O Madrigal Renascentista chegou aos Estados Unidos em 2 de janeiro de 1965. O desembarque em Miami, para aqueles jovens brasileiros, era o encontro com uma sociedade que parecia anunciar o futuro: aeroportos imensos, corredores ligados diretamente aos aviões, sinalização eficiente, limpeza rigorosa e uma organização que eliminava gestos desnecessários. Newton Silva, cantor e jornalista que registrou a excursão em crônicas para o Estado de Minas, observava tudo com olhos atentos.
De Miami, o grupo seguiu cerca de 370 quilômetros até Sarasota, onde faria o primeiro concerto da excursão. As estradas largas, os automóveis, os trailers, os radares e os motéis chamaram atenção. O motel, ainda novidade para muitos brasileiros, aparecia ali como parte da civilização do automóvel: quartos padronizados, estacionamento próximo, restaurante, calefação, televisão, telefone, água quente, fria e gelada. Um outro modo de organizar a vida cotidiana.
Em Sarasota, a curiosidade mudou de lado. Agora eram os norte-americanos que observavam aquele coro vindo do Brasil. Pitucha Godoy registrou uma plateia inicialmente desinteressada, que aos poucos foi sendo conquistada pela presença do grupo, pelos uniformes vermelhos e pretos, pela entrada organizada e, principalmente, pela música. Ao final, o público estava de pé, aplaudindo calorosamente. A primeira prova havia sido vencida.
Depois vieram Savannah, Winston-Salem, Asheboro, Albemarle, Raleigh e Harrisonburg. O ônibus avançava pelo Sul e pelo interior dos Estados Unidos, levando cantores, malas, partituras, frio, cansaço e expectativa. Em Winston-Salem, uma jornalista observou o ensaio e se surpreendeu com o modo brasileiro de trabalhar: muita conversa entre uma execução e outra, piadas, discussões, informalidade, mas também concentração musical. Isaac Karabtchevsky aparecia como figura ambígua: brincava, caminhava pela sala, apoiava o pé em uma cadeira, mas também exigia com firmeza o que queria do coro.
Nas cidades menores, o público começou a revelar suas preferências: Debussy, Brahms e Ravel eram recebidos com respeito, mas os aplausos mais calorosos vinham para Villa-Lobos, para as canções brasileiras mais diretas e para os spirituals norte-americanos. O Madrigal entendia, aos poucos, que era preciso medir a escuta de cada plateia, perceber onde a comunicação se abria e como o repertório podia funcionar como ponte entre culturas.
Em Raleigh, o grupo cantou para plateias numerosas no Reynolds Coliseum, dentro de uma temporada que recebia artistas e conjuntos de grande projeção internacional. Ali, o Coro do Brasil não aparecia como curiosidade periférica, mas como parte de um circuito artístico respeitável. A crítica destacou o controle do coro, a precisão da dinâmica, a clareza das vogais e consoantes, a variedade de idiomas e a regência sóbria de Karabtchevsky. O Madrigal começava a mostrar que sua presença nos Estados Unidos não era favor diplomático nem exotismo passageiro.
Em Harrisonburg, a recepção ganhou outro tom. A crítica falou em alegria e comparou o grupo à família von Trapp, destacando irmãos, casamentos e a convivência interna do coro. Era uma leitura simpática, mas também reveladora do olhar estrangeiro, que via no Madrigal uma espécie de família musical brasileira: jovem, unida, disciplinada e calorosa. O repertório mais vivo, especialmente os spirituals e as canções de comunicação direta, voltava a incendiar a plateia.
Esse primeiro percurso, de Miami a Harrisonburg, já continha quase tudo que marcaria a excursão: o choque com a modernidade americana, o cansaço do ônibus, a disciplina do palco, o olhar curioso dos críticos, a força simbólica do nome e a necessidade de provar valor a cada cidade. O Madrigal observava os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, era observado por eles.
Depois de Harrisonburg, o grupo seguiu para Washington. A chegada à capital americana mudaria o peso da viagem. Até ali, o coro havia conquistado plateias e críticas importantes. Em Washington, enfrentaria algo maior: o corpo diplomático brasileiro, uma crítica severa e um palco em que música e representação nacional se encontrariam de maneira decisiva.
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Chapel na Wake Forest University, Winston-Salem (foto domínio público)
Edival Trindade ao lado de Maria Lúcia Godoy em um ensaio
do Madrigal (Fonte: Acervo do Madrigal Renascentista)