terça-feira, 10 de março de 2026

Renato Goulart - In Principio x

E ainda sobre o compositor mencionado nos dois últimos posts.

Renato Goulart é saxofonista, compositor, arranjador, regente, educador e produtor cultural. Graduado em Música pela UFMG, com habilitação em saxofone, e pós-graduado em Educação Musical, desenvolve uma trajetória que transita entre criação artística, performance e formação de músicos.

Suas obras sinfônicas, camerísticas e corais já foram executadas no Brasil e em diversos países, como Estados Unidos, Portugal, Espanha, Chile, Colômbia, Argentina e Polônia. Em 2018, sua peça coral The Daughter Who Flew Through the Atmosphere & Into a State of Nature, escrita em parceria com a poeta norte-americana Marci Vogel, foi a única obra estrangeira selecionada pelo programa Choral Arts Initiative, em Los Angeles.

Na música para banda, sua Suite do Vale foi finalista do WASBE Composition Contest, na Holanda, e a obra orquestral Impressões Francesas integrou o Festival Tinta Fresca, da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais.

Além da atividade composicional, Renato desenvolve forte atuação educacional. Fundou e coordenou a Orquestra de Sopros da Fundação de Educação Artística (2008–2015) e idealizou o Pró-Banda – Programa de Formação Musical para Músicos de Banda. Atua também como professor convidado em cursos e festivais de música, ministrando aulas de saxofone, composição, arranjo e orquestração.

Atualmente dedica-se ao trabalho com bandas de música em Minas Gerais, sendo maestro da Euterpe Santa Cecília, em Buenópolis — cidade onde iniciou sua formação musical.

Suas composições e arranjos são publicados internacionalmente por editoras como Dorn Publications, Murphy Music Press e SMP Press, nos Estados Unidos.

 

🎬 Vale registrar aqui outra bela obra desse compositor mineiro. O Coro Madrigale interpretou In Principio em maio de 2011, na Fundação de Educação Artística, acompanhado ao piano por Adão Oliveira e com a presença do próprio compositor.

Naquele momento chamou nossa atenção o interesse de Renato pela linguagem coral e, sobretudo, seu talento especial para construir sonoridades expressivas para o instrumento coral.

A obra utiliza o texto do Evangelho de São João (1:1–3; 1:14):

In principio erat Verbum, et Verbum erat apud Deum, et Deus erat Verbum.
Omnia per ipsum facta sunt; et sine ipso factum est nihil quod factum est.
Et Verbum caro factum est, et habitavit in nobis.

Tradução

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e Deus era o Verbo.
Tudo foi feito por Ele; e sem Ele nada foi feito do que foi feito.
E o Verbo se fez carne e habitou entre nós.


In Principio - Renato Goulart (Concerto Música Sacra 2011)

 



segunda-feira, 9 de março de 2026

Entre a Música e a Poesia: Memórias de uma Residência Artística na França (por Renato Goulart)

(Na sequência do post de ontem, o compositor Renato Goulart resolveu nos presentear com a narrativa da experiência que resultou na peça The Daughter. Vamos lá...)



No final de 2016, entre os meses de outubro e novembro, embarquei em uma jornada que se revelaria profundamente transformadora: minha primeira residência artística. Viabilizada por meio de um projeto de financiamento coletivo, que contou com o apoio de vários amigos e familiares que acreditaram no meu trabalho, pude realizar essa etapa fundamental da minha formação. O destino era o Camac – Centro de Artes, situado na pacata e charmosa comuna de Marnay-sur-Seine, no interior da França. Levei na bagagem um objetivo claro: dedicar-me integralmente à composição de uma nova obra para orquestra sinfônica. O que eu não esperava era que o verdadeiro presente daquela temporada seria o encontro com outras linguagens artísticas e as conexões humanas que floresceriam ali.



Camac


Um Caldeirão de Criatividade

Apesar do foco inicial na música, a experiência no Camac me proporcionou algo raro e valioso: a imersão em um ambiente multidisciplinar. A residência reunia artistas de origens e áreas completamente diferentes, criando um fértil caldeirão de ideias. Ali, ao lado de músicos, conviviam pintores, poetas e artistas plásticos, cada um com seu processo criativo e sua visão de mundo. Foi nesse contexto de troca constante que tive a sorte de conhecer a poeta norte-americana Marci Vogel, vinda da ensolarada Los Angeles. Ela estava na França para uma pesquisa literária sobre a cultura francesa, mas foi ao compartilhar sua poesia que nossos caminhos artísticos se entrelaçaram.

