terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

NMC - Coral Cantáridas: Música, Tradição e Extensão na UFMG

(por Gabriel Santos)

A música tem o poder de unir vozes, histórias e comunidades. No coração do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, essa premissa ganha vida através do Coral Cantáridas. Criado em maio de 1991, o grupo nasceu sob a administração do Prof. Tomaz Aroldo da Mota Santos como parte do projeto "Corais no Campus", coordenado originalmente pela Profa. Maria do Carmo Campara, da Escola de Música.

Uma Trajetória de Pluralidade

Desde a sua fundação, o Cantáridas atua de forma ininterrupta na divulgação do canto coral. O grupo marca presença em formaturas, apresentações em diversas unidades da UFMG e festivais em espaços públicos de Belo Horizonte e do interior de Minas Gerais.

O que torna o grupo especial é sua heterogeneidade: ele é composto por alunos, ex-alunos, professores, funcionários da universidade e moradores de bairros vizinhos. Essa mistura de perfis faz do coral um espaço plural de convivência.

Muito Além das Partituras: Um Lugar de Convivência

Para nós, o coral não se resume aos ensaios técnicos. Valorizamos os momentos de confraternização, as comemorações de aniversários e aquele café antes do ensaio para "pôr a conversa em dia". Essa socialização cumpre uma das funções mais nobres de um projeto de extensão: promover a troca de experiências entre o público interno e externo da universidade.

 "Quando assumi a regência do Cantáridas, percebi que o grupo tem a tradição de ser uma família. Essa relação saudável e funcional nos dá liberdade para construir o trabalho juntos, desde a avaliação da regência até a escolha do repertório e temas das apresentações." — Gabriel Santos, Regente.


Curiosidade: O que significa "Cantáridas"?

Você sabia? O nome é uma homenagem ao mundo biológico onde o grupo nasceu. Cantáridas é o nome de um besouro (Lytta vesicatoria), utilizado na medicina antiga por suas propriedades afrodisíacas e diuréticas. Um detalhe científico que reflete a identidade do ICB!


Repertório e Liderança

Ao longo dos anos, o Cantáridas dedicou-se a um repertório eclético, passando pela música sacra, pastoral e, claro, pela riqueza da Música Popular Brasileira (MPB).

Atualmente, o coral conta com uma equipe dedicada:

 Regência: Gabriel Santos.

 Coordenação: Profa. Rosy Isaias, Carlos Henrique Silva (TAE) e Rosário Neves (ex-aluna).

 Comunicação: Lucas Jorge (pós-graduando), responsável por nossas redes sociais.

Ao olhar para o passado, honramos os regentes que nos trouxeram até aqui, como Willsterman Sottani Coelho, Riane Menezes, Frederico Natalino, Messias Oliveira, Gabriel Oliveira e Matheus Almeida.


O Futuro é Melodia

O Coral Cantáridas segue firme em sua missão de encher os corações das pessoas de esperança através da música. Que essa jornada continue por muitos e muitos anos!







 

 Gabriel Santos é graduando em Licenciatura em Educação Musical e Bacharelado em Canto Lírico. Tem experiência em regência coral, técnica vocal e preparação vocal de corais.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Africa (Madrigale Internacional)

No concerto internacional do Madrigale, incluir Africa, do Toto, com arranjo de Mark Brymer, não foi um gesto de concessão ao repertório popular, nem uma tentativa de aproximação fácil com o público. Foi uma escolha consciente de repertório, daquelas que testam os limites do coro: musicais, estéticos e simbólicos.

Africa é uma canção curiosa: extremamente conhecida, carregada de camadas rítmicas, texturas vocais e um imaginário que, se tratado superficialmente, pode facilmente cair no exótico ou no caricatural. O desafio, no coro, era justamente outro: retirar o excesso de referência externa e fazer a música funcionar como estrutura sonora coletiva, com rigor, escuta e equilíbrio.

O arranjo de Mark Brymer ajuda nesse caminho. Ele entende o coro como instrumento e não como efeito. As vozes se organizam em planos claros, o pulso é sustentado pelo conjunto, e o ritmo, elemento central da peça, só funciona quando todos respiram juntos. Não há espaço para individualismos e se alguém tenta “brilhar”, o groove se perde. Africa não tem lugar para exibicionismo.

No contexto de um concerto internacional, essa escolha ganha outra camada. Um coro brasileiro cantando uma canção pop norte-americana que fala, de forma idealizada, sobre um continente africano, coloca em jogo questões de escuta, distância e tradução cultural. Nada disso se resolve no discurso. Resolve-se no modo de cantar: sem exagero, sem imitação, sem pastiche. Apenas fazendo a música soar com honestidade.

