domingo, 26 de julho de 2026

O sonho americano do MR (VI): o Madrigal diante da América do consumo

Depois de Washington, os relatos da excursão que chegam pelos jornais mudaram de tom. As críticas sobre os concertos continuavam importantes, mas começaram a aparecer com menos frequência. No lugar delas, ganhava espaço os relatos de Newton Silva sobre o país que o coro atravessava. É como se, depois da missão diplomática mais visível na capital americana, o Madrigal passasse a olhar os Estados Unidos com mais calma, pela janela do ônibus, pelos supermercados, pelos motéis, pelas ruas, pelos museus e pelos pequenos hábitos cotidianos.

Naquele momento, o coro aparecia quase como um personagem coletivo. Cantava sempre, mas também observava. E o que via era uma América organizada em torno da propaganda, do consumo e da eficiência. Máquinas automáticas vendiam cigarros, refrigerantes, escovas de dentes e chocolate quente. Portas se abriam sozinhas nos supermercados. O queijo surgia em versões suíça, dinamarquesa, italiana, americana, ralado, em lata, em fatias, inteiro. Para jovens brasileiros dos anos 1960, aquela abundância significa organização e poder.

Cleveland mostrou outra face dessa modernidade. Ruas limpas, parquímetros, placas claras, trânsito ordenado, tudo parecia pensado para funcionar. Mas, na mesma paisagem, apareciam os sinais dos abrigos antirradiação. A cidade organizada carregava também o medo nuclear da Guerra Fria. A América que vendia conforto e eficiência lembrava, discretamente, que vivia sob ameaça.

Detroit aprofundou o choque. A cidade do automóvel mostrava a produção em massa como espetáculo: Impalas, Corvetes, Buicks, Pontiacs, carros novos e usados expostos ao ar livre, ferros-velhos transformados em cemitérios mecânicos. Naquela cidade, o concerto do Madrigal aconteceu no Instituto de Artes, diante de músicos profissionais e instrumentistas sinfônicos. Ali, entre automóveis, frio intenso e coleções de arte, o coro cantou uma de suas noites mais fortes.

Pitucha registrou que o Madrigal conseguiu pianíssimos tão sutis que parecia impossível serem produzidos por vinte e poucas vozes. Mas sua emoção não vinha apenas da qualidade musical. Ela percebia que o grupo estava corrigindo, diante dos americanos, uma imagem deformada do Brasil. Muitos não sabiam que brasileiros falavam português. Alguns perguntavam se eram descendentes de franceses. Para os cantores, cada aplauso ajudava a mostrar que o Brasil não era apenas samba, café e futebol. Era também música de concerto, disciplina, repertório, escuta e trabalho coletivo.

Esse talvez seja o ponto mais interessante dessa etapa. O Madrigal via os Estados Unidos, mas também percebia como o Brasil era visto de fora. O choque não era apenas tecnológico ou urbano, era simbólico. Os supermercados, os carros, os chicletes, as máquinas automáticas e os museus revelavam uma América poderosa e organizada. As perguntas sobre o idioma e os estereótipos sobre o Brasil revelavam, ao mesmo tempo, o tamanho do desconhecimento. A excursão, então, deixou de ser apenas uma sequência de concertos para tornar-se uma travessia cultural. 




sábado, 25 de julho de 2026

O sonho americano do MR (V): Washington e a diplomacia cultural

Newton Silva viu Washington como uma cidade larga, fria, limpa, cheia de monumentos e edifícios públicos. Uma cidade feita para o poder. Havia neve, havia solenidade, havia a proximidade da posse de Lyndon Johnson. E havia também uma tensão natural: o público era exigente, a crítica era dura, e os brasileiros presentes sabiam que uma apresentação ruim não seria apenas uma apresentação ruim. Pesaria sobre o coro e sobre a imagem que se queria mostrar do país.

Até ali, o Madrigal vinha cumprindo a rota dos Community Concerts: cidades menores, universidades, associações locais, auditórios preparados para receber artistas de fora. Na capital, o concerto de 14 de janeiro de 1965, no Lisner Auditorium, tinha o patrocínio da Embaixada do Brasil e a presença do corpo diplomático brasileiro. Ali, o coro não entrou só para cantar, mas com representante oficial do Brasil.

