Nos dois últimos textos, venho tentando compreender por que continuo tão interessado nessa forma particular de fazer música.
Primeiro, pensei no coro como instrumento: várias vozes e várias individualidades que, quando realmente se encontram, produzem uma resultante que nenhuma delas produziria sozinha. Depois, pensei no coro como comunidade: pessoas que constroem juntas pertencimento, memória, compromisso e identidade. Pois, penso que há ainda uma terceira dimensão, mais difícil de explicar: o coro pode ser também uma experiência espiritual.
Uso a palavra espiritual com algum cuidado. Não estou falando necessariamente de religião, embora a religião faça parte da minha vida e grande parte da história da música coral esteja ligada a ela. Penso aqui sobretudo em transcendência: nessa busca permanente por sensibilidade, por crescimento interior e por alguma coisa que nos faça ultrapassar, ainda que por alguns instantes, a experiência cotidiana.
E não preciso estar regendo uma missa, um moteto ou um réquiem para sentir isso. Já aconteceu comigo em repertórios muito diferentes. Poesia e espírito, para mim, caminham juntos. Procurar a essência de uma música, descobrir o que existe por trás das notas e tentar fazer com que aquilo adquira sentido é uma das coisas que continuam me impulsionando como músico.
Às vezes, o corpo percebe antes que consigamos explicar. O arrepio. Já o senti incontáveis vezes ao longo da vida, em ensaios e concertos, com músicas e grupos muito diferentes. São aqueles momentos em que alguma coisa acontece e sabemos que não se tratou apenas de cantar corretamente as notas. E isso não depende do que costumamos chamar de excelência.
Aliás, não gosto muito dessa palavra. Algumas das experiências mais bonitas que vivi aconteceram com coros de alunos iniciantes. Pessoas enfrentando dificuldades técnicas bastante concretas que, num determinado concerto, conseguem superá-las e realizar uma peça de uma maneira que talvez nem elas imaginassem possível.
Há um instante de silêncio depois da última nota. Depois vêm os sorrisos. Conheço bem esses sorrisos. Neles existe a satisfação pelo que foi realizado, mas há alguma coisa a mais: a descoberta de que fomos capazes de chegar juntos a um lugar ao qual talvez não chegássemos sozinhos. Os cantores percebem isso, eu percebo e, muitas vezes, o público também.
Aí está uma forma de transcendência. O regente participa desse processo, mas não como alguém superior ao grupo. Gosto mais de pensar nele como um condutor, no sentido mais literal da palavra. Poderia usar a imagem do bom pastor, embora tenha alguma resistência a ela. Não me interessa a ideia de alguém melhor que conduz um rebanho. Interessa-me outra coisa: aquele que congrega, percebe possibilidades e aponta um caminho. Quando o regente encontra esse caminho e o grupo confia nele, todos podem caminhar juntos.
Mas ninguém pode garantir que o extraordinário aconteça. Podemos ensaiar, preparar, estudar, corrigir, repetir. Podemos criar as condições. E então, algumas vezes, acontece. Nesses momentos, não acho que o indivíduo desapareça dentro do coro. Talvez aconteça justamente o contrário. Ele percebe a si mesmo com maior intensidade porque pertence a alguma coisa maior do que ele.
Fraternidade? Amizade? Coletividade? Humildade? Provavelmente tudo isso e ainda outras coisas para as quais não encontro um nome exato. Talvez seja por isso que, depois de tantos anos, ainda me emocione quando um grupo de pessoas respira junto e começa a cantar. Não sei explicar inteiramente o que acontece ali. E talvez não seja necessário.
Nos últimos três textos, percebo que estive tentando olhar para uma mesma experiência por ângulos diferentes. Primeiro, o coro como instrumento: individualidades que se encontram e produzem uma resultante que nenhuma voz conseguiria produzir sozinha. Depois, o coro como comunidade: o pertencimento, os vínculos, a identidade e a responsabilidade de construir alguma coisa juntos. E, finalmente, o coro como experiência espiritual: aqueles momentos em que esse encontro parece nos levar um pouco além de nós mesmos.
E esse é o percurso: eu canto, nós cantamos, alguma coisa acontece conosco. O indivíduo não desaparece em nenhuma dessas etapas. Ao contrário. Aprende a ouvir, encontra seu lugar no coletivo e, algumas vezes, percebe a si mesmo com ainda maior intensidade justamente porque não está sozinho.