O resultado não foi o de uma plateia reconhecendo um sucesso conhecido, mas o de um coro afirmando sua capacidade de transitar por linguagens diferentes sem perder identidade. Talvez seja isso que mais me interessa nesse tipo de repertório: quando uma música amplamente conhecida deixa de ser “canção” e passa a ser experiência coral. 

🎬 Madrigale Pop Internacional – 13. Africa

 


 

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Mariana

Hoje é aniversário da minha filha Mariana, dia para ser marcado com palavras. Não para celebrar a data em si, mas para registrar, com visão de pai, o que permanece quando o calendário passa: quem ela é, o modo como ocupa o mundo, a forma quase silenciosa com que transforma os ambientes por onde caminha. Dessa forma, vou tentar, aqui, descrever essa minha Filhota para que o mundo comemore comigo.

Quando a Mariana entra, o clima muda. Ela traz sempre um sorriso iluminando, e mesmo quando as lágrimas chegam, não são jamais vazias: emocionam quem está por perto, porque carregam verdade. Ela tem uma presença firme, íntegra, radiante. Firme e suave ao mesmo tempo. Aquariana no melhor sentido: pensa no coletivo, nos amigos, nos animais, no bem-estar dos outros. Uma mulher que não ocupa o mundo para si, mas com os outros.

A força dela se manifesta de muitos modos: nas decisões que toma, na escuta atenta, na forma de cuidar e, sobretudo, na maneira como se posiciona. Sensibilidade firme, com uma pitada justa de inteligência estratégica, ela não tolera que mexam com os seus. Protege com palavras e com presença. Sua delicadeza mora justamente aí: na palavra, e se revela com nitidez quando alguém está em apuros e precisa de abrigo. Aí ela se faz uma leoa e não admite, como eu disse, que mexam com os seus.

Houve um momento claro em que percebi que ela já não era apenas “minha filha”, e isso foi quando passei a ser reconhecido como o "pai da Mariana". E isso diz muito porque eu identificava a doçura, a confiança e o sorriso que sempre estiveram ali, mas passei a ver o que amadureceu com o tempo: a independência, construída sem ruptura, como quem cresce por dentro. 

Nesse lugar, ser o "pai da Mariana" me ensinou algo essencial: que para cuidar de verdade, é preciso desarmar-se, mudar de lugar, ser mais cúmplice. É por isso que ela me lê melhor do que imagino, especialmente quando conversamos sobre nossos próprios problemas, naqueles momentos em que não há hierarquia, apenas humanidade e confiança compartilhadas.

Hoje, meu orgulho não é circunstancial, mas inteiro, de perceber e ver a mulher na qual ela se tornou. Sou grato a ela por algo simples e imenso: por ter me escolhido como pai. O que desejo para ela, agora, é menos trabalho e mais espaço para o próprio tempo. E deixo aqui a palavra que, no meu ver, a define hoje: amor. 

Termino este texto com um momento de música feito por pai e filha. Um momento cheio de cumplicidade e emoção intensa. Quem tiver que ver, verá...

🎬 Yesterday - Lennon & MacCartney (Mariana Malloy)




sábado, 31 de janeiro de 2026

1959 - o Madrigal Renascentista vai ao Sul (3) ou O disco possível

 (Esse post é sequência da publicação do dia 24/01/26)

No meio da excursão de 1959, entre concertos lotados, compromissos diplomáticos e deslocamentos contínuos, o Madrigal Renascentista realizou algo que, à época, já era um feito raro: gravou um disco. O LP foi registrado pela Chantecler, escolhida pelo próprio coro após disputa com outras gravadoras. Não se tratava apenas de uma decisão comercial, porque gravar significava fixar uma sonoridade, deixar um vestígio material de um grupo que, até então, existia sobretudo na experiência ao vivo: efêmera, intensa e irrepetível.

Segundo os registros jornalísticos da época, foram necessárias apenas cinco horas de estúdio para gravar 24 faixas. O dado impressiona e diz muito sobre a disciplina do grupo, mas também aponta para as limitações do processo. Não havia tempo para longos testes, nem para uma busca minuciosa de equilíbrio acústico. A gravação aconteceu como podia acontecer naquele contexto: rápida, funcional, direta.

Anos depois, Isaac Karabtchevsky foi severo ao avaliar esse registro. Em sua autobiografia, afirmou que o disco não refletia a real dimensão do Madrigal, considerando-o tecnicamente precário. Talvez haja aí um rigor excessivo, típico de quem conhece intimamente o que foi possível ouvir ao vivo. Ainda assim, a crítica não é descabida.

