segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O problema das edições corais no Brasil (uma reflexão)

Uma das coisas que mais me chamou a atenção durante minha recente viagem à Argentina foi perceber como os compositores daquele país conseguem colocar suas obras em circulação. Existem iniciativas como o portal de edições do Grupo de Canto Coral e também o Recurso Coral, que disponibilizam partituras para venda ou livre acesso, formando uma rede organizada de divulgação do repertório coral argentino. A ideia não é apenas a de vender partituras, mas de fazer com que a música exista para quem deseja cantá-la.

Voltei pensando no quanto, no Brasil, ainda estamos distantes dessa realidade. Não existe um mercado editorial coral minimamente estruturado. Quando ouvimos uma obra interessante em um concerto, quase sempre perguntamos ao regente se ele poderia nos enviar a partitura. Ela chega por amizade, por indicação ou por contato direto com o compositor, e se esse compositor não faz parte de uma rede de relacionamentos, há uma boa chance de que sua música permaneça praticamente desconhecida. 

A circulação das obras depende muito mais das pessoas do que de um sistema capaz de fazê-las chegar aos coros. Essa lógica produz outro efeito curioso: criou-se quase uma expectativa de que tudo seja gratuito. O compositor escreve, revisa, responde mensagens, envia arquivos e, muitas vezes, ainda faz alterações solicitadas pelos grupos, sem que exista qualquer perspectiva de remuneração por esse trabalho. Com isso, também não há estímulo para que surjam editoras especializadas, revisores, diagramadores ou projetos editoriais dedicados exclusivamente à música coral.

Minha relação com esse problema sempre foi muito direta. Passei boa parte da vida copiando partituras. Primeiro porque era necessário. Depois, porque sempre percebi que uma boa edição faz tanta diferença quanto um bom ensaio. Felizmente, as ferramentas atuais permitem produzir materiais muito superiores aos manuscritos com os quais convivíamos há algumas décadas. Ainda assim, continua sendo comum encontrar partituras preparadas sem qualquer preocupação com quem vai lê-las. Fontes desproporcionais, poucos compassos por página, viradas mal planejadas, diagramação confusa e revisão insuficiente transformam a leitura em um exercício de paciência.

Quem costuma resolver essas dificuldades é o regente. Corrige erros, reorganiza páginas, explica inconsistências e traduz para o coro aquilo que a partitura deveria comunicar sozinha. Mas quem realmente convive com esse material durante todo o ensaio é o cantor. Cada interrupção provocada por uma edição mal construída consome tempo que poderia estar sendo dedicado à afinação, à sonoridade, ao texto ou à interpretação. Uma edição ruim afeta diretamente um ensaio.

Penso que existe também um equívoco sobre o próprio mercado. Costuma-se dizer que ninguém compraria partituras. Minha impressão é justamente a oposta. Todo coro procura materiais confiáveis, claros e prontos para serem utilizados. Se o custo for razoável, a compra representa um enorme ganho de tempo para quem ensaia e para quem organiza o trabalho musical. O problema talvez nunca tenha sido a falta de interessados, mas a ausência de uma estrutura que permita ao compositor publicar, divulgar e comercializar seu repertório de maneira simples. 

Nos últimos anos tenho procurado organizar e disponibilizar gratuitamente muitas das partituras que preparei ao longo da vida. É uma maneira de compartilhar materiais de qualidade e evitar que outros regentes precisem repetir o mesmo trabalho de edição. Sei, porém, que essa é apenas uma resposta individual. O que realmente faria diferença seria a construção de uma cultura editorial para a música coral brasileira, capaz de aproximar compositores, editores, intérpretes e coros.

Temos excelentes compositores. Temos coros, universidades, festivais, pesquisadores e regentes. Falta fazer com que as partituras circulem com a mesma qualidade da música que elas carregam.





domingo, 2 de agosto de 2026

Morena de Angola (HelyElas)

Outro dos arranjos que o Seu Hely fez para as meninas do Madrigale: Morena de Angola, de Chico Buarque de Holanda. Esse foi no Projeto Viva Música da Escola de Música da UFMG em 08/08/2018. Apreciem:


🎬 "Morena de Angola" - Chico Buarque




sábado, 1 de agosto de 2026

O mito da “voz ideal” no canto coral (uma reflexão)

Durante muitos anos ouvi a mesma expressão: "Fulano tem voz de coro." Sempre me pareceu um elogio, mas com o tempo, comecei a desconfiar dela. Hoje, depois de tantas vivências, penso que não existe uma voz ideal para o canto coral, mas existe, sim, uma ideia de coro e é essa ideia que determina quais vozes fazem sentido naquele conjunto.