Ao folhear alguns de seus livros, um poema em especial me saltou aos olhos e, mais do que isso, ressoou imediatamente em minha imaginação musical: “The Daughter Who Flew Through the Atmosphere & Into a State of Nature” (A Filha Que Voou Através da Atmosfera e Entrou em um Estado de Natureza). A leitura daquele texto não foi apenas intelectual; foi uma experiência sensorial. Visualizei um movimento ascendente, movimentos harmônicos que representavam um flutuar, o etéreo. Senti a textura musical se dissolvendo, como se a matéria se tornasse gradualmente mais sutil, flutuante, até atingir um estado de pura natureza e suspensão. Era como se o poema já contivesse em si uma partitura invisível, esperando para ser revelada em notas.


Renato Goulart e Marci Vogel


Viagem no Tempo pelas Páginas da História

As descobertas na residência, porém, não se limitaram ao convívio com os artistas contemporâneos. Um dos tesouros que encontrei estava silenciosamente guardado na biblioteca do Camac. Logo ao lado do piano, repousava uma coleção histórica fascinante: uma vasta seleção de edições do jornal parisiense L'Illustration. Para quem, como eu, é apaixonado por história e cultura francesa, foi como abrir um portal para o passado.

Para contextualizar, o L'Illustration foi um semanário de grande prestígio, cuja primeira edição data de 1843. Ele detém marcos importantes no jornalismo, como ter sido o primeiro jornal francês a publicar uma fotografia, em 1891, e a primeira fotografia a cores, em 1907. A coleção do Camac reúne um acervo impressionante que cobre justamente o período áureo da publicação, de 1843 a 1914, abrangendo mais de sete décadas de registros históricos até o limiar da Primeira Guerra Mundial.

Ao folhear aquelas páginas, tive era uma experiência única. A qualidade das gravuras e, posteriormente, das fotografias, era de uma riqueza impressionante. Ao explorar os índices, fiz algumas descobertas que me tocaram particularmente: pequenas notas e artigos que mencionavam compositores franceses que admiro. Encontrei, por exemplo, uma reportagem sobre os ensaios da ópera Thaïs, de Jules Massenet, e uma breve nota anunciando a publicação da peça para piano Rêverie, de Claude Debussy. Era como se a história da música francesa sussurrasse aos meus ouvidos diretamente daquelas páginas.





O Olhar do Pintor e a Gênese das Obras

Outro encontro marcante foi com o pintor tcheco Jaroslav Grodl. Sua obra se dedicava a capturar a beleza singela das cenas do cotidiano, e eu acabei me tornando, sem querer, um de seus modelos. Foi uma surpresa me ver em suas telas: em uma delas, estou na sacada da residência, observando o jardim durante uma pausa para o chá; em outra, ele me retratou trabalhando ao piano, durante o processo de composição. Ver meu próprio trabalho sendo observado e recriado pelo olhar sensível de outro artista foi uma forma de validação e inspiração muito especial.

Todo esse caldeirão de influências – a poesia de Marci, o silêncio histórico da biblioteca, o olhar de Jaroslav e a paisagem serena de Marnay-sur-Seine – começou a frutificar. Durante a residência, tive a oportunidade de apresentar uma primeira versão da peça inspirada no poema de Marci. Foi um momento intimista e poderoso: eu ao piano, executando a música enquanto a própria poeta fazia a leitura de seus versos. Mais tarde, essa obra ganharia uma nova roupagem, sendo finalizada em uma instrumentação para coro a capella.

Paralelamente, as sementes da obra orquestral que eu viera buscar começaram a germinar. O resultado foi “Impressões Francesas”, uma peça sinfônica em três movimentos, cada um dedicado a um local que marcou minha passagem pelo país: a tranquilidade de Marnay-sur-Seine, a energia boêmia de Montmartre em Paris, e a grandiosidade histórica do Castelo de Versalhes. A peça foi concluída em 2017 e apresentada no mesmo ano pela Orquestra Filarmônica de Minas Gerais.