O LP apresenta diferenças claras de equalização entre as faixas, o que sugere um trabalho feito sem condições ideais de estúdio e, possivelmente, sem técnicos especializados na gravação de conjuntos corais. À época, gravar coro não era prática comum, nem prioridade comercial. Os estúdios eram pensados para pouca reverberação, o oposto do que favorece vozes em conjunto. O resultado sonoro carrega essas marcas.

Mas há algo que o tempo não apagou. Mesmo com limitações técnicas, o disco permite ouvir a qualidade alcançada pelo Madrigal apenas dois anos após sua criação. Permite reconhecer o equilíbrio vocal, a clareza de emissão e a musicalidade coletiva. E mais: preserva vozes que se tornariam centrais na história musical brasileira, como as de Maria Lúcia Godoy e Amin Abdo Feres, ainda jovens, ainda em formação.

A capa do LP também se tornou emblemática. A imagem do coro na escadaria interna do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, sob regência de Karabtchevsky, passou a circular como símbolo de uma época. O disco, mesmo imperfeito, tornou-se referência para gerações de músicos e coros no Brasil.

Talvez seja esse o ponto mais importante: o LP de 1959 não é o retrato ideal do Madrigal. É o registro possível. E, justamente por isso, é precioso. Porque guarda não apenas um som, mas um momento da história em que cantar junto já era, por si só, um gesto de afirmação cultural.

No próximo post, seguimos viagem, agora para o Sul do Brasil, onde o Madrigal começa a ser tratado não mais como promessa, mas como fenômeno.

🎧 MADRIGAL RENASCENTISTA - segundo lp. completo 1959 - SÉRIE RELÍQUIAS - acervo PEDRO l. BRASIL


Foto tirada na escadaria interna do Theatro Municipal de São Paulo (1959)

 
 Foto tirada logo após a foto do disco. A identificação dos cantores só foi possível graças à ajuda de um dos cantores da época, o querido João Gomes Oliveira. De baixo para cima, da esquerda para a direita:
1-Anna Maria Godoy, Maria Amália Martins, Evandro Lopes.
2-Waldemira de Oliveira, João Gomes de Oliveira.
3-Nélio Abreu, Terezinha Miglio, Maria Lúcia Godoy, Hilda Soares Fonseca, Alba Guimarães e Neyde Lambert.
4-Desconhecido, Desconhecida, Rosa Alice Godoy, Carmen Lúcia G. Batista, Amin A. Feres, Maria do Carmo Dolabella, Cláudio de Castro.
5-Esposa do Sr. Romeo Godoy, Maria Amélia Martins, Zinda de Oliveira Santos e Bete Godoy.
6-Sr. Romeo Godoy, Isaac Karabchevsky, Roberto de Castro e Esposa.
AUSENTES NA FOTO: Francisco Magaldi, Tarcísio Fiuzza, Jonas Travassos, Edival Trindade.

 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Sobre aprender a reger (devagar) - uma reflexão

Voltei a este texto escrito há cerca de quinze anos. Na época, ele nasceu de uma conversa informal com um colega mais jovem, regente talentoso, dedicado, mas cansado, impaciente, à beira do desânimo. Hoje, relendo, percebo que ele continua dizendo coisas que ainda precisam ser ditas. Talvez porque a regência, apesar de tudo, continue sendo uma arte que se constrói devagar, num mundo que anda rápido demais.

Então, este texto vai para os muitos jovens regentes, repetindo sempre: não desanimem, estudem e, acima de tudo, tenham paciência, paciência, paciência...

Há exatos 25 anos (40, agora!!!) eu entrei à frente de um coro, para reger. Exatamente da mesma maneira que muitos outros o fazem aqui no Brasil, ou seja, sem conhecimento de técnicas de condução, incentivado por um regente mais velho que, romanticamente, acreditava que eu tinha talento e que, por isso, deveria começar desde cedo a dirigir, a conduzir. Ao longo destes vários anos, muitos cursos foram feitos, centenas de concertos foram realizados, milhares de ensaios aconteceram, construindo e desconstruindo a arte do gesto.

A técnica da regência é incerta: a regência orquestral pede uma coisa, a coral outra; tenta-se misturar as duas e nem sempre dá certo. Alguns maestros pregam a independência do gesto em função da circularidade das frases; outros acreditam que a prevalência da manutenção do pulso é mais importante. Magnani acreditava que a condução da frase era essencial; Carlos Alberto Pinto Fonseca afirmava o ritmo na virilidade da sua condução, e assim por diante. Há como misturar as lógicas? Sim. Vale a pena? Nem sempre.

