terça-feira, 14 de abril de 2026

Por que os Motetos de Bach são um universo próprio (4) - Fürchte dich nicht, ich bin bei dir (BWV 228)



Depois da densidade de Jesu, meine Freude, este moteto apresenta um contraste claro: ele trabalha com menos material e com uma organização mais direta. Fürchte dich nicht, BWV 228, é um moteto para coro duplo, provavelmente composto para um funeral. A obra se insere na tradição dos Evangelienmotetten do século XVII, gênero cultivado por compositores como Heinrich Schütz (em outro post eu falo quem foi esse importante compositor). No tempo de Bach, esse tipo de escrita já não estava no centro da produção musical, mas ainda era utilizado em contextos litúrgicos específicos, especialmente funerais.

O que está sendo dito

O moteto utiliza exclusivamente textos bíblicos e corais, sem inserção de poesia contemporânea. A base vem de dois versículos do livro de Isaías (41:10 e 43:1), ambos iniciados pela frase “Fürchte dich nicht”:

Fürchte dich nicht, ich bin bei dir
Ich habe dich bei deinem Namen gerufen
Du bist mein

Na segunda parte, esses versículos são combinados com estrofes do hino de Paul Gerhardt Warum sollt ich mich denn grämen. Esse procedimento, de sobreposição entre texto bíblico e coral, é típico da tradição luterana e permite a articulação entre afirmação teológica e recepção devocional.

Como ouvir essa peça

A obra é dividida em dois movimentos. 

O primeiro é estruturado como um duplo coro com escrita imitativa contínua. As vozes entram sucessivamente, criando um tecido contrapontístico relativamente estável. Apesar da complexidade técnica, o resultado sonoro tende à clareza, sem grandes contrastes dinâmicos ou mudanças abruptas de caráter.

O segundo movimento combina o texto bíblico com o coral. Aqui, Bach utiliza procedimentos de sobreposição: enquanto uma parte do coro sustenta a melodia do hino, outras vozes desenvolvem material contrapontístico em torno dela. Esse tipo de escrita exige equilíbrio preciso, já que diferentes camadas textuais e musicais coexistem simultaneamente.

No que prestar atenção

– A escrita para coro duplo e a distribuição do material entre os grupos
– A textura imitativa contínua do primeiro movimento
– A combinação entre coral e contraponto no segundo movimento
– A manutenção de clareza mesmo em contextos de maior densidade

O que essa música revela

Este moteto mostra uma abordagem diferente dentro do conjunto das obras corais de Bach. Em vez de explorar contrastes fortes ou estruturas extensas, ele trabalha com continuidade e controle. A organização do material é mais concentrada, e o efeito geral depende menos de oposição entre seções e mais da consistência interna da escrita.

Nesse sentido, trata-se de uma obra em que a clareza estrutural e a economia de meios são centrais para o resultado musical.



Fürchte dich nicht, ich bin bei dir (tradução livre)

Não temas, eu estou contigo,
não se entregue, pois eu sou teu Deus;
Eu te fortaleço, eu também te ajudo,
eu te sustento com minha mão direita,
minha justiça.


Não temas,
pois sou teu redentor, e eu te chamei
pelo nome,
tu és meu. Nada temas, tu és meu.


Senhor, meu cordeiro, fonte toda alegria!
Tu és meu e eu sou teu;
ningué, poderá nos separar.
eu sou teu, porque tu deste pela morte,
tua vida e teu sangue
para o meu bem.


Tu és meu, porque eu estou diante de ti,
e tu não deixarás, ó minha luz,
o meu coração!
Permita-me, permita-me que eu chegue,
onde eu e você possamos
nos abraçar eternamente.





segunda-feira, 13 de abril de 2026

Por que os Motetos de Bach são um universo próprio (3) - Jesu, meine Freude (BWV 227)


Os motetos de Bach não são apenas peças musicais. São construções muito específicas dentro de um contexto histórico e estético. E Jesu, meine Freude é, provavelmente, o exemplo mais elaborado desse gênero.

