Em outubro de 1999, o Coral Acesita participou do IV Encontro de Corais de Ipatinga. O programa não deixava dúvidas de que se tratava de um evento sério. Havia Palestrina, José Maurício Nunes Garcia, Ronaldo Miranda, spirituals, música latino-americana e coros vindos de Minas, São Paulo e Espírito Santo. E lá fomos nós.
O Coral Acesita tinha um problema. Ou melhor: uma qualidade. Nós não sabíamos ser inteiramente comportados. O grupo vinha dos espetáculos produzidos no teatro da Fundação Acesita, acostumado a misturar música, cena, humor e uma boa dose de irreverência. Havia entre os cantores uma permanente disposição para transformar qualquer ensaio numa aventura e qualquer apresentação numa incógnita.
No programa daquele encontro já havia sinais de perigo. Cantávamos Ain'a That Good News, Aleluia, Ofulú Lorerê, Cateretê e uma peça particularmente divertida chamada Forrobodó da Saparia, arranjada por Lindembergue Cardoso. A obra descrevia um brejo noturno tomado pelo canto dos sapos, com coaxares, efeitos vocais e toda uma atmosfera anfíbia cuidadosamente construída. O que eu não sabia era que parte do coro havia resolvido enriquecer a encenação sem me consultar e muito menos avisar...
A música seguia normalmente quando, em determinado momento, o cantor Rosalvo tomou uma decisão artística própria. Ou talvez biológica. Num salto perfeitamente coordenado com seus companheiros de conspiração, abandonou o tablado e se atirou no chão do palco como um sapo em pleno ato. Não foi uma descida elegante. Foi uma queda, um mergulho, uma completa entrega ao personagem.
Por cerca de dois segundos, o auditório inteiro ficou em estado de choque. Depois veio a explosão. A plateia começou a rir de verdade, daqueles risos que se espalham em ondas e não pedem licença. O problema é que parte do próprio coro não sabia do plano, e começou a rir também, eu incluído. Lembro-me de tentar reger enquanto lágrimas escorriam dos meus olhos, lágrimas de alguém que havia perdido completamente o controle da situação. Respirava fundo, tentava retomar a concentração. O coro tentava cantar. Rosalvo tentava continuar sendo sapo. E a plateia simplesmente não conseguia parar. Não tenho certeza de como a peça chegou ao final. Suspeito que tenha sobrevivido por pura força de vontade coletiva.
Naquele encontro havia muitos coros excelentes, grandes regentes, programas sofisticados. Mas talvez ninguém tenha sido tão lembrado quanto o sapo do Coral Acesita. E, passados mais de vinte anos, continuo achando que Rosalvo merecia ter recebido um prêmio especial por serviços prestados à música coral brasileira. Ou, pelo menos, ao teatro anfíbio.