Uma conclusão? É uma arte que demanda estudo e pesquisa do que se faz, tal qual o teatro de bonecos japonês (Bunraku), que exige quase uma vida inteira para permitir aos artistas movimentarem os bonecos integralmente. Outra conclusão? Não se rege coro como se rege orquestra. Ainda outra? Falta muito para eu aprender a reger como meus velhos mestres.

Relendo esse texto hoje, com mais tempo de estrada, percebo que ele continua falando de mim porque continuo aprendendo. O gesto ainda se transforma, a escuta ainda se refina, a insegurança ainda aparece e talvez precise aparecer. O que mudou foi o entorno: hoje há mais informação, mais cursos, mais modelos disponíveis, mas menos espaço para a espera. Sinto que muitos jovens regentes são pressionados a mostrar resultados antes de compreender processos. Por isso, sigo acreditando no que escrevi lá atrás. A paciência não é um luxo, nem uma virtude romântica; é uma condição de sobrevivência artística. A regência continua sendo uma arte longa eu sigo tentando estar à altura dela.

 


quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Tuks Camerata: um coro universitário que atravessa tempos

O Tuks Camerata é mais um dos coros que descobri nas minhas "andanças" virtuais em busca de novos conjuntos para admirar e aprender. É o coro principal da Universidade de Pretoria (popularmente chamada “Tuks”) na África do Sul. O grupo foi oficialmente fundado em 20 de março de 1968, com a missão de contribuir para o desenvolvimento cultural da comunidade estudantil e, por meio do canto coral, enriquecer culturalmente a universidade e seu entorno.

O coro é formado por cerca de 80 estudantes de várias áreas, medicina, engenharia, direito, economia, música e outras, unidos pela prática do canto coletivo. Musicalmente, o grupo se propõe a ser um instrumento versátil, apresentando repertório que vai da música coral ocidental a peças que incorporam elementos das culturas sul-africanas, incluindo trabalhos em línguas indígenas.

A trajetória do coro inclui várias conquistas internacionais e atua como uma espécie de embaixador cultural da universidade e do país, levando repertório que mistura rigor técnico, expressão cultural e vivência comunitária para além de suas fronteiras, sempre mantendo uma afirmação clara: o canto coral é tanto um meio de formação humana quanto de eficiência artística.

Com vocês, o Tuks Camerata:

🎬 The Word Was God (Rosephanye Powell) - Tuks Camerata

 

 

Grupo de pessoas posando para foto

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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Christus factus est - cantar o recolhimento (virtual)

Na Sexta-Feira Santa de 2021, o Madrigale apresentou mais um dos muitos coros virtuais produzidos naquele período em que o corpo precisava se conter, mas o coro não podia parar. Não se tratava de substituir o encontro presencial, nem de criar um espetáculo. Tratava-se, antes, de sustentar um gesto de reflexão possível.

Para aquele momento de Semana Santa, escolhemos produzir o Christus factus est, de Anton Bruckner, uma obra de completa entrega e concentração. Um texto breve, denso, que fala de obediência, sacrifício e silêncio, e que o compositor transformou em matéria sonora de recolhimento profundo. 

Cantar esta peça já é, por si, uma experiência, porque ela é de difícil execução e interpretação. Em versão virtual, isso se intensifica. As vozes não compartilham o mesmo espaço acústico, mas precisam compartilhar a mesma intenção. Cada entrada exige escuta antecipada; cada suspensão harmônica pede confiança no tempo do outro. O que se perde em presença física precisa ser compensado em atenção.

Sempre temos que lembrar que, naquele momento, cantar era também aceitar o limite. Não havia como expandir o gesto, nem como acelerar o processo. A música pedia exatamente o que o tempo impunha: pausa, densidade, espera. A emoção não vinha de excessos, mas de contenção assumida.

Esse vídeo foi nossa forma de dizer que, mesmo separados, ainda era possível atravessar juntos um momento simbólico tão carregado de sentido. Não como resposta, mas como partilha. Não como afirmação, mas como escuta. Rever esse Christus factus est hoje é lembrar que há músicas que não servem para preencher o tempo. Servem para suspendê-lo. E, às vezes, é isso que mais precisamos.


🎬 Coro Madrigale - Christus factus est

 

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NMC - Coral Cantáridas: Música, Tradição e Extensão na UFMG

(por Gabriel Santos) A música tem o poder de unir vozes, histórias e comunidades. No coração do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UF...