A obra combina dois conjuntos de texto: o hino luterano Jesu, meine Freude, de Johann Franck (1653), e trechos da Carta aos Romanos, capítulo 8. Essa combinação não é casual. O hino, escrito em primeira pessoa, trata da relação individual com Cristo. Já o texto bíblico apresenta uma formulação teológica mais objetiva, centrada na oposição entre “carne” e “espírito”.

Bach organiza esses dois materiais de forma alternada: os movimentos ímpares utilizam as estrofes do hino, enquanto os pares trazem os versículos da epístola. Essa alternância cria um contraste constante entre expressão subjetiva e afirmação doutrinária, um procedimento bastante característico da prática luterana.

Do ponto de vista estrutural, o moteto é um dos mais complexos de Bach. São onze movimentos, dispostos de maneira simétrica. O primeiro e o último se correspondem, assim como os pares intermediários, organizando a obra em torno de um eixo central. Esse tipo de construção, que também aparece em outras obras de Bach, não é apenas formal: ele reforça a ideia de equilíbrio entre os dois tipos de texto.

Outro dado relevante é a escrita vocal. Jesu, meine Freude é uma das poucas obras corais de Bach em cinco vozes, o que amplia significativamente as possibilidades contrapontísticas. Alguns movimentos são mais simples, próximos de harmonizações corais a quatro vozes, enquanto outros exploram escrita imitativa mais densa, incluindo uma fuga no centro da obra.

A melodia do hino, composta por Johann Crüger, aparece em diferentes formas ao longo do moteto: ora apresentada de maneira direta, ora transformada, fragmentada ou incorporada ao tecido contrapontístico. Isso cria uma unidade interna, mesmo com a variedade de estilos entre os movimentos.


Como ouvir essa peça

A escuta se orienta melhor quando se percebe a lógica da alternância entre hino e texto bíblico. Os movimentos corais tendem a oferecer maior estabilidade, enquanto os trechos derivados da epístola apresentam maior complexidade contrapontística.

Também é importante observar a simetria da obra. Elementos apresentados no início reaparecem transformados no final, e o movimento central funciona como ponto de maior densidade.

O que prestar atenção

– A alternância entre os dois tipos de texto
– A variação de textura entre movimentos mais simples e mais densos
– A função estrutural do movimento central
– O uso recorrente da melodia do hino como elemento unificador

O que essa música revela

Neste moteto, Bach não busca efeito imediato. O interesse está na construção de uma relação entre forma musical e conteúdo teológico. A obra não se desenvolve como narrativa linear, mas como um sistema de relações internas, em que cada parte tem função específica dentro do todo. Mais do que uma peça de impacto, trata-se de uma obra de organização em que diferentes níveis (texto, forma e escrita musical) são articulados com precisão.

 Sebastian Bach

🎬 Bach - Motet Jesu, meine Freude BWV 227 - Prégardien | Netherlands Bach Society

BWV 227 - Jesu, meine Freude

Parte 1 - Choral
Jesus, minha alegria,
Deleite do meu coração,
Jesus, meu adorno;
Ah! Até quando, até quando
Meu coração se angustiará
E ansiará por Ti!
Cordeiro de Deus, meu Noivo
Ninguém neste mundo
É mais querido do que Tu.

Parte 2
Portanto agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito. Romanos 8:1

Parte 3 - Choral

Sob Tua proteção,
Eu estou livre dos ataques
De todos os inimigos.
Deixe Satanás farejar,
Deixe os inimigos exasperarem-se,
Jesus está comigo.
Mesmo se o trovão e o relâmpago,
O pecado ou o inferno assustarem,
Jesus me protegerá.

Parte 4
Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte. Romanos 8:2

Parte 5 - Choral
Desafie antigo dragão,
Desafie goela da morte,
Desafie também, medo!
Grite, mundo, e pule.
Aqui estou, cantando
Na mais perfeita paz!
O poder de Deus
Me protege bem:
A Terra e o abismo silenciam-se,
Se eles ainda assim murmurarem.

