No post anterior, falei de Tia Elza, a querida Elza do Val Gomes, que nos deixou recentemente. Hoje quero continuar falando de sua obra maior, o Coral Julia Pardini, grupo que ela conduziu por mais de cinco décadas e que teve uma importância enorme na história coral de Belo Horizonte.
O coro nasceu em 1959, inicialmente para participar das comemorações da formatura de Arlindo Gomes Pardini Júnior, em Uberaba. A experiência deu certo, o grupo continuou e, em 6 de janeiro de 1960, fez sua estreia pública. Recebeu o nome de Julia Pardini, matriarca da família, e adotou um lema que acompanharia sua história: “Cantar para a todos alegrar”.
Belo Horizonte teve e tem muitos bons coros, alguns deles com histórias igualmente importantes. O Julia Pardini, porém, ocupou durante décadas um lugar muito particular: foi um grande formador de cantores. Muita gente começou a cantar ali, e não estou falando necessariamente de pessoas que chegavam com uma formação musical pronta. O coro era também o lugar onde se aprendia a cantar em conjunto, a ouvir as outras vozes, a conhecer repertório, a conviver com uma disciplina de ensaios e apresentações e, aos poucos, a descobrir possibilidades musicais que muitas vezes nem estavam previstas quando se entrou no grupo.
A própria estrutura criada em torno do Coral mostra isso. Em diferentes momentos de sua história, a Associação manteve grupos infantis, juvenis e adultos. Havia, portanto, uma preocupação com a formação que começava muito antes do coro adulto. E os resultados apareceram por toda a vida musical de Belo Horizonte. Inúmeros cantores que passaram pelo Julia Pardini seguiram depois para grupos como o Ars Nova, o Madrigal Renascentista, o Coro Lírico de Minas Gerais e tantos outros. Alguns se tornaram solistas, professores de música e professores universitários. O próprio Joubert Oliveira, cujo texto publiquei na homenagem a Tia Elza, passou pelo coro antes de integrar outros grupos importantes da cidade, entre eles o Ars Nova e o Madrigale. Em um antigo texto meu, ao apresentar sua trajetória, eu já registrava essa passagem pelo coro de Elza.
Nem sempre a história de um coro deve ser medida apenas pelos grandes concertos que realizou, pelos lugares onde cantou ou pelo repertório que conseguiu montar. Podemos também olhar para as pessoas que passaram por ele e para aquilo que elas fizeram depois.
O uúlia Pardini teve ainda uma atuação que ultrapassava seus próprios ensaios. Promoveu encontros, manteve atividades voltadas para diferentes faixas etárias, realizou concertos dentro e fora de Minas Gerais e participou intensamente do movimento coral da cidade. Durante muitos anos publicou também o Arruia, jornal dedicado à divulgação da música coral e à comunicação entre grupos. Era uma época em que essa circulação de informações não acontecia por redes sociais. Um jornal desse tipo tinha outra importância.
Eu mesmo fui alcançado por essa capacidade de articulação. Em 1993, foi através do contato de Tia Elza e do Julia Pardini que o Coro de Câmara de Lisboa veio a Belo Horizonte. Aquele encontro teria consequências importantes para mim e para o Madrigale, que estava apenas começando sua história. É um bom exemplo de como a atuação de um coro pode alcançar até mesmo quem nunca cantou nele.
Com a pandemia, aquela longa regularidade de atividades foi interrompida e o Julia Pardini não retornou depois à vida coral contínua que havia caracterizado tantas décadas de sua existência. É estranho pensar nisso porque, para quem acompanhou o movimento coral de Belo Horizonte durante tantos anos, o nome uúlia Pardini parecia fazer parte naturalmente da cidade.
Mas talvez seja justamente aí que a dimensão da obra de Tia Elza apareça com maior clareza. Um coro pode deixar de ensaiar. Pode não fazer mais concertos. Sua associação pode desaparecer e seus arquivos podem aos poucos se transformar em documentos de uma época. Os cantores que ele formou, não. Eles foram cantar em outros coros, ensinar outras pessoas, tornar-se solistas, regentes, professores, profissionais da música. E levaram consigo alguma coisa aprendida naquele ambiente.
Quando isso acontece durante tantas gerações, um coro deixa uma herança que não cabe apenas em sua própria história. Ela passa a fazer parte da história musical da cidade. O Coral Julia Pardini fez isso em Belo Horizonte. E esta é, também, uma parte importante da obra que Tia Elza deixou.