sexta-feira, 20 de março de 2026

A vida coral na Letônia

A Letônia é um país pequeno, com pouco menos de dois milhões de habitantes. Mesmo assim, estima-se que dezenas de milhares de pessoas participem regularmente de coros. Há coros escolares, universitários, comunitários, profissionais e amadores. Cantar em coro, ali, é quase uma linguagem comum. É uma forma de identidade cultural.

Essa tradição tem raízes profundas no século XIX, quando o canto coral passou a ser uma forma de afirmação cultural e linguística dos povos bálticos. Em períodos históricos em que a identidade nacional esteve sob pressão de diferentes impérios, primeiro russo e depois soviético, o canto coletivo tornou-se uma maneira de preservar memória, língua e pertencimento.

Um símbolo máximo dessa tradição são os Festivais de Canção da Letônia. Realizados desde 1873, esses encontros reúnem dezenas de milhares de cantores em um mesmo palco. O repertório mistura música tradicional, repertório coral erudito e obras contemporâneas. O evento é tão importante que foi reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Durante o período soviético, os festivais continuaram acontecendo, e muitos historiadores consideram que o canto coral teve papel importante no fortalecimento da consciência nacional que levaria, no final dos anos 1980, ao movimento conhecido como “Revolução Cantada”, um processo pacífico de afirmação política nos países bálticos em que grandes manifestações populares aconteciam através do canto coletivo.

Essa cultura também se reflete na formação musical. Muitas escolas da Letônia mantêm coros permanentes, e há instituições especializadas na formação coral desde a infância, como a Riga Cathedral Choir School, de onde surgem jovens cantores e regentes que depois se espalham pelo país e pela Europa.

O que eu percebo quando ouço um coro de lá: uma sonoridade muito disciplinada, grande cuidado com o equilíbrio vocal e, ao mesmo tempo, uma intensidade expressiva que parece vir de um vínculo muito profundo entre música e comunidade.

Em muitos lugares do mundo, o coro é uma atividade cultural entre tantas outras. Na Letônia, o coro é quase uma forma de respirar em conjunto.

 🎬 Festival de Coros da Letônia (2018)







quinta-feira, 19 de março de 2026

Olha Maria (virtual Mad)

Algumas canções parecem ser feitas de um tipo especial de silêncio. Não aquele silêncio vazio, mas o que antecede a palavra, o que sustenta a respiração antes do canto. Olha Maria, de Tom, Chico e Vinícius, tem algo dessa matéria delicada: uma melodia que se move com cuidado, quase como quem atravessa um pensamento.

Quando uma canção assim chega ao universo coral, ela precisa encontrar outro corpo. Não é mais uma voz solitária contando sua história. São muitas vozes tentando habitar o mesmo gesto musical.

O arranjo de Hely Drummond segue a base. Ele não amplia a canção de forma exuberante. Pelo contrário, organiza as vozes como quem abre pequenas janelas dentro da melodia, deixando que cada linha revele um pedaço novo da paisagem.

A música então se torna um espaço compartilhado. Cada voz sustenta um fragmento, um contorno, uma respiração. E, pouco a pouco, a canção vai surgindo entre elas, não como um discurso afirmado, mas como algo que se descobre no próprio ato de cantar.

Algumas músicas passam por nós, outras permanecem, esperando o momento em que as vozes se encontram de novo para fazê-las existir. Talvez seja por isso que Olha Maria sempre volta.

🎬 Coro Madrigale - Olha Maria

 

 



quarta-feira, 18 de março de 2026

Meu encontro com o Coral Acesita, por Bruno Barcelos

Tenho contado aqui muitas histórias a partir da minha própria memória de regente, mas sempre me pareceu importante lembrar que um coro não é feito apenas de quem o dirige. Ele é, sobretudo, a soma das trajetórias individuais de quem canta.

Bruno Barcelos, o Tio, é um amigo de muitos anos que reencontrei em Lisboa e que só fez aumentar laços que trazemos de longa data. Há alguns dias, pedi a ele que escrevesse um pequeno texto sobre sua experiência no Coral Acesita.

