No dia 16 de dezembro de 2011, o Coral BDMG cantou trechos de O Messias, de Haendel, na festa de fim de ano do banco.
Dito assim, parece simples: um coral, uma orquestra, uma apresentação institucional. Mas quem já viveu esse tipo de evento sabe que a palavra "simples" quase nunca cabe nessas situações. Havia o peso próprio das ocasiões em que tudo precisa dar certo. Estavam presentes os principais diretores do BDMG e do BDMG Cultural. A festa tinha sua solenidade, sua expectativa, sua carga simbólica, e nós tínhamos um Haendel pela frente.
O Messias não é uma obra qualquer. Mesmo quando se canta apenas uma seleção de números, ela traz consigo uma tradição imensa: brilho, solenidade, energia coral, trechos de profunda delicadeza e uma escrita que exige do coro prontidão permanente. A música parece clara, mas não é fácil. Ela pede articulação, firmeza rítmica, afinação segura e uma relação muito viva com o texto.
O programa reunia alguns dos grandes coros da obra: Behold the Lamb of God, And the Glory of the Lord, For Unto Us a Child Is Born, All We Like Sheep, Lift Up Your Heads e, naturalmente, o Hallelujah. E eu contava com uma formação de cantores e instrumentistas construída com esforço, amizade musical e boa vontade, coisas que aparecem pouco para quem assiste, mas que sustentam tudo. Muitas vezes, a música coral e orquestral acontece porque há pessoas dispostas a fazer mais do que o estritamente necessário. Naquele dia, havia até a tensão de bastidor inevitável: um cantor chegou atrasado, uma musicista machucou o olho e não pôde tocar. Mas a apresentação aconteceu assim mesmo.
E aconteceu muito bem.
Uso essa expressão com cuidado, porque ela carrega a sensação do dia. Ali, não era apenas cantar bem, mas era representar o Coral BDMG diante da própria instituição que o sustentava, mostrar que aquele grupo tinha consistência, responsabilidade e qualidade artística. Era fazer com que a música ocupasse um lugar digno dentro da vida do banco. Naquela época, isso era e foi valorizado, o que, infelizmente, não aconteceu anos depois, quando o BDMG Cultural e o próprio coro foram finalizados pela instituição.
Mas, retornando: o Hallelujah, desse Messias, tem sempre uma força própria. Mesmo quem não conhece a obra inteira reconhece a sua peça mais famosa. Mas gosto de pensar que, naquele concerto, o valor não esteve apenas no número mais conhecido, mas no conjunto, na capacidade do coro de atravessar uma obra exigente, num contexto institucional difícil, mantendo qualidade e presença. Ao final, ficou aquela sensação de alívio que todo regente conhece: a de ter atravessado uma ocasião importante sem perder o controle, sem que a música se apequenasse diante da formalidade do evento.
Hoje, olhando para minhas anotações, vejo mais do que nomes e peças. Vejo um retrato de um momento do Coral BDMG, um grupo capaz de reunir cantores, instrumentistas, funcionários e gestores em torno de uma realização comum. Haendel, naquela noite, serviu também para isso: para lembrar que um coro institucional pode ser muito mais do que uma atividade interna. Pode ser presença artística, afirmação cultural e, acima de tudo, uma forma de fazer a comunidade ouvir a si mesma com outra grandeza.