Entre os muitos lugares onde o Madrigal Renascentista cantou ao longo de sua história, um deles dificilmente poderia ser mais inusitado: a Gruta de Maquiné, em Cordisburgo.
Aconteceu em dezembro de 1967. A gruta estava recebendo uma nova iluminação e o Madrigal foi convidado para participar da cerimônia de inauguração. Não cantaria na entrada, nem em algum espaço preparado do lado de fora. O concerto aconteceria dentro da própria gruta. E parece que a escolha não foi feita sem alguma experiência prévia. Segundo a imprensa da época, três integrantes do Madrigal foram antes a Maquiné para testar as condições acústicas. O resultado deve ter sido convincente. A reportagem descrevia um dos grandes salões da gruta como uma nova espécie de auditório, “dado pronto e perfeito pela natureza”, e dizia que a experiência havia revelado condições acústicas excelentes.
Para um coro, não é difícil entender o fascínio. Uma gruta oferece justamente aquilo que procuramos tantas vezes quando cantamos sem acompanhamento: um espaço que receba o som e o devolva. Evidentemente, muita reverberação também pode criar problemas. As palavras perdem nitidez, passagens rápidas se confundem, a precisão rítmica fica mais difícil. Mas, quando há equilíbrio entre repertório, coro e espaço, a sensação pode ser extraordinária.
Imagino o que deve ter sido ouvir o Madrigal ali. As fotografias que encontrei durante a pesquisa ajudam bastante. Em uma delas, vemos o coro cantando no interior de Maquiné. Em outra, aparece a plateia acomodada dentro da gruta, com o governador Israel Pinheiro entre os presentes. Não é uma fotografia de um concerto convencional com uma paisagem curiosa ao fundo. O salão da gruta é efetivamente a sala de concertos.
A ocasião também diz alguma coisa sobre o lugar que o Madrigal havia conquistado naquele momento. O grupo era chamado para participar de acontecimentos que ultrapassavam a programação musical habitual. A inauguração da iluminação de Maquiné estava ligada a um projeto de valorização turística de Minas Gerais, e colocar ali um dos coros mais conhecidos do estado fazia parte da solenidade.
Hoje, porém, o que mais chama minha atenção é a situação musical em si. Estamos acostumados a pensar no espaço como uma das condições de um concerto: escolhemos uma igreja, um teatro, um auditório. Em Maquiné, essa relação se inverte um pouco. O espaço era o acontecimento. O Madrigal estava ali para cantar, mas também para permitir que as pessoas ouvissem a própria gruta.
Isso me parece especialmente bonito quando penso no canto coral. Um coro não produz seu som sozinho. Produz uma parte dele. O restante depende da arquitetura, das paredes, da distância, dos materiais que recebem as ondas sonoras e da maneira como tudo aquilo retorna aos ouvidos de cantores e público.
Não sei exatamente como o Madrigal soou naquela noite. Nenhuma fotografia pode me dizer isso. Mas gosto de saber que, durante algumas horas, aquelas formações de Maquiné que estamos acostumados a visitar com os olhos também foram experimentadas com os ouvidos. E que quem fez essa experiência foi um coro.