quinta-feira, 5 de março de 2026

Conversa de botequim (HelyElas)

No meio do HelyElas, sentamos à mesa pra uma Conversa de Botequim... Essa peça de Noel Rosa e Vadico entrou no programa sem pedir licença. Samba urbano, texto afiado, ironia fina e nada de solenidade.

Levar Noel para o coro é sempre um teste. Se exagera, vira caricatura. Se endurece, perde o espírito. O segredo é dizer bem, respirar junto, não atuar demais.

Ensaiar essa peça era como ajustar o tom de uma conversa mesmo: nem alto demais, nem afetado. Apenas natural. Uma prosa...

No HelyElas, ela trouxe o botequim para o palco e lembrou que leveza também exige precisão. 


🎬 Conversa de Botequim 2 - Coro Madrigale (2010)

 

 


quarta-feira, 4 de março de 2026

Madrigal Scala (1992) - a força de um repertório

Um programa de coro pode revelar mais do que um momento artístico. Pode revelar uma ambição. 

Revisitei um programa do Madrigal Scala de 1992 e encontrei um coro que não tinha receio de se afirmar. Vejam só: a primeira parte do concerto já indicava um horizonte: Dom Pedro de Cristo, Orlando de Lassus, Palestrina, Villa-Lobos, negro spiritual, Edwin Fissinger. Um arco que atravessava séculos, estilos e geografias sem pedir licença.

Abrir com O Magnum Mysterium e seguir para o Super flumina Babylonis intentava mostrar que o coro tinha clara a ideia e busca de homogeneidade de timbre, precisão na afinação modal e compreensão do fluxo polifônico. Isso porque a Renascença se canta com disciplina e consciência de linha. No mesmo programa, aparece um negro spiritual, uma canção latino-americana, além de Gershwin, Ary Barroso, José Rodrix e Vandré. Uma segunda parte variada e eclética. 

Eu sempre gostei da variedade no repertório. O tempo é que me fez "especialista" em alguns repertórios e olhar para aquele tempo me impressiona porque eu tinha já a coragem de sustentar contraste sem fragmentação. Ali era um coro jovem, porque era jovem apesar dos cantores experientes, assumindo um repertório que demandava maturidade técnica e postura artística. Ele não se acomodava em arranjos confortáveis, era um conjunto que se expunha. Cada obra exigia um tipo de emissão, de fraseado, de escuta interna.

Sempre acreditei que o repertório forma o coro e essa é uma verdade que se confirma quando olhamos para aquele coro lá trás. Um grupo que canta Lassus aprende sobre arquitetura. Um grupo que canta spiritual aprende sobre pulsação interna e respiração coletiva. Um grupo que canta arranjos variados precisa lidar com tensão histórica e intenção textual.

Em 1992, o Madrigal Scala apresentava um repertório variado e se construía nele. Hoje, ao rever esse programa, o que salta aos olhos não é apenas a variedade, mas a coerência de propósito. Havia ali uma crença na música como formação, técnica e humana. Não se escolhe repertório desse porte por acaso. Escolhe-se porque se acredita que o grupo pode crescer dentro dele...

E cresceu, pois nenhum coro vive 35 anos por acaso.




terça-feira, 3 de março de 2026

Encabulada (HelyElas)

Em 2010, no HelyElas, decidimos incluir a Encabulada, de Antônio Carlos e Jocafi, porque o Hely gostava muito dessa música e, por isso mesmo, caprichou no arranjo.

Antônio Carlos Marques Pinto, guitarrista ligado à orquestra do maestro Carlos Lacerda, e Jocafi (José Carlos Figueiredo), compositor que já tinha prestígio na Bahia quando se conheceram em 1968, formaram uma das duplas mais marcantes da canção brasileira das décadas de 60 e 70. Suas músicas ganharam o país na voz de Maria Creuza, que mais tarde se casaria com Antônio Carlos, e também nos registros que gravaram pela RCA, como Você Abusou e Toró de Lágrimas. Migraram da Bahia para o Rio, participaram de festivais, tiveram obras em trilhas de novelas e seguiram compondo.

Essa música tem uma leveza rítmica que exige precisão sem rigidez. O balanço não pode escorregar para caricatura. O coro precisa cantar com naturalidade, sem “interpretar demais” a canção. O risco está justamente aí: quando um grupo coral tenta ser mais popular do que a própria música permite, perde-se a elegância.

