Me permitam trazer para este espaço o texto que postarei nas minhas redes sociais. Um texto que é uma homenagem a essa mulher maravilhosa que comemora, hoje, o seu aniversário.
Para mim, viver todos os anos uma festa coletiva se tornou algo necessário. Isso porque o meu coração doeu quando ela me contou, em 2021, que, certa vez, em Belo Horizonte, quando já tinha uma certa condição financeira para comemorar com amigos, organizou uma festa em uma pizzaria. O que aconteceu? Ninguém foi. Motivo? O feriado. Ela chorou... e eu sei que foi uma dor. Então, me comprometi com a ideia de sempre trazer pessoas para esse dia de comemoração. Não estamos em casa, mas eu os convido a pensarem numa festa para uma pessoa que muito merece. Comecemos já com a ideia de que ela merece… um feriado. Estupendo.
Claro que vou comemorar, para além disso, essa pessoa que chegou na minha vida num momento desorganizado, no fim da pandemia. Por outro lado, minha vida já parecia organizada, não no sentido de estar resolvida, mas encaminhada. Com ritmos definidos, caminhos conhecidos, uma certa ideia de estabilidade que, aos poucos, começa a se confundir com acomodação. Enfim, aquele chamado “outono da vida”.
E então veio a Chiquita.
Veio com um livro de Platão a tiracolo, já propondo uma desorganização, um deslocamento daquilo que eu tinha como certo. Não que quisesse modificar o que estava posto, mas também não permitia que eu me instalasse ali. Trouxe uma outra perspectiva de tempo, mais aberta, mais em movimento, mais disponível para o que ainda podia acontecer.
Isso porque ela é assim: ativa, provocadora. Alguém que se relaciona com o mundo sempre pela expansão. Uma necessidade constante de avançar, de construir, de se implicar com as pessoas, com os processos, com o que está por vir.
Claro que isso, em muitos momentos, me contraria, porque ela me dá estabilidade, mas não aceita acomodação, porque há uma energia nela que não se deixa controlar. Uma impulsividade no agir, uma urgência no viver, uma forma muito própria de se colocar no mundo sempre em direção ao outro, sempre criando caminhos, sempre disponível. E, ao mesmo tempo, é essa mesma presença que sustenta em mim algo essencial: o prazer pela vida, o sorriso solto, a liberdade de continuar buscando, mesmo quando tudo parece já ter sido definido.
Nos nossos momentos de conversa, aqueles em que estamos sós, falando da vida, das ideias, das questões que atravessam o cotidiano, há um tipo de escuta que me desloca. Presença. E isso se estende também ao modo como ela me vê no palco, como observa o meu trabalho, como tenta compreender o que está em jogo ali. Ah, esse olhar que nunca é distante... um olhar implicado.
Há, nela, na artista, um carisma que não se aprende, uma forma de estar na música e no mundo que vem de dentro e que se manifesta com generosidade. E hoje é o dia dela e, mais do que dizer, eu registro: a presença da Lívia não passa despercebida, ela modifica o ritmo, o olhar, as escolhas. E, no meu caso, modificou o modo de estar na vida.
Sou grato por caminhar ao lado dela. E deixo aqui, neste dia, algo simples: que ela continue sendo exatamente isso que é inteira, em movimento, sem concessões. E que eu siga tendo a lucidez de reconhecer, todos os dias, a dimensão dessa presença.
Viva a Livia Itaborahy, a Itaborahy da pedra do rio bonito, filha da Inês, neta da D. Gema, mais uma mulher da tribo dos índios canibais do Brasil.
Te amo, minha Chiquita!!!