sexta-feira, 24 de julho de 2026

O sonho americano do MR (IV): De Miami a Washington - o primeiro trecho do sonho americano

O Madrigal Renascentista chegou aos Estados Unidos em 2 de janeiro de 1965. O desembarque em Miami, para aqueles jovens brasileiros, era o encontro com uma sociedade que parecia anunciar o futuro: aeroportos imensos, corredores ligados diretamente aos aviões, sinalização eficiente, limpeza rigorosa e uma organização que eliminava gestos desnecessários. Newton Silva, cantor e jornalista que registrou a excursão em crônicas para o Estado de Minas, observava tudo com olhos atentos. 

De Miami, o grupo seguiu cerca de 370 quilômetros até Sarasota, onde faria o primeiro concerto da excursão. As estradas largas, os automóveis, os trailers, os radares e os motéis chamaram atenção. O motel, ainda novidade para muitos brasileiros, aparecia ali como parte da civilização do automóvel: quartos padronizados, estacionamento próximo, restaurante, calefação, televisão, telefone, água quente, fria e gelada. Um outro modo de organizar a vida cotidiana.

Em Sarasota, a curiosidade mudou de lado. Agora eram os norte-americanos que observavam aquele coro vindo do Brasil. Pitucha Godoy registrou uma plateia inicialmente desinteressada, que aos poucos foi sendo conquistada pela presença do grupo, pelos uniformes vermelhos e pretos, pela entrada organizada e, principalmente, pela música. Ao final, o público estava de pé, aplaudindo calorosamente. A primeira prova havia sido vencida.

Depois vieram Savannah, Winston-Salem, Asheboro, Albemarle, Raleigh e Harrisonburg. O ônibus avançava pelo Sul e pelo interior dos Estados Unidos, levando cantores, malas, partituras, frio, cansaço e expectativa. Em Winston-Salem, uma jornalista observou o ensaio e se surpreendeu com o modo brasileiro de trabalhar: muita conversa entre uma execução e outra, piadas, discussões, informalidade, mas também concentração musical. Isaac Karabtchevsky aparecia como figura ambígua: brincava, caminhava pela sala, apoiava o pé em uma cadeira, mas também exigia com firmeza o que queria do coro.

Nas cidades menores, o público começou a revelar suas preferências: Debussy, Brahms e Ravel eram recebidos com respeito, mas os aplausos mais calorosos vinham para Villa-Lobos, para as canções brasileiras mais diretas e para os spirituals norte-americanos. O Madrigal entendia, aos poucos, que era preciso medir a escuta de cada plateia, perceber onde a comunicação se abria e como o repertório podia funcionar como ponte entre culturas.

Em Raleigh, o grupo cantou para plateias numerosas no Reynolds Coliseum, dentro de uma temporada que recebia artistas e conjuntos de grande projeção internacional. Ali, o Coro do Brasil não aparecia como curiosidade periférica, mas como parte de um circuito artístico respeitável. A crítica destacou o controle do coro, a precisão da dinâmica, a clareza das vogais e consoantes, a variedade de idiomas e a regência sóbria de Karabtchevsky. O Madrigal começava a mostrar que sua presença nos Estados Unidos não era favor diplomático nem exotismo passageiro.

Em Harrisonburg, a recepção ganhou outro tom. A crítica falou em alegria e comparou o grupo à família von Trapp, destacando irmãos, casamentos e a convivência interna do coro. Era uma leitura simpática, mas também reveladora do olhar estrangeiro, que via no Madrigal uma espécie de família musical brasileira: jovem, unida, disciplinada e calorosa. O repertório mais vivo, especialmente os spirituals e as canções de comunicação direta, voltava a incendiar a plateia.

Esse primeiro percurso, de Miami a Harrisonburg, já continha quase tudo que marcaria a excursão: o choque com a modernidade americana, o cansaço do ônibus, a disciplina do palco, o olhar curioso dos críticos, a força simbólica do nome e a necessidade de provar valor a cada cidade. O Madrigal observava os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, era observado por eles.

Depois de Harrisonburg, o grupo seguiu para Washington. A chegada à capital americana mudaria o peso da viagem. Até ali, o coro havia conquistado plateias e críticas importantes. Em Washington, enfrentaria algo maior: o corpo diplomático brasileiro, uma crítica severa e um palco em que música e representação nacional se encontrariam de maneira decisiva.