Todo regente, consciente ou não, imagina uma sonoridade. Às vezes ela nasce antes mesmo do primeiro ensaio, outras vezes vai sendo construída a partir das pessoas que já estão ali. Em qualquer dos casos, as novas vozes não entram em um espaço vazio, mas passam a fazer parte de uma identidade que já existe ou que está sendo formada.

A experiência ajuda, é claro. Normalmente, quando escuto um cantor pela primeira vez, consigo imaginar se aquela voz poderá encontrar seu lugar no coro, mas aprendi a nunca considerar essa impressão definitiva. A verdadeira resposta só aparece quando essa voz começa a cantar com as outras.

Já encontrei vozes belíssimas que eu admirava profundamente, mas que não encontravam lugar naquele projeto sonoro específico, não porque lhes faltasse qualidade, mas porque conduziam o conjunto para uma direção diferente da que eu buscava. Da mesma forma, conheci cantores que dificilmente seriam solistas, mas bastava estarem dentro do coro para acontecer alguma coisa especial. A voz desaparecia como individualidade e, justamente por isso, fazia o conjunto crescer.

No coro, cantar bem é importante, mas escutar bem é indispensável. Escutar não é apenas afinar, é perceber o espaço que a própria voz ocupa, saber quando aparecer e quando recuar, entender que às vezes a melhor contribuição que se pode dar não é cantar mais, mas cantar junto. Costumo dizer nos grupos que rejo que o coro nunca é a soma das melhores vozes, mas o conjunto. Parece uma frase simples, mas ela muda completamente a forma de cantar. Quando o objetivo deixa de ser mostrar a própria voz e passa a ser construir uma sonoridade coletiva, tudo se transforma.

Uma outra lição que aprendi com o tempo: o regente também precisa ter paciência com o tempo do cantor. Já fui surpreendido muitas vezes por cantores sobre os quais tive dúvidas no primeiro ensaio e algumas semanas depois, eles encontravam seu lugar, e uma voz impensada por mim surgia à minha frente. Nesses momentos, dizem que eu sorrio. Alguns coralistas afirmam que já conhecem esse sorriso e sabem exatamente o que ele significa. Eu nunca o vi, mas gosto de pensar que ele aparece quando acontece uma das coisas mais bonitas da música coral: o instante em que uma voz deixa de querer ser a mais bonita da sala e passa a fazer parte de algo maior do que ela mesma.




sexta-feira, 31 de julho de 2026

Um encontro para ouvir os coros do Núcleo de Música Coral da UFMG (por Bárbara “Bambis”)

No dia 05/07 passado, aconteceu mais uma Encontro de Corais do Núcleo de Música Coral da UFMG. Como eu não pude estar presente, pedi à Bambis, para além de bolsista do programa, que registrasse suas impressões sobre o que aconteceu na tarde. O texto a seguir é o olhar de quem acompanhou as apresentações da plateia e pôde perceber tanto a diversidade dos trabalhos quanto a importância de reunir, num mesmo espaço, grupos que passam o semestre trabalhando separadamente.

Texto escrito por Bárbara Bambis:

O encontro começou com o auditório já lotado. É verdade que os próprios coralistas ocupavam boa parte dos lugares: eram seis grupos reunidos, cada um acompanhado por seus cantores, regentes e pessoas próximas. Ainda assim, ver aquele espaço cheio, antes mesmo da primeira apresentação, ajudava a dimensionar o tamanho que o Núcleo de Música Coral alcançou.

A dinâmica foi simples e funcionou muito bem. Manu apresentava cada coro, o regente entrava, contava um pouco sobre o grupo, sobre os ensaios e sobre o trabalho realizado durante o semestre, explicava as músicas escolhidas e, então, começava a apresentação. Essa pequena fala antes de cada participação permitia que ouvíssemos os grupos conhecendo um pouco do caminho percorrido por eles. Nem todos estavam no mesmo momento, nem trabalhavam com os mesmos objetivos, e isso fazia parte da riqueza do encontro.

