(Esse post é sequência da publicação do dia 24/01/26)
No meio da excursão de 1959, entre concertos lotados,
compromissos diplomáticos e deslocamentos contínuos, o Madrigal Renascentista
realizou algo que, à época, já era um feito raro: gravou um disco. O LP foi registrado pela Chantecler, escolhida pelo próprio
coro após disputa com outras gravadoras. Não se tratava apenas de uma decisão
comercial, porque gravar significava fixar uma sonoridade, deixar um vestígio material
de um grupo que, até então, existia sobretudo na experiência ao vivo: efêmera,
intensa e irrepetível.
Segundo os registros jornalísticos da época, foram necessárias apenas
cinco horas de estúdio para gravar 24 faixas. O dado impressiona e diz muito
sobre a disciplina do grupo, mas também aponta para as limitações do processo.
Não havia tempo para longos testes, nem para uma busca minuciosa de equilíbrio
acústico. A gravação aconteceu como podia acontecer naquele contexto: rápida,
funcional, direta.
Anos depois, Isaac Karabtchevsky foi severo ao avaliar esse registro.
Em sua autobiografia, afirmou que o disco não refletia a real dimensão do
Madrigal, considerando-o tecnicamente precário. Talvez haja aí um rigor
excessivo, típico de quem conhece intimamente o que foi possível ouvir ao
vivo. Ainda assim, a crítica não é descabida.
O LP apresenta diferenças claras de equalização entre as
faixas, o que sugere um trabalho feito sem condições ideais de estúdio e,
possivelmente, sem técnicos especializados na gravação de conjuntos corais. À
época, gravar coro não era prática comum, nem prioridade comercial. Os estúdios
eram pensados para pouca reverberação, o oposto do que favorece vozes em
conjunto. O resultado sonoro carrega essas marcas.
Mas há algo que o tempo não apagou. Mesmo com limitações técnicas, o disco permite ouvir a
qualidade alcançada pelo Madrigal apenas dois anos após sua criação. Permite
reconhecer o equilíbrio vocal, a clareza de emissão e a musicalidade coletiva.
E mais: preserva vozes que se tornariam centrais na história musical
brasileira, como as de Maria Lúcia Godoy e Amin Abdo Feres, ainda jovens, ainda
em formação.
A capa do LP também se tornou emblemática. A imagem do coro
na escadaria interna do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, sob regência de
Karabtchevsky, passou a circular como símbolo de uma época. O disco, mesmo
imperfeito, tornou-se referência para gerações de músicos e coros no Brasil.
Talvez seja esse o ponto mais importante: o LP de 1959 não é o retrato ideal do Madrigal. É o registro possível. E, justamente por isso, é precioso. Porque guarda não apenas
um som, mas um momento da história em que cantar junto já era, por si só, um
gesto de afirmação cultural.
No próximo post, seguimos viagem, agora para o Sul do
Brasil, onde o Madrigal começa a ser tratado não mais como promessa, mas como fenômeno.
🎧 MADRIGAL
RENASCENTISTA - segundo lp. completo 1959 - SÉRIE RELÍQUIAS - acervo PEDRO l.
BRASIL
Foto tirada na escadaria interna do Theatro Municipal de São Paulo (1959)
Foto tirada logo após a foto do disco. A identificação dos cantores só foi possível graças à ajuda de um dos cantores da época, o querido João Gomes Oliveira. De baixo para cima, da esquerda para a direita:
1-Anna Maria Godoy, Maria Amália Martins, Evandro Lopes.
2-Waldemira de Oliveira, João Gomes de Oliveira.
3-Nélio Abreu, Terezinha Miglio, Maria Lúcia Godoy, Hilda
Soares Fonseca, Alba Guimarães e Neyde Lambert.
4-Desconhecido, Desconhecida, Rosa Alice Godoy, Carmen
Lúcia G. Batista, Amin A. Feres, Maria do Carmo Dolabella, Cláudio de
Castro.
5-Esposa do Sr. Romeo Godoy, Maria Amélia Martins, Zinda
de Oliveira Santos e Bete Godoy.
6-Sr. Romeo Godoy, Isaac Karabchevsky, Roberto de Castro e
Esposa.
AUSENTES NA FOTO: Francisco Magaldi, Tarcísio Fiuzza, Jonas
Travassos, Edival Trindade.