Wait Chapel na Wake Forest University, Winston-Salem (foto domínio público)


Edival Trindade ao lado de Maria Lúcia Godoy em um ensaio do Madrigal (Fonte: Acervo do Madrigal Renascentista)


quinta-feira, 23 de julho de 2026

O sonho americano do MR (III): O percurso e os cantores da excursão

Antes de seguir com os episódios da excursão do Madrigal Renascentista aos Estados Unidos, vale parar um pouco diante do percurso completo. A lista abaixo, na minha opinião, não é apenas um roteiro de viagem, mas é quase um mapa do esforço físico e artístico que aqueles cantores enfrentaram em 1965.

Foram cerca de cinquenta dias atravessando os Estados Unidos de ônibus, em pleno inverno, com neve, frio intenso, mudanças constantes de cidade, poucas pausas reais e uma sucessão impressionante de concertos. Em alguns momentos, o grupo cantava várias noites seguidas. Em outros, passava o dia na estrada para chegar a tempo da próxima apresentação. Havia pernoites rápidos, malas, alimentação improvisada, ensaios possíveis, auditórios diferentes, públicos desconhecidos e a responsabilidade permanente de se apresentar como Coro do Brasil.

Visto assim, em tabela, o percurso parece organizado e até simples. Mas por trás de cada linha havia corpos cansados, vozes que precisavam responder, roupas de concerto, deslocamentos longos, adaptação ao frio e a tensão de representar o país em um circuito exigente. Por isso, junto ao itinerário, faço questão de registrar também os nomes dos cantores que viajaram. A história de uma excursão como essa não pertence apenas ao maestro, às críticas ou às cidades visitadas. Pertence a cada voz que entrou naquele ônibus, subiu naqueles palcos e sustentou, noite após noite, a imagem sonora do Madrigal Renascentista nos Estados Unidos.

Data

Cidade/Estado

Atividade

2 jan

Miami, Flórida

Chegada

3 jan

Viagem para Sarasota

Viagem

4 jan

Sarasota

Concerto

5 jan

Savannah, Geórgia

Viagem e pernoite

6 jan

Winston-Salem, Carolina do Norte

Viagem e pernoite

7 jan

Winston-Salem, Carolina do Norte

Concerto

8 jan

Asheboro, Carolina do Norte

Concerto

9 jan

Albemarle, Carolina do Norte

Concerto

10 jan

Raleigh, Carolina do Norte

Concerto

11 jan

Raleigh, Carolina do Norte

Concerto

12 jan

Raleigh, Carolina do Norte

Concerto

13 jan

Harrisonburg, Virgínia

Concerto

14 jan

Washington D.C.

Concerto

15 jan

Washington D.C.

Dia de folga

16 jan

Mt. Holly, New Jersey

Concerto

17 jan

Towson, Maryland

Concerto

18 jan

Cleveland, Ohio

Pernoite

19 jan

Detroit, Michigan

Concerto

20 jan

East Lansing, Michigan

Concerto

21 jan

Pittsburgh, Pensilvânia

Pernoite

22 jan

Danville, Pensilvânia

Concerto

23 jan

Bethlehem, Pensilvânia

Concerto

24 jan

Nova York, New York (Town Hall)

