Em 1996, propus ao Coral Acesita um espetáculo com músicas dos Beatles e de Chico Buarque. O grupo topou sem resistência, embora houvesse, naturalmente, certo medo diante da proposta. Eu era jovem e sempre fui atrevido nas ideias que levava aos coros que regia. Com o Acesita não foi diferente. Naquele momento, o coral já tinha uma história consistente. Havia viajado para apresentações, gravado um CD e construído uma identidade forte com a comunidade do Vale do Aço. Era formado por empregados da siderúrgica e pessoas da região, o que dava ao grupo uma presença muito própria. O público não via apenas cantores no palco. Via amigos, parentes, colegas, conhecidos. E isso fazia toda a diferença.
A ideia era levar o grupo para o teatro da Fundação Acesita, que era, de certo modo, o palco natural do Coral Acesita. O acesso a esse espaço fazia parte da relação do coro com a própria instituição. Ali, podíamos pensar em algo mais elaborado do que uma apresentação convencional. O programa recebeu o título Coral Acesita canta Beatles & Buarque. O repertório reunia canções conhecidas dos dois universos: Michelle, She’s Leaving Home, Can’t Buy Me Love, And I Love Her, Let It Be, Here, There and Everywhere, I Wanna Hold Your Hand, ao lado de Sabiá, Pelas Tabelas, Você Vai Me Seguir, Valsinha Brasileira, Cálice, Apesar de Você, A Banda, entre outras.
Trabalhamos formações variadas. Havia momentos com o coro inteiro, solos, duos, trios e grupos menores. Também usamos entradas e saídas discretas de cantores, além da iluminação do teatro, ainda sem um figurino especialmente pensado, como aconteceria em produções posteriores. Tudo era simples, mas havia uma intenção clara de espetáculo.
Chico Buarque trazia também outra camada. Não era apenas repertório conhecido. Havia ali uma dimensão política, especialmente em canções como Cálice e Apesar de Você. Para um coral comunitário ligado a uma empresa, cantar esse repertório exigia consciência do texto e cuidado na condução. A música popular brasileira entrava no programa com sua força poética, afetiva e histórica.
Os Beatles vinham por outro caminho: melodia, memória, comunicação direta com o público. As canções funcionavam muito bem no ambiente coral, especialmente quando trabalhadas em diferentes formações. O grupo podia mostrar leveza, humor, lirismo e presença.
A apresentação foi um sucesso. Mais do que isso: abriu caminho. A partir daquela experiência, o Coral Acesita produziu depois outros dois espetáculos, um em homenagem às mulheres e outro dedicado inteiramente a Chico Buarque. Isso mostra que aquela noite não foi um acaso. Foi uma porta aberta.
Hoje, olhando para o programa antigo, vejo com clareza que aquele projeto pertence a uma fase importante do meu trabalho como regente. Eu já buscava pensar o coro para além da disposição tradicional no palco. Queria explorar possibilidades de formação, circulação, texto, luz e presença cênica, sem perder de vista o canto. Também vejo o quanto eu acreditava naquele grupo. Talvez mais do que eles mesmos acreditassem. Havia receio, mas eu sabia que o Coral Acesita podia sustentar a proposta. E sustentou.
Beatles & Buarque, em 1996, foi uma dessas experiências que mostram como um coro comunitário pode crescer quando recebe confiança. O grupo amadureceu porque foi desafiado. E respondeu com aquilo que um coro precisa ter para ir além do correto: vontade de comunicar.