Neste espaço, normalmente sou eu quem escolhe as histórias que quero contar. Hoje será diferente. Este é um post especial, escrito por Emanuelle Cardoso, a Manu, cantora do Madrigale, para lembrar seu pai, Ricardo Couto, que também fez parte da história do coro e que completaria 63 anos neste 23 de agosto.
Ricardo infelizmente nos deixou no dia 18 do mês passado. Eu me lembro dele com muita ternura e amizade, e por isso achei especialmente bonito que a Manu quisesse marcar esta data com suas próprias palavras. Pedi apenas licença para abrir o texto e depois sair de cena. Algumas memórias pertencem a quem as viveu de um lugar que ninguém mais pode ocupar. A Manu escolheu falar do pai através da música e, lendo o que escreveu, fica claro que dificilmente poderia ser de outra maneira.
A MÚSICA QUE FICA (por Emanuelle Cardoso)
Outro dia, enquanto viajava com minha irmã, coloquei uma playlist para tocar, quando de repente uma de nós comentou: essa música me lembra muito o papai.
Meu pai completaria neste dia 23 de agosto os seus 63 anos. Nascido em 63, eu planejava uma festa bem a cara dele, com samba. Essa era uma paixão que compartilhamos, a de que a vida deveria sempre ser comemorada com música. Mas quis Deus que ele fosse celebrar em outro plano, deixando em nós a saudade, que não tem cor ou aroma, mas tem som, ou sons muito marcantes.
Então me peguei pensativa sobre o que ele me deixou de herança, e posso dizer, sem dúvidas, que a música foi a maior e mais especial delas. Diz meu pai que, com somente quinze dias de vida, eu já acompanhava meus pais na igreja e dormia na bag do teclado enquanto eles tocavam na missa. A música foi sempre o meio condutor e também a linha que tanto nos unia, pois era o nosso ponto de encontro, era o assunto de que mais falávamos, era paixão compartilhada e vivida.
Ele, sempre nostálgico, me apresentou aos Bee Gees, ao ABBA, Queen, Phil Collins e tantos outros nomes gigantes da música, mas me apresentou àquela que seria uma das minhas bandas favoritas e que tive a honra de chorar ao seu lado dois anos atrás, quando vimos ao vivo a Banda de Pau e Corda, essa preciosidade da música brasileira. Foi através dele que me apaixonei por Milton, Chico e todo o Clube da Esquina. Domingo era dia de ouvir os vinis que ele guardava ou de colocar o show do Oswaldo Montenegro no YouTube. Viagens tinham sempre o som de O Rappa, Bohemian Rhapsody e outros rocks dos anos 70 e 80; cantávamos com toda a nossa força, e melhorava qualquer dia ruim que estivéssemos tendo.
Na igreja compartilhamos também a música de maneira bastante especial e, voltando hoje, vejo que minhas primeiras composições eram os salmos que compusemos juntos nos sábados à noite e que, no domingo, eram apresentados em sua única performance, mas eram lindos, disso me lembro.
Por um bom tempo, o pós-almoço era de clássicos, ouvindo a Rádio Guarani enquanto descansávamos as vistas, deitados na cama dele. Era um momento de tanta paz que depois fez muita falta quando a rádio acabou, mas ele, que sempre arrumava um jeito, baixou um aplicativo com rádios do mundo todo, e cada almoço era uma imersão musical bastante aleatória, que ia de Mozart à música árabe ou a uma viola caipira. Admito que nem sempre gostava dessa miscelânea, mas certamente fará falta em almoços futuros.
Ele compôs diversas músicas, muitas das quais foram para o Grupo Asas, no qual ele tocava quando adolescente, e lamento não ter tido a honra de apreciar presencialmente, mas uma de suas obras fez parte de grande parte da minha vida, a Ave Maria de “Richard”, uma obra linda que cantamos em muitos casamentos e era para duas vozes: a dele e a da mamãe. Mas eu tive que dar meus centavos de contribuição e adicionei uma terceira voz; ainda mais tarde fiz um arranjo para quatro vozes, que o Coral Campus em Canto interpretou, emocionando muito a ele e a mim e que em breve voltará ao repertório, certamente com tempero de algumas lágrimas, mas merece continuar sendo ouvida pelas pessoas.
Papai era um artista. Tudo para ele tinha que ter ornamentos, e até suas gambiarras eram tão artísticas que duravam anos, era irritante! Seja com a música, como marceneiro, em suas obras com o pirógrafo, pinturas em tacos de chão ou tendo ideias de nomes para coros e concertos, ele tinha alma de artista, e isso é pra mim motivo maior de orgulho. Dizia que não tinha conquistado muito na vida, mas, se posso dizer que hoje vivo da arte, é porque um dia ele me apresentou a esse mundo, me mostrou beleza nas flores da estrada, me mostrou as pérolas musicais que hoje são trilha sonora da minha vida e dos meus irmãos.
Guardarei para sempre o pianinho de brinquedo que ele, com tanto carinho, guardava e o chocalho que ele pintou à mão, para que sempre me guie no caminho, pois agora eu carrego não só a minha voz, mas a dele, que sempre cantará comigo e através de mim.
Parabéns, papai, tenho certeza de que o coro de anjos ganhou um reforço e tanto por aí!