Chegamos ao último texto desta série dedicada ao Requiem de Wolfgang Amadeus Mozart. Durante os últimos dias, percorremos a história de sua composição, conhecemos as circunstâncias de sua conclusão e procuramos compreender alguns dos principais elementos musicais que fazem dessa obra uma das mais importantes do repertório coral.
Amanhã, 2 de novembro, Dia de Finados, o Madrigale apresentará o Requiem. E gostaria de encerrar essa série com algumas sugestões de escuta, especialmente para quem estará na plateia.
A primeira delas é bastante simples: não é necessário conhecer música para compreender a força expressiva dessa composição. Entretanto, perceber alguns detalhes pode tornar a experiência ainda mais interessante.
Comecemos pela sonoridade da orquestra. Mozart escolheu uma instrumentação muito particular para o Requiem. Em lugar das flautas, oboés e clarinetes que encontramos em muitas de suas outras obras, utilizou trompas de bassetto e fagotes, instrumentos que contribuem para uma sonoridade mais escura. Os trombones, os trompetes, os tímpanos, as cordas e o órgão completam o conjunto. Logo na introdução do Requiem aeternam, essa combinação instrumental estabelece uma atmosfera de grande solenidade.
Depois, procure perceber como o coro se organiza musicalmente. Em alguns momentos, as vozes cantam juntas, construindo grandes blocos sonoros. Em outros, cada naipe desenvolve sua própria linha melódica, criando uma trama contrapontística de extraordinária riqueza.
O Kyrie é um excelente exemplo dessa segunda possibilidade. Sua fuga exige que sopranos, contraltos, tenores e baixos mantenham a independência de suas linhas enquanto participam de uma mesma construção musical.
Outro aspecto importante é a relação entre a música e o significado das palavras. No Dies irae, Mozart utiliza uma escrita vigorosa, com grande intensidade rítmica, para expressar o temor diante do julgamento final. Já no Recordare, o quarteto de solistas apresenta uma atmosfera de recolhimento e súplica. No Confutatis, o contraste é ainda mais evidente. As vozes masculinas apresentam uma música incisiva, associada à imagem da condenação, enquanto as vozes femininas respondem com uma oração de caráter muito mais suave. Essas diferenças não são apenas mudanças de intensidade. Elas fazem parte da maneira como Mozart organiza musicalmente as ideias presentes no texto.
Sugiro também observar o diálogo entre os solistas e o coro. O Tuba mirum, por exemplo, começa com um trombone solista, seguido pela entrada sucessiva das quatro vozes solistas. Já o Benedictus apresenta um diálogo vocal de caráter mais delicado, contrastando com a escrita coral grandiosa do Sanctus. Há momentos em que a música parece falar por meio de uma única voz. Em outros, é a coletividade do coro que assume o protagonismo.
E, naturalmente, vale dedicar uma atenção especial ao Lacrimosa. Sua expressividade nasce do movimento das frases, das tensões harmônicas e da relação entre coro e orquestra. É uma música que nos convida a perceber como a emoção pode ser construída por elementos musicais muito precisos.
Mas gostaria de destacar ainda uma última característica da obra: a relação entre seu início e seu encerramento. Na conclusão tradicional de Süssmayr, a música do Requiem aeternam retorna com o texto Lux aeterna. Depois, ouvimos novamente a fuga do Kyrie, agora com as palavras Cum sanctis tuis. Assim, a composição termina recuperando a música com que começou. Depois de tantos contrastes, reencontramos uma sonoridade que já faz parte de nossa memória.
Como regente, tenho a oportunidade de conhecer essa obra por meio da partitura, dos ensaios e do trabalho cotidiano com os cantores e instrumentistas. Mas a experiência de quem está na plateia é igualmente importante. É ali que todo esse trabalho se transforma em uma experiência de escuta.
Ao longo desta série, procurei apresentar alguns caminhos para compreender o Requiem. Não pretendi esgotar sua riqueza, mas oferecer elementos que possam aproximar o público de sua construção musical. Amanhã, quando a primeira frase instrumental começar, convido você a ouvir com atenção, sem a preocupação de identificar todos os detalhes que discutimos. Permita que a música se desenvolva, que seus contrastes sejam percebidos e que seus momentos de intensidade e recolhimento encontrem espaço na sua própria experiência. Afinal, uma obra como o Requiem de Mozart não se revela inteiramente em uma análise. Há sempre algo que só podemos descobrir quando a música acontece.
Amanhã, 2 de novembro, o Madrigale interpreta o Requiem de Mozart. Espero encontrar vocês para compartilharmos essa experiência musical.