Parte 6
Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele.Romanos 8:9

Parte 7 - Choral
Fora com todos os tesouros!
Tu és meu deleite,
Jesus, meu prazer!
Fora, glórias vãs,
Eu não obedeço vocês,
Eu não conheço mais vocês.
Desgraça, miséria,
Cruz, humilhação e morte
Podem me fazer sofrer,
Mas não me separarão de Jesus.

Parte 8 
E, se Cristo está em vós, o corpo, na verdade está morto por causa do pecado, mas o espírito vive por causa da justiça. Romanos 8:10

Parte 9 - Choral

Boa noite, oh todos
Que escolheram o mundo,
Vocês não me agradam mais.
Boa noite, pecados,
Fiquem para trás,
Na luz vocês não prosperam!
Boa noite,Orgulho e luxúria!
E à você completamente, vida de iniqüidade,
Boa noite!

Parte 10
E, se o Espírito daquele que dos mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dos mortos ressuscitou a Cristo também vivificará os vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que em vós habita. Romanos 8:11

Parte 11 - Choral
Afaste-se, espírito de tristeza,
Porque meu Mestre de alegrias,
Jesus, vem para cá.
Todos, os que amam a Deus,
Mesmo nas aflições
Só devem alegrar-se.
Eu já suportei
Aqui, escárnio e zombaria,
Mas mesmo assim, no sofrimento,
Tu continuas ainda,
Jesus, minha alegria!

domingo, 12 de abril de 2026

Por que os Motetos de Bach são um universo próprio (2) - Der Geist hilft unser Schwachheit auf (BWV 226)


Ao contrário da energia intensa proposta pelo Singet dem Herrn, este moteto foi escrito para uma cerimônia fúnebre (na dedicatória de Bach: moteto para dois coros para o funeral do abençoado Reitor Professor Ernesti, por J. S. Bach. Ernesti foi professor de poesia na Universidade de Leipzig e diretor da Thomaschule). Portanto, ele é mais silencioso e mais profundo, um tipo de consolo.

A base do texto vem da Carta aos Romanos (8:26):


Der Geist hilft unser Schwachheit auf (O Espírito ajuda a nossa fraqueza)

Denn wir wissen nicht, was wir beten sollen (Pois não sabemos como devemos orar)

Der Geist selbst vertritt uns (O próprio Espírito intercede por nós)


E, ao final, um coral (choral no contexto luterano deve ser traduzido simplesmente como "hino"):

Du heilige Brunst, süßer Trost (Tu, chama sagrada, doce consolo)

Nun hilf uns, fröhlich und getrost zu bleiben (Ajuda-nos a permanecer firmes e confiantes)


Não há desespero no texto. Há reconhecimento de limite e uma confiança serena de que não estamos sozinhos.


Como ouvir essa peça

Logo no início, as vozes entram de forma contínua, quase como se estivessem costurando um tecido invisível. O que se quer é criar uma sensação de sustentação. Diferente de outros motetos mais densos, aqui tudo parece claro, organizado, quase transparente. Mesmo quando as vozes se entrelaçam, é possível perceber uma lógica que conduz o ouvido. É como se a música dissesse: “confie, há uma ordem aqui”.

No meio da peça, essa sensação se aprofunda. Não há ruptura dramática, mas um adensamento do sentido. O que antes era fluxo se torna presença.

E então, no final, tudo muda de lugar. Quando o coral (hino) entra, a escrita se torna mais simples e mais direta. É como se, depois de toda a elaboração anterior, a música encontrasse uma forma de falar sem mediação, quase como uma voz coletiva que finalmente se estabiliza.


O que essa música revela

Se o primeiro moteto impressiona pela energia, este impressiona pela confiança. Mas é uma confiança que nasce da fragilidade. A peça não nega a fraqueza, mas a acolhe. E, ao fazer isso, constrói algo que vai além da técnica, além da forma: um espaço onde o coro não apenas canta, mas sustenta a alma de quem canta.


🎬 Bach - Motet Der Geist hilft unsrer Schwachheit auf BWV 226 - MacLeod | Netherlands Bach Society

 

Der Geist hilft unser Schwachheit auf (Tradução livre)

O espírito vem ajudar nossa fraqueza,
pois não sabemos
o que devemos orar,
como deveríamos orar;
Mas o próprio espírito implora
por nós da melhor maneira, com gemidos inexpressíveis.
Mas aquele que busca nossos corações sabe
o que o Espírito quer dizer,
pois ele suplica pelos
santos do modo que agrada a Deus.