É aí que a diplomacia cultural deixa de ser uma ideia abstrata. Ela acontece quando um país tenta ser visto por meio de seus artistas. Não por discurso oficial, mas por som, presença, disciplina, repertório. Em Washington, o Madrigal mostrava um Brasil que talvez os americanos não esperassem encontrar: um Brasil coral, preparado, jovem, sério, capaz de cantar Victoria, Ravel, Debussy, Villa-Lobos e spirituals com segurança.

Paul Hume, crítico do Washington Post, elogiou a clareza do coro, a precisão dos ataques, a leveza da sonoridade e o trabalho de Karabtchevsky, capaz de tirar daquele grupo um acabamento próximo ao de uma orquestra de câmara. Não era elogio de cortesia. Vindo de quem vinha, em Washington, aquilo valia muito. Isaac diria depois que esse concerto definiu o sucesso do restante da viagem.

Depois veio a feijoada oferecida pelo embaixador Juracy Magalhães. O detalhe parece pequeno, mas não é. Depois de dias de estrada, frio, hambúrgueres, frango, milk-shakes e comida estranha, comer feijoada na Embaixada era quase voltar para casa por algumas horas. A diplomacia também passa por isso. Passa pelo palco, pela crítica, pela televisão, mas passa também pela mesa. Pelo cheiro conhecido. Pela comida que lembra de onde se veio.

Dois dias depois, ainda em Washington, o Madrigal gravou para o programa Panorama Pan-Americano, que seria transmitido por uma rede de emissoras sul-americanas, incluindo a TV Itacolomi. O coro deixava de existir apenas para quem esteve no auditório. Virava imagem, notícia, registro. O “Coro do Brasil” passava a circular também pela televisão.

Washington foi isso: um concerto, mas não só. Foi palco, embaixada, crítica, feijoada, televisão e política cultural misturadas no mesmo episódio. O Madrigal cantou como coro. Mas, naquela noite, foi ouvido como Brasil.



Lisner auditorium (Washington)

sexta-feira, 24 de julho de 2026

O sonho americano do MR (IV): De Miami a Washington - o primeiro trecho do sonho americano

O Madrigal Renascentista chegou aos Estados Unidos em 2 de janeiro de 1965. O desembarque em Miami, para aqueles jovens brasileiros, era o encontro com uma sociedade que parecia anunciar o futuro: aeroportos imensos, corredores ligados diretamente aos aviões, sinalização eficiente, limpeza rigorosa e uma organização que eliminava gestos desnecessários. Newton Silva, cantor e jornalista que registrou a excursão em crônicas para o Estado de Minas, observava tudo com olhos atentos. 

De Miami, o grupo seguiu cerca de 370 quilômetros até Sarasota, onde faria o primeiro concerto da excursão. As estradas largas, os automóveis, os trailers, os radares e os motéis chamaram atenção. O motel, ainda novidade para muitos brasileiros, aparecia ali como parte da civilização do automóvel: quartos padronizados, estacionamento próximo, restaurante, calefação, televisão, telefone, água quente, fria e gelada. Um outro modo de organizar a vida cotidiana.

Em Sarasota, a curiosidade mudou de lado. Agora eram os norte-americanos que observavam aquele coro vindo do Brasil. Pitucha Godoy registrou uma plateia inicialmente desinteressada, que aos poucos foi sendo conquistada pela presença do grupo, pelos uniformes vermelhos e pretos, pela entrada organizada e, principalmente, pela música. Ao final, o público estava de pé, aplaudindo calorosamente. A primeira prova havia sido vencida.

Depois vieram Savannah, Winston-Salem, Asheboro, Albemarle, Raleigh e Harrisonburg. O ônibus avançava pelo Sul e pelo interior dos Estados Unidos, levando cantores, malas, partituras, frio, cansaço e expectativa. Em Winston-Salem, uma jornalista observou o ensaio e se surpreendeu com o modo brasileiro de trabalhar: muita conversa entre uma execução e outra, piadas, discussões, informalidade, mas também concentração musical. Isaac Karabtchevsky aparecia como figura ambígua: brincava, caminhava pela sala, apoiava o pé em uma cadeira, mas também exigia com firmeza o que queria do coro.

