Este artigo eu publiquei no Suplemento, um jornal/revista da Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais, em 2008. Que fique aqui guardado como mais uma das minhas homenagens ao Mestre Magnani:
Ah, sim! Músicos, ao contrário do que uma boa parte das pessoas acredita, também leem. Pelo menos, aqueles que, como eu, tiveram a sorte de conviver com mestres antigos. No meu caso, o contato com o Maestro Sergio Magnani, grande italiano mais mineiro do que muitos que aqui vivem, foi fundamental para uma paixão pela leitura que extrapola, e muito, o universo da partitura musical.
Dizia ele que o contato com os mestres da filosofia era imprescindível para o entendimento necessário a qualquer maestro do que concerne à arte da condução de grupos, mas ditava uma norma interessante: que demanda tempo e paciência a qualquer um, o que, é claro, não vem ao encontro das formações em alta velocidade dos tempos modernos. Mas, ensinava ele que, antes de ler os filósofos, é necessário passar por duas etapas de leitura: a primeira, a leitura mais extensiva possível dos mestres de sua língua; a segunda, a leitura mais extensiva possível dos mestres universais; e, aí sim, entrar em contato com os clássicos (como ele chamava os mestre da filosofia).
Anos foram necessários para que o entendimento de que boa parte da música sacra, de vários compositores, da renascença até o romantismo, baseava-se intrinsecamente na Divina comédia, de Alighieri, para que a lembrança de Magnani viesse como uma lágrima que traz, de dentro do coração, a lembrança do precioso presente de um mestre.
Mas, mesmo depois de vários Machados e Azevedos (sendo O cortiço o livro de cabeceira) e de Dantes e Shakespeares, cabe citar um que, específico da música, mudou a minha maneira de pensá-la interpretativamente, por se tratar do livro deixado por ele próprio: Expressão e comunicação na linguagem da música.
Escrito num período em que o maestro gozava de uma consciência musical muito além da compreensão da maioria, esse livro tem como objetivo atender a dois mundos muito específicos; é um livro escrito para os homens de cultura, capazes de entender os primeiros capítulos, nos quais Magnani discorre sobre Estética Musical e, o que mais importa a ele nesse livro, a Fruição Musical; e é também escrito para os estudantes, tão necessitados de informações proporcionadas por um humanista que viveu a música intensamente durante oitenta anos. Em suma, um “manual” formativo.
Entendia ele que a Fruição Musical raramente é acompanhada de uma verdadeira tomada de consciência cultural, e que um dos empecilhos era a diversificação da literatura especializada, que se direcionava (e continua ainda hoje) a uma linguagem literária de elevada inspiração, mas propositadamente afastada do concreto sonoro. Reflexo disso é que, a cada dia se produzem mais e melhores músicos no aspecto técnico, mas com, cada vez menos, um conhecimento cultural muito aquém desse desenvolvimento (essa já era uma das reclamações de Magnani, na década de 1990).
Nesse sentido, esse livro foi montado como um direcionador de estudos para a formação de um músico, na verdadeira acepção do termo, como era entendido pelo maestro, que fazia uma distinção clara entre instrumentista e músico. Tanto proporciona uma visão geral de estética, história, orquestração e estilística comparada da música, quanto orienta na busca das informações necessárias para um aprofundamento em cada um desses pontos.
Finalizando: o que dizer de um livro que, há anos, proporciona, a cada nova leitura, um direcionamento claro e preciso, mas sempre novo, para o conhecimento do universo musical?
Viva Magnani!!!