Quando falamos em música colonial mineira, alguns nomes aparecem imediatamente: Lobo de Mesquita, José Maurício Nunes Garcia, Manoel Dias de Oliveira, João de Deus de Castro Lobo. Durante décadas, aprendemos a vê-los como os grandes mestres de um período dourado da música brasileira. E não há dúvida de que foram grandes compositores. Mas talvez tenha chegado o momento de fazer uma pergunta diferente: quem eram essas pessoas para além dos monumentos que a história construiu em torno delas?
A redescoberta da música colonial mineira deve muito ao trabalho de Francisco Curt Lange. A partir das décadas de 1940 e 1950, ele percorreu cidades históricas, organizou acervos, fotografou manuscritos e chamou a atenção do Brasil e do exterior para um patrimônio que permanecia praticamente desconhecido. Sem ele, é difícil imaginar o lugar que essa música ocupa hoje em nossas salas de concerto e universidades. Mas toda geração faz perguntas próprias e as perguntas dos pesquisadores atuais são diferentes das que mobilizavam Lange.
Estudiosos como Renato Teixeira de Ulhôa vêm mostrando que a narrativa de Lange privilegiou uma visão heroica desses compositores. Era importante demonstrar que Minas Gerais havia produzido músicos capazes de dialogar com os grandes centros musicais do Ocidente e em seu contexto histórico essa estratégia fazia sentido. O problema é que, ao transformar esses músicos em grandes mestres da colônia, perdemos de vista os homens concretos por trás das partituras. Lobo de Mesquita não era apenas um "gênio colonial", mas era um músico profissional vivendo numa sociedade escravista, organista, professor e compositor, homem pardo filho de uma mulher escravizada, construindo sua trajetória num mundo marcado por hierarquias sociais extremamente rígidas. Essa dimensão humana não diminui sua grandeza, ao contrário, talvez a torne ainda mais impressionante.
Quando ouvimos a Missa em Fá ou a Antiphona de Nossa Senhora, não estamos ouvindo apenas a produção abstrata de um compositor excepcional. Estamos ouvindo a voz de uma sociedade complexa, formada por relações entre irmandades religiosas, músicos profissionais, escravizados, libertos, comerciantes e autoridades eclesiásticas. Pesquisadoras como Katya Beatriz de Oliveira e Laura Rónai têm chamado atenção para a necessidade de compreendermos essa música dentro de sua função original: essas obras não nasceram para as salas de concerto, mas para celebrações religiosas concretas, para espaços específicos e para comunidades que as vivenciavam como parte de sua experiência cotidiana de fé.
Talvez por isso eu tenha certa dificuldade quando ouço "música colonial" sendo usada apenas como categoria histórica. Para mim, essas obras chegaram como repertório através de vozes, de igrejas, de pessoas, nunca como objetos de museu. Por isso me parece importante reverenciar Curt Lange sem transformar sua narrativa em verdade definitiva. Os pesquisadores de hoje nos ajudam a enxergar o que sua geração não conseguia perceber com a mesma clareza. Lobo de Mesquita merece ser admirado não porque seria uma espécie de Mozart das Minas Gerais, mas porque foi um extraordinário músico brasileiro, formado dentro das contradições do seu tempo e capaz de produzir uma obra que continua nos emocionando mais de duzentos anos depois.
Como pequena homenagem a essa história, disponibilizo aqui a partitura da Antiphona de Nossa Senhora (Salve Regina), uma das obras mais conhecidas de Lobo de Mesquita e também uma das primeiras publicadas por Curt Lange no processo de redescoberta da música mineira. A mesma obra que ajudou a revelá-lo ao século XX pode continuar encontrando novas vozes no século XXI.
🎵 Antiphona de Nossa Senhora (Salve Regina)