Quando aparece um solo em uma obra que estou preparando, usualmente procuro um solista dentro do próprio coro. Sempre trabalhei assim e considero isso uma espécie de política dentro dos grupos que dirijo. Se tenho bons cantores trabalhando comigo, por que não procurar entre eles alguém que possa assumir aquela parte?
Isso não significa que todos estejam tecnicamente prontos para cantar um solo. Muitas vezes não estão. Mas a oportunidade pode ser justamente um estímulo para que busquem maior aperfeiçoamento. Um cantor que percebe a possibilidade de assumir outras responsabilidades dentro do grupo tende a se preparar para elas, e esse crescimento individual acaba retornando para o próprio coro.
Também não procuro simplesmente a "melhor voz". Procuro a voz mais adequada àquele solo, naquela obra e naquele momento. Há cantores excelentes em determinado repertório que não funcionam tão bem em outro. Um timbre pode ser maravilhoso para uma peça e pouco interessante para outra. Há ainda a capacidade de compreender o texto, o estilo e aquilo que musicalmente estou procurando. Cabe a mim observar essas características e oferecer as oportunidades. E, naturalmente, muitas vezes também erro na escolha.
Ser um excelente cantor de coro não significa necessariamente ser um excelente solista. Algumas pessoas não têm a personalidade adequada para a exposição individual. Já vi ótimos cantores falharem diante do nervosismo de estar sozinhos à frente do público. Para alguns, aquilo pode ser um sofrimento. Outros parecem descobrir uma nova possibilidade da própria voz quando assumem um solo.
E já vi também o contrário: cantores de coro se tornarem insuportáveis quando passam à condição de solistas. A mudança de posição pode trazer mudanças de comportamento que nada têm a ver com música. Há ainda excelentes solistas que simplesmente não estão interessados em adequar seu timbre ao conjunto. Isso também precisa ser entendido e respeitado. Cantar sozinho e cantar em coro exigem capacidades diferentes.
O cantor que consegue fazer bem as duas coisas precisa ter uma grande capacidade de adaptação. Quando está no conjunto, escuta, combina, cede quando necessário e participa da construção de uma sonoridade comum. No solo, sua personalidade pode aparecer de outra maneira. A voz ganha outra liberdade, outra projeção e outra responsabilidade. Depois ele volta ao coro e precisa novamente encontrar seu lugar naquele som coletivo.
Escolher solistas entre os próprios cantores traz ainda uma questão que nenhum regente deveria ignorar: quando escolhemos alguém, deixamos de escolher outros. Isso pode provocar frustrações e até atritos, principalmente entre aqueles que se consideram mais aptos do que o escolhido. Faz parte do meu trabalho administrar isso, mas também é necessário que exista confiança nas minhas decisões. Há excelentes cantores que passaram anos comigo e nunca fizeram um solo. Isso não pode ser entendido como uma avaliação depreciativa de seu trabalho. Se aquela pessoa está cantando num coro que dirijo, sua presença ali já tem valor.
E ser solista à minha frente nem sempre é fácil. Exijo bastante porque naquele momento o cantor assume outra responsabilidade musical. Não basta cantar corretamente as notas. Quero interpretação, adequação ao repertório e capacidade de sustentar musicalmente aquele momento.
Por tudo isso, solistas externos são, para mim, uma última possibilidade. Evidentemente existem obras e circunstâncias em que são necessários. Mas, sempre que encontro dentro do próprio coro alguém que possa realizar aquele trabalho, prefiro oferecer a oportunidade a quem já está construindo a música conosco.
Há ainda uma coisa que considero essencial. Quando um cantor sai do conjunto e assume um solo, ele não deixa de pertencer ao coro. Sua personalidade aparece mais, sua voz ganha destaque, mas ele continua fazendo parte daquele organismo. O coro respira com ele. Quando os outros cantores compreendem integralmente o que o solista está fazendo, ele encontra atrás de si uma base sólida que o apoia e sustenta. Está cantando sozinho, mas musicalmente não está sozinho. E, para mim, é assim que um solo dentro do coro faz mais sentido.