quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

15 de janeiro (Dia Mundial do Compositor)

Hoje é o dia mundial do compositor. E não deixa de ser curioso que se reserve um dia específico para quem passa a vida inteira lidando com algo que nunca se resolve completamente: a criação.

Ser compositor é aceitar uma condição ingrata. É ser responsável por um número imenso de filhos, muitas vezes, sem pai reconhecido. Filhos que circulam pelo mundo, às vezes crescem, às vezes são esquecidos, às vezes fazem sucesso sem que ninguém se pergunte de onde vieram. E, para completar, o compositor ainda precisa disputar atenção com uma multidão de pessoas que, no nosso tempo, também se dizem compositores, ainda que confundam criação com arranjo ocasional, com repetição bem-sucedida ou com simples coincidência sonora.

Há algo difícil de explicar a quem não vive isso de dentro: a maior parte do que se faz hoje já foi pensada, testada e transformada muitas vezes ao longo dos séculos. Isso não invalida a criação contemporânea, mas exige consciência histórica. Criar não é inaugurar o mundo todos os dias. É dialogar com ele.

Vivemos um tempo em que a palavra cantada muitas vezes se sobrepõe à música. Canções pobres do ponto de vista musical tornam-se grandes sucessos porque o texto “funciona”, porque a imagem é sedutora, porque há um vídeo, uma coreografia, uma narrativa pronta para consumo. Se o texto fosse apenas lido, talvez não sobrevivesse. Se a música fosse apenas ouvida, talvez não se sustentasse. Mas o pacote funciona, e isso basta. Felizmente, a boa qualidade ainda se mantém e cabe a nós escolhermos bem o que consumimos nesse mundo do capital.

Também não faço apologia ao outro extremo: o do compositor que acredita que complexidade é sinônimo de profundidade. Aquele que escreve para provar algo, para exibir técnica, para alimentar o próprio ego. Quiálteras, mudanças de compasso, estruturas intrincadas que não comunicam nada além do esforço de parecer original. Esquece-se, às vezes, que criação também é gesto de oferta. Que a música, mesmo quando desafia, precisa dizer alguma coisa a alguém.

Ainda assim, e talvez justamente por isso, hoje é dia de homenagem.

Homenagem a todos os que insistem em criar. Aos que acertam muito, aos que acertam pouco, aos que ainda procuram. Porque a essência da criação é o que movimenta o mundo. É ela que impede o tempo de se tornar apenas repetição.

Que cada um ouça o compositor que lhe fala mais de perto. Eu, daqui, ouço a minha compositora preferida e do coração, que fez essa linda música, hit dos casamentos pelo Brasil a fora, mas ninguém sabe que a composição é dela. 

 

🎵 Nossos Planos (Lívia Itaborahy)

 


 


quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O Oriens - Jamie Brown

No ano de 2008, tivemos, entre nossos cantores, um britânico chamado Jamie Brown. O Zeb, como era conhecido por nós, era um jovem compositor que, naquela ocasião, buscava experiências em nossa terra. Veio ao Brasil para ficar com amigos e acabou permanecendo por cerca de um ano. Nos conhecemos por acaso e ele quis cantar no coro, no naipe dos baixos.

Quando estávamos preparando nosso concerto de música sacra, ele me apresentou uma peça sua, escrita em 2007: O Oriens. A obra foi imediatamente inserida no programa.

O Oriens tem uma característica especial: é escrita para várias vozes femininas, com duas solistas separadas do coro. A catedral possui dois púlpitos no altar, o que proporcionava as condições exatas para a ideia original da peça. Assim, o coro ficou disposto na escadaria defronte ao altar, enquanto as duas solistas (Clara Guzella e Márcia Maria Reis Teixeira) ocuparam os púlpitos, uma de cada lado.

Destaco a qualidade da escrita de Brown. Diferente de muitos compositores contemporâneos que não se preocupam propriamente com a escrita coral, mas com a demonstração de técnicas composicionais, ele demonstra conhecimento claro dos processos do coro. As vozes são bem divididas, escritas de forma a explorar as capacidades de cada naipe, sem dificuldades mirabolantes de afinação.

À época, Jamie já tinha uma formação sólida no Reino Unido e um interesse evidente pela relação entre música, texto e narrativa. Isso aparece com clareza nesta obra que é pensada para o espaço, para as vozes e para o gesto musical coletivo.

Foi um desses encontros felizes. Um compositor que cantava no coro e cuja interpretação musical nasceu naturalmente desse convívio.