Concerto

25 jan

Kingston, Rhode Island

Concerto

26 jan

Augusta, Maine

Concerto

27 jan

Portsmouth, New Hampshire

Concerto

28 jan

Laconia, New Hampshire

Concerto

29 jan

Nova York, New York

Viagem e pernoite

30 jan

Peekskill, New York

Concerto

31 jan

Nova York, New York

Folga / TV

1 fev

Chambersburg, Pensilvânia

Concerto

2 fev

Springfield, Ohio

Pernoite

3 fev

Vincennes, Indiana

Concerto

4 fev

Goshen, Indiana

Concerto

5 fev

Appleton, Wisconsin

Concerto

6 fev

Decorah, Iowa

Concerto

7 fev

Decorah, Iowa

Dia de folga

8 fev

Mt. Pleasant, Iowa

Concerto

9 fev

Keokuk, Iowa

Concerto

10 fev

Atchison, Kansas

Concerto

11 fev

Hannibal, Missouri

Concerto

12 fev

Bolivar, Missouri

Concerto

13 fev

Springfield, Missouri

Concerto

14 fev

Little Rock, Arkansas

Pernoite

15 fev

El Dorado, Arkansas

Concerto

16 fev

Shreveport, Luisiana

Concerto

17 fev

Jackson, Mississippi

Concerto

18 fev

State College, Mississippi

Concerto

19 fev

Tallahassee, Flórida

Pernoite

20 fev

Fort Myers, Flórida

Pernoite

21 fev

Key West, Flórida

Pernoite

22 fev

Key West, Flórida

Concerto

23 fev

Miami, Flórida

Retorno

24 fev

Rio de Janeiro

Volta ao Brasil


E aqui o registro dos cantores que viajaram:

Sopranos: Marlene Soares Caldeira, Hilda Fonseca, Waldemira Oliveira (Mira), Rita Ivani Garcia, Zinda Oliveira Santos, Efigênia Lacerda

Contraltos: Rosa Alice Godoy (Pitucha), Maria Lúcia Godoy, Anna Maria Godoy, Alba Lacerda, Yara Tereza Geolás

Tenores: Décio Bracher, João Bosco de Souza Rocha, Newton Silva, Nélio de Araújo Abreu, Cláudio Ribeiro de Castro

Baixos: José Cornélio, Simão Fabiano de Lacerda, Félix Geraldo Lima, Celiodivo Dias


quarta-feira, 22 de julho de 2026

O sonho americano do MR (II): a engrenagem dos Community Concerts

Em 1965, durante a excursão aos Estados Unidos, o Madrigal Renascentista nem sempre foi apresentado pelo seu próprio nome. Nas laterais do ônibus que transportava o grupo, lia-se em grandes letras: “Coro do Brasil”. Os cantores viajavam com pequenas bandeiras brasileiras e contavam com apoio de consulados e da Varig. A mudança de nome parecia simples, mas, por algumas semanas, um coro criado em Belo Horizonte passava a representar simbolicamente um país inteiro.

Essa representação tinha um sentido político claro. A viagem aconteceu poucos meses depois do golpe civil-militar de 1964, quando o novo governo brasileiro buscava fortalecer sua aproximação com os Estados Unidos. O Madrigal oferecia uma imagem conveniente: jovens disciplinados, repertório bem preparado, domínio de diferentes idiomas e uma sonoridade capaz de circular com segurança pelos auditórios norte-americanos. A diplomacia cultural funcionava assim: sem discursos oficiais, a música ajudava a projetar um Brasil culto, moderno e estável.

Mas a excursão não se explicava apenas pela diplomacia. O que tornou possível percorrer 47 cidades em cerca de cinquenta dias foi uma estrutura profissional de circulação artística: os Community Concerts. Esse sistema, ligado ao Organized-Audience Plan, funcionava por associações locais que reuniam assinantes antes da temporada. Com o dinheiro já garantido, contratavam artistas e levavam concertos a cidades pequenas e médias, muito além dos grandes centros.

O Madrigal entrou nesse circuito por meio da Columbia Artists Management Inc., a CAMI, uma das grandes agências artísticas internacionais daquele período. Isso mostra que o coro não viajava apenas como gesto simbólico do Brasil no exterior. Era também uma atração inserida num mercado musical organizado e exigente. Havia contrato, roteiro, horários, auditórios e compromissos sucessivos.

Para o público norte-americano, o Coro do Brasil reunia algo atraente: repertório europeu, música brasileira, spirituals, juventude, disciplina e a presença marcante de Maria Lúcia Godoy. Era estrangeiro, mas apresentado dentro de uma forma que o circuito sabia receber. Trazia novidade sem romper com os códigos da música de concerto.

O preço dessa engrenagem era alto. Em poucos dias, o grupo atravessava estados, enfrentava neve, frio intenso, ônibus, malas, ensaios e concertos quase sem descanso. A mesma estrutura que abriu tantos palcos também exigiu dos cantores um esforço enorme.

Ainda assim, participar dos Community Concerts foi uma conquista extraordinária. Com menos de dez anos de existência, o Madrigal entrava num circuito consolidado de circulação internacional. Em cada cidade, o público não ouvia apenas um coro mineiro. Ouvia aquilo que lhe fora anunciado: um (o) Coro do Brasil.


