A história da minha orquestração de As Sete Palavras de Christus Crucificatum, de Hostílio Soares, começou de um modo quase hilário. Em 1995, cheguei atrasado a uma aula de Instrumentação e Orquestração, no curso de regência. O professor Oiliam Lanna estava com a partitura em mãos, tentando convencer algum dos meus colegas a orquestrar a peça. Quando entrei na sala, a decisão pareceu se resolver imediatamente. Como eu já trabalhava com coros, ele entendeu que eu era o mais indicado para assumir a tarefa. Foi uma espécie de punição. Hoje, posso dizer: uma punição muito bem-vinda.
A obra original era escrita para coro a cinco vozes, solistas e órgão. Minha tarefa foi levá-la para a orquestra, tentando preservar sua força expressiva e, ao mesmo tempo, permitir que ela respirasse em outra dimensão sonora. A primeira execução das 7 Palavras com a minha orquestração aconteceu em 1995, com o Coro Estável e a Orquestra da Escola de Música da UFMG. Depois, voltou na minha formatura em regência, em 1997 e em 1999 em concerto com a Orquestra de Câmara SESIMINAS, no Teatro Sesiminas.
O Madrigale sempre teve uma relação muito forte com a música de Hostílio Soares. As Sete Palavras nunca foi só uma peça no repertório, mas uma obra que ajudou o coro a descobrir uma forma de expressividade mais intensa, mais concentrada, mais comprometida com o texto e com o peso espiritual da música.
Em 1999, isso ficou evidente. O coro se mostrava capaz de enfrentar uma obra difícil, com orquestra, em um teatro marcante, assumindo um concerto inteiro em torno de Hostílio. Havia problemas, claro. A acústica do teatro era seca demais, o que exigia muito do coro e não ajudava a criar aquela sustentação natural que certas obras pedem. Mas, apesar disso, o resultado foi forte.
Na época, escrevi em relatório que o concerto talvez tivesse marcado o início da maturidade do Madrigale. A frase continua me parecendo justa. Ali, o coro aparecia em outro patamar, não apenas cantando bem, mas sustentando uma proposta artística ampla, exigente e historicamente significativa. Hoje, ao subir essa gravação para o YouTube, não estou apenas compartilhando um registro antigo. Estou preservando um documento histórico do Madrigale. Um documento de um tempo, de uma sonoridade, de uma fase do grupo, de um modo de cantar e de compreender esse repertório.
Também reencontro, nessa gravação, um Arnon mais jovem, ainda formando sua própria relação entre pesquisa, regência e memória. Um regente que havia chegado atrasado a uma aula e acabou recebendo, sem saber, uma tarefa que o acompanharia por décadas.
Depois de 1999, nunca mais regi As Sete Palavras com orquestra. A obra continuou aparecendo em minha trajetória, mas sempre com órgão. Por isso, esse registro tem uma importância ainda maior. Ele guarda uma possibilidade sonora que não se repetiu.
O que sinto ao ouvir hoje é uma mistura de orgulho e consciência de distância. Orgulho pelo que conseguimos fazer e da energia de construção que havia ali. E distância porque o coro era outro, eu era outro, e a própria escuta que faço agora já não é a mesma. Mas talvez seja esse o valor de uma gravação antiga. Ela não devolve o passado inteiro. Devolve sinais e mostra o que fomos, o que buscávamos, o que já sabíamos fazer e o que ainda estávamos aprendendo.
As Sete Palavras de 1999 é isso para mim: uma escuta de um Madrigale em amadurecimento, diante de Hostílio Soares, com uma orquestração nascida quase por acaso e uma música que, felizmente, encontrou corpo naquele concerto.
🎬 As Sete Palavras de Christus Cruxificatum (I) - Hostílio Soares (Coro Madrigale - 1999)
🎬 As
Sete Palavras de Christus Cruxificatum (V) - Hostílio Soares (Coro Madrigale -
1999)
🎬 As
Sete Palavras de Christus Cruxificatum (VI) - Hostílio Soares (Coro Madrigale -
1999)