O Bruno passou pelo Acesita ainda muito jovem e construiu, a partir dali, uma relação profunda com a música. Pedi então que registrasse, com suas próprias palavras, como foi aquele início: a chegada ao coro, as descobertas, as dificuldades e os momentos que ficaram marcados.

No meio do texto ele faz algumas referências generosas a mim. Confesso que fico sempre um pouco sem jeito com esse tipo de coisa... quem trabalha com coro sabe que os caminhos são construídos por muita gente ao mesmo tempo. Ainda assim, mantive o texto exatamente como ele escreveu. A memória de quem viveu a experiência merece ser preservada sem edição.

O que vem a seguir é, portanto, um relato de dentro: a história de alguém que chegou tímido à porta de um ensaio e acabou encontrando ali um lugar decisivo na própria vida.

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Eu cheguei ao Coral Acesita meio que pelos meus primos. A Mabel era cantora, muitas vezes solista, e o Serginho também cantava lá. Dois irmãos. Eu ficava curioso pra ver aquele processo de cantar “por dentro”, sabe? Na época eu estava estudando música, tocava teclado, e tinha alguma coisa ali que me puxava, uma afinidade mesmo.

Comecei a acompanhar a Mabel em casamentos: ela cantava, eu tocava. Até que um dia ela me chamou pra conhecer o coro.

No primeiro dia que eu cheguei lá… eu cheguei, mas não entrei. Aquilo era grande demais pra gente, que vinha de uma origem mais humilde. A Fundação Acesita, a música clássica, era um outro ambiente pra mim, outro universo... e era muito maior do que eu.

No segundo dia, cheguei um pouco mais perto, mas ainda não entrei na sala. Fiquei só olhando, meio escondido, observando as pessoas fazendo vocalize sem a menor noção do que era.

Só no terceiro dia eu entrei de verdade. Precisei de coragem, mas foi. E já naquele dia eu vi meus primos, e todos começaram a me chamar de Tio porque sempre fui Tio desde criança. Então fui acompanhando, caminhando, me aproximando do universo coral. Já de cara, como tenor, aprendi minhas partes, mas o Arnon, maestro, virou e falou: “Você vai cantar, não?”

Talvez eu não tivesse aprendido tão bem assim mesmo… errei um bocado. Fui cortado do Gloria de Vivaldi e fiquei com ódio daquele maestro. Pensei: “Agora eu vou estudar de verdade.”

E estudei.

Fui estudando, fui cantando os repertórios com o Coral Acesita. Minha primeira viagem pra Belo Horizonte foi com o coral. Eu passava mal demais em viagem de ônibus: vomitei, passei mal, aquela confusão. Mas comi uns bons lanchinhos e cantei  em algo de natal na sede da Acesita, lá em Belo Horizonte, chique demais.

Tiveram peças do repertório que me marcaram profundamente. Um deles é o Aleluia do Ronaldo Miranda (eu vivo enchendo o saco do Arnon pra refazer, porque não existe gravação). Esse Aleluia tem um pouco daquela atmosfera do Aleluia de Thompson: não é festivo, é introspectivo. O tema vai se apresentando nas diversas vozes. É difícil de cantar, mas é lindo. Arnon tem preguiça de refazer, acho.

Outro momento marcante foi cantar, junto com o Madrigale, o Requiem de Mozart. Acho que foi a primeira peça de grande envergadura que fiz. Estudei tanto que sei de cor até hoje, mesmo sem estudar música há anos.

E não posso deixar de falar das Sete Palavras de Cristo, do Hostílio Soares. O Arnon me apresentou o Sr. Hostílio — na época eu não fazia ideia de quem era… até hoje não sei! (brincadeira). Conheci sua obra por esse intermédio, e aquilo foi decisivo pra mim.

