terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Coral Acesita, 1992: quando o ensaio deixou de ser apenas ensaio

Cheguei a Timóteo em 1992, por convite do maestro Luciano Lima. Naquele momento, eu era regente do Madrigal Scala e ainda aluno do curso de regência da Escola de Música da UFMG. Não era alguém “pronto”, mas alguém em formação, aprendendo enquanto fazia.

Timóteo, à época, era Acesita, não como figura de linguagem, mas como realidade social. A empresa organizava o ritmo da cidade, o trabalho, os vínculos, os afetos. O Coral Acesita refletia isso: formado por membros da comunidade, funcionários e externos, mas todos, de algum modo, atravessados pela mesma identidade coletiva.

A ideia de coro que existia ali era clara e legítima para aquele contexto: uma atividade cultural, um espaço de lazer, uma vontade de fazer música sem grande compromisso com uma disciplina coral mais rigorosa. Para a região, aquilo já era suficiente e o coro cumpria seu papel, representava bem a empresa e a cidade, e ninguém sentia falta de algo além disso.

Minha chegada se deu num momento delicado. Eu substituía a Cristina Grossi, assistente do regente titular Luciano Lima e muito querida por todos. Cristina precisou se afastar porque estava grávida e a viagem até o Vale do Aço era, e é, muito cansativa.

Fui recebido com aquele olhar mineiro típico: educado, silencioso, atento, um “quem é esse?” dito sem palavras. A diferença entre mim e o trabalho que já existia não estava em ideias abstratas, mas no ensaio. Sempre acreditei que o ensaio é o verdadeiro lugar de transformação de um coro. Falo pouco, deixo que cantem mais. Busco harmonia entre todos, atenção à afinação, cuidado com a interpretação e, sobretudo, um aumento da autoestima coletiva. Acredito no fazer bem porque é possível, não porque alguém mandou.

O Luciano ensaiava um dia da semana, eu em outro. Tínhamos formas distintas de trabalhar. De um lado repertórios mais acessíveis; de outro, menos fala, mais exigência, mais desafio. O episódio que marcou essa virada foi a apresentação no fim daquele ano, quando propusemos cantar o Credo de Vivaldi. Mesmo com a incredulidade de muitos, disse que cantariam, sim. Organizei o ensaio, sustentei tudo ao piano, trabalhei com método e confiança e eles cantaram. Ali não foi nenhum gesto heroico, mas, sim, um gesto pedagógico.

A partir dali, passou a fazer sentido a ideia de que aquele coro podia mais do que imaginava. A mudança foi coletiva e, um ano depois, o Coral Acesita já era assumido como um importante cartão de visitas da empresa, convidado para apresentações em toda a região e, em determinado momento, vindo cantar em Belo Horizonte e outras cidades do país.

O coro deixou de ser apenas um espaço de lazer para tornar-se um espaço de expressão e de exigência. E exigência, quando vem acompanhada de cuidado, gera orgulho. O momento em que eles conseguiram cantar algo que parecia difícil, mas para o qual haviam se dedicado, foi decisivo. Ali se afirmaram como músicos, mesmo sem formação formal.

Hoje, olhando para trás, penso que a transformação maior não foi do coro, mas das pessoas. Se aquele grupo tivesse permanecido apenas como uma atividade cultural dentro de uma empresa, teria sido apenas isso: um coro que apresentava pequenas peças para a comunidade. O que se ganhou ali foi outra coisa: a experiência de que o esforço coletivo pode revelar capacidades que ninguém imaginava possuir.

Para mim, ficou uma amizade profunda por uma turma muito boa, muito alegre, e a confirmação de algo que nunca abandonei como regente: ser “teimoso”. Isso, no melhor sentido da palavra, é acreditar nas pessoas antes que elas acreditem em si mesmas.