Romanos 8: 26-27



sábado, 11 de abril de 2026

Por que os Motetos de Bach são um universo próprio? (1) - Singet dem Herrn ein neues Lied (BWV 225)

(Post sequência do dia Ontem)


Vocês já ouviram um coro que parece não apenas cantar, mas transbordar alegria? Se não, Singet dem Herrn ein neues Lied pode ser um ótimo ponto de partida.

Antes de qualquer coisa, uma pequena chave de escuta: este é um moteto, ou seja, uma peça coral construída a partir do entrelaçamento de várias vozes independentes. E, neste caso, em duas formações corais simultâneas.

A peça se inicia com trechos do Salmo 149: “Cantai ao Senhor um novo cântico”, um convite direto ao louvor, ao movimento e à celebração:

Singet dem Herrn ein neues Lied (Cantai ao Senhor um novo cântico)

Die Gemeine der Heiligen sollen ihn loben (A assembleia dos fiéis deve louvá-lo)

Lobet ihn mit Pauken und Reigen (Louvai-o com tambores e danças)


E, no centro da obra, surge um outro tipo de texto, luterano e mais reflexivo:

Wie sich ein Vater erbarmet (Assim como um pai se compadece)

Gott nimmt sich unser an (Deus cuida de nós)


Há, portanto, dois planos: o da celebração e o do cuidado.


Como ouvir essa peça

A peça se divide em 3 seções e é o maior do Motetos. 

Logo no início, há algo incomum: não é um coro só, mas dois. Eles dialogam, se respondem, se atravessam. Às vezes parecem competir; outras vezes se encaixam com precisão impressionante. O efeito é sempre vibrante. 

No meio da peça, tudo muda. O movimento desacelera, o texto se torna mais íntimo, e no diálogo entre os dois coros é como se estivessem mais próximos de quem ouve. É um momento de suspensão, de escuta mais interior.

E então, quase sem perceber, a música volta a crescer e termina com uma sensação de plenitude, como se tudo tivesse encontrado seu lugar.

Singet dem Herrn não é apenas uma peça alegre. Ela mostra a mais sofisticada arte da escrita polifônica, algo que o Velho Bach era um mestre imbatível. E eu sempre me assusto com o quanto ele sabia escrever para vozes. Tudo está ali, no lugar, sem permissão para que cantores do nosso tempo achem que podem cortar trechos em benefício de uma melhor escuta ou apresentação. Isso porque é um pensamento coletivo intenso que corre o risco de se anular se algo é apagado. E ali, cada linha tem vida própria, mas nenhuma existe sozinha.

É um moteto impactante, mesmo para quem não está acostumado com esse repertório. Ela não exige que você entenda tudo, apenas convida a entrar e, por alguns minutos, participar dessa construção coletiva de som, de energia e de sentido. Mas... entenda o que está sendo cantado, senão, não fará sentido desde o princípio. 


🎬 Bach - Motet Singet dem Herrn ein neues Lied BWV 225 - MacLeod | Netherlands Bach Society


Singet dem Herrn ein neues Lied (tradução livre)

Coro I e II
Cantai ao Senhor um novo cântico;
a congregação dos santos o louve.

Israel se alegre naquele que o fez;
os filhos de Sião exultem no seu Rei.

Louvem o seu nome com danças;
com tamborins e harpas cantem-lhe louvores.


Ária / Seção central

Coro I
Assim como um pai se apieda,
de suas tenras criancinhas,
Pois o Senhor é tudo para nós,
assim como nós o tememos como crianças puras.

Ele conhece a nossa debilidade,
Deus sabe que nós somos somente pó,
assim como as ervas no ancinho,
assim como uma flor ou uma folhagem caida!

vento apenas sopra sobre eles,
e tudo se vai,
Assim como o homem passa,
seu fim está próximo.