Lembro do ensaio em que percebemos isso. A primeira leitura estava correta, afinada, mas excessivamente marcada. Havia esforço demais em parecer descontraído. Tivemos que limpar a interpretação, retirar gestos desnecessários, devolver à peça a simplicidade que ela pede. Canções populares, quando bem escritas, não precisam de adorno.

Em 2010, cantar Encabulada foi um exercício de medida. Nem excesso de solenidade, nem informalidade artificial. Apenas o som coletivo tentando respeitar a natureza da peça.


🎬 Encabulada - Coro Madrigale (2010)

 


 Outros posts referentes ao Hely Elas:

Blog do Maestro Arnon: Canção do Amanhecer (HelyElas)

Blog do Maestro Arnon: Saia do meu caminho

Blog do Maestro Arnon: Ilusão à toa: a delicadeza como gesto

Blog do Maestro Arnon: Sabiá (HelyElas)

Blog do Maestro Arnon: João e Maria - delicadeza como escolha (HelyElas)

Blog do Maestro Arnon: Chovendo na roseira: pra florescer devagar

Blog do Maestro Arnon: Onde Deus possa me ouvir (2) — Madrigale ao vivo

Blog do Maestro Arnon: Canção do Amanhecer



segunda-feira, 2 de março de 2026

O Retorno do Madrigale

Ontem, o Madrigale voltou a cantar em um concerto.

A palavra “retorno” parece simples, mas não é. Entre o último ensaio antes do recesso e este concerto na Igreja São Francisco de Assis, atravessamos mais do que semanas de pausa. Foi um tempo de silêncio, de distância, de perguntas não ditas e, no meu caso, de um refazimento de ideias, valores e importâncias. Para além disso, foi um tempo de respiro depois de tensões acumuladas, de conflitos silenciosos, de redefinições internas, não apenas em relação ao coro, mas à vida.

Pausas, quando honestas, não são abandono. São respiração. Confesso que houve momentos, sim, em que temi que o Madrigale não voltasse a ensaiar. Pensei em encerrar o ciclo, “fechar a fábrica” e seguir outros caminhos. Natural. Todo processo longo atravessa seus abalos... Mas, nesse mesmo silêncio, algo foi se reconstituindo dentro de mim: a compreensão de que o Madrigale não é apenas um grupo que eu conduzo. Eu sou o Madrigale, e assumir isso novamente foi parte essencial desse tempo.

Cantar depois de uma pausa é sempre um gesto de confiança: confiança de que o vínculo ainda sustenta o som. Voltar a cantar ontem, naquele espaço simbólico de uma Belo Horizonte que nos viu nascer e crescer, foi como recolocar o corpo em um espaço conhecido, mas não idêntico ao que deixamos. A Igrejinha tem a capacidade de ampliar o som e, ao mesmo tempo, revelar fragilidades, e a acústica expôs, sob certo aspecto, o que somos neste instante.

O primeiro acorde trouxe mais do que afinação. Trouxe memória... Memória dos que estiveram, dos que saíram, dos que ficaram. Memória das dúvidas que rondaram o grupo nos últimos meses. A primeira interação de fala com o público foi para, em um ato pensado, dizer ao público (e a todo o coro) que “nós somos o Coro Madrigale”, e isso não foi fácil. Essa pequena frase, tão intensa e sincera, quase me fez chorar (e essa não foi a primeira vez que tive de me segurar durante todo o concerto).

Percebi, enquanto regia, um lugar que estava meio esquecido havia algum tempo: o lugar da confiança e da alegria, tão próprios da existência do Madrigale. A sensação de sermos um corpo integrado. Eu e os cantores. Os cantores e eu. Nós. Sim, porque o Madrigale é um conjunto que se faz pela força do grupo e não pela soma de individualidades.

Não foi difícil reativar os processos. Bastou pouco tempo para que os naipes se reconhecessem, testassem novamente a própria segurança e a música se encontrasse dentro da nossa naturalidade. Não se trata de desligar e religar no mesmo ponto. Trata-se de retomar um fluxo que já tem história (33 anos de história) e que sabe, mesmo depois de abalos, onde está sua base. Isso porque um coro respira, sofre, amadurece.

E a igreja e o público estavam ali como testemunhas, ainda que não soubessem. As linhas de Niemeyer, a beleza da Lagoa ao redor, a imagem e proteção do meu tão amigo São Chiquinho. Ali, tudo convidava à interioridade, nada de afirmações. Ali, foi um gesto de continuidade.