Concerto Comemorativo do 5o. aniversário do Coral Acesita - 05/07/1992


Coral Acesita em 1992, sob a regência de Luciano Lima
Fila de baixo (esq. para direita da foto): Soraya Caldeira, Maria Célia Pereira, Mabel Cristina, 
Lênis Oliveira, Inês Tibúrcio, Rosane Rolla , Marília Ruas
Fila do meio: Sandra Hespaniol, Leila Gonçalves, Jardelina Araújo, Maria das Graças Nogueira, 
Maria das Dores Barbosa Minafra, Ana Maria Araújo
Fila de cima: Arnon (eu cantava na primeira parte do concerto), Edson Moura, Evani Magalhães, 
Marco Antônio Araújo, José Antônio Bispo, José Cecílio Moreira, João Carlos.


Minha primeira apresentação com o Coral Acesita - Auditório do Escritório Central da Empresa (abril de 1992)




segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Saia do meu caminho

Saia do meu caminho, de Custódio Mesquita e Ewaldo Ruy, ocupa um lugar muito particular na minha memória. O arranjo de Hely Drummond, escrito para as meninas do Madrigale, tem uma clareza quase desconcertante, emocional e musical, que me toca profundamente.

Lembro especialmente de um verso que sempre me chama a atenção: “e você francamente, decididamente, não tem coração”. Há algo de quase teatral nesse trecho, mas o arranjo e a interpretação mantêm tudo em equilíbrio. Nada de excesso, apenas a contundência necessária.

Reouvir Saia do meu caminho é reencontrar um outro lado do HelyElas: o da afirmação. Uma música que não pede licença, mas também não levanta a voz. Diz! E basta.

Um belo arranjo!

🎬 Saia do meu caminho - Coro Madrigale (2010)

 

Salão com pessoas ao redor

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domingo, 8 de fevereiro de 2026

Scala em Novo Hamburgo

Em 1991, eu regia o Madrigal Scala e fomos ao sul do Brasil. Num tempo em que não havia muitas possibilidades de interação remota, viajar fazia parte do aprendizado, ainda que não soubéssemos formular isso com clareza. A experiência se dava no deslocamento, na presença, no convívio.

O destino era o Festival de Coros do Vale do Sinos, em Novo Hamburgo. Mas o que nos movia não era apenas a apresentação, havia o desejo de criar maior afinidade entre os componentes do grupo. Uma excursão impõe convivência: horas juntos, conversas atravessadas pelos ensaios, silêncios compartilhados, e, aos poucos, o grupo aprende a se ajustar, a respeitar tempos diferentes, a sustentar a atenção mesmo quando a concentração aumenta e a tensão aparece diante das apresentações ao lado de outros coros do país.

Lembro dos ensaios em igrejas, do frio atravessando o corpo, da concentração necessária para fazer a música acontecer apesar das condições. Lembro também da alegria depois de cantar, do riso solto, do alívio. Tudo era intenso porque tudo acontecia ao mesmo tempo.

No festival, cantar ao lado de outros coros foi decisivo. Ouvir outras sonoridades, perceber diferentes maneiras de construir repertório, entender melhor o próprio lugar. Não como comparação, mas como reconhecimento.

A viagem consolidou algo que ainda estava em formação: um modo de funcionar, uma ética de trabalho, a percepção de que a música coral se constrói tanto no palco quanto fora dele. Que o coletivo precisa ser sustentado em movimento, mesmo quando o chão muda.

Hoje, ao olhar fotos daquele tempo, penso no que se formou ali. O Scala, e eu próprio, aprendemos, naquela viagem, que cantar junto exige mais do que afinação. Exige presença, cuidado e disponibilidade.

E foi, de fato, uma viagem (apresentação) e tanto.







sábado, 7 de fevereiro de 2026

1959 - o Madrigal Renascentista vai ao Sul (4)

 

(Esse post é sequência da publicação do dia 31/01/2026)

1959 — quando o sucesso ganha corpo

Ao chegar ao Sul do Brasil, o Madrigal Renascentista já não era apenas um coro em excursão. Era um nome que despertava expectativa. E Porto Alegre deixou isso claro. 