É interessante perceber como cada coro desenvolve sua identidade própria. Mudavam a disposição no palco, as roupas, o repertório, o modo de se relacionar com o público e até a maneira de entrar e sair de cena. Reunidos num mesmo evento, os grupos deixavam mais visíveis essas diferenças. O Núcleo aparecia como um projeto comum, mas formado por trabalhos que não precisavam soar nem se apresentar da mesma maneira.

A primeira apresentação foi a do Coral da OAP (Organização dos Aposentados e Pensionistas da UFMG). O regente, Paulo Hoffmam, contou que começou um trabalho de musicalização desde as bases. Como acontece com muitos coros do Núcleo, não é exigida experiência musical anterior para participar. Isso significa que o regente precisa conhecer o grupo, perceber o que é possível realizar naquele momento e conduzir os cantores passo a passo. A apresentação foi segura e mostrou um coro ainda construindo sua maneira de cantar junto. Alguns dos integrantes também participam de outros grupos do Núcleo, algo bastante comum entre os coralistas.

Em seguida, entrou o Litterarum. Eu gosto muito das apresentações deles. Victor Medeiros é muito simpático e dá bastante liberdade criativa ao grupo, o que faz com que sempre apareça alguma coisa diferente. Os coralistas usam roupas coloridas, fazem movimentos, incorporam pequenas cenas e misturam música e narrativa. Em uma das peças, o público foi convidado a cantar enquanto uma criança participava à frente do grupo. Em outra, dois coralistas dançaram durante a apresentação. No final, um cantor tocou gaita e encerrou num dueto com o violino do regente. O trabalho sonoro ainda passa por ajustes, mas o envolvimento do grupo e a maneira como se comunica com a plateia dão às apresentações uma força muito própria.

Depois veio o Coral da FALE. Dessa vez, Phil Rezende regeu ao piano. O grupo mantém um som muito bom e costuma apresentar repertórios variados, com arranjos interessantes tanto para quem canta quanto para quem assiste. Em uma das músicas, a plateia também foi convidada a participar, criando um momento muito agradável. A organização visual seguiu uma linha mais tradicional, com os coralistas uniformizados e dispostos em duas fileiras.

O Madrigal Renascentista, conduzido por Sérgio Borborema, apresentou um repertório a cappella. Os coralistas estavam em semicírculo, usando roupas formais com um detalhe vermelho, o que dava bastante unidade ao conjunto. O programa reuniu músicas renascentistas e populares, mas toda a apresentação manteve um caráter mais erudito, tanto pelas escolhas musicais quanto pela maneira como o grupo se colocou no palco.

Quando o Vozes da Saúde entrou, a primeira impressão veio da própria disposição do coro. Riane Menezes colocou os cantores em semicírculo, distribuídos pelos degraus do palco, e isso deu ao grupo uma presença muito marcante. Como estamos acostumados a ver os coros organizados em fileiras, aquela formação chamou atenção imediatamente. A apresentação confirmou essa primeira impressão. O coro mostrou segurança, volume e boa afinação. O repertório também ajudou a criar esse impacto e, para quem já tem alguma história com o Gloria, de Vivaldi, a apresentação trouxe muitas emoções.

Por fim, veio o Campus em Canto, regido por Manu Cardoso. Os coralistas estavam vestidos com as cores que identificam o grupo, o que criou um resultado visual muito bonito. As músicas escolhidas eram longas e exigentes, demonstrando o fino trato proposto pela sua regente no trabalho de evolução desse importante coro do NMC.

Mais importante do que comparar os grupos foi poder ouvi-los em sequência. Alguns coros estavam apresentando etapas iniciais de seus trabalhos; outros já mostravam maior experiência de conjunto. Havia repertórios, formações e propostas muito diferentes. O encontro permitiu que essas diferenças fossem percebidas sem que uma anulasse a outra.

Também foi bonito perceber o envolvimento dos coralistas. Os grupos não estavam ali apenas para mostrar o que haviam preparado. Assistiam aos colegas, reagiam às músicas, acompanhavam as apresentações e pareciam genuinamente interessados no trabalho uns dos outros. Essa troca talvez tenha sido um dos aspectos mais importantes da noite.

O encontro também trouxe uma questão prática. Quando todos os grupos se apresentam no mesmo dia, os próprios coralistas quase ocupam o auditório inteiro, deixando pouco espaço para um público externo. Separar as apresentações poderia ampliar a presença de outras pessoas, mas faria perder justamente essa convivência entre os coros. Talvez seja necessário manter as duas possibilidades: encontros maiores, em que os grupos possam se ouvir, e apresentações menores, abertas a um público mais amplo.