 

🎬 O Oriens - Brown

 

 

Homem com a boca aberta

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 Jamie Brown (Zeb)

 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Ave Maria dos Andores (Madrigale na pandemia)

 Ave Maria dos Andores foi mais um dos coros virtuais produzidos durante a pandemia. O vídeo integrou originalmente o Concerto de Natal do Coro Madrigale, apresentado em live no YouTube em 22 de dezembro de 2020. Em janeiro de 2021, optamos por reapresentá-lo de forma independente, não como repetição, mas como um agradecimento a quem nos acompanhou ao longo daquele tempo difícil e como um desejo simples: que 2021 trouxesse luz.

Para essa produção, Fernanda Valadares se deslocou até Ouro Preto. As imagens feitas ali deram frescor e vida ao vídeo. As ruas, os andores, o ritmo do caminhar... tudo dialogava com a música sem excesso, com naturalidade. A cidade e os movimentos não ilustravam; respiravam junto.

A interpretação de Fernanda conduzia a peça com sobriedade e presença. Ao seu redor, em algum lugar, os naipes femininos do Madrigale sustentavam o tecido vocal com delicadeza e escuta mútua, enquanto o acompanhamento de Hely Drummond oferecia chão e movimento. Nada grandioso, mas necessário.

Naquele tempo, cantar Ave Maria dos Andores foi também aceitar a lentidão. Aceitar que o sagrado podia se manifestar no deslocamento curto, no gesto contido, na repetição que acalmava. O vídeo não tentava substituir o encontro presencial. Assumia, com clareza, que um caminho ainda era possível, desde que feito com cuidado.

E lembrá-lo hoje continua sendo um gesto de permanência. Um modo de dizer que atravessamos um tempo prolongado de recolhimento, sustentados pela fé na vida, e de reafirmar que a música segue sendo lugar de encontro, mesmo quando mediado por telas.

 

Coro Madrigale - Ave Maria (dos Andores)

 

Mulher com lenço na cabeça

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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O coro como microcomunidade (uma reflexão)

Fala-se muito de coro a partir do resultado (concertos, repertório, qualidade sonora) e pouco do coro como lugar de convivência. Ao longo dos anos, regendo diferentes grupos, fui percebendo que o que sustenta um coro nem sempre aparece no palco, porque antes do som, há relações; antes da afinação, há acordos. Pensar o coro como microcomunidade é tentar nomear esse território invisível, feito de fragilidades, pactos e silêncios, e é a partir daí que tudo começa.

Antes da ideia de cantar, antes mesmo da ideia de cantor, existe uma pessoa. Pessoas diferentes, com histórias, fragilidades e desejos distintos, que em algum momento da vida decidem cantar num coletivo. As motivações raramente são puramente musicais. Pode ser o som, mas pode ser o pertencimento; pode ser a vontade de escutar melhor, a si e ao outro; pode ser a busca por alguma ordem possível na vida. O coro acolhe tudo isso. Ele permite mistura e também algum grau de escondimento. Por isso nunca é totalmente claro se alguém chega a um coro pelo canto ou pela necessidade de estar junto. Talvez o coro comece, de fato, antes do som.

Com a entrada no coro, surgem os pactos. Promessas explícitas ou implícitas: pontualidade, dedicação, lealdade, silêncio, autonomia, compromisso com o coletivo. Esses pactos podem vir do regente, do grupo, da tradição ou até de um estatuto. Pela experiência, penso que a quebra desses pactos costuma ser consciente, não por má-fé, e, no fim, quem precisa reconhecer essa quebra é o regente. Talvez o maior conflito coral aconteça quando as regras continuam existindo, mas o sentido delas se perde.

É aí que o coro se revela um lugar curioso. Ninguém está completamente exposto, mas ninguém está completamente protegido. Dependendo do grupo, um cantor inexperiente pode ser acolhido, acompanhado, quase apadrinhado. Em outros contextos, pode ser cobrado desde o primeiro ensaio, em nome da tão invocada excelência, palavra que hoje precisa ser sempre interrogada. Excelência segundo quem? Segundo quais critérios? 

Essa pergunta leva a outra, ainda mais delicada: o que é mais frágil num coro: a afinação técnica ou o sentimento de pertencimento? Pela vivência, quase sempre é o segundo. A harmonia de um coro nem sempre se estabelece apenas pela afinação das notas, mas pela afinação das relações. O coro ensina a errar em público. Nem sempre de forma confortável. O grupo pode sustentar quem erra (e deveria fazê-lo), mas nem todo coro suporta a imperfeição humana que a música revela. Idealmente, deveria, mas, na prática, muitas vezes não suporta. A permanência ou a saída de cantores costuma estar ligada a isso: idade, cansaço, mudança de voz, desgaste com os processos, perda de sentido.