Por meio do Arnon e do Coral Acesita, eu me senti estimulado a estudar música e a construir a minha carreira, a minha vida, que seguiu a partir dali. Eu sempre digo que existem professores e existem mestres, aqueles que aparecem na nossa vida e mudam o rumo das coisas. O Arnon foi um desses mestres pra mim. Na verdade, Arnon e Kátia. Sem querer puxar saco aqui no blog dele, mas a gente precisa referenciar o que é justo, né? Ele não precisa nem saber disso, nem se sentir “mestre”, nem é esse o objetivo. Mas pra mim foi.

Foi uma mudança de vida.

E pra terminar, um episódio curioso, e isso aqui não é pra responder por WhatsApp, não, tá? É só pra registrar publicamente, porque o post é meu, mesmo que o blog seja teu.

Uma vez, com 16 anos, eu compus uma Ave Maria. Você tocou lá no tecladinho depois do ensaio. Era até bonita. Nunca mais vi aquela partitura. Você tem isso? Você roubou?

Brincadeiras à parte, precisava fechar dizendo o seguinte: o Coral Acesita não foi só um coro pra mim. Foi um lugar de formação humana, estética e afetiva. Foi ali que eu aprendi a ouvir o outro, a sustentar uma voz dentro de um coletivo, a entender que música não é vaidade, é escuta, disciplina e entrega.

A música coral me ensinou que ninguém canta sozinho. Que o sentido aparece no encontro. E que, quando a gente se coloca a serviço de algo maior que si, alguma coisa se transforma pra sempre.

O Acesita foi esse lugar de travessia. Um espaço onde eu pude sonhar maior do que a minha origem permitia imaginar, errar, aprender, insistir e crescer. E o Arnon, querendo ou não, foi um desses mestres que mudam a direção da vida sem fazer alarde.

Fica aqui minha gratidão profunda à música coral, ao Coral Acesita e a tudo o que nasceu ali e segue ecoando até hoje. Algumas vozes a gente esquece. Outras ficam ressoando pela vida inteira.

  


terça-feira, 17 de março de 2026

Arnon, por que você não fala sobre o Coral BDMG?

 Fui questionado, recentemente, por um leitor/cantor sobre o por quê de, até agora, eu não ter falado sobre o Coral BDMG. Sem dúvida, essa é uma pergunta justa, afinal, trata-se de um coro pelo qual tenho um carinho enorme e com o qual vivi 18 anos da minha trajetória musical.

Mas há uma razão simples para esse silêncio provisório.

Na relação direta com coros, tenho revisitado memórias de maneira relativamente linear, quase cronológica. Tenho voltado aos anos 1990, à formação de certos projetos, às primeiras experiências como regente, aos encontros e desencontros que vêm moldando o meu caminho artístico. É um exercício curioso de memória: como se eu estivesse caminhando novamente por um território que já percorri, observando com outros olhos as decisões, os acasos e até os equívocos daquele tempo.

Minha entrada no Coral BDMG aconteceu apenas em 2005, ou seja, ele pertence a um capítulo posterior dessa história que estou contando agora.

Isso não significa, de forma alguma, que o coro esteja ausente da minha memória, muito pelo contrário. O Coral BDMG ocupa um lugar muito especial na minha vida musical. Ali, aconteceram experiências artísticas profundas, encontros humanos marcantes e momentos que certamente merecerão ser contados com calma.

Talvez justamente por isso eu tenha preferido, por enquanto, não antecipar essa narrativa, pois memórias também têm seu tempo de amadurecimento e algumas histórias pedem uma certa distância para serem vistas com clareza; outras pedem simplesmente o momento certo dentro da sequência da caminhada.

Mas agora que a pergunta apareceu, deixo outra no ar: Será que vale a pena esperar a linha do tempo chegar até 2005… ou talvez já seja o momento de abrir um pequeno desvio no caminho e começar a contar também essa história? Confesso que ainda estou pensando nisso.

Uma coisa, no entanto, é certa: quando chegar a hora de falar do Coral BDMG, será com o cuidado que se reserva às coisas realmente importantes.