O impacto das cores do Madrigal Renascentista (ChatGPT)

terça-feira, 21 de julho de 2026

O sonho americano do Madrigal Renascentista (I)

Os próximos textos deste blog nascem diretamente da pesquisa que venho desenvolvendo para meu novo livro sobre o Madrigal Renascentista. Ao longo de uma série de posts, pretendo revisitar uma das experiências mais extensas, importantes e, curiosamente, menos comentadas da história coral brasileira: a excursão realizada pelo grupo aos Estados Unidos, nos meses de janeiro e fevereiro de 1965. Foi uma viagem de grandes proporções, com cerca de cinquenta dias de duração, 36 apresentações e passagem por 47 cidades norte-americanas.

Não se tratava apenas de uma turnê destinada a divulgar o trabalho de um coro. O Madrigal viajava como representante de uma determinada imagem do Brasil: um país que, em plena Guerra Fria e poucos meses depois do golpe civil-militar de 1964, desejava apresentar-se internacionalmente como moderno, culto e capaz de produzir arte de alto nível. A excursão integrava o circuito dos Community Concerts, uma estrutura que levava artistas e conjuntos de diferentes países a universidades, auditórios e pequenas cidades espalhadas pelo território norte-americano. Em alguns desses espaços, o Madrigal apareceu na mesma temporada de nomes como Arthur Rubinstein, a Filarmônica de Berlim, a Filarmônica Tcheca e outros artistas de circulação internacional.

A viagem foi, portanto, artística e diplomática ao mesmo tempo. No palco, estavam a sonoridade cuidadosamente construída pelo coro, o rigor de Isaac Karabtchevsky, a presença de Maria Lúcia Godoy, o repertório brasileiro e europeu e uma disciplina de trabalho que impressionou críticos estrangeiros. Fora dele, havia recepções oficiais, contatos com diplomatas, encontros com comunidades locais e uma constante expectativa de que aqueles jovens mineiros personificassem, diante do público, algo reconhecível como cultura brasileira. O sucesso da excursão contribuiu decisivamente para consolidar a imagem do Madrigal como o “Coro do Brasil”.

Essa consagração, porém, não deve ser contada apenas como uma sequência de vitórias. O capítulo do livro dedicado a 1965 é longo justamente porque a experiência foi muito mais complexa. Os integrantes do Madrigal conciliavam ensaios e viagens com profissões, estudos e compromissos pessoais, quase sempre sem remuneração compatível com o prestígio alcançado. A distância entre os aplausos recebidos e as condições concretas de sustentação do grupo acompanha toda a excursão: o coro era celebrado internacionalmente, mas continuava dependendo do idealismo, do esforço e da resistência física de seus cantores.

Os relatos preservados também revelam uma viagem de descobertas. Os cantores atravessaram estradas interestaduais, hospedaram-se em motéis que ainda pareciam novidade para muitos brasileiros, conheceram supermercados, universidades, museus e grandes centros urbanos. Encontraram uma sociedade fascinante pela modernização tecnológica e pela abundância, mas atravessada por desigualdades, tensões raciais e contradições políticas profundas. A turnê permitiu que o Madrigal fosse ouvido pelos Estados Unidos, mas também obrigou seus integrantes a ouvir e observar aquele país para além da imagem luminosa do chamado sonho americano.

Nos próximos posts, acompanharemos essa travessia por diferentes ângulos: a preparação e o sentido diplomático da viagem; o funcionamento dos Community Concerts; a chegada a Miami; os concertos em cidades do interior do país, além de Washington e Nova York; o repertório e sua recepção; a experiência do consumo e da modernidade norte-americana; o encontro com a segregação racial; os dias fora do palco; o encerramento em Key West e a recepção quase triunfal do grupo em Belo Horizonte.

Mais do que reconstruir um itinerário, interessa compreender o que estava em jogo quando um coro brasileiro atravessou os Estados Unidos apresentando-se como expressão musical de um país inteiro. Por quase dois meses, o Madrigal Renascentista cantou carregando uma ideia de Brasil... e voltou transformado pelo país que encontrou.





O sonho americano do MR (IV): De Miami a Washington - o primeiro trecho do sonho americano

O Madrigal Renascentista chegou aos Estados Unidos em 2 de janeiro de 1965. O desembarque em Miami, para aqueles jovens brasileiros, era o e...