, conhecendo outras maneiras de construir um fraseado, um timbre, uma interpretação.

Olhando hoje, penso que o projeto produziu algo que nem sempre aparece nos relatórios ou nas estatísticas: criou uma comunidade. Os concertos terminavam, os grupos voltavam para suas cidades, mas permanecia a sensação de que fazíamos parte de um mesmo movimento.

Coros precisam cantar, mas também precisam criar espaços para que outros coros existam. Digo isso porque penso que fortalecer o canto coral é mais importante do que fortalecer o próprio grupo.

Se você participou de algum dos 4 Cantos, deixe a sua lembrança nos comentários abaixo. Será um bom registro.


segunda-feira, 29 de junho de 2026

O Projeto Missas Cantadas (Madrigale - 2003)

No início dos anos 2000, o Madrigale realizou um projeto que, olhando hoje, acabou sendo muito maior do que eu imaginava na época. Chamava-se Missas Cantadas. A ideia parecia simples: apresentar missas de compositores mineiros, mas bastou começar o trabalho para eu perceber que o maior desafio não era cantá-las. Era encontrá-las.

Hoje é relativamente fácil procurar uma partitura na internet, comparar edições, digitalizar um manuscrito ou compartilhar material entre músicos. Vinte anos atrás, a realidade era bastante diferente. Muitas obras existiam apenas em cópias antigas, algumas difíceis de ler, outras espalhadas por acervos e antes de um primeiro ensaio havia um trabalho silencioso que quase ninguém via. Era preciso procurar fontes, conferir diferenças entre manuscritos, reconstruir trechos, editar cada página para que, enfim, alguém pudesse abrir uma pasta e simplesmente cantar.

Foi assim que nasceram as edições da Missa em Fá e da Grande Missa em Mi bemol, de Lobo de Mesquita; da Missa São João Batista e da Missa de Sábado Santo, de Hostílio Soares; e da Missa em Mi bemol, de Tristão José Ferreira. Curiosamente, essa nunca foi a parte que mais me interessou. O que realmente nos movia era outra pergunta: onde essa música deveria voltar a soar?

As missas foram escritas para acompanhar uma celebração religiosa. Levá-las diretamente para uma sala de concertos sempre me pareceu retirar delas uma parte importante do seu significado e a resposta nos levou para a Igreja Cura d'Ars. Claro que não havia, da nossa parte, qualquer intenção de promover uma experiência religiosa. O objetivo era outro, permitir que o público encontrasse essas obras em um espaço que ainda dialogasse com o ambiente para o qual elas haviam sido concebidas.

Lembro-me de quantas vezes ouvi a pergunta: “Mas por que fazer isso dentro de uma igreja?” E eu tinha uma resposta pronta: porque o lugar também faz parte da música. A acústica muda, o silêncio muda e a maneira como ouvimos muda. Mesmo quem não compartilha da mesma fé percebe que aquela música parece respirar de outro jeito.

Foi esse projeto que me fez compreender com mais clareza uma coisa que continuo acreditando até hoje: patrimônio musical não se preserva apenas guardando documentos. Partitura guardada é memória. Partitura cantada volta a ser música. E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.

Hoje olho para aquelas edições com carinho, não porque tenham sido perfeitas, certamente eu faria muita coisa diferente, mas porque elas nasceram de uma convicção que continua a mesma: um regente pode fazer muito mais do que interpretar repertório. Pode pesquisar, editar, reconstruir e devolver ao presente músicas que estavam esperando, às vezes havia séculos, por novas vozes.

No fim das contas, era isso que estávamos tentando fazer: mais do que resgatar um passado, queríamos que ele voltasse a cantar.











domingo, 28 de junho de 2026

O equilíbrio entre técnica e expressão (uma reflexão)

Sempre me perguntam sobre o equilíbrio entre técnica e expressão. A resposta depende de outra pergunta: o que você espera da música? Eu quero me emocionar. Talvez por isso nunca tenha gostado muito de concursos. Reconheço sua importância, mas quase sempre a balança pesa para a perfeição técnica. E eu nunca ouvi música apenas para admirar perfeição.

Já fui embora de concertos no intervalo, não porque fossem ruins, muito pelo contrário. Coros afinados, equilibrados, organizados, tudo exatamente no lugar, mas eu não sentia nada. Isso nunca deixou de me incomodar.

A técnica, para mim, nunca foi o problema, porque ela é indispensável. Um coro sem técnica encontra rapidamente seus limites: canta menos repertório, entende menos estilos e tem menos recursos para construir uma interpretação. A técnica, portanto, amplia possibilidades. O problema começa quando ela passa a ser tratada como objetivo e isso ela não é. É ferramenta e ferramenta existe para servir a alguma coisa.

