Depois de quase cinquenta dias nos Estados Unidos, o Madrigal voltou a Belo Horizonte. A excursão havia passado por dezenas de cidades, enfrentado frio, viagens longas, auditórios diferentes, compromissos oficiais e a responsabilidade constante de se apresentar como “Coro do Brasil”. Na chegada, a cidade recebeu o grupo com festa: havia muita gente, serpentinas e a Banda da Polícia Militar tocando para os cantores.
Depois do aeroporto, todos seguiram para o Automóvel Clube, onde o prefeito Oswaldo Pieruccetti prestou uma homenagem ao coro. Foi ali que o cansaço apareceu de forma mais clara. Ao agradecer, Isaac Karabtchevsky desmaiou e precisou ser medicado. No meio dos aplausos, discursos e cumprimentos, o corpo do maestro revelou o peso daqueles quase cinquenta dias. O grupo voltava consagrado, mas exausto. Eram cantores jovens, submetidos a uma rotina de estradas, hotéis, apresentações quase diárias, frio, alimentação diferente e muita cobrança. A viagem havia sido um sucesso, mas estava longe de ter sido fácil.
Maria Lúcia Godoy não voltou com o grupo. Permaneceu nos Estados Unidos para uma temporada de concertos solo, já seguindo um caminho próprio. Sua trajetória também mostra a importância do Madrigal como espaço de formação e projeção para músicos que depois alcançariam outros palcos.
Percebendo o desgaste de todos, Karabtchevsky suspendeu as atividades até a Quarta-Feira de Cinzas. Era preciso descansar. Depois de tanto tempo sendo tratado como símbolo de Minas e do Brasil, o coro precisava simplesmente voltar para casa. As homenagens, porém, ainda não haviam terminado. No dia 4 de março, o grupo foi recebido no Palácio da Liberdade pelo governador Magalhães Pinto, pelo vice-governador Clóvis Salgado, pelo prefeito Pieruccetti e pelo cônsul dos Estados Unidos em Belo Horizonte, Herbert Okun. A excursão era celebrada como uma conquista musical, mas também como um feito político e cultural de Minas Gerais.
E é isso: ao longo da viagem, o Madrigal não carregou apenas partituras e repertório, carregou uma imagem do Brasil. As faixas de “Coro do Brasil”, o apoio consular, as recepções e os compromissos oficiais mostram que cada concerto tinha também uma função de representação. Talvez por isso a chegada seja uma boa imagem para encerrar esta série. De um lado, serpentinas, banda, autoridades e orgulho. De outro, o cansaço dos cantores e o desmaio do maestro.
O Madrigal voltou reconhecido como “Coro do Brasil”, mas voltou também sentindo no corpo o peso desse título.