Por isso, nem tudo num coro se resolve cantando. Há coisas que não são ditas, embora todos saibam. Há conflitos que se dissolvem momentaneamente pela entrega musical, pelo concerto, pela sensação de dever cumprido em nome do coletivo. Mas há também silêncios que são pura omissão; há silêncios que mantêm a música de pé, mas derrubam pessoas; e há silêncios que sustentam a instituição. Distinguir uns dos outros talvez seja uma das tarefas mais difíceis da vida coral.

Nesse organismo, o regente nunca é neutro. Ele é mediador, autoridade, escudo e espelho. Quando protege o grupo, muitas vezes se coloca para sustentá-lo. No curto prazo, isso funciona. No longo prazo, cobra seu preço. Reger é também regular tensões. Muitas decisões musicais, escolha ou exclusão de repertório, por exemplo, são tomadas para evitar conflitos humanos. Toda decisão musical é, em algum grau, uma decisão política dentro da microcomunidade.

Talvez por isso o coro seja algo deslocado do tempo em que vivemos. A vida contemporânea premia o indivíduo, o coro insiste no coletivo. Sempre tive como princípio não permitir que um coro fosse apenas lazer. A formação, ainda que somente técnica, é necessária. Faz parte do papel do regente não deixar que um grupo acredite ser mais do que é, mas também não permitir que ele se acomode aquém do que pode ser. O crescimento precisa ser constante e consciente.

Para mim, um coro não é, e nunca foi, utopia. É exercício permanente de negociação. E talvez por isso ele seja tão valioso.

Ficam, para mim, duas perguntas abertas: o coro existe para fazer música ou a música existe para sustentar o coro? E, o que mantém um coro de pé quando já não há concerto marcado?

Essas respostas nunca são definitivas. Mas é nelas que a vida coral se sustenta...




domingo, 11 de janeiro de 2026

Coral Acesita: um coro que também me formou

Cheguei ao Coral Acesita em 1992. Fui para lá a convite do Luciano Lima, substituindo Cristina Grossi, uma colega querida que precisou se afastar porque estava grávida. À época, eu não imaginava que aquele convite abriria um dos períodos mais marcantes da minha formação como regente e como pessoa.

O que posso contar aqui é o percurso que vivi entre 1992 e 2000. Antes e depois disso, há outras histórias, outros olhares. Mas esse recorte é meu e é nele que a memória se organiza.

O Coral Acesita não era apenas um coro ligado a uma empresa. Era um espaço de convivência intensa, de trabalho sério e, sobretudo, de pertencimento. Havia ali uma turma sensacional, gente comprometida, generosa, curiosa, disposta a aprender e a se arriscar junto. Ensaiar aquela turma não era apenas cumprir uma agenda: era estar junto deles em muitos sentidos.

Foram anos de muito fazer, de repertório construído com cuidado, de viagens, apresentações, encontros, de erros e acertos e de amadurecimento mútuo. Ali eu aprendi, na prática, que um coro se constrói tanto pelo som que produz quanto pelos vínculos que sustenta. Para todos eles, representar a Cia Acesita era mostrar pra quem quisesse o que era ser daquele lugar. De Timóteo.

O Acesita me ensinou algo fundamental: regência não é apenas condução musical: é escuta cotidiana, é leitura de grupo, é saber quando avançar e quando segurar, é entender que cada coro tem um tempo próprio, e que respeitar esse tempo não é fraqueza, é inteligência. Para além, éramos amigos e nos "divertíamos" muito sendo uma turma que crescia a cada dia para ser tornar um ótimo grupo.

Quando deixei o grupo, em 2000, saí diferente de como havia chegado. Não apenas mais experiente, mas mais consciente do tipo de músico e de regente que eu queria ser. Alguns aprendizados só acontecem assim: no convívio prolongado, no trabalho contínuo, na confiança construída ao longo dos anos.

Este texto é o começo dessa lembrança. Outras histórias virão. Outros nomes, outros momentos, outros repertórios. Mas o Coral Acesita ocupa um lugar muito claro na minha trajetória: foi um tempo de formação profunda, vivido com pessoas que fizeram daquele coro muito mais do que um projeto musical.

Foi um lugar de vida.

 

Grupo de pessoas posando para foto

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sábado, 10 de janeiro de 2026

Um jovem regente e um retrato coral de Minas em 1984

Este blog traz muito da minha história. Isso é importante para mim porque cria um arquivo de memórias e documentos que posso revisitar no futuro. Além disso, me permite observar, com alguma distância, o movimento coral de Belo Horizonte ao longo dos anos, um movimento do qual passei a fazer parte a partir de um certo momento.