Do outro lado também existe um equívoco. Às vezes se acredita que basta sentir para fazer música. Não basta!!! Emoção sem compreensão pode estragar uma obra tanto quanto a falta de técnica. Basta ouvir interpretações cheias de rubatos, agógicas exageradas ou efeitos que acabam deformando o estilo da peça. Expressão também pede conhecimento e cada obra traz consigo um modo próprio de respirar. Palestrina não se canta como um spiritual. Rutter não pede a mesma linguagem de Villa-Lobos... 

Nos ensaios, procuro mostrar isso mais do que explicar. Sento ao piano, canto uma frase, experimento um caminho diferente. Sempre achei que certas coisas entram pelo ouvido muito antes de entrarem pelas palavras. No fim, continuo acreditando na mesma ideia: a técnica amplia o domínio sobre o instrumento coral, e a expressão dá sentido ao que fazemos com esse instrumento. Uma sem a outra perde força. Mas, se um dia eu tiver de escolher entre um concerto impecável que não me diz nada e outro cheio de humanidade, ainda que com pequenas imperfeições, continuo escolhendo o segundo. Porque nunca saio de casa para ouvir técnica. Saio para ouvir música.




sábado, 27 de junho de 2026

Chega de Saudade (HelyElas)

E aqui mais um registro dos lindos arranjos do Hely Drummond: Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Esse foi preparado especialmente para o Madrigale e foi apresentado no Projeto Viva Música da Escola de Música da UFMG em 08/08/2018. Ouçam sem moderação:


🎬 "Chega de Saudade" - Tom Jobim / Vinícius de Morais




sexta-feira, 26 de junho de 2026

O Madrigal Renascentista entre Stravinsky e Claudio Arrau

Quando se fala na história do Madrigal Renascentista, é fácil olhar para trás conhecendo o que viria depois: as viagens internacionais, o reconhecimento da crítica, a consolidação do grupo como uma das referências da música coral brasileira. Mas em 1963 nada disso existia ainda. Por isso chama atenção um episódio ocorrido poucos meses após a criação do coro.

Naquele ano, o Madrigal participou do I Festival Internacional de Música do Rio de Janeiro, um dos mais ambiciosos eventos musicais já realizados no país. Durante algumas semanas, o Rio reuniu artistas que figuravam entre os maiores nomes da música de concerto mundial. Pelos programas passaram Igor Stravinsky, Claudio Arrau, Eugene Ormandy, Guiomar Novaes, Sir John Barbirolli, Hans Werner Henze, músicos do Metropolitan Opera e a Orquestra da Filadélfia. E, entre eles, estava o Madrigal Renascentista.

Essa talvez seja a dimensão mais impressionante do episódio. O coro não participava de um festival dedicado ao canto coral, não estava inserido em um encontro regional, não ocupava uma programação paralela. Estava presente em um evento concebido para reunir o primeiro escalão da música de concerto internacional.

A pergunta inevitável é: como um coro mineiro conseguiu chegar ali? A resposta está na velocidade com que o grupo chamou atenção. Sob a direção de Isaac Karabtchevsky, o Madrigal construiu rapidamente uma reputação que ultrapassou os limites de Minas Gerais. Após a apresentação, o crítico Eurico Nogueira França escreveu que florescia no Brasil, "com as qualidades dos melhores que há no gênero, em todo o mundo", o Madrigal Renascentista de Belo Horizonte. Não era um elogio protocolar, era o reconhecimento de que algo relevante estava acontecendo fora dos centros tradicionais da vida musical brasileira.

Existe ainda um aspecto curioso nessa história. O festival pretendia apresentar o que havia de mais importante na música internacional daquele momento. Paradoxalmente, parte da produção brasileira recebeu espaço menor do que muitos esperavam. Nesse contexto, a presença do Madrigal adquiriu um significado adicional: ao levar música brasileira para o programa, o coro ajudava a garantir que a criação nacional estivesse efetivamente representada naquele cenário.

Sessenta anos depois, a participação do Madrigal no festival continua impressionando, não porque tenha acontecido no Theatro Municipal do Rio, mas porque colocou um coro de Belo Horizonte em diálogo direto com alguns dos maiores nomes da música mundial de seu tempo. Para um grupo que ainda estava escrevendo os primeiros capítulos de sua história, era um feito extraordinário.






O que um coro aprende ouvindo outro coro (uma reflexão)

Saí de um encontro de coros pensando, mais uma vez, sobre uma pergunta que parece simples, mas não é: o que um coro aprende quando ouve outr...