Dentro da série Repertório Coral, apresento hoje uma obra que ocupa um lugar muito especial na minha trajetória como regente e pesquisador: a Missa Solene São João Batista, de Hostílio Soares (1898–1988).
Escrita em sol maior para coro misto a seis vozes, solistas, órgão e orquestra de cordas, a missa está entre as composições mais significativas do repertório sacro do compositor mineiro. Em 1962, recebeu o primeiro prêmio no concurso de composição promovido pelo governo de Minas Gerais.
Hostílio nasceu em Visconde do Rio Branco, onde fundou e dirigiu o Coro Santa Cecília, da Matriz de São João Batista. Sua produção sacra está diretamente relacionada à experiência como músico de igreja, embora sua linguagem composicional ultrapasse as necessidades estritamente litúrgicas. Na Missa São João Batista, encontramos uma escrita contrapontística elaborada, harmonias expressivas e uma construção formal de grande unidade.
O próprio compositor deixou uma explicação sobre a estrutura da obra, registrada no início da partitura original. Segundo ele, toda a missa tem como base um tema de oito compassos, apresentado inicialmente no Kyrie e retomado, sob diferentes tratamentos harmônicos e tonais, em outros movimentos.
O Gloria utiliza procedimentos canônicos, especialmente no diálogo entre os baixos e o coro feminino. O mesmo recurso aparece no Gratias agimus tibi, envolvendo o barítono solista e os primeiros violinos. No Credo, Hostílio desenvolve outro tema de oito compassos, distribuído entre diferentes naipes, e encerra o movimento com uma fuga sobre o texto Et vitam venturi saeculi.
O Gradual apresenta um diálogo canônico entre soprano solista e primeiros violinos. O Sanctus, descrito pelo compositor simplesmente como uma prece, é um dos momentos de maior recolhimento da obra. No Benedictus, o procedimento canônico reaparece entre os coros feminino e masculino, enquanto o Agnus Dei recupera o tema principal, reforçando a unidade de toda a composição.
Minha relação com essa missa vem de muitos anos. Depois de ter acesso ao acervo de Hostílio Soares, cedido por sua família, dediquei parte importante do meu trabalho à recuperação, edição e execução de suas composições. A Missa São João Batista foi uma das obras que mais marcaram esse percurso.
Em 23 de setembro de 1999, apresentei a missa com o então Madrigale Nansen e a Orquestra de Câmara SESIMINAS, no Teatro Sesiminas, em Belo Horizonte. A gravação daquele concerto, que recentemente disponibilizei no YouTube, documenta uma etapa importante da história do coro e do trabalho de recuperação da música de Hostílio.
Agora, na série Repertório Coral, disponibilizo também a partitura da obra, esperando que ela possa chegar a outros regentes, cantores e pesquisadores.
Uma partitura preservada em um acervo é um documento precioso. Mas uma obra musical também precisa da possibilidade de voltar a ser estudada, ensaiada e ouvida.
Partitura disponível para consulta e download.
A gravação do Madrigale, realizada em 1999, também pode ser ouvida no meu canal do YouTube.
Fontes para conferência: O catálogo de obras de Hostílio Soares, Per Musi e Quando a Missa São João Batista voltou ao som







