Na etapa final da excursão, o Madrigal Renascentista seguiu em direção ao Sul dos Estados Unidos. Depois de tantas cidades, auditórios, estradas, hotéis e aplausos, o relato de Newton Silva já não tinha o mesmo encantamento das primeiras impressões. O título escolhido por ele dizia muito: “Final do Sonho Americano”. A viagem ainda continuava, mas o sonho começava a mostrar suas rachaduras.
O coro passou por El Dorado, no Arkansas, cidade marcada pelo cheiro de óleo e pelas torres ligadas à indústria do petróleo. Ali, o Madrigal se apresentou no Auditório Municipal e ainda viveu um encontro inesperado com um coro juvenil dedicado à música renascentista. Ali se juntaram jovens americanos e brasileiros cantando juntos um repertório que atravessava séculos e fronteiras. Fora dos grandes centros, longe da solenidade diplomática de Washington e do prestígio cultural de Nova York, a excursão encontrava outra força: o contato direto com comunidades locais.
Em Shreveport, na Luisiana, a paisagem trouxe outros contrastes. No hotel, estrelas e chapéus de xerifes tomavam o lobby por causa de uma convenção policial. Na cidade, o novo Auditório Municipal impressionava pela arquitetura moderna, em cristal e mármore. Newton se espantava com o investimento feito em equipamentos culturais mesmo em cidades médias. Para quem vinha do Brasil, era difícil não comparar. Nos Estados Unidos, a cultura parecia exigir edifícios preparados, estrutura, conforto, dinheiro público ou comunitário. No Brasil, tantas vezes, a música precisava se adaptar ao que havia.
Mas o Sul também expôs a face mais tensa da sociedade americana. Arkansas, Louisiana e Mississippi colocaram o Madrigal diante de uma realidade atravessada pela segregação racial, ainda muito presente nos espaços urbanos, nos hotéis, nos restaurantes, nas moradias e nas relações sociais. As estradas impecáveis, os auditórios modernos e a hospitalidade das plateias conviviam com uma separação brutal entre brancos e negros. O sonho americano, visto dali, já não parecia tão inteiro.
Newton percebeu essa contradição. De um lado, registrou sinais de mudança: negros bem-vestidos circulando pelas ruas, fazendo compras, dirigindo carros novos. De outro, via bairros separados, pobreza concentrada, orgulho sulista, símbolos confederados e resistências profundas ao avanço dos direitos civis. A década de 1960 ardia em disputas raciais e políticas, e o Madrigal atravessava esse território como visitante, mas não como alguém completamente imune ao que via.
Esse talvez seja o ponto mais forte desse trecho da viagem. O coro brasileiro entrava em cidades que investiam em cultura, recebiam artistas estrangeiros, mantinham associações musicais e enchiam auditórios. Ao mesmo tempo, essas mesmas cidades revelavam desigualdades duras, tensões raciais e uma violência histórica ainda mal resolvida. A América que havia impressionado pelos supermercados, estradas, carros e museus agora mostrava o lado que a propaganda não conseguia esconder.
Depois de Jackson e State College, a viagem se encaminhou para Key West, no extremo sul da Flórida. Ali, o reencontro com o sol e o mar encerrava simbolicamente o percurso iniciado em Miami. O concerto final teve, segundo Newton, a emoção da despedida. Depois de quase cinquenta dias, o Madrigal terminava sua travessia entre o frio do norte, o brilho de Nova York, a solenidade de Washington, o interior profundo e o Sul marcado por conflitos.
O “sonho americano” não acabava exatamente como decepção. Acabava como experiência mais complexa. Os Estados Unidos continuavam fascinantes, ricos, organizados e poderosos. Mas já não eram apenas a imagem limpa das estradas, dos hotéis e dos auditórios. Eram também desigualdade, segregação, medo, tensão política e disputa social.
O Madrigal voltou ao Brasil com aplausos e reconhecimento. Mas trouxe também um olhar: a descoberta de que a América admirada de longe era muito maior, mais forte e mais contraditória quando vista de dentro de um ônibus, cidade após cidade, concerto após concerto.