(Na sequência do post de ontem, o compositor Renato Goulart resolveu nos presentear com a narrativa da experiência que resultou na peça The Daughter. Vamos lá...)
No final de 2016, entre os meses de outubro e novembro,
embarquei em uma jornada que se revelaria profundamente transformadora: minha
primeira residência artística. Viabilizada por meio de um projeto de
financiamento coletivo, que contou com o apoio de vários amigos e familiares
que acreditaram no meu trabalho, pude realizar essa etapa fundamental da minha
formação. O destino era o Camac – Centro de Artes, situado na pacata e
charmosa comuna de Marnay-sur-Seine, no interior da França. Levei na bagagem um
objetivo claro: dedicar-me integralmente à composição de uma nova obra para
orquestra sinfônica. O que eu não esperava era que o verdadeiro presente
daquela temporada seria o encontro com outras linguagens artísticas e as
conexões humanas que floresceriam ali.
Um Caldeirão de Criatividade
Apesar do foco inicial na música, a experiência no Camac me
proporcionou algo raro e valioso: a imersão em um ambiente multidisciplinar. A
residência reunia artistas de origens e áreas completamente diferentes, criando
um fértil caldeirão de ideias. Ali, ao lado de músicos, conviviam pintores,
poetas e artistas plásticos, cada um com seu processo criativo e sua visão de
mundo. Foi nesse contexto de troca constante que tive a sorte de conhecer a
poeta norte-americana Marci Vogel, vinda da ensolarada Los Angeles. Ela
estava na França para uma pesquisa literária sobre a cultura francesa, mas foi
ao compartilhar sua poesia que nossos caminhos artísticos se entrelaçaram.
Ao folhear alguns de seus livros, um poema em especial me
saltou aos olhos e, mais do que isso, ressoou imediatamente em minha imaginação
musical: “The Daughter Who Flew Through the Atmosphere & Into a State
of Nature” (A Filha Que Voou Através da Atmosfera e Entrou em um Estado de
Natureza). A leitura daquele texto não foi apenas intelectual; foi uma
experiência sensorial. Visualizei um movimento ascendente, movimentos
harmônicos que representavam um flutuar, o etéreo. Senti a textura musical se
dissolvendo, como se a matéria se tornasse gradualmente mais sutil, flutuante,
até atingir um estado de pura natureza e suspensão. Era como se o poema já
contivesse em si uma partitura invisível, esperando para ser revelada em notas.
Renato Goulart e Marci Vogel
Viagem no Tempo pelas Páginas da História
As descobertas na residência, porém, não se limitaram ao
convívio com os artistas contemporâneos. Um dos tesouros que encontrei estava
silenciosamente guardado na biblioteca do Camac. Logo ao lado do piano,
repousava uma coleção histórica fascinante: uma vasta seleção de edições do
jornal parisiense L'Illustration. Para quem, como eu, é apaixonado por
história e cultura francesa, foi como abrir um portal para o passado.
Para contextualizar, o L'Illustration foi um
semanário de grande prestígio, cuja primeira edição data de 1843. Ele detém
marcos importantes no jornalismo, como ter sido o primeiro jornal francês a
publicar uma fotografia, em 1891, e a primeira fotografia a cores, em 1907. A
coleção do Camac reúne um acervo impressionante que cobre justamente o período
áureo da publicação, de 1843 a 1914, abrangendo mais de sete décadas de
registros históricos até o limiar da Primeira Guerra Mundial.
Ao folhear aquelas páginas, tive era uma experiência única. A
qualidade das gravuras e, posteriormente, das fotografias, era de uma riqueza
impressionante. Ao explorar os índices, fiz algumas descobertas que me tocaram
particularmente: pequenas notas e artigos que mencionavam compositores
franceses que admiro. Encontrei, por exemplo, uma reportagem sobre os ensaios
da ópera Thaïs, de Jules Massenet, e uma breve nota anunciando a
publicação da peça para piano Rêverie, de Claude Debussy. Era como se
a história da música francesa sussurrasse aos meus ouvidos diretamente daquelas
páginas.
O Olhar do Pintor e a Gênese das Obras
Outro encontro marcante foi com o pintor tcheco Jaroslav
Grodl. Sua obra se dedicava a capturar a beleza singela das cenas do cotidiano,
e eu acabei me tornando, sem querer, um de seus modelos. Foi uma surpresa me
ver em suas telas: em uma delas, estou na sacada da residência, observando o
jardim durante uma pausa para o chá; em outra, ele me retratou trabalhando ao
piano, durante o processo de composição. Ver meu próprio trabalho sendo
observado e recriado pelo olhar sensível de outro artista foi uma forma de
validação e inspiração muito especial.
Todo esse caldeirão de influências – a poesia de Marci, o
silêncio histórico da biblioteca, o olhar de Jaroslav e a paisagem serena de
Marnay-sur-Seine – começou a frutificar. Durante a residência, tive a
oportunidade de apresentar uma primeira versão da peça inspirada no poema de
Marci. Foi um momento intimista e poderoso: eu ao piano, executando a música
enquanto a própria poeta fazia a leitura de seus versos. Mais tarde, essa obra
ganharia uma nova roupagem, sendo finalizada em uma instrumentação para coro a
capella.
Paralelamente, as sementes da obra orquestral que eu viera
buscar começaram a germinar. O resultado foi “Impressões Francesas”, uma
peça sinfônica em três movimentos, cada um dedicado a um local que marcou minha
passagem pelo país: a tranquilidade de Marnay-sur-Seine, a energia boêmia
de Montmartre em Paris, e a grandiosidade histórica do Castelo
de Versalhes. A peça foi concluída em 2017 e apresentada no mesmo ano pela
Orquestra Filarmônica de Minas Gerais.
Jaroslav Grodl
Reencontros que Atravessam Fronteiras
O tempo passou, mas os laços criados na França permaneceram
vivos. Em 2018, fui selecionado para participar do festival Choral Arts
Initiative em Los Angeles, um encontro dedicado a compositores
contemporâneos de música coral. A oportunidade não poderia ser mais adequada:
levaria minha peça para ser apresentada nos Estados Unidos. E, por uma feliz
coincidência, LA também era a cidade de Marci Vogel. Pude reencontrá-la e, mais
uma vez, unir música e poesia, desta vez em solo americano, durante uma
primeira leitura da obra.
Esses reencontros se repetiram de outras formas, em outros
lugares. Anos mais tarde, durante uma passagem por Berlim, encontrei Nina
Ansari, a talentosa artista iraniana que também conheci no Camac. Conversamos
sobre nossos percursos, as cidades que agora habitamos — ela atualmente reside
na capital alemã — e como aquelas semanas em Marnay-sur-Seine seguiram ecoando
em nossos trabalhos.
Ao olhar para trás, percebo que a residência no Camac foi
muito mais do que um período de composição. Foi um lembrete poderoso de que a
arte floresce no encontro, na troca e na abertura para o inesperado. As obras
que nasceram ali carregam não apenas minhas notas, mas também um pouco da
poesia da Marci, das cores do Jaroslav e dos ecos da história que sussurravam
nas páginas do L'Illustration. E tudo isso só foi possível graças à
generosidade de tantas pessoas que, ao apoiarem o financiamento coletivo, tornaram
essa experiência realidade.
https://www.renatogoulart.mus.br/blog
https://www.instagram.com/camac_art/
Marci Vogel: https://marcivogel.com/
Jaroslav Grodl: https://www.pure-beauty.cz/
Nina Ansari: https://www.ninaansari.com