Saí com a impressão de que esses encontros precisam acontecer mais vezes. Eles permitem conhecer o trabalho desenvolvido em cada coro, aproximam os participantes e tornam visível aquilo que, durante o semestre, acontece separadamente em diferentes espaços da Universidade. Por algumas horas, os grupos puderam perceber que fazem parte de uma mesma construção, e isso é muito importante para o trabalho que tem sido feito no Núcleo. 



Litterarum

Madrigal Renascentista

Coral da OAP

Coral Vozes da Saúde

Coral Campus em Canto

Coral da FALE











quinta-feira, 30 de julho de 2026

O sonho americano do MR (X): A volta a Belo Horizonte: glória, cansaço e corpo

Depois de quase cinquenta dias nos Estados Unidos, o Madrigal voltou a Belo Horizonte. A excursão havia passado por dezenas de cidades, enfrentado frio, viagens longas, auditórios diferentes, compromissos oficiais e a responsabilidade constante de se apresentar como “Coro do Brasil”. Na chegada, a cidade recebeu o grupo com festa: havia muita gente, serpentinas e a Banda da Polícia Militar tocando para os cantores.

Depois do aeroporto, todos seguiram para o Automóvel Clube, onde o prefeito Oswaldo Pieruccetti prestou uma homenagem ao coro. Foi ali que o cansaço apareceu de forma mais clara. Ao agradecer, Isaac Karabtchevsky desmaiou e precisou ser medicado. No meio dos aplausos, discursos e cumprimentos, o corpo do maestro revelou o peso daqueles quase cinquenta dias. O grupo voltava consagrado, mas exausto. Eram cantores jovens, submetidos a uma rotina de estradas, hotéis, apresentações quase diárias, frio, alimentação diferente e muita cobrança. A viagem havia sido um sucesso, mas estava longe de ter sido fácil.

Maria Lúcia Godoy não voltou com o grupo. Permaneceu nos Estados Unidos para uma temporada de concertos solo, já seguindo um caminho próprio. Sua trajetória também mostra a importância do Madrigal como espaço de formação e projeção para músicos que depois alcançariam outros palcos.

Percebendo o desgaste de todos, Karabtchevsky suspendeu as atividades até a Quarta-Feira de Cinzas. Era preciso descansar. Depois de tanto tempo sendo tratado como símbolo de Minas e do Brasil, o coro precisava simplesmente voltar para casa. As homenagens, porém, ainda não haviam terminado. No dia 4 de março, o grupo foi recebido no Palácio da Liberdade pelo governador Magalhães Pinto, pelo vice-governador Clóvis Salgado, pelo prefeito Pieruccetti e pelo cônsul dos Estados Unidos em Belo Horizonte, Herbert Okun. A excursão era celebrada como uma conquista musical, mas também como um feito político e cultural de Minas Gerais.

E é isso: ao longo da viagem, o Madrigal não carregou apenas partituras e repertório, carregou uma imagem do Brasil. As faixas de “Coro do Brasil”, o apoio consular, as recepções e os compromissos oficiais mostram que cada concerto tinha também uma função de representação. Talvez por isso a chegada seja uma boa imagem para encerrar esta série. De um lado, serpentinas, banda, autoridades e orgulho. De outro, o cansaço dos cantores e o desmaio do maestro.

O Madrigal voltou reconhecido como “Coro do Brasil”, mas voltou também sentindo no corpo o peso desse título.



quarta-feira, 29 de julho de 2026

O sonho americano do MR (IX): O final do sonho americano

Na etapa final da excursão, o Madrigal Renascentista seguiu em direção ao Sul dos Estados Unidos. Depois de tantas cidades, auditórios, estradas, hotéis e aplausos, o relato de Newton Silva já não tinha o mesmo encantamento das primeiras impressões. O título escolhido por ele dizia muito: “Final do Sonho Americano”. A viagem ainda continuava, mas o sonho começava a mostrar suas rachaduras.

O coro passou por El Dorado, no Arkansas, cidade marcada pelo cheiro de óleo e pelas torres ligadas à indústria do petróleo. Ali, o Madrigal se apresentou no Auditório Municipal e ainda viveu um encontro inesperado com um coro juvenil dedicado à música renascentista. Ali se juntaram jovens americanos e brasileiros cantando juntos um repertório que atravessava séculos e fronteiras. Fora dos grandes centros, longe da solenidade diplomática de Washington e do prestígio cultural de Nova York, a excursão encontrava outra força: o contato direto com comunidades locais.

