Descobri essa gravação por acaso e a trago aqui porque o blog também tem essa proposta: ser um espaço de divulgação de coros, compositores e peças musicais. Comigo, muitas vezes acontece assim: um vídeo leva a outro e, de repente, estou ouvindo algo que não procurava. Foi desse modo que cheguei às St Cecilia Singers, coro da Diocesan School for Girls, da Nova Zelândia, cantando Le Tupulaga o Aotearoa, de Poulima Salima.
Le Tupulaga o Aotearoa pode ser entendido como “a juventude de Aotearoa”, nome māori da Nova Zelândia. Antes mesmo de qualquer análise, a peça já nos coloca diante de uma ideia de pertencimento: jovens cantoras dando voz ao lugar de onde vêm. Para além da qualidade do coro, eu gosto das coreografias das ilhas do Pacífico.
Poulima Salima é um compositor ligado ao universo cultural Pasifika, com raízes samoanas, e sua música parece nascer desse encontro entre tradição, juventude e criação contemporânea. Não soa como peça “exótica” colocada no repertório para colorir o programa. Soa como música viva, feita para aquelas vozes e para aquele contexto.
Isso me interessa muito porque, durante muito tempo, o repertório coral considerado “sério” esteve quase sempre associado à tradição europeia. Ela é fundamental, evidentemente, mas quando um coro jovem canta uma obra ligada ao seu próprio chão cultural, o repertório deixa de ser apenas material de estudo e passa a ser também forma de reconhecimento.
Um coro escolar, quando bem conduzido, pode ensinar técnica, escuta, disciplina e afinação. Mas pode ensinar também pertencimento. Cada cantor entende que sua voz individual faz parte de algo maior, de uma memória coletiva que continua sendo construída. Para nós, brasileiros, essa escuta provoca uma pergunta simples e difícil: que músicas nossos coros cantam quando querem dizer quem são? Não basta cantar música brasileira. É preciso saber como cantá-la. É preciso escutar o ritmo, a palavra, o corpo, a história e o lugar de onde ela vem.
Talvez por isso essa gravação tenha me tocado. Ela mostra um coro cantando bem, mas mostra também algo mais raro: um coro cantando o seu lugar no mundo.
🎬 Diocesan School for Girls, St Cecilia Singers | Le Tupulaga o Aotearoa – Poulima Salima