Jaroslav Grodl



Reencontros que Atravessam Fronteiras

O tempo passou, mas os laços criados na França permaneceram vivos. Em 2018, fui selecionado para participar do festival Choral Arts Initiative em Los Angeles, um encontro dedicado a compositores contemporâneos de música coral. A oportunidade não poderia ser mais adequada: levaria minha peça para ser apresentada nos Estados Unidos. E, por uma feliz coincidência, LA também era a cidade de Marci Vogel. Pude reencontrá-la e, mais uma vez, unir música e poesia, desta vez em solo americano, durante uma primeira leitura da obra.

Esses reencontros se repetiram de outras formas, em outros lugares. Anos mais tarde, durante uma passagem por Berlim, encontrei Nina Ansari, a talentosa artista iraniana que também conheci no Camac. Conversamos sobre nossos percursos, as cidades que agora habitamos — ela atualmente reside na capital alemã — e como aquelas semanas em Marnay-sur-Seine seguiram ecoando em nossos trabalhos.

Ao olhar para trás, percebo que a residência no Camac foi muito mais do que um período de composição. Foi um lembrete poderoso de que a arte floresce no encontro, na troca e na abertura para o inesperado. As obras que nasceram ali carregam não apenas minhas notas, mas também um pouco da poesia da Marci, das cores do Jaroslav e dos ecos da história que sussurravam nas páginas do L'Illustration. E tudo isso só foi possível graças à generosidade de tantas pessoas que, ao apoiarem o financiamento coletivo, tornaram essa experiência realidade.


https://www.renatogoulart.mus.br/blog

https://www.instagram.com/camac_art/  Marci Vogel: https://marcivogel.com/ 

Jaroslav Grodl: https://www.pure-beauty.cz/ Nina Ansari: https://www.ninaansari.com  

  

domingo, 8 de março de 2026

The Daughter, uma peça que esperou o seu tempo

Em 2017 recebi um e-mail do compositor Renato Goulart. Ele me enviava uma peça coral recém-composta, The Daughter, sobre um poema da poeta norte-americana Marci Vogel. A mensagem vinha acompanhada da partitura, de uma gravação ao piano e de um comentário que me chamou a atenção: ele achava que a estética da peça tinha muito a ver com o Madrigale.

Eu gostei imediatamente da provocação.

Na época, respondi que estava justamente pensando em montar um concerto dedicado ao repertório coral do século XXI e a peça entrou para aquele campo de ideias que às vezes ficam amadurecendo em silêncio.

Três anos depois, em 2020, no meio da pandemia, Renato voltou a me escrever. Agora com uma proposta concreta: realizar a gravação da obra. Estávamos no tempo dos coros virtuais e o Madrigale produzia a pleno vapor uma série de vídeos com repertórios diversos e foi justamente nesse contexto que The Daughter encontrou o seu caminho. Selecionei uma turma de cantores e partimos para a elaboração dessa difícil obra. Foi um processo trabalhoso, paciente e cheio de pequenos desafios técnicos, mas também profundamente simbólico, pois era a realização de uma peça musical que estava no plano das ideias e queria se tornar música numa realidade confusa e sensível. 

E aquela peça que tinha chegado como uma “provocação” alguns anos antes encontrou finalmente a sua primeira vida sonora. E é assim: algumas músicas sabem esperar o tempo certo de nascer.

🎬 Coro Madrigale - The Daughter

 


The Daughter Who Flew Through the Atmosphere & Into a State of Nature

(Marci Vogel)

 

If she were in Ovid, she might be

a tree, not Daphne, but another

racing through a blue slit

in the sky. Up, up―

the houses, miniature

squares. The streets,

nowhere she need ever travel

again. Some tangles

turn to knots, their laces

undone. Here,

sweet mortal, feel

the stepping out of shoe

into limb, the rising, root,

the leafing.


A Filha que Voou pela Atmosfera até um Estado de Natureza (Tradução livre)

Se ela estivesse em Ovídio, talvez fosse

uma árvore, não Dafne, mas outra

correndo por uma fenda azul

no céu. Para cima, para cima —

as casas, quadrados

em miniatura. As ruas,

lugares por onde ela nunca mais

precisará passar. Alguns emaranhados

se tornam nós, seus laços

desfeitos. Aqui,

doce mortal, sente

o sair do sapato

para o membro, a ascensão, a raiz,

o brotar em folhas.

