Minha mãe tem olhos de presença.
Não são olhos apenas bonitos. São olhos que ficam. Que acompanham. Que atravessam a casa, os filhos, os netos, os bisnetos, como se cada um ainda precisasse, de algum modo, ser guardado por ela.
E tem o sorriso.
Esse sorriso lindo que, quando vejo, reconheço também em mim. Talvez eu tenha aprendido com ela mais do que imaginava. Aprendi a sorrir antes mesmo de entender que o sorriso também pode ser uma forma de resistência. Minha mãe sorri com uma luz que não faz barulho, mas ilumina.
Ela sempre foi cozinha.
Não apenas no sentido do fogão, das panelas, dos cheiros que tomam a casa. Minha mãe cozinha como quem cuida. Como quem entende que alimentar alguém é também dizer: estou aqui, pensei em você, quero que você fique bem. Há pessoas que agradam com palavras. Minha mãe agrada pelo paladar, pelo aroma, pela mesa posta, pela generosidade que sai do forno, da panela, das mãos.
Ela também é reza.
Os apertos de todos sempre encontraram caminho até as orações da minha mãe. Filhos, netos, bisnetos, parentes, amigos: muita gente já se abrigou nesse lugar silencioso onde ela conversa com Deus pelos outros. Minha mãe reza como quem trabalha por dentro. Como quem sustenta, sem alarde, aquilo que às vezes ninguém mais consegue sustentar.
E ela trabalhou muito.
Talvez mais do que deveria. Talvez tenha vivido menos para si do que merecia. Sacrificou tempo, descanso, desejos e possibilidades para cuidar dos filhos e dos irmãos deficientes. Há nisso uma grandeza que me comove, mas também uma tristeza delicada. Porque sei que ela podia ter vivido mais leve, com mais espaço para si, com mais vida devolvida à própria vida.
Ainda assim, nunca deixou de ser presença.
Presença firme, inclusive. A mãe dos quatro filhos homens levados demais, com a chinela na mão e aquela frase que ainda hoje atravessa a memória com humor e ternura: “Vou te dar um jeito, cachorrinho.” Era ameaça, era aviso, era quase música doméstica. Por trás da chinela, havia uma mulher de fibra. Por trás da bronca, um coração maior do que tudo.
Minha mãe conseguiu nos conduzir.
Não sei se ela tem inteira consciência disso. Talvez nenhuma mãe tenha. Mas há muito dela em nós. No modo como seguimos, no modo como cuidamos, no modo como voltamos para perto, mesmo quando a vida nos espalha. Ela é dessas mulheres que qualquer filho, neto ou bisneto quer colocar no colo e cuidar com todo o carinho possível. Porque quem cuidou tanto também merece, agora, ser cuidada.
Neste Dia das Mães, eu queria dizer o que quase nunca cabe direito nas palavras.
Queria dizer que ela é preciosa na minha vida. Que meu amor por ela vem misturado com gratidão, admiração e uma vontade imensa de protegê-la. Queria dizer que sua história não passa por mim como lembrança distante, mas como raiz.
Antes dos coros, dos palcos, das viagens, dos livros e das muitas vozes que encontrei pelo caminho, houve a voz dela. Houve seus olhos. Houve sua comida. Houve sua reza. Houve seu sorriso.
Por isso que, quando sorrio, alguma parte dela continua sorrindo em mim.