Coro II

Deus, continue zelando por nós,
Pois sem vós tudo o que temos
de nada vale,

Pois vós sois nosso escudo e nossa luz,
e que não nos enganemos com nossa esperança,
Pois vós continuareis a nos proteger.

Feliz daquele, que firme e solidamente
pôs em vós sua confiança e em vossa generosidade.


Seção final

Coro I e II
Louvai ao senhor por suas obras,
Louvai a ele por sua grande Majestade!

Tudo o que respira, louve ao Senhor,

Aleluia!


sexta-feira, 10 de abril de 2026

Por que os Motetos de Bach são um universo próprio?

Antes de qualquer resposta, vale começar por uma pergunta simples: o que é um moteto?

Um moteto é uma forma vocal polifônica, geralmente a cappella (sem acompanhamento), construída a partir do entrelaçamento de várias vozes independentes. Surgido ainda na Renascença e transformado ao longo dos séculos, ele carrega uma essência: múltiplas linhas que caminham juntas, mas pensam por si, como consciências em diálogo. Vozes independentes que se interdependem.

Dito isso, pergunto: vocês conhecem os Motetos de Bach?

Se não conhecem, vale a pena parar um pouco e escutá-los. Sem um entendimento, é difícil, mas se eu explicar um pouco, garanto que a audição será fácil e prazerosa. Tente ouvir não como quem ouve uma peça qualquer, mas como quem entra em um outro tipo de construção musical, porque é exatamente isso que acontece. Eles são referenciais por vários motivos:

Primeiro, pela escrita. É uma música de responsabilidade coletiva absoluta. Polifonia tecida como quem faz um bordado. Os motetos de Bach não têm uma partitura orquestral, ainda que instrumentos possam dobrar as vozes. Em outros tempos, pensava-se que eles deveriam ser cantados totalmente a cappela, mas hoje já não se faz isso, pois o esforço para o coro, sem suporte, é algo quase hercúleo. No bom tom, um instrumento de teclados acompanhando com os acordes, um baixo contínuo, ajuda demais a tornar todas as peças lindas de se ouvir.

Depois, pela relação com o texto. Bach não apenas musica palavras, ele constrói o próprio sentido do texto através da música. As entradas imitativas, as tensões harmônicas, os cruzamentos de vozes, tudo nasce da palavra. É uma constante construção. 

Para o coro, isso cria um desafio muito particular. Não basta cantar afinado, não basta ter um bom som, é preciso pensar em várias camadas ao mesmo tempo. Cada cantor precisa ouvir além da própria linha, cada naipe precisa existir sem se impor, e o conjunto precisa fluir como se tudo fosse simples, quando, na verdade, não é. 

Os loucos, como eu, gostam de cantar Bach porque ele escreve muito bem para coro. E se você sabe trabalhar bem um coro, tudo vai bem. Se não sabe, vai ter trabalho.

Então, por que os Motetos de Bach são um universo próprio? Porque eles não são apenas repertório. São obras complexas com uma infinidade de informações nas entrelinhas que demandam conhecimento e leitura segura de um universo barroco. Para além, é um lugar onde o coro se revela pela escuta, pela precisão e pela capacidade de construir sentido juntos, sobretudo pelo fato de que alguns dos motetos serem escritos para duplo coro. 

Mas vamos por etapas. Vou convidá-los a ouvir uma parte de um dos motetos e seguirei nos próximos dias falando sobre cada um dos seis conhecidos Motetos de Bach.

🎬 Singet dem Herrn ein neues Lied, BWV 225: Singet dem Herrn ein neues Lied





quinta-feira, 9 de abril de 2026

Uma apresentação desastrosa do Madrigale


Tenho visitado o arquivo de fotos do coro e me deparado com fotos que despertam emoções as mais inesperadas, boas e ruins. Ao apreciarem a foto abaixo, ninguém saberá, até eu contar, que esta foto uma das piores apresentações feitas pelo Madrigale na sua história. Nada funcionou, nos perdemos dentro da seca acústica do Teatro Sesiminas, ficamos nervosos, e aí...

