Sempre me interessou o fato de que os seres humanos cantam juntos. Cantamos em igrejas, festas, estádios, manifestações, cerimônias. Cantamos profissionalmente e cantamos sem qualquer pretensão artística. Em algum momento, alguém começa uma canção e outras pessoas se juntam. Há nisso alguma coisa que parece nos acompanhar há muito tempo.
Talvez porque cantar junto produza algo que não existe quando cantamos sozinhos. Uma voz continua sendo uma voz. Duas, dez ou cinquenta vozes reunidas, porém, podem produzir uma resultante que já não pertence inteiramente a nenhuma delas. É dessa combinação de vozes, e também de entregas, que nasce esse instrumento tão particular que chamamos coro.
Sempre gostei dessa maneira de fazer música. O piano ocupa um lugar muito importante na minha vida. Diante dele, tenho um instrumento inteiro à minha disposição. Com um coro é diferente: meu instrumento é constituído por pessoas. E pessoas trazem suas vozes, suas experiências, suas maneiras de ouvir, suas personalidades e, naturalmente, suas individualidades.
A individualidade não precisa desaparecer. O canto coletivo não exige que todos deixem de ser quem são. Mas exige uma compreensão de que, naquele momento, estamos construindo alguma coisa que depende também do outro. É preciso ouvir. É preciso ajustar. Às vezes, é preciso cantar menos para que alguma coisa soe mais. Talvez por isso o canto coletivo possa ensinar humildade. Minha voz importa, mas ela não é a única. Meu tempo precisa encontrar o tempo do outro. Minha respiração participa de uma frase que atravessa muitas pessoas. Meu som precisa caber dentro de outro som.
Ao longo dos anos, felizmente, vivi muitas vezes aquele momento em que isso acontece. O grupo deixa de ser apenas um conjunto de cantores e passa a funcionar como um instrumento. Também já vivi o contrário. Coros formados por boas vozes que não conseguiam verdadeiramente se integrar porque havia individualidades demais querendo permanecer no primeiro plano. E isso sempre me pareceu revelador: para existir um coro, não basta haver pessoas cantando juntas. É necessário construir o coletivo.
Talvez seja justamente isso que continue me atraindo depois de tantos anos de regência. Gosto desse instrumento estranho que não posso possuir, guardar numa caixa ou deixar esperando na sala até o próximo ensaio. Ele precisa ser reconstruído cada vez que as pessoas se encontram.
O piano está lá quando me sento diante dele. O coro só existe quando estamos juntos.