Nas cidades menores, o público começou a revelar suas preferências: Debussy, Brahms e Ravel eram recebidos com respeito, mas os aplausos mais calorosos vinham para Villa-Lobos, para as canções brasileiras mais diretas e para os spirituals norte-americanos. O Madrigal entendia, aos poucos, que era preciso medir a escuta de cada plateia, perceber onde a comunicação se abria e como o repertório podia funcionar como ponte entre culturas.

Em Raleigh, o grupo cantou para plateias numerosas no Reynolds Coliseum, dentro de uma temporada que recebia artistas e conjuntos de grande projeção internacional. Ali, o Coro do Brasil não aparecia como curiosidade periférica, mas como parte de um circuito artístico respeitável. A crítica destacou o controle do coro, a precisão da dinâmica, a clareza das vogais e consoantes, a variedade de idiomas e a regência sóbria de Karabtchevsky. O Madrigal começava a mostrar que sua presença nos Estados Unidos não era favor diplomático nem exotismo passageiro.

Em Harrisonburg, a recepção ganhou outro tom. A crítica falou em alegria e comparou o grupo à família von Trapp, destacando irmãos, casamentos e a convivência interna do coro. Era uma leitura simpática, mas também reveladora do olhar estrangeiro, que via no Madrigal uma espécie de família musical brasileira: jovem, unida, disciplinada e calorosa. O repertório mais vivo, especialmente os spirituals e as canções de comunicação direta, voltava a incendiar a plateia.

Esse primeiro percurso, de Miami a Harrisonburg, já continha quase tudo que marcaria a excursão: o choque com a modernidade americana, o cansaço do ônibus, a disciplina do palco, o olhar curioso dos críticos, a força simbólica do nome e a necessidade de provar valor a cada cidade. O Madrigal observava os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, era observado por eles.

Depois de Harrisonburg, o grupo seguiu para Washington. A chegada à capital americana mudaria o peso da viagem. Até ali, o coro havia conquistado plateias e críticas importantes. Em Washington, enfrentaria algo maior: o corpo diplomático brasileiro, uma crítica severa e um palco em que música e representação nacional se encontrariam de maneira decisiva.


Wait Chapel na Wake Forest University, Winston-Salem (foto domínio público)


Edival Trindade ao lado de Maria Lúcia Godoy em um ensaio do Madrigal (Fonte: Acervo do Madrigal Renascentista)


quinta-feira, 23 de julho de 2026

O sonho americano do MR (III): O percurso e os cantores da excursão

Antes de seguir com os episódios da excursão do Madrigal Renascentista aos Estados Unidos, vale parar um pouco diante do percurso completo. A lista abaixo, na minha opinião, não é apenas um roteiro de viagem, mas é quase um mapa do esforço físico e artístico que aqueles cantores enfrentaram em 1965.

Foram cerca de cinquenta dias atravessando os Estados Unidos de ônibus, em pleno inverno, com neve, frio intenso, mudanças constantes de cidade, poucas pausas reais e uma sucessão impressionante de concertos. Em alguns momentos, o grupo cantava várias noites seguidas. Em outros, passava o dia na estrada para chegar a tempo da próxima apresentação. Havia pernoites rápidos, malas, alimentação improvisada, ensaios possíveis, auditórios diferentes, públicos desconhecidos e a responsabilidade permanente de se apresentar como Coro do Brasil.

Visto assim, em tabela, o percurso parece organizado e até simples. Mas por trás de cada linha havia corpos cansados, vozes que precisavam responder, roupas de concerto, deslocamentos longos, adaptação ao frio e a tensão de representar o país em um circuito exigente. Por isso, junto ao itinerário, faço questão de registrar também os nomes dos cantores que viajaram. A história de uma excursão como essa não pertence apenas ao maestro, às críticas ou às cidades visitadas. Pertence a cada voz que entrou naquele ônibus, subiu naqueles palcos e sustentou, noite após noite, a imagem sonora do Madrigal Renascentista nos Estados Unidos.