 

(poema retirado do livro At the Border of Wilshire & Nobody - Ed. Howling Bird Press, Minneapolis, 2015)

 

Site da escritora: marcivogel.com


 


 

sábado, 7 de março de 2026

Uma história do Acesita em fotos

29/08/1992

Visitando o acervo de fotos do Coral Acesita, me deparei com um evento esquecido por mim, mas que volta à memória como uma leitura linda de um tempo diferente. Lá estávamos nós, em 1992, no Auditório da Escola de Música da UFMG, não no Campus da UFMG, mas ainda no Conservatório (essa mudança de lugar da Escola só aconteceria em 1997). Os diretores da Escola sempre foram, e continuam sendo, apoiadores das atividades dos alunos e eu consegui uma data para que eu e o Luciano Lima ajuntássemos os coros que trabalhávamos naquela época. Vejam, através das fotos, cinco dos coros de um tempo:

1. Coral Acesita, que veio lá de Timóteo para uma primeira viagem a BH.




2. Madrigal Scala



 3. Coral do Minas Tênis Clube




4. Coral da Paróquia Menino Jesus  (que daria origem, posteriormente, ao Coro Madrigale)




5. Coral do Clube Atlético Mineiro, que era uma excelente proposta de Coro de Time de Futebol, mas que foi terminado em uma mudança de diretoria. Uma pena!!!

 



Os coros se assistiam





E todos cantavam juntos no final...



 








sexta-feira, 6 de março de 2026

O ensaio como espaço de construção (uma reflexão)

Depois de escrever sobre o ensaio como espaço ético (01/03/26) meu amigo Lumumba me provocou: 

Arnon, achei que você deu um foco maior em aspectos negativos do ensaio. Você poderia reforçar a importância da "repetition", da excelência que só se pode alcançar com o esforço continuado, da importância dos textos e da dicção, tantas outras coisas... Você deve cultivar a sua maior qualidade, a positividade, não acha?

Ele tem razão. Então, vamos lá:

Um coro se constrói na repetição. Não apenas para fixar notas, mas para formar segurança. Muitos cantores não são leitores fluentes de partitura. Aprendem ouvindo, repetindo, incorporando. E fazem isso com uma consciência admirável. Às vezes, com mais segurança do que músicos que leem com desenvoltura, mas não internalizam.

A repetição é o laboratório do coro.

No início, ela é descoberta. Depois, vira ferramenta. E, quando a peça já está aprendida, pode parecer excesso. Alguns veem como perda de tempo. Eu não vejo assim. A repetição, quando bem conduzida, revela detalhes que passam despercebidos na primeira leitura: um ajuste de afinação, um equilíbrio mais fino de vozes, uma respiração conjunta que muda tudo.

Excelência não nasce do acaso. Afinação importa. Fraseado importa. Equilíbrio de naipes importa. E a palavra importa talvez mais do que tudo. Um coro existe na palavra. Cantar afinado sem clareza de texto é reduzir a música a exercício sonoro. Já interrompi ensaios muitas vezes por causa de dicção, não por obsessão formal, mas porque o texto é parte essencial do compromisso artístico.

Há quem pense que insistir nesses detalhes é rigor excessivo. Eu penso que é respeito. Sustentar um grupo por décadas exige crença. Crença na missão, no repertório desafiador, na parceria construída com confiança. Exige também positividade, não no sentido ingênuo, mas na convicção de que vale a pena repetir mais uma vez, ajustar mais um acorde, refazer uma frase até que ela encontre sua forma.

O ensaio é espaço de ética, sim. Mas é também espaço de construção paciente. E construção não acontece sem repetição. Para além disso, como bem me disse o Lumumba num outro tempo: em francês, ensaio é repétition




Meu amigo Lumumba:
Blog do Maestro Arnon: Lumumba: voz e memória de um Madrigal



quinta-feira, 5 de março de 2026

Conversa de botequim (HelyElas)

No meio do HelyElas, sentamos à mesa pra uma Conversa de Botequim... Essa peça de Noel Rosa e Vadico entrou no programa sem pedir licença. Samba urbano, texto afiado, ironia fina e nada de solenidade.

