Conheci Rafael Grimaldi em 1985, quando iniciei meu curso de piano na Escola de Música da UFMG. Ele era bolsista assistente da professora Cacá Campara na classe de Canto Coral e cursava Regência. No primeiro dia, provavelmente impressionado pela condição de assistente do professor, chamei-o de senhor. Rafael abriu aquele seu sorriso benevolente e tratou imediatamente de impedir qualquer reincidência. Éramos colegas. Não havia senhor algum naquela história.
Guardei essa lembrança durante todos esses anos porque ela contém alguma coisa do Rafael que conheci. Era uma pessoa doce, paciente, quase sempre bem-humorada, mas seria injusto transformar essa doçura em placidez. Seu humor podia ser ferino quando precisava, e ele era um ótimo imitador. Conviver com Rafael significava também estar sujeito a alguma observação precisa sobre pessoas e situações, nem sempre tão inocente quanto o sorriso que a acompanhava.
Sua cultura impressionava. Falava várias línguas e conversava com enorme desenvoltura sobre arquitetura, filosofia, história da música e, naturalmente, música. Não era difícil perceber que seu interesse pelo mundo ultrapassava em muito aquilo que precisava saber para exercer a profissão. Rafael pertencia a um tipo de músico cuja formação se alimentava de muitas outras coisas e isso aparecia também na maneira como trabalhava.
Como regente e ensaiador de coro, era refinado. Tinha competência para preparar repertórios de estilos muito diferentes e, durante muitos anos, esteve ao lado de Carlos Alberto Pinto Fonseca no Ars Nova da UFMG. Na minha percepção, foi seu principal assistente. Carlos Alberto confiava plenamente no trabalho que Rafael realizava durante a preparação das obras; depois vinha o trato final do maestro titular. Quem conhece minimamente o grau de exigência de Carlos Alberto sabe que essa confiança não era pouca coisa.
Rafael acabaria assumindo a direção do próprio Ars Nova. A história oficial do grupo registra sua passagem pela regência depois da aposentadoria de Carlos Alberto, além de uma atuação extensa em outros conjuntos de Belo Horizonte e de Minas Gerais. Regeu, entre outros, o Coral Sesiminas, o Coral dos Correios, o Grupo Cantares, o Coral Juvenal Alves Villela e o Coral BDMG. Sua trajetória pertence, portanto, à história coral mineira de maneira muito mais ampla do que às vezes a pouca documentação hoje disponível permite perceber.
O Coral BDMG acabou criando entre nós uma ligação profissional particularmente importante. Quando Rafael precisou deixar o grupo para assumir o Ars Nova, foi ele quem indicou meu nome para substituí-lo. Sempre fomos amigos, mantendo entre nós um respeito profissional que nunca precisou de grandes declarações. Olhando retrospectivamente, percebo também o significado daquela indicação. Um músico que eu conhecera tantos anos antes, quando eu ainda começava minha formação na Escola de Música, confiava agora a mim a continuidade de um trabalho que havia conduzido.
Rafael morreu em 2008, cedo demais. Quando fui procurar agora informações sobre sua trajetória, encontrei menos do que esperava. Seu nome aparece aqui e ali: na história do Ars Nova, em programas, notícias da UFMG, registros de grupos que regeu. São vestígios suficientes para comprovar uma trajetória, mas insuficientes para guardar uma pessoa. Por isso quis escrever sobre ele.
A memória musical de uma cidade não é feita somente dos nomes que permanecem nos livros, dos compositores que tiveram suas obras catalogadas ou dos intérpretes cujas gravações continuam circulando. Ela também é construída por músicos que ensaiaram coros durante anos, formaram cantores, prepararam repertórios, substituíram colegas, indicaram outros músicos para seus lugares e deixaram sua presença espalhada pela formação de muita gente.
Rafael Grimaldi foi um deles. Para mim, porém, permanece antes de tudo aquele homem extraordinariamente culto e doce que conheci em 1985. O músico refinado, o ensaiador paciente, o amigo bem-humorado e, quando necessário, ferino, que não deixou um estudante recém-chegado chamá-lo de senhor.
Ainda bem.