Em Shreveport, na Luisiana, a paisagem trouxe outros contrastes. No hotel, estrelas e chapéus de xerifes tomavam o lobby por causa de uma convenção policial. Na cidade, o novo Auditório Municipal impressionava pela arquitetura moderna, em cristal e mármore. Newton se espantava com o investimento feito em equipamentos culturais mesmo em cidades médias. Para quem vinha do Brasil, era difícil não comparar. Nos Estados Unidos, a cultura parecia exigir edifícios preparados, estrutura, conforto, dinheiro público ou comunitário. No Brasil, tantas vezes, a música precisava se adaptar ao que havia.

Mas o Sul também expôs a face mais tensa da sociedade americana. Arkansas, Louisiana e Mississippi colocaram o Madrigal diante de uma realidade atravessada pela segregação racial, ainda muito presente nos espaços urbanos, nos hotéis, nos restaurantes, nas moradias e nas relações sociais. As estradas impecáveis, os auditórios modernos e a hospitalidade das plateias conviviam com uma separação brutal entre brancos e negros. O sonho americano, visto dali, já não parecia tão inteiro.

Newton percebeu essa contradição. De um lado, registrou sinais de mudança: negros bem-vestidos circulando pelas ruas, fazendo compras, dirigindo carros novos. De outro, via bairros separados, pobreza concentrada, orgulho sulista, símbolos confederados e resistências profundas ao avanço dos direitos civis. A década de 1960 ardia em disputas raciais e políticas, e o Madrigal atravessava esse território como visitante, mas não como alguém completamente imune ao que via.

Esse talvez seja o ponto mais forte desse trecho da viagem. O coro brasileiro entrava em cidades que investiam em cultura, recebiam artistas estrangeiros, mantinham associações musicais e enchiam auditórios. Ao mesmo tempo, essas mesmas cidades revelavam desigualdades duras, tensões raciais e uma violência histórica ainda mal resolvida. A América que havia impressionado pelos supermercados, estradas, carros e museus agora mostrava o lado que a propaganda não conseguia esconder.

Depois de Jackson e State College, a viagem se encaminhou para Key West, no extremo sul da Flórida. Ali, o reencontro com o sol e o mar encerrava simbolicamente o percurso iniciado em Miami. O concerto final teve, segundo Newton, a emoção da despedida. Depois de quase cinquenta dias, o Madrigal terminava sua travessia entre o frio do norte, o brilho de Nova York, a solenidade de Washington, o interior profundo e o Sul marcado por conflitos.

O “sonho americano” não acabava exatamente como decepção. Acabava como experiência mais complexa. Os Estados Unidos continuavam fascinantes, ricos, organizados e poderosos. Mas já não eram apenas a imagem limpa das estradas, dos hotéis e dos auditórios. Eram também desigualdade, segregação, medo, tensão política e disputa social.

O Madrigal voltou ao Brasil com aplausos e reconhecimento. Mas trouxe também um olhar: a descoberta de que a América admirada de longe era muito maior, mais forte e mais contraditória quando vista de dentro de um ônibus, cidade após cidade, concerto após concerto.




terça-feira, 28 de julho de 2026

O sonho americano do MR (VIII): Pelo interior dos Estados Unidos

O Madrigal Renascentista voltou à estrada. A excursão retomava a lógica dos Community Concerts, com apresentações em cidades menores, auditórios universitários e comunidades que recebiam o “Coro do Brasil” como parte de suas temporadas culturais. O percurso seguiu por Kingston, Augusta, Portsmouth, Laconia, Peekskill, Chambersburg, Vincennes, Goshen, Appleton, Decorah, Mount Pleasant, Keokuk, Atchison, Hannibal, Bolivar e Springfield. Se vista assim, a lista já cansa, imaginem atravessá-la de ônibus, em pleno inverno, cantando quase todas as noites.

Nesse trecho, Newton Silva parece menos interessado em repetir comentários sobre os concertos e mais atento ao país que passava pela janela. Em Augusta, no Maine, com temperatura de doze graus abaixo de zero, o grupo encontrou flores vermelhas nas janelas do hotel. Alguém suspeitou: deveriam ser de plástico. Eram. O detalhe ficou como pequena síntese de uma América preocupada com aparência, ordem e cuidado visual. Casas limpas, fachadas bem conservadas, interiores aquecidos, papel de parede, abajures, conforto elétrico. Tudo parecia pronto para mostrar prosperidade.

