Depois de tantos anos trabalhando com coros, continuo achando difícil responder de maneira simples o que faz de alguém um bom cantor de coro. Evidentemente, uma boa voz ajuda. Afinação, técnica vocal, musicalidade, leitura, experiência também. Mas conheci cantores que possuíam praticamente todas essas qualidades e que, ainda assim, tinham dificuldades para cantar em conjunto. Da mesma maneira, trabalhei com pessoas que não eram grandes leitores de partitura ou que chegaram ao coro com uma formação vocal ainda pouco desenvolvida e se tornaram excelentes coralistas.
A primeira questão é que não existe um bom cantor de coro fora do coro em que ele canta. Parece uma obviedade, mas não é. Quando trabalho com um conjunto experiente, espero encontrar cantores com maior conhecimento e capacitação vocal, porque o repertório e o nível do trabalho provavelmente exigirão isso. Num coro iniciante, a situação é diferente. Parte considerável da formação vocal acontecerá durante o próprio processo, e cabe ao regente desenvolvê-la. Nesse caso, procuro inicialmente uma qualidade de voz que tenha condições de caminhar na direção da sonoridade que pretendo construir.
Isso também significa que não acredito numa voz coral ideal que sirva para qualquer repertório. O estilo musical impõe necessidades diferentes. Um coro formado majoritariamente por vozes ligeiras, de emissão mais clara, dificilmente responderá da mesma maneira a um repertório romântico que exija maior densidade e uma formação vocal de características mais líricas. Posso ter dentro desse grupo um cantor individualmente preparado para essa outra emissão, mas ele provavelmente precisará se adaptar à realidade sonora dos demais. E, se essa adaptação significar sacrificar continuamente aquilo que sua voz tem de melhor, teremos um problema para o coro e também para ele. Escolher repertório é, entre tantas outras coisas, saber quais vozes temos diante de nós.
Entre uma bela voz e um bom ouvido, eu gostaria, naturalmente, de ficar com os dois. Mas, obrigado a escolher, ficaria com o ouvido. Uma voz bonita que não escuta as outras pode rapidamente se tornar um problema; uma voz talvez menos impressionante individualmente, mas capaz de perceber afinação, equilíbrio, timbre, dinâmica e aquilo que está acontecendo ao redor, pode crescer enormemente dentro do conjunto. Cantar em coro pressupõe uma forma particular de escuta: eu produzo o meu som enquanto, ao mesmo tempo, estou permanentemente atento ao som que os outros produzem.
Algo semelhante acontece com a leitura musical. Saber ler bem uma partitura facilita muito o trabalho e amplia a autonomia do cantor, mas nunca considerei essa habilidade condição absoluta para que alguém seja um bom coralista. Conheci muitos cantores com extraordinária capacidade de aprendizagem pela repetição. Depois de aprendida a música, sua dificuldade inicial de leitura praticamente desaparecia do processo. O resultado musical me interessa mais do que o caminho utilizado pelo cantor para chegar até ele.
Há ainda uma qualidade que considero fundamental e que nem sempre recebe a mesma atenção: a capacidade de compreender o gesto do regente. Quanto mais o cantor consegue perceber e responder às informações que estão sendo transmitidas pela regência, maiores são as possibilidades interpretativas do conjunto. Não estou falando de obediência mecânica. Um coro que apenas reproduz comandos pode ser preciso e continuar musicalmente pouco interessante. Refiro-me a uma atenção capaz de transformar um gesto em alteração de frase, articulação, dinâmica, andamento ou caráter quase no instante em que ele acontece. Quando isso funciona, o concerto deixa de ser apenas a reprodução daquilo que foi acertado nos ensaios, mas passa a ser um espaço onde a música se faz.
E chegamos ao aspecto que, para mim, reúne todos os anteriores: um bom cantor de coro precisa saber cantar com os outros. Isso exige alguma renúncia, mas não gosto muito da ideia de que cantar em coro signifique simplesmente apagar a individualidade. Não quero cinquenta pessoas tentando deixar de possuir uma voz própria. Quero que compreendam quando determinada característica individual contribui para o resultado e quando começa a interferir nele. Um vibrato, uma intensidade ou determinada maneira de articular podem ser perfeitamente adequados em certo repertório e inadequados em outro. O parâmetro não deveria ser uma abstrata “voz de coro”, mas a música que estamos fazendo e a sonoridade que aquele conjunto consegue construir.
Já convivi com excelentes cantores que encontravam dificuldade justamente aí. A atitude solística permanente acaba interferindo no equilíbrio e, depois de algum tempo, deixa de incomodar somente o regente. Os próprios cantores, sobretudo aqueles mais atentos ao conjunto, percebem quando alguém parece estar fazendo outra música dentro da música de todos. Surgem tensões que já não são apenas sonoras. É um dos pontos em que a prática coral mostra com bastante clareza que uma qualidade individual, quando não consegue dialogar com o coletivo, pode deixar de funcionar como qualidade.
Naturalmente, nada disso dispensa estudo, presença, pontualidade e responsabilidade. O coro depende de uma espécie muito concreta de confiança. Cada cantor precisa saber que os demais aprenderão suas partes, estarão nos ensaios necessários e assumirão sua parcela do trabalho. Não há grande mistério nisso, embora qualquer regente saiba quanto trabalho pode existir por trás dessa frase.
Por isso, se hoje tivesse que escolher uma característica para definir um bom cantor de coro, eu não escolheria a voz mais bonita, a melhor leitura ou a técnica mais desenvolvida. Escolheria a capacidade de perceber que sua voz, naquele momento, faz parte de algo maior. Não para desaparecer dentro dele, mas para encontrar ali o seu lugar.