Data

Cidade/Estado

Atividade

2 jan

Miami, Flórida

Chegada

3 jan

Viagem para Sarasota

Viagem

4 jan

Sarasota

Concerto

5 jan

Savannah, Geórgia

Viagem e pernoite

6 jan

Winston-Salem, Carolina do Norte

Viagem e pernoite

7 jan

Winston-Salem, Carolina do Norte

Concerto

8 jan

Asheboro, Carolina do Norte

Concerto

9 jan

Albemarle, Carolina do Norte

Concerto

10 jan

Raleigh, Carolina do Norte

Concerto

11 jan

Raleigh, Carolina do Norte

Concerto

12 jan

Raleigh, Carolina do Norte

Concerto

13 jan

Harrisonburg, Virgínia

Concerto

14 jan

Washington D.C.

Concerto

15 jan

Washington D.C.

Dia de folga

16 jan

Mt. Holly, New Jersey

Concerto

17 jan

Towson, Maryland

Concerto

18 jan

Cleveland, Ohio

Pernoite

19 jan

Detroit, Michigan

Concerto

20 jan

East Lansing, Michigan

Concerto

21 jan

Pittsburgh, Pensilvânia

Pernoite

22 jan

Danville, Pensilvânia

Concerto

23 jan

Bethlehem, Pensilvânia

Concerto

24 jan

Nova York, New York (Town Hall)

Concerto

25 jan

Kingston, Rhode Island

Concerto

26 jan

Augusta, Maine

Concerto

27 jan

Portsmouth, New Hampshire

Concerto

28 jan

Laconia, New Hampshire

Concerto

29 jan

Nova York, New York

Viagem e pernoite

30 jan

Peekskill, New York

Concerto

31 jan

Nova York, New York

Folga / TV

1 fev

Chambersburg, Pensilvânia

Concerto

2 fev

Springfield, Ohio

Pernoite

3 fev

Vincennes, Indiana

Concerto

4 fev

Goshen, Indiana

Concerto

5 fev

Appleton, Wisconsin

Concerto

6 fev

Decorah, Iowa

Concerto

7 fev

Decorah, Iowa

Dia de folga

8 fev

Mt. Pleasant, Iowa

Concerto

9 fev

Keokuk, Iowa

Concerto

10 fev

Atchison, Kansas

Concerto

11 fev

Hannibal, Missouri

Concerto

12 fev

Bolivar, Missouri

Concerto

13 fev

Springfield, Missouri

Concerto

14 fev

Little Rock, Arkansas

Pernoite

15 fev

El Dorado, Arkansas

Concerto

16 fev

Shreveport, Luisiana

Concerto

17 fev

Jackson, Mississippi

Concerto

18 fev

State College, Mississippi

Concerto

19 fev

Tallahassee, Flórida

Pernoite

20 fev

Fort Myers, Flórida

Pernoite

21 fev

Key West, Flórida

Pernoite

22 fev

Key West, Flórida

Concerto

23 fev

Miami, Flórida

Retorno

24 fev

Rio de Janeiro

Volta ao Brasil


E aqui o registro dos cantores que viajaram:

Sopranos: Marlene Soares Caldeira, Hilda Fonseca, Waldemira Oliveira (Mira), Rita Ivani Garcia, Zinda Oliveira Santos, Efigênia Lacerda

Contraltos: Rosa Alice Godoy (Pitucha), Maria Lúcia Godoy, Anna Maria Godoy, Alba Lacerda, Yara Tereza Geolás

Tenores: Décio Bracher, João Bosco de Souza Rocha, Newton Silva, Nélio de Araújo Abreu, Cláudio Ribeiro de Castro

Baixos: José Cornélio, Simão Fabiano de Lacerda, Félix Geraldo Lima, Celiodivo Dias


O sonho americano do MR (VI): o Madrigal diante da América do consumo

Depois de Washington, os relatos da excursão que chegam pelos jornais mudaram de tom. As críticas sobre os concertos continuavam importantes...