Levar Noel para o coro é sempre um teste. Se exagera, vira caricatura. Se endurece, perde o espírito. O segredo é dizer bem, respirar junto, não atuar demais.

Ensaiar essa peça era como ajustar o tom de uma conversa mesmo: nem alto demais, nem afetado. Apenas natural. Uma prosa...

No HelyElas, ela trouxe o botequim para o palco e lembrou que leveza também exige precisão. 


🎬 Conversa de Botequim 2 - Coro Madrigale (2010)

 

 


quarta-feira, 4 de março de 2026

Madrigal Scala (1992) - a força de um repertório

Um programa de coro pode revelar mais do que um momento artístico. Pode revelar uma ambição. 

Revisitei um programa do Madrigal Scala de 1992 e encontrei um coro que não tinha receio de se afirmar. Vejam só: a primeira parte do concerto já indicava um horizonte: Dom Pedro de Cristo, Orlando de Lassus, Palestrina, Villa-Lobos, negro spiritual, Edwin Fissinger. Um arco que atravessava séculos, estilos e geografias sem pedir licença.

Abrir com O Magnum Mysterium e seguir para o Super flumina Babylonis intentava mostrar que o coro tinha clara a ideia e busca de homogeneidade de timbre, precisão na afinação modal e compreensão do fluxo polifônico. Isso porque a Renascença se canta com disciplina e consciência de linha. No mesmo programa, aparece um negro spiritual, uma canção latino-americana, além de Gershwin, Ary Barroso, José Rodrix e Vandré. Uma segunda parte variada e eclética. 

Eu sempre gostei da variedade no repertório. O tempo é que me fez "especialista" em alguns repertórios e olhar para aquele tempo me impressiona porque eu tinha já a coragem de sustentar contraste sem fragmentação. Ali era um coro jovem, porque era jovem apesar dos cantores experientes, assumindo um repertório que demandava maturidade técnica e postura artística. Ele não se acomodava em arranjos confortáveis, era um conjunto que se expunha. Cada obra exigia um tipo de emissão, de fraseado, de escuta interna.

Sempre acreditei que o repertório forma o coro e essa é uma verdade que se confirma quando olhamos para aquele coro lá trás. Um grupo que canta Lassus aprende sobre arquitetura. Um grupo que canta spiritual aprende sobre pulsação interna e respiração coletiva. Um grupo que canta arranjos variados precisa lidar com tensão histórica e intenção textual.

Em 1992, o Madrigal Scala apresentava um repertório variado e se construía nele. Hoje, ao rever esse programa, o que salta aos olhos não é apenas a variedade, mas a coerência de propósito. Havia ali uma crença na música como formação, técnica e humana. Não se escolhe repertório desse porte por acaso. Escolhe-se porque se acredita que o grupo pode crescer dentro dele...

E cresceu, pois nenhum coro vive 35 anos por acaso.




terça-feira, 3 de março de 2026

Encabulada (HelyElas)

Em 2010, no HelyElas, decidimos incluir a Encabulada, de Antônio Carlos e Jocafi, porque o Hely gostava muito dessa música e, por isso mesmo, caprichou no arranjo.

Antônio Carlos Marques Pinto, guitarrista ligado à orquestra do maestro Carlos Lacerda, e Jocafi (José Carlos Figueiredo), compositor que já tinha prestígio na Bahia quando se conheceram em 1968, formaram uma das duplas mais marcantes da canção brasileira das décadas de 60 e 70. Suas músicas ganharam o país na voz de Maria Creuza, que mais tarde se casaria com Antônio Carlos, e também nos registros que gravaram pela RCA, como Você Abusou e Toró de Lágrimas. Migraram da Bahia para o Rio, participaram de festivais, tiveram obras em trilhas de novelas e seguiram compondo.

Essa música tem uma leveza rítmica que exige precisão sem rigidez. O balanço não pode escorregar para caricatura. O coro precisa cantar com naturalidade, sem “interpretar demais” a canção. O risco está justamente aí: quando um grupo coral tenta ser mais popular do que a própria música permite, perde-se a elegância.

