Nessa excursão de 1961 à Argentina, o Madrigal Renascentista descobriu que nem sempre a primeira pergunta feita a um coro diz respeito à música. O Brasil vivia a crise aberta pela renúncia de Jânio Quadros e a posse de João Goulart estava no centro de uma disputa política intensa. Militares, governadores, parlamentares, jornais e grupos sociais tomavam posição e o país parecia dividido entre o golpe e a legalidade.
Ao chegar a Buenos Aires, o Madrigal levou essa tensão junto. A imprensa argentina, naturalmente, percebeu o interesse da situação. O coro brasileiro desembarcava em meio a uma crise institucional. Entre seus integrantes estava Simão Lacerda, primo segundo de Carlos Lacerda, uma das figuras mais ativas e ruidosas da política brasileira naquele momento. Fizeram a pergunta: aquela tensão também dividia os cantores? Maria Lúcia Godoy respondeu pelo grupo:
“Somos pela legalidade.” Uma frase curta e forte.
Segundo o relato de ex-cantoras, havia orientação do Itamaraty para que essa fosse a resposta diante de perguntas desse tipo. O Madrigal viajava como grupo artístico, mas também como representante oficial do Brasil. A fala precisava ser cuidadosa porque uma palavra mal colocada poderia deslocar a atenção do concerto para a crise política.
Mesmo assim, não é uma frase à toa. “Somos pela legalidade” era, naquele momento, uma posição possível e necessária. Dizia o suficiente sem transformar os cantores em porta-vozes partidários. Protegia o grupo e, ao mesmo tempo, afirmava um princípio.
É interessante pensar nisso hoje. Um coro, no palco, parece uma unidade. Várias vozes organizadas em torno de uma escuta comum. Mas fora do palco há pessoas, opiniões, histórias, tensões, relações familiares, medos e responsabilidades. Em 1961, o Madrigal precisou sustentar essa unidade também diante da imprensa estrangeira. A política entrou na viagem antes mesmo que o coro cantasse.
Esse episódio mostra como a história da música coral não acontece em lugar separado do mundo. Os coros ensaiam, afinam, estudam repertório, corrigem entradas, cuidam de fraseado. Mas também atravessam governos, crises, instituições, viagens difíceis e perguntas inesperadas. Naquele momento, o Madrigal Renascentista representava o Brasil. Isso ampliava sua visibilidade e também sua exposição, mas cada apresentação carregava uma dimensão diplomática, cada entrevista podia ganhar peso político.
Maria Lúcia Godoy, ao responder em nome dos cantores, deu à imprensa uma frase que cabia naquele instante: Somos pela legalidade. E o coro seguiu cantando.