O primeiro concerto aconteceu em Teatro São Pedro, em 19 de julho de 1959, sob patrocínio da Divisão de Cultura do Estado. Os relatos da imprensa são diretos: teatro lotado, público espremido pelas galerias, aplausos insistentes, entusiasmo difícil de conter. Não se tratava mais de curiosidade. Era adesão.

Os solos de Maria Lúcia Godoy e Amin Abdo Feres foram destacados como momentos de arrebatamento coletivo. Mas o efeito não se restringia aos indivíduos. O coro, como conjunto, produzia uma impressão de energia organizada, juventude disciplinada e presença musical madura, combinação rara e poderosa.

Poucos dias depois, o Madrigal retorna ao mesmo teatro para um concerto oferecido aos participantes do IV Congresso Nacional de Folclore. O contexto já era outro: um público especializado, pesquisadores, músicos, autoridades culturais. Ainda assim, ou justamente por isso, o impacto foi semelhante. Ao final, o palco foi tomado por pessoas que queriam cumprimentar os cantores e, sobretudo, Isaac Karabtchevsky. Foi preciso “boa política”, como registrou o jornalista, para permitir a retirada do coro e o cumprimento do compromisso seguinte.

Esse detalhe é revelador. O Madrigal começava a ocupar um lugar que ultrapassava o concerto em si. Passava a ser referência, modelo, ponto de convergência. Não apenas pela qualidade musical, mas pelo modo como se apresentava: repertório ambicioso, execução cuidadosa, postura coletiva firme.

Aqui já é possível falar, sem exagero, no fenômeno Madrigal Renascentista. Um coro que lotava salas, atraía imprensa, mobilizava instituições e circulava com apoio oficial. Um grupo jovem que, em pouco tempo, passou a representar uma ideia de excelência possível, construída com trabalho, disciplina e convicção artística.

O Sul foi, nesse sentido, um espelho. Ali, o Madrigal se viu refletido pelo olhar do público e confirmou algo que já se desenhava: o coro não era apenas bem-sucedido. Ele era necessário.

No próximo post, atravessamos a fronteira. A Argentina entra em cena — e, com ela, um outro nível de articulação entre música, imprensa e diplomacia.




 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Ilusão à toa: a delicadeza como gesto

Do HelyElas, que as meninas do Madrigale cantaram em setembro de 2010, na Fundação de Educação Artística, Ilusão à toa, de Johnny Alf, é, por gosto, uma das peças que eu mais ouço. É uma recorrência sem muitas explicações, mas que gosto muito porque me encanta a melodia e considero esse um dos melhores arranjos do Hely.

A intenção com a peça era criar um momento de respiro dentro da apresentação. Um daqueles momentos de suspensão, quando o tempo parece desacelerar e a escuta se recolhe. E foi o que aconteceu: com o Hely, o piano não acompanhava, mas respirava a canção; o coro entrou com o mesmo cuidado, pois ali a melodia é o centro e tudo o mais orbita em torno dela. O canto busca leveza, transparência, tempo interno.

Me lembro que a reação do público foi silenciosa e profundamente atenta. Uma emoção contida, daquelas que não pedem aplauso imediato. Os comentários que vieram depois, me lembro, diziam o essencial: “que peça delicada”. E assim foi e continua sendo.

Muito me encanta essa canção.

Ilusão à toa (2) - Coro Madrigale (2010)

 

 Uma imagem contendo no interior, mesa, edifício, quarto

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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Gloria de Vivaldi no Conservatório

1994. Numa aula com o meu querido Mestre Sérgio Magnani, em algum momento, entre uma frase e outra, ele disse, assim como quem não quer nada, que eu deveria reger o Gloria, de Antonio Vivaldi. A primeira reação foi incredulidade. Logo depois, medo. Mas havia algo mais forte atravessando tudo isso: a confiança dele e nele. Uma confiança que não explicava, não justificava, apenas apontava para frente. 

Magnani tinha esse dom raro de colocar alguém em risco consciente. Via caminhos antes que o próprio caminhante os enxergasse. Apostava no futuro como quem continua um trabalho de vida. 

