Em maio de 2002, subi ao palco da Sala Juvenal Dias para reger A História do Soldado, de Igor Stravinsky.
Hoje, mais de vinte anos depois, ainda me pergunto de onde veio a coragem. Talvez da juventude. Talvez da inconsequência saudável que às vezes acompanha os primeiros anos de uma carreira. Ou talvez simplesmente da vontade de fazer música.
A História do Soldado não é uma obra simples. Escrita em 1918, em plena Europa devastada pela guerra, ela ocupa um lugar muito particular na produção de Stravinsky: não é ópera, não é teatro, não é concerto. É um encontro improvável entre palavra, gesto e música. Naquele palco estavam Daniel Campos, Mauro Mascarenhas, José Geraldo Fernandes, Marcos Freitas, Nichola Viggiano, Valdir Claudino e Werner Silveira. A narração ficou a cargo de Sílvio Viegas. Coube a mim a regência e também a adaptação dos textos apresentados ao público.
Lembro-me da intensidade dos ensaios. Sabíamos que havia muito a ser trabalhado, porque a obra exigia mais do que conseguir tocar as notas certas. Era necessário compreender sua linguagem, seus contrastes, suas mudanças bruscas de atmosfera e sua teatralidade muito particular. Como foram dois dias de apresentação, algumas passagens funcionaram melhor num dia, outras ganharam força no outro. No fim das contas, a sensação compartilhada entre os músicos foi de satisfação, não porque tudo tivesse sido perfeito, mas porque tínhamos conseguido atravessar a montanha.
Obras como A História do Soldado nunca tiveram o apelo imediato dos grandes clássicos, pois exigem escuta, disponibilidade, curiosidade. Ao reler minhas anotações daqueles dias, encontrei uma frase simples: "O público é que ainda não nos dá o retorno devido, mas devemos continuar o trabalho. Vamos em frente.” Gosto dela hoje tanto quanto gostei naquele momento. Porque, no fundo, ela fala menos sobre aquele concerto e mais sobre a própria vida musical. Poucas experiências me ensinaram isso de forma tão clara quanto aqueles dias ao lado de Stravinsky.