Lembro do ensaio em que percebemos isso. A primeira leitura estava correta, afinada, mas excessivamente marcada. Havia esforço demais em parecer descontraído. Tivemos que limpar a interpretação, retirar gestos desnecessários, devolver à peça a simplicidade que ela pede. Canções populares, quando bem escritas, não precisam de adorno.

Em 2010, cantar Encabulada foi um exercício de medida. Nem excesso de solenidade, nem informalidade artificial. Apenas o som coletivo tentando respeitar a natureza da peça.


🎬 Encabulada - Coro Madrigale (2010)

 


 Outros posts referentes ao Hely Elas:

Blog do Maestro Arnon: Canção do Amanhecer (HelyElas)

Blog do Maestro Arnon: Saia do meu caminho

Blog do Maestro Arnon: Ilusão à toa: a delicadeza como gesto

Blog do Maestro Arnon: Sabiá (HelyElas)

Blog do Maestro Arnon: João e Maria - delicadeza como escolha (HelyElas)

Blog do Maestro Arnon: Chovendo na roseira: pra florescer devagar

Blog do Maestro Arnon: Onde Deus possa me ouvir (2) — Madrigale ao vivo

Blog do Maestro Arnon: Canção do Amanhecer



segunda-feira, 2 de março de 2026

O Retorno do Madrigale

Ontem, o Madrigale voltou a cantar em um concerto.

A palavra “retorno” parece simples, mas não é. Entre o último ensaio antes do recesso e este concerto na Igreja São Francisco de Assis, atravessamos mais do que semanas de pausa. Foi um tempo de silêncio, de distância, de perguntas não ditas e, no meu caso, de um refazimento de ideias, valores e importâncias. Para além disso, foi um tempo de respiro depois de tensões acumuladas, de conflitos silenciosos, de redefinições internas, não apenas em relação ao coro, mas à vida.

Pausas, quando honestas, não são abandono. São respiração. Confesso que houve momentos, sim, em que temi que o Madrigale não voltasse a ensaiar. Pensei em encerrar o ciclo, “fechar a fábrica” e seguir outros caminhos. Natural. Todo processo longo atravessa seus abalos... Mas, nesse mesmo silêncio, algo foi se reconstituindo dentro de mim: a compreensão de que o Madrigale não é apenas um grupo que eu conduzo. Eu sou o Madrigale, e assumir isso novamente foi parte essencial desse tempo.

Cantar depois de uma pausa é sempre um gesto de confiança: confiança de que o vínculo ainda sustenta o som. Voltar a cantar ontem, naquele espaço simbólico de uma Belo Horizonte que nos viu nascer e crescer, foi como recolocar o corpo em um espaço conhecido, mas não idêntico ao que deixamos. A Igrejinha tem a capacidade de ampliar o som e, ao mesmo tempo, revelar fragilidades, e a acústica expôs, sob certo aspecto, o que somos neste instante.

O primeiro acorde trouxe mais do que afinação. Trouxe memória... Memória dos que estiveram, dos que saíram, dos que ficaram. Memória das dúvidas que rondaram o grupo nos últimos meses. A primeira interação de fala com o público foi para, em um ato pensado, dizer ao público (e a todo o coro) que “nós somos o Coro Madrigale”, e isso não foi fácil. Essa pequena frase, tão intensa e sincera, quase me fez chorar (e essa não foi a primeira vez que tive de me segurar durante todo o concerto).

Percebi, enquanto regia, um lugar que estava meio esquecido havia algum tempo: o lugar da confiança e da alegria, tão próprios da existência do Madrigale. A sensação de sermos um corpo integrado. Eu e os cantores. Os cantores e eu. Nós. Sim, porque o Madrigale é um conjunto que se faz pela força do grupo e não pela soma de individualidades.

Não foi difícil reativar os processos. Bastou pouco tempo para que os naipes se reconhecessem, testassem novamente a própria segurança e a música se encontrasse dentro da nossa naturalidade. Não se trata de desligar e religar no mesmo ponto. Trata-se de retomar um fluxo que já tem história (33 anos de história) e que sabe, mesmo depois de abalos, onde está sua base. Isso porque um coro respira, sofre, amadurece.

