Ao longo da vida, algumas pessoas me perguntaram por que insisti tantas vezes em colocar o Madrigale diante de obras aparentemente grandes demais para um coro jovem. A pergunta faz sentido. Quando montamos a Missa em Si menor, de Bach, os Requiems de Mozart e Brahms e, depois, O Messias, de Handel, ainda estávamos construindo a identidade artística do grupo. Seria muito mais confortável permanecer em um repertório que dominávamos completamente, repetindo aquilo que já fazíamos bem e acumulando concertos seguros. Nunca acreditei, porém, que esse fosse o caminho capaz de formar um coro.
Sempre enxerguei as grandes obras como grandes mestras. Existe uma diferença importante entre cantar uma obra porque já estamos preparados para ela e cantar uma obra para nos prepararmos através dela. A primeira situação confirma aquilo que já sabemos fazer. A segunda nos obriga a descobrir capacidades que ainda não desenvolvemos. Grandes partituras são implacáveis nesse aspecto, porque não permitem esconder fragilidades. Exigem estudo, disciplina, paciência, escuta, humildade e uma confiança muito grande entre todos os envolvidos. Aos poucos, percebemos que o verdadeiro desafio nunca foi apenas aprender as notas, mas transformar a maneira como o coro trabalhava e se relacionava com a própria música.
Curiosamente, nunca escolhi esse repertório por uma espécie de coleção de monumentos da história da música. Jamais pensei que o Madrigale precisasse cantar Bach, Mozart ou Handel apenas porque eram Bach, Mozart ou Handel. Cada obra chegava ao coro porque havia algo nela que poderia nos fazer crescer. Às vezes era a escrita contrapontística. Em outras, a resistência exigida por uma obra longa. Em outras ainda, a necessidade de uma escuta mais refinada entre coro, orquestra e solistas. O repertório deixava de ser um objetivo em si para se tornar um instrumento de formação.
Essa maneira de trabalhar acabou moldando a própria identidade do Madrigale. O grupo aprendeu que os desafios não apareciam quando estávamos completamente prontos, eles surgiam justamente um pouco antes desse momento. Era preciso confiar que o trabalho nos faria chegar até lá. Talvez por isso o coro tenha desenvolvido, ao longo dos anos, uma característica que sempre admirei: a disposição para ousar. Evidentemente, nem todos se sentiam confortáveis com esse caminho. Houve cantores que preferiam desafios menores, trajetórias mais previsíveis, repertórios menos arriscados, isso faz parte da vida de qualquer grupo. Mas a cultura do Madrigale acabou sendo construída por aqueles que encontravam motivação exatamente naquilo que ainda parecia difícil.
Com o tempo, compreendi que as grandes obras nunca foram o verdadeiro objetivo. Elas eram o meio pelo qual um coro aprendia a trabalhar melhor, a ouvir melhor e a acreditar mais em si mesmo. Talvez essa seja a maior herança que um regente possa deixar a um grupo: não um repertório impressionante ou uma lista de concertos memoráveis, mas uma forma de olhar para o impossível, a compreensão de que nenhuma obra é grande demais para sempre. Ela é apenas grande demais até que o trabalho coletivo a transforme em parte de sua própria história.