 


P.S. Para quem não sabe, o antigo Coral BDMG renasceu como Coral 4 Cantos. É o resultado da resiliência de seus cantores, que não aceitaram ver desaparecer um trabalho construído ao longo de tantos anos quando o Governo de Minas e o BDMG decidiram, de forma abrupta, encerrar as atividades do BDMG Cultural. O coro sobreviveu porque seus integrantes decidiram que a música não terminaria ali. Bravi!!!

segunda-feira, 16 de março de 2026

Minha saída do Madrigal Scala em 1994

Há decisões na vida musical que, no momento em que acontecem, parecem apenas circunstanciais. Com o tempo, percebemos que elas marcam verdadeiras mudanças de percurso.

Minha saída do Madrigal Scala, em 1994, foi uma dessas passagens.

Naquele período eu começava a perceber com mais clareza as várias possibilidades de uma carreira como regente. O Scala era, para mim, um espaço muito importante de desenvolvimento: um coro intenso, musicalmente muito bom e que correspondia com seriedade às propostas que eu levava para os ensaios. Dentro do meio coral de Belo Horizonte, era também uma referência.

O ambiente do grupo era bom. Havia, de modo geral, um desejo coletivo de fazer o melhor pelo coro. Mas começava a aparecer uma diferença de expectativas. Ensaiávamos apenas uma vez por semana, aos sábados à tarde, e aquilo já me parecia insuficiente para o tipo de trabalho que eu imaginava desenvolver. Eu queria ampliar repertório, aprofundar processos, experimentar mais. Hoje vejo que, naquela época, eu ainda estava construindo minhas próprias ferramentas de ensaio e de condução artística, algo que só se desenvolve com o tempo.

O episódio que precipitou minha saída surgiu a partir de uma proposta de concerto que imaginei naquele momento. A ideia era reunir três coros: o Scala, o Madrigale e o Coral Acesita. Para mim, aquilo parecia uma oportunidade interessante de diálogo entre grupos em diferentes estágios de desenvolvimento. Mas a reação do coro me surpreendeu.

A comissão do Scala me procurou e explicou que muitos cantores não se sentiam confortáveis com a ideia. Havia o entendimento de que não faria sentido “emprestar” o nome do coro a grupos que ainda estavam iniciando seu caminho artístico. Hoje consigo compreender melhor as razões que estavam por trás daquela posição, mas, naquele momento, jovem como eu era, vivi aquilo como um sinal de que talvez eu encontrasse ali limites para desenvolver projetos mais amplos como diretor artístico.

Minha decisão foi então apostar completamente no Madrigale, um coro jovem que começava a nascer e que demonstrava acreditar nas ideias que eu queria experimentar.

O episódio foi doloroso. Ser confrontado em um projeto artístico nunca é simples, ainda mais para um regente jovem, cheio de convicções e também, naturalmente, de ego. Não sei dizer com certeza se hoje eu tomaria exatamente a mesma decisão. Talvez tivesse buscado outros caminhos de negociação, porque a experiência ensina a ouvir de outra maneira.

Olhando trinta anos depois, no entanto, percebo que aquela saída foi necessária para que minha trajetória continuasse. No Madrigale encontrei o espaço para desenvolver aquilo que eu buscava: pensar repertórios, construir um gesto próprio, experimentar ideias e desenvolver uma filosofia de trabalho coral.

Ao mesmo tempo, também reconheço que minha saída não foi, naquele momento, algo especialmente positivo para o Scala. Ainda assim, a história do coro seguiu seu caminho, e hoje existe entre nós um sentimento muito claro de respeito mútuo.

Quando penso no Madrigal Scala hoje, o sentimento que permanece é, sobretudo, gratidãoFoi ali que tive meu primeiro contato profundo com o universo dos coros adultos. Foi ali que muitas portas se abriram para mim como músico e regente. E certas portas, mesmo quando se fecham, continuam fazendo parte da casa onde aprendemos a viver.

Passados tantos anos, continuo olhando para o Madrigal Scala com grande respeito. Foi um coro fundamental na minha formação, e, por isso, mais do que recordar um episódio específico, prefiro guardar o Scala como parte essencial do caminho que me trouxe até aqui.





