Subi para o YouTube uma gravação de 1999 que, para mim, tem um valor especial. Não é apenas o registro de um concerto antigo, mas um documento de um Madrigale em outro tempo, ainda como Madrigale Nansen, cantando com a Orquestra de Câmara SESIMINAS, no Teatro Sesiminas, duas obras que faziam parte de um projeto maior de resgate da música de Hostílio Soares.
Naquela época, a família do compositor havia me passado o acervo, que estava em Visconde do Rio Branco, sua cidade natal. Hoje, essas partituras estão preservadas no Núcleo de Acervos da Escola de Música da UEMG, mas, naquele momento, ainda havia muito a ser conhecido, transcrito, estudado e devolvido ao som.
A Missa São João Batista chegou completa, com sua orquestração original. Meu trabalho foi o de transcrição, com uma observação cuidadosa dos problemas que o tempo costuma deixar nos documentos: marcas, desgastes, dúvidas de leitura, pequenas zonas de incerteza. Mas a obra estava ali, inteira, esperando novamente por cantores, instrumentos, espaço e escuta.
E a Missa é uma obra exigente. A escrita coral a seis vozes já impõe outra organização ao grupo. O coro precisa se dividir mais, sustentar linhas internas, manter equilíbrio entre naipes e atravessar muitos cromatismos, uma marca da escrita de um contrapontista, que é o caso de Hostílio. É uma música que pede estudo, concentração e maturidade sonora.
Naquele concerto, o Madrigale já se mostrava capaz de assumir um repertório difícil, com orquestra, em um teatro importante, dentro de uma proposta artística inteira. Não era mais apenas um grupo jovem enfrentando desafios. Era um coro começando a demonstrar consistência. E talvez por isso essa gravação me diga tanto hoje.
A Missa São João Batista também era importante por outro motivo: ela ajudava a recolocar Hostílio Soares em circulação. O concerto tinha um sentido claro de resgate histórico. Não se tratava de cantar uma peça rara por curiosidade, mas de devolver presença a um compositor mineiro cuja obra merecia ser ouvida, estudada e reconhecida.
A gravação tem boa qualidade, ainda que o equilíbrio dos microfones não tenha sido ideal. Isso também faz parte do documento. O som registra não apenas a música, mas as condições daquele tempo: os recursos disponíveis, a acústica seca do teatro, a energia do grupo, a relação com a orquestra, as escolhas que conseguimos fazer naquele momento.
Entre os movimentos da missa, o Sanctus continua sendo, para mim, o ponto mais especial. Ele tem algo de oração dentro do conjunto, não apenas pela palavra que carrega, mas pela maneira como a música parece se recolher e se elevar ao mesmo tempo.
Ouvindo agora, tantos anos depois, percebo que esse concerto marcou de fato uma passagem. Em um relatório da época, escrevi que talvez ele representasse o início da maturidade do Madrigale. Hoje, ao reencontrar essa gravação, a frase me parece menos exagerada do que eu poderia imaginar.
Às vezes, só o tempo nos permite escutar melhor o que já havíamos vivido. A Missa São João Batista voltou ao som naquele 23 de setembro de 1999. Agora, ao ser disponibilizada novamente, volta também como memória. Memória de Hostílio Soares, de um acervo preservado, de um coro em crescimento e de uma etapa importante da nossa história.
A Missa São João Batista:
🎬 Missa
São João Batista (1. Kyrie) - Hostílio Soares (Coro Madrigale - 1999) - YouTube
🎬 Missa São João Batista (3. Credo) - Hostílio Soares (Coro Madrigale - 1999) - YouTube
🎬 Missa São João Batista (4. Gradual) - Hostílio Soares (Coro Madrigale - 1999) - YouTube
🎬 Missa São João Batista (5. Sanctus) - Hostílio Soares (Coro Madrigale - 1999) - YouTube
🎬 Missa São João Batista (6. Agnus Dei) - Hostílio Soares (Coro Madrigale - 1999) - YouTube