Depois do último acorde, ainda na alegria plena de todos, troquei um olhar com o grupo e agradeci. Um agradecimento sincero, simples. Ali senti uma espécie de serenidade que não vinha de qualquer busca por perfeição técnica, mas da permanência. Sim, permanecemos, sorrimos, nos emocionamos.

O retorno não apaga o que passou, mas incorpora. E talvez seja essa a maturidade possível neste momento do Madrigale: seguir cantando sem ignorar as fissuras, sustentando o som com a consciência de que cada ciclo exige revisão, cuidado e escuta.

Ontem, na Pampulha, o Madrigale voltou. E, ao voltar, reafirmou o que é. Nessa reafirmação, dizemos com muita alegria: nós somos o Coro Madrigale!!!












domingo, 1 de março de 2026

O ensaio como espaço ético (uma reflexão)

O que penso de um ensaio?

O ensaio, para mim, não começa na partitura, começa na relação. E, ao longo dos anos, fui aprendendo que ensaio não é apenas espaço técnico, mas é, sobretudo, um espaço ético. 

Antes do primeiro acorde, há o café, esse pacto silencioso que diz: estamos aqui juntos. O ensaio começa ali, com alguns minutos compartilhados, conversa solta, uma preparação mais humana que vocal. Se esse pequeno rito falha, algo já se desloca. O trabalho pode até acontecer, mas falta o eixo.

Costumo iniciar com um vocalize que não tem a função principal de aquecer vozes, mas de harmonizar o ambiente, uma tentativa de alinhar respirações e intenções. E aí o ensaio acontece de maneira a preparar todo o grupo para uma apresentação qualquer tendo como um princípio muito meu de que o caminho de preparação sempre é muito mais importante e prazeroso do que o final, o concerto, em si. Ali se criam relações do coletivo e individuais que se refletirão na maneira como o conjunto se mostrará para a comunidade que o aguarda.  

Sobre relações individuais, é claro que já falhei nisso. A tentativa de harmonia nem sempre é possível e bem conduzida. Já expus cantores com palavras desnecessárias. Já confundi frustração musical com dureza de caráter. O tempo ensina, mas não apaga o que foi dito. Liderar um grupo é lidar com poder, e poder mal administrado deixa marcas. 

Costumo dizer que tento ser um “ditador benevolente”, porque há uma ordem a manter e um coro não se constrói na dispersão. Mas liderança não é imposição constante. Percebo que ultrapassei a medida quando o clima muda, quando a cobrança começa a retirar segurança de um naipe inteiro. A tensão é um termômetro e se ela paralisa, algo está errado.

Erro nunca me incomodou, negligência, sim. Quando instruções claras são ignoradas por distração ou desatenção, o problema deixa de ser técnico e se torna relacional. O tempo do ensaio pertence a todos e desperdiçá-lo é uma forma de desrespeito coletivo.

Há também os silêncios difíceis, o silêncio de quem não fala o que pensa e permite que outros assumam o confronto. Esse tipo de silêncio corrói o grupo, cria desconforto, afasta os novos cantores. Como líder, aprendi que sempre participo da desarmonia quando ela surge porque não há neutralidade possível.

Já vivi ensaios tecnicamente eficientes e humanamente pobres. E já vivi o contrário: encontros imperfeitos na execução, mas densos de presença e compromisso. O que permanece não é apenas o resultado musical, mas a qualidade do vínculo que sustenta o som.

Um ensaio eticamente saudável exige participação integral. Não apenas vozes afinadas, mas responsabilidade, escuta, preparo e respeito pelo trabalho comum. A boa qualidade musical não nasce isolada da convivência. Ela é consequência de um ambiente em que todos assumem sua parte.

Aprendi que o som revela o clima... Sempre revelou.





 


sábado, 28 de fevereiro de 2026

O Madrigale em Poços de Caldas, 1995

Eu ainda me lembro da sensação de colocar as partituras na mochila com um frio no estômago desde Belo Horizonte. Era um verdadeiro teste. Participar daquele Festival significava nos expor num cenário onde outros coros já tinham história, tradição, nome consolidado. Nós éramos jovens. E queríamos ser levados a sério.

Chamávamo-nos Coral Madrigale Nansen. A Nansen Aparelhos de Precisão nos patrocinava, nos apoiava com generosidade e acreditava em nós. Carregávamos aquela marca com orgulho porque eram os nossos primeiros patrocinadores, um voto de confiança.

