Nova Iorque. Depois de tantas cidades médias, universidades e auditórios comunitários, o coro entrava em uma das capitais culturais do mundo. Vista de Newark, à noite, Manhattan aparecia como uma massa de luzes. A entrada pelo Lincoln Tunnel dava aos cantores a sensação de atravessar uma fronteira simbólica. Não era apenas mais uma parada da excursão: era Nova Iorque.
Newton Silva percebeu isso com clareza. Suas crônicas deixam de falar apenas dos concertos e passam a registrar a cidade: a 57th Street, o Carnegie Hall, os cafés que nunca fechavam, a jukebox tocando Elvis Presley, Petula Clark e também The Girl from Ipanema, sinal de que a bossa nova já circulava como imagem moderna do Brasil. O Madrigal levava a música coral aos palcos, mas Tom Jobim e Vinícius também estavam ali, atravessando a cultura de massa norte-americana.
A cidade oferecia tudo ao mesmo tempo. Central Park com patinadores no gelo, Guggenheim, Metropolitan Museum, Museu de Arte Moderna, Picasso, Cézanne, Kandinsky, Matisse. Um choque de escala. O Brasil que os cantores representavam no palco se via diante de uma metrópole que transformava arte, consumo, boemia e espetáculo em parte da mesma paisagem.
O Greenwich Village talvez tenha sido uma das imagens mais fortes daquela experiência. Cafés enfumaçados, artistas vendendo quadros na rua, conversas sobre pintura, teatro, música e literatura. Newton viu ali uma espécie de Montmartre americano, um lugar onde a vida artística parecia menos separada da rua. Para um coro vindo de Belo Horizonte, esse contato com a boemia intelectual nova-iorquina ampliava a viagem para além dos concertos. O Madrigal também aprendia a ver outros modos de existir culturalmente.
Mas Nova York não era só brilho. Newton registrou também as contradições da cidade: trânsito sufocante, desemprego, tensões raciais no Harlem, déficit habitacional, desigualdade. A metrópole que encantava pelos museus e vitrines também revelava seus problemas. Essa atenção é importante. O olhar do Madrigal sobre os Estados Unidos não foi apenas deslumbrado. Aos poucos, a excursão ensinava também a perceber fissuras no grande espetáculo americano.
No dia 24 de janeiro, veio o concerto no Town Hall. A crítica do New York Herald Tribune reconheceu a amplitude do repertório, de Victoria a Villa-Lobos, a disciplina do coro, o controle de Karabtchevsky e a qualidade de Maria Lúcia Godoy. A plateia brasileira era expressiva, com diplomatas, políticos, artistas e músicos. Depois da apresentação, a cônsul Dora Vasconcelos recebeu o grupo em seu apartamento, decorado com objetos brasileiros. Empadas e guaraná ajudaram a matar um pouco da saudade.
O concerto foi gravado em fita cassete, e esse registro ainda permite ouvir a qualidade do Madrigal naquele momento. É prova sonora de um coro em alta forma, cantando no centro de um dos sistemas culturais mais exigentes do mundo. O concerto está disponível na playlist Concerto em Nova Iorque (1965).
Houve também a expectativa frustrada do Ed Sullivan Show. A Embaixada havia anunciado a possível participação do grupo, e Louis Serrano, correspondente de O Globo em Los Angeles, escreveu que ficou diante da televisão esperando o Madrigal aparecer, mas o grupo não apareceu. O episódio é pequeno, mas revelador. Mostra que a excursão já não era medida apenas pelos concertos. Havia também o desejo de transformar o Coro do Brasil em imagem televisiva, em presença na cultura de massa americana.
Nova Iorque concentrou tudo: palco prestigioso, crítica favorável, diplomacia, bossa nova, museus, boemia, contradições urbanas, saudade brasileira e expectativa midiática. Para o Madrigal, cantar no Town Hall foi mais do que cumprir uma data importante da turnê. Foi ocupar, ainda que por uma noite, o centro simbólico de uma cultura que o grupo observava com fascínio, estranhamento e coragem.