Depois de Washington, os relatos da excursão que chegam pelos jornais mudaram de tom. As críticas sobre os concertos continuavam importantes, mas começaram a aparecer com menos frequência. No lugar delas, ganhava espaço os relatos de Newton Silva sobre o país que o coro atravessava. É como se, depois da missão diplomática mais visível na capital americana, o Madrigal passasse a olhar os Estados Unidos com mais calma, pela janela do ônibus, pelos supermercados, pelos motéis, pelas ruas, pelos museus e pelos pequenos hábitos cotidianos.
Naquele momento, o coro aparecia quase como um personagem coletivo. Cantava sempre, mas também observava. E o que via era uma América organizada em torno da propaganda, do consumo e da eficiência. Máquinas automáticas vendiam cigarros, refrigerantes, escovas de dentes e chocolate quente. Portas se abriam sozinhas nos supermercados. O queijo surgia em versões suíça, dinamarquesa, italiana, americana, ralado, em lata, em fatias, inteiro. Para jovens brasileiros dos anos 1960, aquela abundância significa organização e poder.
Cleveland mostrou outra face dessa modernidade. Ruas limpas, parquímetros, placas claras, trânsito ordenado, tudo parecia pensado para funcionar. Mas, na mesma paisagem, apareciam os sinais dos abrigos antirradiação. A cidade organizada carregava também o medo nuclear da Guerra Fria. A América que vendia conforto e eficiência lembrava, discretamente, que vivia sob ameaça.
Detroit aprofundou o choque. A cidade do automóvel mostrava a produção em massa como espetáculo: Impalas, Corvetes, Buicks, Pontiacs, carros novos e usados expostos ao ar livre, ferros-velhos transformados em cemitérios mecânicos. Naquela cidade, o concerto do Madrigal aconteceu no Instituto de Artes, diante de músicos profissionais e instrumentistas sinfônicos. Ali, entre automóveis, frio intenso e coleções de arte, o coro cantou uma de suas noites mais fortes.
Pitucha registrou que o Madrigal conseguiu pianíssimos tão sutis que parecia impossível serem produzidos por vinte e poucas vozes. Mas sua emoção não vinha apenas da qualidade musical. Ela percebia que o grupo estava corrigindo, diante dos americanos, uma imagem deformada do Brasil. Muitos não sabiam que brasileiros falavam português. Alguns perguntavam se eram descendentes de franceses. Para os cantores, cada aplauso ajudava a mostrar que o Brasil não era apenas samba, café e futebol. Era também música de concerto, disciplina, repertório, escuta e trabalho coletivo.
Esse talvez seja o ponto mais interessante dessa etapa. O Madrigal via os Estados Unidos, mas também percebia como o Brasil era visto de fora. O choque não era apenas tecnológico ou urbano, era simbólico. Os supermercados, os carros, os chicletes, as máquinas automáticas e os museus revelavam uma América poderosa e organizada. As perguntas sobre o idioma e os estereótipos sobre o Brasil revelavam, ao mesmo tempo, o tamanho do desconhecimento. A excursão, então, deixou de ser apenas uma sequência de concertos para tornar-se uma travessia cultural.