Não, a culpa não foi da acústica, pois já havíamos cantado lá mais de duas vezes, mas da “arrogância” de um coro jovem que achava que poderia sempre entrar no palco e emocionar, sem se preocupar com os detalhes a serem observados antes de uma apresentação para que tudo corra bem. O principal no caso: não fizemos o ensaio no palco, para nos situarmos (e nos foi reservado um horário para isto). Resultado: saímos de cabeça muito baixa.

Vale uma desculpa? O coro se preparava para o meu recital de formatura, o qual aconteceu uma semana depois. Explica, mas não justifica, a falta de atenção para com uma apresentação.






quarta-feira, 8 de abril de 2026

Didn't my Lord deliver Daniel (Madrigale Virtual)

Cantar spirituals é sempre especial para nós do Coro Madrigale. São músicas que nascem de uma experiência coletiva profunda, marcada por desafio, resistência, fé e afirmação. Esse arranjo de Moses Hogan potencializa essa energia com uma escrita coral exigente, cheia de contrastes, precisão rítmica e necessidade de domínio técnico. É uma peça desafiadora e muito marcante.

Neste vídeo, gravado em novembro de 2021, o Madrigale se encontra com esse repertório que já faz parte de sua trajetória e que sempre estabelece uma conexão imediata com o público. Mais do que isso, para aqueles que tiverem a curiosidade de assistir a sequência de vídeos produzidos por nós ao longo da pandemia, é possível observar como fomos aprendendo a lidar com ferramentas que melhor traduziam o som real do coro, mesmo com os cantores distantes. Quando retornamos ao presencial, aquele som estava lá. E continua...

Aproveitem o vídeo. Curtam, compartilhem e sigam nossas páginas.

 

🎬 Coro Madrigale - Didn't My Lord Deliver Daniel

 

 

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terça-feira, 7 de abril de 2026

Coral Acesita nos Minas Cantat

Como eu disse em outro post, o Minas Cantat(1) proporcionava um espaço de apresentação dos coros do estado, mas, mais do que isso, se constituía como um lugar de aprendizado. Ali, os coros tinham a possibilidade de assistir uns aos outros, aprender com isso e buscar novas formas de expressão a partir do contato com grupos mais experientes e com repertórios diversos.

O Coral Acesita soube aproveitar muito bem esse ambiente, não necessariamente como algo consciente, planejado, mas foi o que aconteceu, de forma natural. Se observarmos até mesmo o uniforme do coro, é possível perceber que houve uma mudança de objetivos ao longo dos anos. E pelos anos,

  • 1995 foi o ano da entrada do coro em um festival de maior porte, ainda que já tivesse participado de encontros em sua cidade e na região;
  • 1996 já revela um outro momento: um coro mais amadurecido, com uma personalidade mais definida, sustentado por cantores mais experientes e comprometidos com o aprimoramento do repertório e das apresentações;
  • 1997 marca um ponto importante. Após uma excelente apresentação, o coro foi selecionado para um encontro regional realizado alguns meses depois, uma seleção que reuniu apenas dez coros em uma apresentação especial. Um arco muito claro de progresso, reconhecimento e investimento.

Para além da ideia de coro de empresa, que carregava, sim, a identidade da siderúrgica, havia ali um grupo com compromisso real com a prática coral e com um desenvolvimento coletivo. Os cantores não mediam esforços para estar presentes, para melhorar individualmente e contribuir com o coletivo. Não tenho dúvidas de que, mesmo sem o suporte da empresa, aquele coro encontraria meios de continuar existindo.

Em paralelo, eu próprio seguia em processo de aprendizado. O trabalho com coros amadores exige uma maneira muito particular de condução, baseada, em grande medida, na repetição. Foi nesse contexto que fui refinando esse processo e me tornando mais eficiente no seu uso, algo que ainda hoje utilizo, inclusive com coros profissionais, pela agilidade que permite na construção de repertórios e concertos.

Sempre acreditei que um coro não pode se sustentar na repetição constante de de uma produção. Ele precisa produzir, amadurecer, transformar-se, seja tecnicamente, seja na sua maneira de interpretar. Não se pode aceitar o coro como um espaço apenas de lazer ou de repetição de um mesmo repertório. Seu crescimento precisa ser observado ano a ano, sobretudo em comparação consigo mesmo.