Revirando alguns papéis, encontrei este documento. O ano era 1984. Eu tinha 17 anos e regia um coro no 3º Encontro de Corais Infantis e Infanto-Juvenis de Minas Gerais, realizado em outubro daquele ano, no Auditório do Colégio Santo Agostinho, em Belo Horizonte. O programa, por si só, é daqueles registros que dizem muito mais do que aparentam à primeira vista.

O evento, promovido pela Federação Mineira de Conjuntos Corais, revela um movimento coral regional vivo, articulado e ambicioso. Havia forte presença de coros infantis e juvenis, repertório diverso e uma rede de regentes que formava, ao mesmo tempo, músicos e público. Não se tratava apenas de reunir crianças cantando. Havia projeto, repertório pensado e a compreensão de que coro infantil não é sinônimo de música simples.

O programa impressiona ainda hoje pela variedade: música antiga, polifonia renascentista, cânones internacionais, folclore brasileiro e estrangeiro, música popular brasileira, spirituals, arranjos contemporâneos. Um mosaico amplo, tratado com seriedade artística.

É nesse contexto que aparece um jovem regente, ainda no início do percurso, já inserido num movimento coral regional consistente e, sobretudo, atrevido no repertório. À frente do Coral Dom Silvério, eu já regia renascenças (que atrevimento!!!) como Super Flumina Babylonis, de Palestrina, e Teresica Hermana, de um compositor anônimo, além do arranjo de Carlos Alberto Pinto Fonseca sobre Vassourinhas. Um gesto claro: não vim aqui pra brincadeiras corais.

Esse atrevimento não nasceu do nada. Ele se insere num ambiente fértil, povoado por regentes que se tornariam figuras centrais da história coral de Belo Horizonte. Nomes como Maria Amália Martins (Malinha), Edla Lobão Lacerda e Elza do Val Gomes representam uma formação ligada aos principais coros do país. Ernani Maletta, Flávia Campanha, Elba Valéria e Vito Duarte são colegas de longa data na tentativa de dar continuidade ao que os mais antigos nos deixaram. Todos agentes ativos de um mesmo ecossistema musical.

Lembrar daquele encontro reforça uma constatação simples: ninguém se forma sozinho. Um jovem regente se constrói porque existe um campo em funcionamento, com concertos, encontros, repertórios circulando, ideias sendo testadas. O atrevimento só é possível porque há sustentação coletiva.

Visto hoje, esse evento é o retrato de um momento em que Minas Gerais investia seriamente na formação coral desde a infância, sem medo de repertório, sem paternalismo musical, sem reduzir a arte ao que se supõe “adequado”.

Que bom ter guardado esse "papel". Isso porque há documentos que registram datas, outros registram processos. Este é um deles.





 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Beat It (Internacional Madrigale)

No concerto internacional do Madrigale, Beat It, de Michael Jackson, apareceu como escolha clara de repertório. Ela é uma música marcada por pulso, tensão e atitude. Fala de confronto, de recusa da violência como espetáculo, de afirmação pessoal sem necessidade de força bruta. É uma canção direta, quase física, construída para impactar, e o desafio, no contexto coral, é não diluir essa energia.

Mark Brymer entendeu bem esse ponto ao fazer seu arranjo para coro. Ele não tenta “embelezar” a música nem traduzi-la para um universo coral excessivamente sofisticado. O foco está no ritmo, na clareza do texto, na construção coletiva do groove. O coro funciona como bloco sonoro, sustentando a pulsação e o caráter da obra.

No contexto do concerto internacional, cantar pop em coro não era simplificar, mas mudar o ponto de escuta. Nessa perspectiva, a música deixa de ser individual, deixa de ser gesto solitário, e passa a existir como ação coletiva. Para o Coro Madrigale, essa peça também funcionou como afirmação de versatilidade. Um coro que transita entre repertórios sacros, eruditos, brasileiros e populares não o faz por ecletismo vazio, mas por entender a música como experiência humana ampla. 

Beat It, no palco, é impacto imediato. O público reconhece a música, mas escuta outra coisa. Escuta a força do conjunto, a precisão rítmica, o texto dito por muitas vozes. O que antes era solo vira corpo coletivo. Beat It, ali, não pediu desculpas. Entrou em cena e ficou.

 

🎬 Madrigale Pop Internacional – 10. Beat It

 

Grupo de música no palco

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15 de janeiro (Dia Mundial do Compositor)

Hoje é o dia mundial do compositor.  E não deixa de ser curioso que se reserve um dia específico para quem passa a vida inteira lidando com ...