Depois de percorrermos a sequência do Dies irae, chegamos à parte final do Requiem de Mozart. São movimentos que apresentam diferentes formas de oração e que nos ajudam a compreender a extraordinária variedade musical dessa composição. Também entramos na região da partitura em que a questão da autoria se torna especialmente importante. Como vimos anteriormente, Mozart morreu antes de concluir a missa, e Franz Xaver Süssmayr foi o principal responsável por completar a versão que conhecemos atualmente.
O primeiro movimento dessa última parte é o Domine Jesu Christe, que inicia o Offertorium, parte da missa relacionada à apresentação das oferendas. O texto pede que as almas dos fiéis falecidos sejam libertadas das penas do inferno e conduzidas à luz divina. Musicalmente, a escrita é de grande energia, na qual o coro alterna passagens de caráter solene com momentos de intensa movimentação contrapontística. Um dos trechos mais interessantes aparece nas palavras Quam olim Abrahae promisisti, quando Mozart utiliza uma fuga para desenvolver a ideia musical entre os diferentes naipes.
Em seguida, ouvimos o Hostias, movimento que apresenta uma atmosfera bastante diferente. O texto fala das oferendas e das orações apresentadas em memória dos mortos. A música assume um caráter mais sereno, com frases amplas e uma escrita coral que exige equilíbrio e cuidado com a sonoridade. É interessante perceber como Mozart consegue construir contrastes expressivos sem abandonar a unidade da obra. O Hostias apresenta um ambiente de recolhimento, mas termina retomando a fuga do Quam olim Abrahae, estabelecendo uma ligação direta com o movimento anterior.
Esses dois movimentos pertencem à parte do Requiem para a qual Mozart deixou material composicional significativo, posteriormente instrumentado e completado.
A partir do Sanctus, entretanto, entramos em uma situação diferente. Não conhecemos manuscritos autógrafos de Mozart para os movimentos restantes, e a versão tradicional é atribuída principalmente ao trabalho de Süssmayr.
O Sanctus começa com uma proclamação solene: Sanctus, Sanctus, Sanctus, Dominus Deus Sabaoth (Santo, Santo, Santo, Senhor Deus dos Exércitos). A escrita apresenta grandeza e luminosidade, contrastando com o caráter sombrio de várias passagens anteriores. O movimento termina com uma fuga sobre as palavras Hosanna in excelsis.
No Benedictus, o quarteto de solistas assume o protagonismo. A música possui um caráter mais delicado, permitindo que as vozes desenvolvam suas linhas em diálogo com a orquestra. Ao final, o coro retorna com o Hosanna.
Chegamos então ao Agnus Dei, uma súplica dirigida ao Cordeiro de Deus, pedindo descanso para os mortos. A escrita recupera a atmosfera grave e solene que marcou o início da missa. As intervenções corais, a movimentação harmônica e o caráter suplicante do texto conduzem a obra para sua conclusão.
Mas o encerramento do Requiem apresenta uma solução especialmente interessante. Na seção final, chamada Communio, Süssmayr retoma a música composta por Mozart para o início da obra. O tema do Requiem aeternam reaparece com as palavras Lux aeterna luceat eis, Domine (Que a luz eterna brilhe para eles, Senhor). Depois, a fuga do Kyrie retorna com o texto Cum sanctis tuis in aeternum (Com os vossos santos para sempre). Essa retomada estabelece uma relação musical entre o começo e o fim da missa. A obra termina recuperando materiais que ouvimos nos primeiros movimentos, criando uma sensação de unidade e encerramento.
Particularmente, considero essa uma das características mais interessantes da conclusão tradicional do Requiem. Depois de atravessarmos tantas atmosferas diferentes, reconhecemos novamente a música que abriu nossa experiência de escuta. Há, naturalmente, uma questão histórica que não podemos ignorar: não sabemos se Mozart teria escolhido essa mesma solução caso tivesse concluído a composição. Entretanto, a retomada dos temas iniciais tornou-se parte da tradição interpretativa da obra e contribui para a maneira como a conhecemos atualmente.
Ao ouvir esses últimos movimentos, vale prestar atenção à alternância entre coro e solistas, aos contrastes entre as fugas e as passagens mais recolhidas e, principalmente, ao retorno da música inicial no encerramento. O Requiem começa pedindo descanso eterno e termina evocando a luz eterna. Entre esses dois momentos, encontramos uma extraordinária construção musical sobre a morte, a fragilidade humana e a esperança.
No próximo texto, vou propor um guia de escuta para a apresentação do Madrigale. Depois de conhecermos a história e os principais movimentos do Requiem, será o momento de reunir algumas orientações que possam tornar a experiência musical ainda mais rica.
🎬 Requiem K. 626, de W. A. Mozart (8. Domine Jesu)
🎬 Requiem K. 626, de W. A. Mozart (9. Hostias et preces)
🎬 Requiem K. 626, de W. A. Mozart (10. Sanctus)
🎬 Requiem K. 626, de W. A. Mozart (11. Benedictus)
🎬 Requiem K. 626, de W. A. Mozart (12. Agnus Dei / Lux aeterna / Cum sanctis tui)