E o Coral Acesita tinha isso de forma muito clara. Não havia acomodação após uma conquista. Cada resultado abria novas exigências e novos caminhos precisavam ser buscados. Com o tempo, o Acesita começou a deixar de ser apenas um coro da Acesita, mas passou a ser um nome reconhecido no cenário coral mineiro. Ele não não apareceu pronto. Foi se afirmando à vista de todos.





(1) Blog do Maestro Arnon: Minas Cantat - Encontro de Corais Mineiros


segunda-feira, 6 de abril de 2026

Reger um coro quando ninguém sabe mais cantar junto (uma reflexão)

Alguma coisa mudou, e não foi de forma explícita, na maneira como as pessoas se relacionam com o coletivo. Vivemos cercados de informação, estímulos, possibilidades. Nunca foi tão fácil acessar, aprender, consumir, e, ainda assim, algo elementar se enfraqueceu: a capacidade de estar com o outro de forma sustentada, atenta, comprometida.

O coro expõe isso de forma direta porque cantar em coro não é apenas emitir som ao lado de outras pessoas. É ajustar-se, escutar antes de afirmar, aceitar limites. É abrir mão de uma parcela da individualidade para construir algo que não pertence a ninguém em particular.

E isso se tornou raro. O cantor que chega hoje a um coro, em geral, chega por encantamento, não por compreensão. Na maioria das vezes, não sabe exatamente o que é um coro, nem o que se espera dele, e, diante das exigências do trabalho coletivo, oscila entre dois extremos: fragilidade e resistência.

Falta escuta e sem escuta, não há coro, apenas sobreposição de vontades.

Formar som tornou-se mais difícil porque formar escuta tornou-se mais difícil. E isso desloca o papel do regente. Para nós, não basta corrigir ou organizar. É preciso sustentar atenção, conduzir processos, recolocar o grupo, repetidamente, dentro de uma lógica que já não é evidente. E aqui surge um problema que não é apenas dos cantores:

“Ah, mas eu sempre fiz assim.”

Essa frase, que por muito tempo sustentou práticas e métodos, hoje revela outra coisa: incapacidade de perceber que o contexto mudou. Não é negar o passado, mas reconhecer que repetir sem revisar é uma forma de cegueira. O regente que não percebe isso torna-se previsível. E previsibilidade, em música, é estagnação.

Há ainda uma ilusão crescente: a de que ocupar o lugar de regente basta. Muitos desejam essa posição, poucos compreendem o que ela exige. Reger não é estar à frente, é sustentar um processo. E isso não se improvisa. 

A resposta, curiosamente, não está em mais controle, mas em outra forma de autoridade. O poder do regente não desapareceu. Mas deixou de ser imposição. Hoje, ele se afirma na capacidade de direcionar, formar e sustentar um caminho onde o coletivo não se constitui sozinho. E isso exige mais, não menos. Mais clareza, mais precisão, mais responsabilidade. Menos tolerância ao automatismo e mais exigência de presença. Porque, no fim, tudo converge para algo simples: um coro só existe quando as pessoas conseguem, de fato, cantar juntas.

E isso é uma conquista. E, quando acontece, quando o som se organiza e a respiração se torna comum, não é apenas música que emerge, é, por um instante, a restituição de uma experiência que o mundo deixou de cultivar.




domingo, 5 de abril de 2026

Olha Maria (HelyElas)

Fiz uma postagem no dia  19/03/2026 falando sobre a gravação desse lindo arranjo durante a pandemia. Um coro virtual. Mas ela já havia sido apresentada no HelyElas de 2010 e aqui eu a reapresento para que todos se deleitem com a bela peça em uma apresentação ao vivo. Apreciem!!!


🎬 Olha Maria - Coro Madrigale (2010)

 


Por que os Motetos de Bach são um universo próprio (4) - Fürchte dich nicht, ich bin bei dir (BWV 228)

Depois da densidade de Jesu, meine Freude , este moteto apresenta um contraste claro: ele trabalha com menos material e com uma organização ...