Durante quase toda a minha vida de regente, se alguém me perguntasse em que língua se canta a América Latina, provavelmente minha resposta imediata seria: espanhol. Naturalmente, sei que a resposta está errada. Eu mesmo sou brasileiro e passei a vida cantando em português. A questão é outra: quando penso naquele repertório que aprendemos a reconhecer como “latino-americano”, percebo como nossa imagem musical do continente continua sendo bastante limitada.
Esta é uma percepção relativamente recente para mim. Ela nasceu junto com meu interesse cada vez maior pelas discussões decoloniais e, principalmente, pela vontade de pensar a América Latina como um espaço ao qual pertenço. Quanto mais faço isso, mais algumas perguntas aparecem. Uma delas é muito simples: que línguas existem na música que chamamos de latino-americana?
Há pouco tempo escrevi aqui sobre Anna Tawaqu, de Juan Camilo Stafforini, uma obra para coro feminino em aimará. Ao conhecê-la, não encontrei apenas uma música nova. Encontrei uma língua sobre a qual sabia muito pouco. E isso começou a me interessar. Não porque agora eu ache que os coros brasileiros devam sair procurando repertório em línguas originárias para cumprir alguma espécie de obrigação de diversidade. Muito menos porque uma obra se torne musicalmente interessante apenas por estar escrita em aimará, quéchua ou guarani. Continuo escolhendo uma partitura pela qualidade de sua escrita. A língua, porém, pode abrir uma porta.
Uma das obras mais antigas que encontramos nessa história, e que eu já regi, é Hanaq pachap kusikuynin, publicada no Peru em 1631. É uma composição polifônica para quatro vozes com texto em quéchua, incluída no Ritual formulario de Juan Pérez Bocanegra.
Gosto de parar um pouco nessa data porque ela desorganiza uma imagem muito confortável da nossa história musical. Enquanto tantas vezes pensamos a música escrita nas Américas a partir das tradições e das línguas trazidas da Europa, ali está uma polifonia impressa em quéchua no século XVII. Evidentemente, isso não elimina o contexto colonial. Ao contrário, torna-o ainda mais complexo. Trata-se de música ligada ao ritual católico e, portanto, a língua originária aparece dentro do próprio processo de evangelização.
Séculos depois, encontramos outras relações. Stafforini, por exemplo, não trabalhou apenas com o aimará de Anna Tawaqu. Em Puñuna, utilizou canções de ninar em espanhol, mapudungun e qom; em outra obra para coro infantil, Amor, cuidado, futuro, reuniu aimará, espanhol, guarani e mapudungun.
E aqui começa para mim a parte mais delicada dessa conversa. Não basta colocar uma língua que desconhecemos diante de um coro, aprender aproximadamente os sons e cantar. Já fiz algo parecido. Regi obras em línguas africanas e me lembro da dificuldade de encontrar pessoas que pudessem traduzir e explicar corretamente determinados textos. Mas reconheço também que, em algumas ocasiões, nem sequer tivemos esse cuidado como uma preocupação central.
Hoje eu não faria mais assim. Se eu decidir trabalhar uma obra em aimará, mapudungun ou qualquer língua que esteja distante da minha experiência, não me parece suficiente aprender sua pronúncia. Quero saber o que estou dizendo, de onde vem aquele texto, quem o escreveu, a que cultura pertence e o que significa aquela música naquele contexto. Caso contrário, aquilo que apresentamos como abertura pode se transformar facilmente em exotização.
Talvez por isso este post não seja, pelo menos por enquanto, uma proposta de repertório para algum coro. É antes o registro de uma curiosidade que começou a me incomodar. Porque o problema não está apenas nos países de língua espanhola. Está aqui mesmo. No Brasil.
Falamos com muita facilidade em “música brasileira”, mas conhecemos muito pouco da enorme diversidade cultural e linguística existente dentro do nosso próprio país. Para ser justo, muitas vezes nem conhecemos suficientemente a música produzida em português fora dos circuitos aos quais estamos acostumados. Continuamos recorrendo a determinados chavões para representar o Nordeste, a Amazônia, o Sul, o interior, como se algumas poucas imagens musicais fossem suficientes para explicar regiões inteiras.
Talvez a primeira contribuição de uma perspectiva decolonial para mim esteja sendo justamente esta: perceber o tamanho do que não conheço.
Não sei ainda se vou reger Hanaq pachap kusikuynin, Anna Tawaqu ou uma obra em bantu. Também não sei se um público brasileiro consideraria necessário ouvir essas músicas num concerto. Ainda somos bastante fechados dentro de nossa própria cosmogonia e, em muitos momentos, de nosso próprio egocentrismo. Mas agora sei que elas existem. E isso já modifica alguma coisa.
Durante muito tempo, olhei para a América Latina musicalmente e ouvi sobretudo espanhol. Agora começo a prestar atenção nas outras vozes e descubro que o continente fala, e canta, em muito mais línguas do que aquelas que aprendemos a escutar. Vamos ouvi-las?...