Seguimos.
Depois do corte seco de Puñal, o ciclo se abre novamente, agora para a cena. Agora estamos na rua. Estamos dentro de um ritual.
“Procesión”
Também do Poema del cante jondo, esse poema nasce de algo muito concreto: as procissões da Semana Santa andaluza. Quem já viu sabe que não é apenas um evento religioso. É um acontecimento estético, sonoro, coletivo.
Mas Lorca não descreve.
O poema começa de forma quase estranha: da ruela surgem unicórnios, figuras fantásticas, como se aquilo fosse um cortejo vindo de um outro tempo, ou de um outro plano. Só depois entendemos que não são criaturas míticas, São as figuras da procissão.
Mas Lorca escolhe vê-las primeiro como mito porque é assim que elas chegam. Carregadas de séculos. E então aparecem nomes: Merlin, Orlando, Durandarte… personagens que não pertencem diretamente à tradição cristã, mas à memória medieval, à literatura, ao imaginário europeu.
A procissão, ali, não é só religiosa. É um acúmulo de cultura.
No centro desse movimento surge a Virgem da Soledade.
E a imagem é precisa: o andor vira um “barco de luzes”. A rua vira rio. A cidade, mar. O cortejo não caminha, navega. Essa metáfora muda tudo. Porque tira a procissão do chão e a coloca em fluxo. Em travessia.
E então surge uma palavra isolada:
Saeta.
Saeta é um canto solitário, lançado do meio da multidão, direto para a imagem sagrada. Sem preparação. Sem filtro. É fé em estado bruto, e, ao mesmo tempo, música.
No final, aparece Cristo. Mas não o Cristo distante, idealizado. Um Cristo moreno, marcado pelo sol, com traços que pertencem à própria paisagem espanhola.
Lorca faz um gesto sutil e forte: aproxima o sagrado do humano, e o humano do lugar. Cristo é, ao mesmo tempo, lírio da Judéia e cravo da Espanha. Origem e presença. Distância e pertencimento.
Quando Castelnuovo-Tedesco trabalha esse poema, ele não tenta organizar esse mundo. Ele acompanha. A música se move como a procissão: avança, suspende, cria tensão, dissolve.
O coro muitas vezes soa como a própria multidão, não como protagonista, mas como corpo coletivo que observa, participa, sustenta.
E o violão, mais uma vez, não comenta de fora. Ele está dentro da cena.
Depois da dor íntima e do golpe direto, Procesión amplia o espaço. Mostra que esse universo de Lorca não é só interior. Ele também se encena. E, quando se encena, envolve todos.
Romancero Gitano Op.152 - "Procesión" (Mario Castelnuovo-Tedesco)
IV – Procissão (Tradução livre)
Pela ruela vêm
estranhos unicórnios.
De que campo,
De que bosque mitológico?
Mais de perto,
Já parecem astrônomos.
Fantásticos merlinos
e o Ecce Homo,
Durandarte encantada,
Orlando furioso.
Passo
Virgem com merinaque,
Virgem da Soledade,
Aberta qual imensa
tulipa.
Em teu barco de luzes
Vais
pela maré alta
da cidade,
entre setas turvas
e estrelas de cristal
virgem com marinaque,
tu vais
pelo rio da rua,
até o mar!
Saeta
Cristo moreno
Passa
de lírio da Judéia
a cravo da Espanha
Olhai-o da
onde vem!
Da Espanha.
Céu limpo e escuro.
Terra tostada,
E regos onde corre mui lenta a água.
Cristo moreno
com madeixas queimadas,
os pômulos salientes
e as pupilas brancas
Olhai-o por
onde vem!