Aceitei. Não porque me sentisse pronto, mas porque aquele desafio acendeu um fogo interno que reconheço até hoje. Descobri ali algo que só mais tarde formulei com clareza: eu sabia reunir pessoas em torno de um objetivo. Mesmo sem todas as respostas, eu sabia chamar, organizar, seguir.

O coro foi montado com o que havia. Juntei o Madrigale e o Coral Acesita para dar corpo à obra. Outros convites foram feitos, nem todos aceitos. Seguimos com quem topou estar ali. Não como solução ideal, mas como solução possível e honesta. Foi um teste para todos nós.  no auditório do Conservatório. Naquela época, ainda Escola de Música da UFMG.

A orquestra nasceu do mesmo espírito. Jovens músicos, alguns ainda crianças, que chegaram com entusiasmo e entrega. Ensaiar com eles me ensinou duas coisas fundamentais: paciência e clareza de gesto. Curiosamente, nunca me lembro de ter pensado que aquilo poderia não dar certo. Éramos jovens. Éramos ousados. Não havia razão para duvidar.

Quando se assume um projeto assim, aprende-se rápido que a responsabilidade não se divide. Ela se compartilha, mas pesa. É preciso cuidar das pessoas, sim, mas é preciso, sobretudo, ser fiel à música que se quer realizar.

As solistas, Kátia Malloy e Tereza Cançado, trouxeram segurança e apoio num momento crucial. Foram preparadas com rigor técnico pela saudosa Vania Soares. Ali aprendi outra lição que ficou: estamos o tempo todo nos apoiando uns nos outros e, ao mesmo tempo, todos esperam que alguém sustente a confiança.

Foi nesse Gloria que se firmou uma ideia que nunca mais me deixou: fazer música com o que se tem nas mãos. Não esperar a tal “situação ideal”. Essa postura não nasceu de heroísmo, mas de necessidade, e se revelou, com o tempo, uma escolha ética. Ela me acompanhou depois, já como professor universitário, e me acompanha até hoje, mesmo quando não há mais nada a provar.

Quando o concerto terminou, o que senti foi alegria. Logo em seguida, o pensamento no próximo desafio. Hoje, quando volto a essa história, a alegria permanece, acompanhada de uma saudade mansa e imensa do Magnani.

Aquele Gloria não encerrou nada. Ele apenas abriu a porta.








quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Sabiá

Em 2010, no espetáculo HelyElas, Sabiá, de Tom Jobim e Chico Buarque, foi apresentada pelo Coro Madrigale de um modo tão simples quanto decisivo. Hely Drummond era o eixo da cena. Não havia regente em palco. Eu assistia da plateia. O trabalho estava montado, mas, naquele momento, a música era dele e delas.

Para essa peça, o coro se retirava. Permaneceram no palco apenas Clara Guzella, Isabela Santos e Márcia Maria Teixeira Reis, interpretando o arranjo de Angelo Fernandes. Um trio feminino, três vozes individuais em diálogo, sustentadas por uma escrita vocal cuidadosa, difícil e afetuosa com a canção.

Sabiá é um texto delicado, sem excessos. A escolha do trio não foi efeito cênico, mas uma solução musical para uma sonoridade que eu queria. Tudo se resolvia na escuta horizontal, sem hierarquia, sem necessidade de controle. Havia confiança e isso se ouvia.

O público percebeu de imediato: surpresa, atenção maior, um silêncio mais atento ao redor de três excelentes cantoras. A rarefação do grupo deslocou o foco para o essencial.

Ao lembrar dessa apresentação hoje, penso menos no espetáculo e mais nelas. Na decisão de deixá-las ali, sozinhas na cena, sustentando uma canção que só acontece plenamente quando cantada com escuta. E quando a música é entregue a quem sabe esperar, ela encontra seu tempo.