Mas essa aparência também tinha fissuras. Newton observava que as casas malcuidadas apareciam sobretudo em bairros negros ou em regiões rurais pobres. Hoje, esse comentário salta aos olhos. O cronista talvez registrasse aquilo como contraste de viagem; nós lemos também como sinal de uma sociedade profundamente marcada por desigualdades raciais e sociais. Ou seeja, o sonho americano, visto de perto, não era uniforme.

Em Portsmouth, o Madrigal entrou pela primeira vez na intimidade de uma casa americana. Charutos, cerveja, uísque, piano de cauda, estantes de livros, objetos de arte, antiguidades, paredes com papel decorado, quartos aquecidos. A casa de classe média se tornava quase um museu doméstico da respeitabilidade americana. E ali, entre conversas sobre café, inflação e impressões pouco generosas sobre o Brasil, ouviu-se Bidu Sayão cantando Villa-Lobos. A cena é curiosa: o Brasil era criticado, mas também exibido como refinamento cultural.

Com o passar dos dias, os cantores foram se acostumando. O inglês deixava de ser muralha absoluta, mesmo que ajudado por mímica. As drug-stores, as lojas de departamento, as liquidações, os souvenirs e até o sistema da honor box, em que se pagava espontaneamente por jornais e revistas, viravam matéria de espanto. O consumo americano não aparecia apenas como compra. Era pedagogia. Ensinava um modo de viver, desejar, circular e confiar.

O interior também oferecia encontros inesperados. Em Indiana, havia uma pequena cidade chamada Brazil, com um chafariz de estilo ouro-pretano oferecido pelo governo brasileiro. Em Decorah, Iowa, descendentes de noruegueses serviram um smorgasbord, com direito a busto de Lincoln esculpido em gelo. Em Keokuk e Hannibal, o rio Mississipi trouxe a memória de Mark Twain e dos velhos barcos. Tudo virava imagem, comparação, fotografia, surpresa.

Talvez seja por isso que essa viagem tenha sido tão marcante. O Madrigal levou música aos Estados Unidos, mas também trouxe de volta um olhar sobre aquele país. Um olhar fascinado, às vezes ingênuo, às vezes crítico, sempre atravessado pelo espanto de quem via, no cotidiano americano, uma ideia de futuro que parecia muito distante do Brasil de 1965.




segunda-feira, 27 de julho de 2026

O sonho americano do MR (VII): Nova Iorque: o Madrigal diante da metrópole

Nova Iorque. Depois de tantas cidades médias, universidades e auditórios comunitários, o coro entrava em uma das capitais culturais do mundo. Vista de Newark, à noite, Manhattan aparecia como uma massa de luzes. A entrada pelo Lincoln Tunnel dava aos cantores a sensação de atravessar uma fronteira simbólica. Não era apenas mais uma parada da excursão: era Nova Iorque.

Newton Silva percebeu isso com clareza. Suas crônicas deixam de falar apenas dos concertos e passam a registrar a cidade: a 57th Street, o Carnegie Hall, os cafés que nunca fechavam, a jukebox tocando Elvis Presley, Petula Clark e também The Girl from Ipanema, sinal de que a bossa nova já circulava como imagem moderna do Brasil. O Madrigal levava a música coral aos palcos, mas Tom Jobim e Vinícius também estavam ali, atravessando a cultura de massa norte-americana.

A cidade oferecia tudo ao mesmo tempo. Central Park com patinadores no gelo, Guggenheim, Metropolitan Museum, Museu de Arte Moderna, Picasso, Cézanne, Kandinsky, Matisse. Um choque de escala. O Brasil que os cantores representavam no palco se via diante de uma metrópole que transformava arte, consumo, boemia e espetáculo em parte da mesma paisagem.

O Greenwich Village talvez tenha sido uma das imagens mais fortes daquela experiência. Cafés enfumaçados, artistas vendendo quadros na rua, conversas sobre pintura, teatro, música e literatura. Newton viu ali uma espécie de Montmartre americano, um lugar onde a vida artística parecia menos separada da rua. Para um coro vindo de Belo Horizonte, esse contato com a boemia intelectual nova-iorquina ampliava a viagem para além dos concertos. O Madrigal também aprendia a ver outros modos de existir culturalmente.

