Em 1966, Affonso Romano de Sant’Anna estava em Los Angeles quando foi ouvir a Sinfonia do Novo Mundo, de Antonín Dvořák. Havia alguns anos que deixara o Madrigal Renascentista. Durante o concerto, a música começou a trazer de volta os três anos em que havia cantado no grupo: os ensaios, as viagens, os concertos, os colegas e uma quantidade de pequenas histórias que pareciam apenas adormecidas. A experiência acabou se transformando numa crônica publicada no Estado de Minas, em agosto daquele ano.
O nome do autor torna esse documento ainda mais interessante. Affonso Romano de Sant’Anna se tornaria um dos escritores brasileiros de maior projeção de sua geração, com uma extensa produção como poeta, cronista, ensaísta e professor. Mas foi, também, um jovem cantor do Madrigal e participou intensamente do grupo entre 1959 e 1962, período de crescimento importante do conjunto, e conheceu aquela história por dentro. Quando escreve sobre ela em 1966, portanto, não está fazendo o registro de um observador. Está tentando recuperar uma parte da própria juventude.
O que desencadeia tudo é a música. E isso me interessa particularmente porque algumas obras adquirem uma capacidade extraordinária de guardar períodos inteiros de nossa vida. Podemos passar anos sem ouvi-las e, quando reaparecem, não trazem apenas sons conhecidos. Trazem lugares, pessoas, viagens, salas de ensaio, conversas e situações que julgávamos esquecidas. Às vezes basta uma passagem musical para que uma lembrança volte com uma precisão que uma fotografia não conseguiria produzir.
Foi o que parece ter acontecido com Affonso naquela noite em Los Angeles. Ao ouvir Dvořák, ele começou a rever o Madrigal. Em sua crônica aparecem os ensaios diários, as viagens, os teatros, as igrejas, as dificuldades, as brincadeiras e, principalmente, as pessoas. João Meira, João Mateus, Neide, Melinha, Teresinha, Simão, Edival, Pitucha, Beti e tantos outros surgem não como personagens de uma história oficial, mas por meio de pequenos gestos e características que haviam permanecido na memória de quem conviveu com eles.
Essa é uma diferença importante. Os documentos que venho pesquisando para reconstruir a história do Madrigal registram datas, repertórios, viagens, críticas, contratos e acontecimentos. São fundamentais para saber o que aconteceu. Uma lembrança como a de Affonso Romano acrescenta outra camada: ela nos aproxima de como era estar ali. E são coisas muito diferentes. Podemos saber que um coro ensaiava diariamente; outra coisa é ouvir alguém que participou daqueles ensaios contar o que ficou deles depois que os anos passaram.
Quem viveu muito tempo dentro de um coro provavelmente possui músicas assim. Eu certamente tenho as minhas. Algumas não consigo mais ouvir sem que venha junto um concerto específico; outras me levam imediatamente a determinadas pessoas ou períodos da vida. A obra continua sendo a mesma, mas nossa escuta já não é. Tudo aquilo que vivemos com aquela música passa a fazer parte dela.
Affonso Romano foi ouvir Dvořák em Los Angeles e acabou encontrando Belo Horizonte. E talvez seja essa uma das formas mais curiosas de permanência de um coro. O ensaio termina, o concerto termina, as pessoas seguem caminhos diferentes e o próprio grupo se transforma. Mas algumas músicas ficam carregando tudo aquilo consigo. Anos depois, basta alguém começar a tocar.
BUENO AIRES, 1962. Membros do MADRIGAL RENASCENTISTA em
frente a EMBAIXADA BRASILEIRA. Da esquerda para a direita: Roberto de Castro com sua esposa, Waldemira de Oliveira, Tarcísio Fiuzza, poeta Afonso Romano Santana, um membro da Embaixada Brasileira, Edval Trindade e João Gomes (que gentilmente me cedeu a foto).