🎬 Sabiá - Coro Madrigale (2010)

 

Desenho de uma pessoa

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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

NMC - Coral Cantáridas: Música, Tradição e Extensão na UFMG

(por Gabriel Santos)

A música tem o poder de unir vozes, histórias e comunidades. No coração do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, essa premissa ganha vida através do Coral Cantáridas. Criado em maio de 1991, o grupo nasceu sob a administração do Prof. Tomaz Aroldo da Mota Santos como parte do projeto "Corais no Campus", coordenado originalmente pela Profa. Maria do Carmo Campara, da Escola de Música.

Uma Trajetória de Pluralidade

Desde a sua fundação, o Cantáridas atua de forma ininterrupta na divulgação do canto coral. O grupo marca presença em formaturas, apresentações em diversas unidades da UFMG e festivais em espaços públicos de Belo Horizonte e do interior de Minas Gerais.

O que torna o grupo especial é sua heterogeneidade: ele é composto por alunos, ex-alunos, professores, funcionários da universidade e moradores de bairros vizinhos. Essa mistura de perfis faz do coral um espaço plural de convivência.

Muito Além das Partituras: Um Lugar de Convivência

Para nós, o coral não se resume aos ensaios técnicos. Valorizamos os momentos de confraternização, as comemorações de aniversários e aquele café antes do ensaio para "pôr a conversa em dia". Essa socialização cumpre uma das funções mais nobres de um projeto de extensão: promover a troca de experiências entre o público interno e externo da universidade.

 "Quando assumi a regência do Cantáridas, percebi que o grupo tem a tradição de ser uma família. Essa relação saudável e funcional nos dá liberdade para construir o trabalho juntos, desde a avaliação da regência até a escolha do repertório e temas das apresentações." — Gabriel Santos, Regente.


Curiosidade: O que significa "Cantáridas"?

Você sabia? O nome é uma homenagem ao mundo biológico onde o grupo nasceu. Cantáridas é o nome de um besouro (Lytta vesicatoria), utilizado na medicina antiga por suas propriedades afrodisíacas e diuréticas. Um detalhe científico que reflete a identidade do ICB!


Repertório e Liderança

Ao longo dos anos, o Cantáridas dedicou-se a um repertório eclético, passando pela música sacra, pastoral e, claro, pela riqueza da Música Popular Brasileira (MPB).

Atualmente, o coral conta com uma equipe dedicada:

 Regência: Gabriel Santos.

 Coordenação: Profa. Rosy Isaias, Carlos Henrique Silva (TAE) e Rosário Neves (ex-aluna).

 Comunicação: Lucas Jorge (pós-graduando), responsável por nossas redes sociais.

Ao olhar para o passado, honramos os regentes que nos trouxeram até aqui, como Willsterman Sottani Coelho, Riane Menezes, Frederico Natalino, Messias Oliveira, Gabriel Oliveira e Matheus Almeida.


O Futuro é Melodia

O Coral Cantáridas segue firme em sua missão de encher os corações das pessoas de esperança através da música. Que essa jornada continue por muitos e muitos anos!







 

 Gabriel Santos é graduando em Licenciatura em Educação Musical e Bacharelado em Canto Lírico. Tem experiência em regência coral, técnica vocal e preparação vocal de corais.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Africa (Madrigale Internacional)

No concerto internacional do Madrigale, incluir Africa, do Toto, com arranjo de Mark Brymer, não foi um gesto de concessão ao repertório popular, nem uma tentativa de aproximação fácil com o público. Foi uma escolha consciente de repertório, daquelas que testam os limites do coro: musicais, estéticos e simbólicos.

Africa é uma canção curiosa: extremamente conhecida, carregada de camadas rítmicas, texturas vocais e um imaginário que, se tratado superficialmente, pode facilmente cair no exótico ou no caricatural. O desafio, no coro, era justamente outro: retirar o excesso de referência externa e fazer a música funcionar como estrutura sonora coletiva, com rigor, escuta e equilíbrio.