Mas Nova York não era só brilho. Newton registrou também as contradições da cidade: trânsito sufocante, desemprego, tensões raciais no Harlem, déficit habitacional, desigualdade. A metrópole que encantava pelos museus e vitrines também revelava seus problemas. Essa atenção é importante. O olhar do Madrigal sobre os Estados Unidos não foi apenas deslumbrado. Aos poucos, a excursão ensinava também a perceber fissuras no grande espetáculo americano.

No dia 24 de janeiro, veio o concerto no Town Hall. A crítica do New York Herald Tribune reconheceu a amplitude do repertório, de Victoria a Villa-Lobos, a disciplina do coro, o controle de Karabtchevsky e a qualidade de Maria Lúcia Godoy. A plateia brasileira era expressiva, com diplomatas, políticos, artistas e músicos. Depois da apresentação, a cônsul Dora Vasconcelos recebeu o grupo em seu apartamento, decorado com objetos brasileiros. Empadas e guaraná ajudaram a matar um pouco da saudade.

O concerto foi gravado em fita cassete, e esse registro ainda permite ouvir a qualidade do Madrigal naquele momento. É prova sonora de um coro em alta forma, cantando no centro de um dos sistemas culturais mais exigentes do mundo. O concerto está disponível na playlist Concerto em Nova Iorque (1965).

Houve também a expectativa frustrada do Ed Sullivan Show. A Embaixada havia anunciado a possível participação do grupo, e Louis Serrano, correspondente de O Globo em Los Angeles, escreveu que ficou diante da televisão esperando o Madrigal aparecer, mas o grupo não apareceu. O episódio é pequeno, mas revelador. Mostra que a excursão já não era medida apenas pelos concertos. Havia também o desejo de transformar o Coro do Brasil em imagem televisiva, em presença na cultura de massa americana.

Nova Iorque concentrou tudo: palco prestigioso, crítica favorável, diplomacia, bossa nova, museus, boemia, contradições urbanas, saudade brasileira e expectativa midiática. Para o Madrigal, cantar no Town Hall foi mais do que cumprir uma data importante da turnê. Foi ocupar, ainda que por uma noite, o centro simbólico de uma cultura que o grupo observava com fascínio, estranhamento e coragem.



Uma visão da IA


domingo, 26 de julho de 2026

O sonho americano do MR (VI): o Madrigal diante da América do consumo

Depois de Washington, os relatos da excursão que chegam pelos jornais mudaram de tom. As críticas sobre os concertos continuavam importantes, mas começaram a aparecer com menos frequência. No lugar delas, ganhava espaço os relatos de Newton Silva sobre o país que o coro atravessava. É como se, depois da missão diplomática mais visível na capital americana, o Madrigal passasse a olhar os Estados Unidos com mais calma, pela janela do ônibus, pelos supermercados, pelos motéis, pelas ruas, pelos museus e pelos pequenos hábitos cotidianos.

Naquele momento, o coro aparecia quase como um personagem coletivo. Cantava sempre, mas também observava. E o que via era uma América organizada em torno da propaganda, do consumo e da eficiência. Máquinas automáticas vendiam cigarros, refrigerantes, escovas de dentes e chocolate quente. Portas se abriam sozinhas nos supermercados. O queijo surgia em versões suíça, dinamarquesa, italiana, americana, ralado, em lata, em fatias, inteiro. Para jovens brasileiros dos anos 1960, aquela abundância significa organização e poder.

Cleveland mostrou outra face dessa modernidade. Ruas limpas, parquímetros, placas claras, trânsito ordenado, tudo parecia pensado para funcionar. Mas, na mesma paisagem, apareciam os sinais dos abrigos antirradiação. A cidade organizada carregava também o medo nuclear da Guerra Fria. A América que vendia conforto e eficiência lembrava, discretamente, que vivia sob ameaça.

Detroit aprofundou o choque. A cidade do automóvel mostrava a produção em massa como espetáculo: Impalas, Corvetes, Buicks, Pontiacs, carros novos e usados expostos ao ar livre, ferros-velhos transformados em cemitérios mecânicos. Naquela cidade, o concerto do Madrigal aconteceu no Instituto de Artes, diante de músicos profissionais e instrumentistas sinfônicos. Ali, entre automóveis, frio intenso e coleções de arte, o coro cantou uma de suas noites mais fortes.