Eu tinha 28 anos e, hoje, penso naquele jovem maestro com certa ternura. Ele não fazia ideia do que aquele coro se tornaria. Só sabia que queria fazer música da melhor qualidade possível. 

O uniforme era outro tempo: suspensórios, cores claras, uma identidade visual quase ingênua. Não tínhamos sede fixa de ensaio, não tínhamos a estrutura confortável que temos hoje, mas tínhamos vontade, e isso, naquela fase, parecia suficiente.

Le Chant des Oyseaux era nossa joia. Cantávamos aquela peça com orgulho porque, para nós, conseguir executar Janequin com segurança era prova de maturidade coral.

Mas então veio o episódio que marcaria aquela viagem.

A organização do Festival informou que haveria alojamento para os grupos. Quando chegamos, encontramos um ginásio coberto, um salão frio, com cheiro de mofo, colchões espalhados pelo chão. Alguns cantores alérgicos já começaram a sentir os primeiros sinais de desconforto. A tensão cresceu rapidamente.

Foi então que Kátia Malloy, diretora do coro na época, assumiu o comando com a firmeza que lhe era própria. Saiu pela cidade e, em poucas horas, conseguiu um acordo improvável: um hotel no centro nos hospedaria por um valor reduzido, desde que fizéssemos uma apresentação privada para os hóspedes.

Problema resolvido para nós. Problema criado para o Festival. A decisão não foi bem recebida. Alguns entenderam como recusa, outros como capricho. Havia olhares atravessados. Comentários sussurrados. A palavra “arrogância” talvez tenha circulado ali, mesmo que não dita abertamente. Éramos os “moleques atrevidos” que não quiseram dormir no ginásio.

Então, subimos ao palco naquela noite carregando não apenas partituras, mas um clima. Havia expectativa, talvez até certo desejo de nos ver tropeçar. Atacamos Le Chant des Oyseaux. A tensão inicial se dissolveu nos primeiros compassos. A energia circulou. Quando terminamos, veio um aplauso caloroso, daqueles que atravessam o corpo e dizem: “os meninos são bons”.

As peças seguintes foram executadas num outro ambiente. O spiritual aproximou o público de uma escuta mais íntima. A peça brasileira, com seus assovios e sua vitalidade rítmica, abriu sorrisos. A música fez o que sempre faz quando é bem feita: reorganizou percepções. No fim da noite, o que parecia arrogância tornou-se compreensão. Não queríamos privilégios, queríamos preservar as vozes. Queríamos cantar bem. O que parecia capricho revelou-se cuidado e eles entenderam.

Hoje, percebo que aquele episódio dizia muito sobre o que o Madrigale sempre foi e quis ser. Um coro disposto a assumir riscos, a enfrentar olhares tortos, a sustentar decisões quando acreditava nelas. Jovem, ousado, às vezes mal interpretado, mas comprometido com a música.

O Festival de Poços de Caldas foi uma pequena prova de caráter coletivo e, sem que soubéssemos, foi também um dos primeiros momentos em que aprendemos que afirmar-se musicalmente exige coragem fora do palco tanto quanto dentro dele.

Eu tinha 28 anos... O coro ainda estava se descobrindo. Mas ali, naquele palco, algo ficou claro: éramos bons. E queríamos continuar sendo.


Salão com pessoas ao redor

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Foto em preto e branco de grupo de pessoas posando para foto

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 Da Esquerda para a Direita
Em Cima: Arnon, Marco Paulo, Joubert, Éder, Ricardo, Sérgio, Hauck, André, Gustavo
Em baixo: Juliana, Luciana, Letícia, Fernanda, Daniela, Kátia, Polliana, Sandra

Uma imagem contendo chão, no interior, mesa, quarto

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Desenho de animal

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Diagrama

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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Dancing Queen (Mad Internacional)

Concerto Internacional do Madrigale

13 de junho de 2025

Teatro Sesiminas — Belo Horizonte/MG

Regência: Arnon Oliveira

Banda:

Elias Santos (violão/guitarra)

Hugo Silva (baixo)

Júlio Bastos (piano)

Phil Rezende (teclados)

Encerramos aquele concerto e a sequência de posts que fiz dos concertos internacionais com Dancing Queen, essa canção do ABBA, lançada em 1976, que constituía-se numa alegria interna do coro, que gostava muito do arranjo. No palco do Teatro Sesiminas, a energia foi compartilhada. O coro manteve foco técnico, a banda sustentou o fluxo com precisão, e o público respondeu com envolvimento imediato. Um encerramento vibrante para uma travessia que uniu estilos, épocas e linguagens sob a mesma premissa: organização musical e entrega consciente.