O arranjo de Mark Brymer ajuda nesse caminho. Ele entende o coro como instrumento e não como efeito. As vozes se organizam em planos claros, o pulso é sustentado pelo conjunto, e o ritmo, elemento central da peça, só funciona quando todos respiram juntos. Não há espaço para individualismos e se alguém tenta “brilhar”, o groove se perde. Africa não tem lugar para exibicionismo.

No contexto de um concerto internacional, essa escolha ganha outra camada. Um coro brasileiro cantando uma canção pop norte-americana que fala, de forma idealizada, sobre um continente africano, coloca em jogo questões de escuta, distância e tradução cultural. Nada disso se resolve no discurso. Resolve-se no modo de cantar: sem exagero, sem imitação, sem pastiche. Apenas fazendo a música soar com honestidade.

O resultado não foi o de uma plateia reconhecendo um sucesso conhecido, mas o de um coro afirmando sua capacidade de transitar por linguagens diferentes sem perder identidade. Talvez seja isso que mais me interessa nesse tipo de repertório: quando uma música amplamente conhecida deixa de ser “canção” e passa a ser experiência coral. 

🎬 Madrigale Pop Internacional – 13. Africa

 


 

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Mariana

Hoje é aniversário da minha filha Mariana, dia para ser marcado com palavras. Não para celebrar a data em si, mas para registrar, com visão de pai, o que permanece quando o calendário passa: quem ela é, o modo como ocupa o mundo, a forma quase silenciosa com que transforma os ambientes por onde caminha. Dessa forma, vou tentar, aqui, descrever essa minha Filhota para que o mundo comemore comigo.

Quando a Mariana entra, o clima muda. Ela traz sempre um sorriso iluminando, e mesmo quando as lágrimas chegam, não são jamais vazias: emocionam quem está por perto, porque carregam verdade. Ela tem uma presença firme, íntegra, radiante. Firme e suave ao mesmo tempo. Aquariana no melhor sentido: pensa no coletivo, nos amigos, nos animais, no bem-estar dos outros. Uma mulher que não ocupa o mundo para si, mas com os outros.

A força dela se manifesta de muitos modos: nas decisões que toma, na escuta atenta, na forma de cuidar e, sobretudo, na maneira como se posiciona. Sensibilidade firme, com uma pitada justa de inteligência estratégica, ela não tolera que mexam com os seus. Protege com palavras e com presença. Sua delicadeza mora justamente aí: na palavra, e se revela com nitidez quando alguém está em apuros e precisa de abrigo. Aí ela se faz uma leoa e não admite, como eu disse, que mexam com os seus.

Houve um momento claro em que percebi que ela já não era apenas “minha filha”, e isso foi quando passei a ser reconhecido como o "pai da Mariana". E isso diz muito porque eu identificava a doçura, a confiança e o sorriso que sempre estiveram ali, mas passei a ver o que amadureceu com o tempo: a independência, construída sem ruptura, como quem cresce por dentro. 

Nesse lugar, ser o "pai da Mariana" me ensinou algo essencial: que para cuidar de verdade, é preciso desarmar-se, mudar de lugar, ser mais cúmplice. É por isso que ela me lê melhor do que imagino, especialmente quando conversamos sobre nossos próprios problemas, naqueles momentos em que não há hierarquia, apenas humanidade e confiança compartilhadas.

Hoje, meu orgulho não é circunstancial, mas inteiro, de perceber e ver a mulher na qual ela se tornou. Sou grato a ela por algo simples e imenso: por ter me escolhido como pai. O que desejo para ela, agora, é menos trabalho e mais espaço para o próprio tempo. E deixo aqui a palavra que, no meu ver, a define hoje: amor. 

Termino este texto com um momento de música feito por pai e filha. Um momento cheio de cumplicidade e emoção intensa. Quem tiver que ver, verá...

🎬 Yesterday - Lennon & MacCartney (Mariana Malloy)




Coral Acesita, 1992: quando o ensaio deixou de ser apenas ensaio

Cheguei a Timóteo em 1992, por convite do maestro Luciano Lima. Naquele momento, eu era regente do Madrigal Scala e ainda aluno do curso de ...