Pitucha registrou que o Madrigal conseguiu pianíssimos tão sutis que parecia impossível serem produzidos por vinte e poucas vozes. Mas sua emoção não vinha apenas da qualidade musical. Ela percebia que o grupo estava corrigindo, diante dos americanos, uma imagem deformada do Brasil. Muitos não sabiam que brasileiros falavam português. Alguns perguntavam se eram descendentes de franceses. Para os cantores, cada aplauso ajudava a mostrar que o Brasil não era apenas samba, café e futebol. Era também música de concerto, disciplina, repertório, escuta e trabalho coletivo.

Esse talvez seja o ponto mais interessante dessa etapa. O Madrigal via os Estados Unidos, mas também percebia como o Brasil era visto de fora. O choque não era apenas tecnológico ou urbano, era simbólico. Os supermercados, os carros, os chicletes, as máquinas automáticas e os museus revelavam uma América poderosa e organizada. As perguntas sobre o idioma e os estereótipos sobre o Brasil revelavam, ao mesmo tempo, o tamanho do desconhecimento. A excursão, então, deixou de ser apenas uma sequência de concertos para tornar-se uma travessia cultural. 




sábado, 25 de julho de 2026

O sonho americano do MR (V): Washington e a diplomacia cultural

Newton Silva viu Washington como uma cidade larga, fria, limpa, cheia de monumentos e edifícios públicos. Uma cidade feita para o poder. Havia neve, havia solenidade, havia a proximidade da posse de Lyndon Johnson. E havia também uma tensão natural: o público era exigente, a crítica era dura, e os brasileiros presentes sabiam que uma apresentação ruim não seria apenas uma apresentação ruim. Pesaria sobre o coro e sobre a imagem que se queria mostrar do país.

Até ali, o Madrigal vinha cumprindo a rota dos Community Concerts: cidades menores, universidades, associações locais, auditórios preparados para receber artistas de fora. Na capital, o concerto de 14 de janeiro de 1965, no Lisner Auditorium, tinha o patrocínio da Embaixada do Brasil e a presença do corpo diplomático brasileiro. Ali, o coro não entrou só para cantar, mas com representante oficial do Brasil.

É aí que a diplomacia cultural deixa de ser uma ideia abstrata. Ela acontece quando um país tenta ser visto por meio de seus artistas. Não por discurso oficial, mas por som, presença, disciplina, repertório. Em Washington, o Madrigal mostrava um Brasil que talvez os americanos não esperassem encontrar: um Brasil coral, preparado, jovem, sério, capaz de cantar Victoria, Ravel, Debussy, Villa-Lobos e spirituals com segurança.

Paul Hume, crítico do Washington Post, elogiou a clareza do coro, a precisão dos ataques, a leveza da sonoridade e o trabalho de Karabtchevsky, capaz de tirar daquele grupo um acabamento próximo ao de uma orquestra de câmara. Não era elogio de cortesia. Vindo de quem vinha, em Washington, aquilo valia muito. Isaac diria depois que esse concerto definiu o sucesso do restante da viagem.

Depois veio a feijoada oferecida pelo embaixador Juracy Magalhães. O detalhe parece pequeno, mas não é. Depois de dias de estrada, frio, hambúrgueres, frango, milk-shakes e comida estranha, comer feijoada na Embaixada era quase voltar para casa por algumas horas. A diplomacia também passa por isso. Passa pelo palco, pela crítica, pela televisão, mas passa também pela mesa. Pelo cheiro conhecido. Pela comida que lembra de onde se veio.

Dois dias depois, ainda em Washington, o Madrigal gravou para o programa Panorama Pan-Americano, que seria transmitido por uma rede de emissoras sul-americanas, incluindo a TV Itacolomi. O coro deixava de existir apenas para quem esteve no auditório. Virava imagem, notícia, registro. O “Coro do Brasil” passava a circular também pela televisão.

Washington foi isso: um concerto, mas não só. Foi palco, embaixada, crítica, feijoada, televisão e política cultural misturadas no mesmo episódio. O Madrigal cantou como coro. Mas, naquela noite, foi ouvido como Brasil.



Lisner auditorium (Washington)

O problema das edições corais no Brasil (uma reflexão)

Uma das coisas que mais me chamou a atenção durante minha recente viagem à Argentina foi perceber como os compositores daquele país consegue...