Foi muito e, quem sabe, nesse ano tem mais?...

🎬 Madrigale Pop Internacional – 14. Dancing Queen

 

 

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Blog do Maestro Arnon: Madrigale canta o mundo — um concerto de afetos e memórias

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Blog do Maestro Arnon: Heal the World - a mensagem do Natal continua

Blog do Maestro Arnon: Beat It (Internacional Madrigale)

Blog do Maestro Arnon: Stairway to Heaven: um clássico em travessia coral

Blog do Maestro Arnon: Africa (Madrigale Internacional)


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Swingle Singers

Me permitam trazer mais um grupo vocal para o conhecimento de todos, o Swingle Singers. Este é um ícone que ocupa um lugar singular na história da música vocal do século XX. Criado em Paris, em 1962, por Ward Swingle, o grupo nasceu quase por acaso, como tantas boas ideias na música. Reunidos inicialmente para trabalhos de estúdio e como cantores de apoio de nomes centrais da canção francesa, como Charles Aznavour e Edith Piaf, os cantores da primeira formação usavam Bach como exercício diário de afinação, precisão e escuta coletiva.

O ponto de virada veio quando perceberam que aquelas linhas rigorosas do Cravo Bem Temperado continham um balanço interno surpreendente. O resultado foi o álbum Jazz Sebastian Bach, gravado inicialmente sem pretensões comerciais, quase como um presente privado. O sucesso espontâneo nas rádios transformou o experimento em fenômeno internacional. De repente, Bach "swingava", não por caricatura, mas por compreensão profunda de ritmo, articulação e contraponto. O grupo viria a conquistar cinco prêmios Grammy, algo raríssimo para um conjunto vocal a cappella.

Em 1973, a primeira formação se dissolveu. Ward Swingle mudou-se para Londres e refundou o grupo, que passou por diferentes nomes (Swingle II, The New Swingle Singers, The Swingles) até reassumir o nome original. Mais importante que a nomenclatura, porém, foi a continuidade do projeto: desde então, o grupo nunca deixou de existir. As vozes mudaram, as formações se renovaram, mas a ideia permaneceu.

Segundo informações da página oficial do conjunto, o Swingle Singers atua hoje como um coletivo internacional, reunindo cantores de diferentes nacionalidades, todos com sólida formação em leitura, estilo e técnica vocal. O repertório expandiu-se muito além de Bach: música contemporânea, arranjos de jazz, pop, trilhas de cinema e encomendas a compositores atuais convivem com o núcleo barroco que fundou sua identidade. O grupo mantém intensa atividade de concertos, gravações, colaborações com orquestras e projetos educacionais, sempre reafirmando o canto a cappella como linguagem viva e em permanente reinvenção.

Algo notável: apesar da virtuosidade extrema, o Swingle Singers nunca se construiu como vitrine de individualidades. O impacto vem do conjunto, da escuta mútua, da precisão coletiva levada ao limite. Cada voz sabe exatamente quando aparecer e, sobretudo, quando desaparecer. É por isso que, passadas tantas décadas, o grupo segue atual, não apenas como curiosidade histórica ou ícone do crossover, mas como exemplo de um princípio essencial da música coral: quando o coletivo funciona, a liberdade não diminui, ela se organiza.

 

Vejam o Swingle Swingers ao longo dos anos:

Les Swinger Singers J S Bach English Suite No2 Bourre 1969

Imagem em preto e branco de homens lado a lado

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 The Swingles Singers: Claro de luna

 Grupo de pessoas em pé

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THE SWINGLE SINGERS  -  Libertango

Pessoas no palco iluminado tocando instrumentos e cantando

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swingle singers-mission impossible

 

Grupo de pessoas posando para foto

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The Swingles - Blackbird/I Will (The Beatles A Cappella Cover)

 Mulher na frente de uma porta

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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Ser Madrigale (uma reflexão no retorno)

Tem momentos em que a gente percebe que continuar no mesmo ritmo seria uma forma de deslealdade consigo mesmo. Eu senti isso. O Madrigale precisou parar, e essa decisão não foi simples, nem confortável. Houve dúvidas, houve peso, houve silêncio, mas havia também uma necessidade incontornável de me recolher...

