Quem participa de um coro certamente já passou por esta experiência: cantar uma obra em latim, alemão, francês ou qualquer outro idioma sem compreender inteiramente o que está dizendo. Podemos aprender a pronúncia, memorizar o texto e até executar a música corretamente. Mas será que isso é suficiente para interpretar uma obra?
No meu trabalho como regente, costumo começar pela pronúncia. É preciso conhecer os sons do idioma, compreender como as palavras são articuladas e encontrar uma maneira de cantá-las com naturalidade. Em seguida, trabalhamos o significado das palavras e das frases.
É nesse segundo momento que começam a surgir questões propriamente interpretativas. Uma frase literária possui sua própria organização. Algumas palavras têm maior importância, outras preparam aquilo que será dito adiante. Há pontos de tensão, momentos de repouso e ideias que precisam ser compreendidas em conjunto. Na música, tudo isso ganha outra dimensão. Uma palavra pode coincidir com o ponto culminante de uma frase musical. Outra pode aparecer numa anacruse, preparando o movimento que virá. O compositor pode valorizar determinada expressão, prolongar uma sílaba ou criar uma tensão harmônica justamente sobre a palavra mais importante do texto. Cabe ao intérprete perceber essas relações.
É por isso que considero a compreensão do texto fundamental para uma boa interpretação coral. Quando os cantores entendem aquilo que estão dizendo, suas decisões musicais começam a fazer sentido. A articulação, a dinâmica, o fraseado e até a maneira de respirar passam a estar relacionados com o conteúdo da obra.
Naturalmente, nem sempre dominamos os idiomas que precisamos cantar. Eu mesmo recorro a todos os recursos disponíveis: traduções, gravações, estudos de pronúncia e pessoas que conhecem a língua. O importante é não tratar as palavras como uma sequência de sons que precisamos reproduzir.
Também não se trata de exigir que todos os integrantes de um coro aprendam alemão para cantar Bach ou latim para interpretar Mozart. Trata-se de compreender o texto que temos diante de nós e descobrir como ele se transforma em música. Costumo pensar que, quando trabalhamos uma obra coral, estamos lidando simultaneamente com duas frases: a literária e a musical. Uma não deve ser simplesmente subordinada à outra. Precisamos compreender como elas se encontram e como o compositor construiu essa relação.
A pronúncia correta permite que o público reconheça as palavras. A compreensão do texto permite que o coro saiba o que fazer com elas. E essa diferença pode transformar completamente uma interpretação.