No final do Internacional Pop Rock 2, fiz os agradecimentos de costume. Falei de quem havia preparado partituras, cuidado do som, pensado a iluminação, trabalhado na divulgação, no figurino, na organização. Para o público, era o final de um concerto. Para mim, enquanto dizia aqueles nomes, aparecia outra imagem: quanta coisa já havia acontecido antes de eu levantar os braços para o primeiro acorde.
Quem vê um coro no palco talvez não imagine a quantidade de trabalho que existe para que aquelas pessoas possam simplesmente entrar, se posicionar e cantar. E isso é particularmente verdadeiro no universo dos coros amadores. A maioria deles não dispõe de uma estrutura profissional para cuidar de tudo o que acontece em torno da música. Há o maestro e os cantores, talvez um pianista ou preparador vocal, dependendo do grupo. Mas quem prepara o material? Quem organiza as partituras? Quem conversa sobre o teatro? Quem cuida da divulgação? Do figurino? Do som? Da luz? Quem resolve as dezenas de pequenas coisas que aparecem durante a preparação de um concerto?
Em algum momento, alguém precisa fazer. No Madrigale, fui aprendendo a reconhecer habilidades que muitas vezes não têm qualquer relação direta com o canto. Há quem tenha a paciência e a curiosidade de um copista nato e consiga passar horas diante de uma partitura preparando o material que todos usarão. Há quem tenha uma enorme capacidade de organização e ajude a manter funcionando a administração do coro. Outros entendem de som, de redes sociais, de comunicação, de figurino. Alguém começa a imaginar as cores do palco e percebe que a iluminação também faz parte daquilo que queremos dizer.
Bem, antes de mais nada, são cantores e essa é a parte que mais me interessa. Eles não chegaram ao Madrigale para fazer nenhuma dessas coisas. Chegaram porque queriam cantar. Mas, com o tempo, outras capacidades vão aparecendo. Eu percebo algumas delas e peço ajuda. Em outros momentos, alguém se oferece. Uma tarefa vai encontrando uma pessoa, outra tarefa encontra outra, e aos poucos se estabelece uma rede que nunca foi inteiramente planejada. Se não fosse assim, eu simplesmente não daria conta.
Usualmente, um maestro de coro amador tem que aprender a fazer um pouco de tudo. Regemos, escolhemos repertório, estudamos as obras e conduzimos ensaios, mas também respondemos mensagens, procuramos partituras, pensamos programas, resolvemos problemas de última hora e fazemos uma quantidade razoável de coisas que nenhum professor de regência se lembrou de ensinar. Quando alguns cantores começam a dividir esse trabalho, portanto, existe primeiro uma razão muito prática. Precisamos deles.
No Internacional 2 isso ficou muito claro. Enquanto eu estava preocupado com a preparação musical, havia alguém trabalhando nas partituras. Outra pessoa acompanhava toda a sonorização do coro, fundamental num concerto com banda amplificada. Havia quem estivesse fazendo o concerto existir nas redes sociais muito antes de o teatro abrir suas portas. O figurino precisava ser pensado e organizado. A iluminação não era apenas acender e apagar refletores: havia uma concepção de cores para aquilo que aconteceria no palco. E, por trás de tudo, alguém precisava acompanhar a organização geral para que todas essas partes conversassem entre si.
É uma divisão de trabalho nascida muito mais da confiança do que de um organograma. Mas acho que existe aí alguma coisa além da necessidade. Claro que parte disso acontece porque não temos dinheiro para contratar profissionais para todas essas funções. Não vejo motivo para romantizar essa realidade. Se houvesse recursos, muitos desses trabalhos poderiam e deveriam ser remunerados. Só que a experiência de tantos anos me fez perceber que, quando um cantor começa também a cuidar do coro, alguma coisa muda em sua relação com o grupo.
A palavra que me ocorre é pertencimento. Ele deixa de participar apenas daquilo que acontece entre o início e o fim do ensaio. Passa a conhecer outras necessidades, outros problemas e outras possibilidades. A partitura que todos recebem não apareceu magicamente. A fotografia que circulou nas redes precisou ser escolhida. O figurino que parece natural no palco foi pensado antes. A luz tem uma intenção. O som exigiu decisões. Alguém esteve envolvido em cada uma dessas coisas. E esse alguém, muitas vezes, estará algum tempo depois no palco, cantando ao lado dos demais.
Gosto dessa imagem porque ela diz alguma coisa sobre o que é um coro para além da música. Um coro é necessariamente coletivo quando canta. Nenhuma novidade nisso. Mas ele pode ser coletivo também na maneira como constrói sua própria existência. Cada pessoa traz uma voz, evidentemente, mas pode trazer também conhecimentos, habilidades, disposição e formas diferentes de cuidar daquele espaço comum.
Na noite do Internacional Pop Rock 2, quando chegou finalmente a hora do concerto, eu não precisava mais pensar em quase nada disso. Olhei para o coro. Levantei os braços para Dream On. O público ouviu o primeiro acorde...
Para muita gente que estava naquele palco, porém, o concerto havia começado muito antes.