Eu precisava me refazer. Precisava pesquisar, estudar, olhar de novo para as perguntas que me movem há tantos anos. E, no meio disso tudo, perceber que pesquisa e refazimento não são coisas separadas: quando eu mergulho no pensamento, reorganizo o maestro; quando reorganizo o maestro, reorganizo a mim mesmo; e quando isso acontece, eu reorganizo o coro.

Esse tempo foi um hiato humano. Foi um tempo de revisar convicções, de reavaliar prioridades, de admitir cansaços e redescobrir desejos. Foi um tempo de perguntar, com honestidade, o que ainda faz sentido. Retomar os ensaios, portanto, não é simplesmente voltar a cantar. É voltar depois de ter atravessado algo. É erguer o braço sabendo que ele carrega mais consciência do que antes. É reencontrar o coro não como quem retoma um projeto, mas como quem reencontra uma parte essencial de si (transformada).

Ao longo de 33 anos de existência, o Madrigale atravessou repertórios, formações, fases estéticas, crises e conquistas. O que permanece não é um estilo fixo, nem uma sonoridade cristalizada. O que permanece é uma ética.

Ser Madrigale nunca foi apenas cantar bem. Isso é pressuposto. Ser Madrigale é aceitar que o palco não é lugar de exibição, mas de exposição. Exposição de fragilidades, de tensões internas, de respirações que precisam coincidir. Uma hora de concerto é apenas a superfície visível de um trabalho invisível: horas de ajuste fino, de escuta mútua, de negociação silenciosa entre naipes.

Ser Madrigale é compreender que o som não nasce do indivíduo, mas do acordo. Que um solo só floresce porque há um corpo coletivo que o sustenta. Que afinação não é apenas frequência correta, mas atenção radical ao outro. Que o ritmo não é somente pulso métrico, mas respiração compartilhada. Aprendi que emoção não se impõe. Ela emerge quando a técnica está suficientemente consolidada para deixar de ser protagonista. Quando o cantor já não está preocupado em “acertar”, mas em sustentar a intenção. Quando o coro deixa de ser um conjunto de vozes e passa a agir como organismo.

Ser Madrigale é aceitar o rigor sem perder a leveza. É saber que disciplina não é dureza. Que intensidade não é volume. Que alegria não é desordem. Que espiritualidade não é lentidão. É compreender que a música é maior do que nós, mas que só acontece através de nós.

Hoje entendo, com mais nitidez, que o Madrigale nunca foi apenas um grupo que eu conduzo. Ele é também um lugar onde eu próprio me faço ao longo da vida. O coro amadurece e, com ele, amadurece o maestro. O grupo se reorganiza, e, com ele, reorganizo minhas escutas, minhas exigências, minhas escolhas. O Madrigale me forma tanto quanto eu o formo.

Ser Madrigale é um exercício permanente de construção coletiva. Não é identidade pronta; é identidade em processo. Não é resultado; é travessia. E quando essa travessia encontra coerência entre consciência e emoção, entre técnica e presença, a música deixa de ser execução. Torna-se verdade compartilhada.

Sendo assim, eu sou Madrigale... e o Madrigale sou eu.



No nosso ensaio de retorno em 24/02/2026

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Canção do Amanhecer (HelyElas)

Compartilho hoje, mais um momento do espetáculo HelyElas: as meninas do Madrigale interpretando Canção do Amanhecer, de Vinicius de Moraes e Edu Lobo. Isso foi lá pelos idos de 2010, no auditório da Fundação de Educação Artística. 

É um dos arranjos do "Seu" Hely que eu mais gosto. O texto de Vinicius traz delicadeza e interioridade e a música de Edu Lobo organiza essa atmosfera com clareza estrutural. No contexto do arranjo, Hely celebra as vozes femininas e as escutas sensíveis, e essa canção sintetiza esse espírito em forma musical.

Cantar Canção do Amanhecer exige maturidade sonora. Exige escuta atenta entre os cantores. Exige confiança na construção coletiva do som. É um desses trabalhos de precisão, sutileza e unidade.

Compartilho com vocês uma interpretação que vale ouvir várias vezes.

🎬 Canção do amanhecer (2) - Coro Madrigale (2010)

 

Uma imagem contendo no interior, escuro, televisão, monitor

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.




Conversa de botequim (HelyElas)

No meio do HelyElas, sentamos à mesa pra uma  Conversa de Botequim... Essa peça  de Noel Rosa e Vadico  entrou no programa sem pedir licenç...