Quem frequenta concertos sabe que nenhuma apresentação de um obra é igual à outra. O mesmo repertório, os mesmos músicos e até o mesmo espaço podem produzir experiências completamente diferentes. Mas, de vez em quando, acontece algo difícil de explicar. Desde os primeiros minutos, percebe-se que aquela noite seguirá um caminho diferente. Não é uma questão de tocar mais forte, cantar melhor ou emocionar mais. É uma sensação que nasce antes mesmo de conseguirmos encontrar palavras para descrevê-la.
Foi isso que vivi no concerto de O Messias, em dezembro de 2002. Lembro-me com muita clareza do início da obra. A orquestra começou a introdução que prepara o primeiro solo, tudo correndo exatamente como havia acontecido nos ensaios. Não havia nenhum sinal extraordinário. Eu estava concentrado apenas em conduzir o concerto. Então o coro entrou...
Naquele instante, tive uma impressão muito forte de que estávamos diante de uma noite especial. Nunca consegui explicar racionalmente por quê. O concerto mal havia começado. Ainda havia quase duas horas de música pela frente. Seria cedo demais para qualquer conclusão. Mesmo assim, alguma coisa já estava diferente.
Talvez outros regentes entendam o que estou tentando dizer. Há momentos em que coro, orquestra e regente parecem respirar juntos de uma maneira muito particular. O público também entra nessa corrente sem perceber. A música deixa de parecer uma sucessão de entradas, gestos e compassos e passa a seguir quase sozinha. É como se todos começassem a pensar musicalmente da mesma forma.
Anos depois, continuo achando curioso que isso seja tão difícil de explicar. Poderíamos falar da afinação, do equilíbrio entre os naipes, da qualidade da orquestra ou do desempenho dos solistas. Tudo isso realmente estava muito bom naquela noite. Mas seria uma explicação incompleta. Quando a última nota soou, a Igreja São José explodiu em aplausos. Eu sabia que havíamos feito um grande concerto. O que ainda não sabia era que essa impressão não diminuiria com o passar dos anos. Aconteceu justamente o contrário.
Há apresentações das quais guardamos apenas fotografias, programas ou algumas lembranças esparsas. Outras continuam crescendo dentro de nós. Volto muitas vezes àquela noite de dezembro e, curiosamente, ela parece melhor hoje do que me pareceu quando deixei o palco. Não porque minha memória a tenha idealizado, mas porque o tempo me permitiu compreender o que realmente aconteceu ali.
Hoje penso que aquela atmosfera tinha menos relação com Handel do que com o grupo de pessoas reunidas naquela igreja. A música foi o ponto de encontro. O que tornou aquele concerto inesquecível foi a disposição de um coro inteiro para colocar o projeto acima de si mesmo, cantar sem vaidades e confiar plenamente uns nos outros. Por isso, quando volto ao programa daquele concerto, minha atenção já não se detém na obra, mas vai diretamente para os nomes dos cantores (...)