Em 1995, o Coral Acesita e o Madrigale participaram do Minas Cantat...
Vou deixar as fotos dos dois em ação no final, mas a minha intenção aqui é
falar desse projeto que teve um papel importante na vida coral mineira e que
hoje, curiosamente, permanece pouco documentado.
Entre as décadas de 1980 e 2000, o Minas Cantat, organizado
pela Federação Mineira de Conjuntos Corais, reunia os coros filiados para uma
sequência de apresentações em Belo Horizonte. Grupos amadores, institucionais,
universitários e, em alguns momentos, profissionais dividiam o mesmo espaço, e
a proposta era simples e eficaz: reunir corais para apresentações públicas, com
o intuito de promover a troca de experiências e fortalecer a prática coral.
Ele tinha um caráter formativo, integrador e difusor. Estava
mais próximo de um encontro artístico do que de uma disputa. Aliás, perdeu
parte do seu sentido quando passou a flertar, em 1997, com um tipo de
ranqueamento entre os grupos. Na minha opinião, um movimento coral não cresce
nesse ambiente. Pode até servir para um coro em sua individualidade, mas não
para uma coletividade.
Ali não era um concurso, e isso faz toda a diferença. A
estrutura variava ao longo dos anos, mas havia um desenho recorrente: concertos
em sequência, apresentações em teatros, igrejas e espaços culturais,
programações distribuídas ao longo de alguns dias e, em alguns casos,
atividades paralelas. Era, essencialmente, um espaço de circulação.
Mas o mais importante não estava apenas na organização do
evento. Estava no que ele produzia entre os coros. Ali, muitos grupos
encontravam uma das poucas oportunidades de se apresentar fora do seu circuito
habitual. Mais do que isso, havia algo fundamental: a escuta entre pares.
Regentes e cantores assistiam aos outros grupos. E isso, para a formação
musical, é decisivo.
Aprendia-se muito sem que ninguém precisasse ensinar
diretamente. Aprendia-se observando repertórios, sonoridades, escolhas de
interpretação, postura de palco, concepção musical. Era uma formação
silenciosa, mas muito eficaz. E havia ainda um aspecto difícil de medir, mas
fácil de sentir: a percepção de pertencimento. Ficava claro que existia um
movimento coral vivo no estado. Que ninguém estava sozinho.
Hoje, olhando com alguma distância, percebo que projetos
como o Minas Cantat revelam algo importante sobre a vida coral brasileira. Ela
se sustenta muito mais por redes de encontro e convivência do que por
estruturas institucionais contínuas.
Quando esses encontros deixam de existir, algo se perde. Não
apenas em quantidade de apresentações, mas na qualidade da escuta coletiva. E
talvez aqui caiba uma provocação: hoje temos mais coros, mas menos encontros,
e, quando eles acontecem, muitas vezes cada grupo está mais preocupado com a
própria apresentação do que com a escuta do outro. Isso cria uma espécie de
atmosfera permanente de concurso que, para o universo coral, é uma armadilha.
Temos mais produção, mas menos convivência. Com isso, o
fluxo natural de aprimoramento dos cantores de coro, especialmente os amadores,
decai por falta de referências mais diretas. Tenho consciência, no entanto, de
que, para que encontros como esse voltem a existir, será necessário, em algum
momento, reativar uma associação ou federação de coros em nosso estado.