E a igreja e o público estavam ali como testemunhas, ainda que não soubessem. As linhas de Niemeyer, a beleza da Lagoa ao redor, a imagem e proteção do meu tão amigo São Chiquinho. Ali, tudo convidava à interioridade, nada de afirmações. Ali, foi um gesto de continuidade.

Depois do último acorde, ainda na alegria plena de todos, troquei um olhar com o grupo e agradeci. Um agradecimento sincero, simples. Ali senti uma espécie de serenidade que não vinha de qualquer busca por perfeição técnica, mas da permanência. Sim, permanecemos, sorrimos, nos emocionamos.

O retorno não apaga o que passou, mas incorpora. E talvez seja essa a maturidade possível neste momento do Madrigale: seguir cantando sem ignorar as fissuras, sustentando o som com a consciência de que cada ciclo exige revisão, cuidado e escuta.

Ontem, na Pampulha, o Madrigale voltou. E, ao voltar, reafirmou o que é. Nessa reafirmação, dizemos com muita alegria: nós somos o Coro Madrigale!!!












domingo, 1 de março de 2026

O ensaio como espaço ético (uma reflexão)

O que penso de um ensaio?

O ensaio, para mim, não começa na partitura, começa na relação. E, ao longo dos anos, fui aprendendo que ensaio não é apenas espaço técnico, mas é, sobretudo, um espaço ético. 

Antes do primeiro acorde, há o café, esse pacto silencioso que diz: estamos aqui juntos. O ensaio começa ali, com alguns minutos compartilhados, conversa solta, uma preparação mais humana que vocal. Se esse pequeno rito falha, algo já se desloca. O trabalho pode até acontecer, mas falta o eixo.

Costumo iniciar com um vocalize que não tem a função principal de aquecer vozes, mas de harmonizar o ambiente, uma tentativa de alinhar respirações e intenções. E aí o ensaio acontece de maneira a preparar todo o grupo para uma apresentação qualquer tendo como um princípio muito meu de que o caminho de preparação sempre é muito mais importante e prazeroso do que o final, o concerto, em si. Ali se criam relações do coletivo e individuais que se refletirão na maneira como o conjunto se mostrará para a comunidade que o aguarda.  

Sobre relações individuais, é claro que já falhei nisso. A tentativa de harmonia nem sempre é possível e bem conduzida. Já expus cantores com palavras desnecessárias. Já confundi frustração musical com dureza de caráter. O tempo ensina, mas não apaga o que foi dito. Liderar um grupo é lidar com poder, e poder mal administrado deixa marcas. 

Costumo dizer que tento ser um “ditador benevolente”, porque há uma ordem a manter e um coro não se constrói na dispersão. Mas liderança não é imposição constante. Percebo que ultrapassei a medida quando o clima muda, quando a cobrança começa a retirar segurança de um naipe inteiro. A tensão é um termômetro e se ela paralisa, algo está errado.

Erro nunca me incomodou, negligência, sim. Quando instruções claras são ignoradas por distração ou desatenção, o problema deixa de ser técnico e se torna relacional. O tempo do ensaio pertence a todos e desperdiçá-lo é uma forma de desrespeito coletivo.

Há também os silêncios difíceis, o silêncio de quem não fala o que pensa e permite que outros assumam o confronto. Esse tipo de silêncio corrói o grupo, cria desconforto, afasta os novos cantores. Como líder, aprendi que sempre participo da desarmonia quando ela surge porque não há neutralidade possível.

Já vivi ensaios tecnicamente eficientes e humanamente pobres. E já vivi o contrário: encontros imperfeitos na execução, mas densos de presença e compromisso. O que permanece não é apenas o resultado musical, mas a qualidade do vínculo que sustenta o som.

Um ensaio eticamente saudável exige participação integral. Não apenas vozes afinadas, mas responsabilidade, escuta, preparo e respeito pelo trabalho comum. A boa qualidade musical não nasce isolada da convivência. Ela é consequência de um ambiente em que todos assumem sua parte.

Aprendi que o som revela o clima... Sempre revelou.





 


Renato Goulart - In Principio x

E ainda sobre o compositor mencionado nos dois últimos posts. Renato Goulart é saxofonista, compositor, arranjador, regente, educador e prod...