Posts referentes ao Madrigal Scala:

domingo, 15 de março de 2026

Inútil Paisagem (HelyElas)

Uma canção, um gesto de contemplação, um olhar que se demora sobre o mundo. E, de repente, uma pergunta:

Mas pra quê?
Pra quê tanto céu?
Pra quê tanto mar?

Na poesia, a paisagem aparece inteira diante de nós: o céu, o mar, a tarde, o vento, as flores pelo caminho. Tudo está ali, vasto, silencioso, aparentemente completo. E, no entanto, surge a inquietação: com a ausência, percebemos que a beleza do mundo não se basta sozinha. A paisagem precisa de um olhar que a reconheça, de uma sensibilidade que a transforme em experiência.

A onda que quebra no vento da tarde continua sendo bela. As flores continuam nascendo pelo caminho. O céu continua imenso. Mas a pergunta permanece suspensa:

De que serve a tarde?

Essa canção, de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira,  guarda algo muito próprio da sensibilidade brasileira: essa maneira quase filosófica de olhar o mundo através de imagens simples da natureza. A paisagem deixa de ser apenas cenário e passa a ser reflexão.

Talvez seja essa a beleza maior da canção: transformar céu, mar, vento e flores em uma pergunta que permanece aberta, e, de algum modo, profundamente humana.


🎬 Inutil paisagem - Coro Madrigale

 


Outros posts referentes ao HelyElas:

Blog do Maestro Arnon: Conversa de botequim (HelyElas)

Blog do Maestro Arnon: Encabulada (HelyElas)

Blog do Maestro Arnon: Canção do Amanhecer (HelyElas)

Blog do Maestro Arnon: Saia do meu caminho

Blog do Maestro Arnon: Ilusão à toa: a delicadeza como gesto

Blog do Maestro Arnon: Sabiá (HelyElas)

Blog do Maestro Arnon: João e Maria - delicadeza como escolha (HelyElas)

Blog do Maestro Arnon: Chovendo na roseira: pra florescer devagar

sábado, 14 de março de 2026

O disco do Madrigale - 1995 (por Gustavo Fonseca)

(Esse post foi escrito por Gustavo Fonseca, cantor do Madrigale)

Logo no início da história do Madrigale, nós gravamos um disco. O ano era 1995, eu tinha 17 anos de idade, e pouco mais de um ano como integrante do coro.

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Aqui é importante, para que os mais jovens entendam o que esse processo representava para o grupo, dar um contexto da época e explicar a situação dos recursos tecnológicos disponíveis.

Hoje é possível gravar um álbum usando um smartphone qualquer, editá-lo, mixá-lo, masterizá-lo e incluir overdubs com aplicativos gratuitos, enviá-lo para as plataformas digitais facilmente por meio de distribuidoras, e esse processo pode ser aprendido rapidamente com inúmeros tutoriais disponíveis na Internet. Com o mesmo smartphone se fazem facilmente a foto e a capa do álbum. Sem falar nas recentes tecnologias de IAs generativas que já são acessíveis a qualquer um, e simplificam esse processo de forma exponencial.

Em 1995, as pessoas não tinham smartphones, nem mesmo celulares. Os computadores eram uma porcaria e não tínhamos acesso à Internet. Não havia gravadores de CDs domésticos acessíveis. Gravadores de som portáteis eram dispositivos muito rudimentares que usavam microfones toscos e fitas cassete, e a transferência desses áudios analógicos para mídias profissionais era absolutamente inviável. Cabe dizer que a qualidade dos áudios era tão pavorosamente baixa que mesmo que fosse possível transferi-los, o resultado não valeria a pena. Nós vivíamos uma era diferente na economia da produção musical.

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Resumindo, gravar um álbum no sistema do-it-yourself em 1995 era impossível, portanto essa era uma empreitada reservada a quem tivesse acesso a uma equipe profissional de gravação, com equipamentos profissionais, e orçamento de produção semelhante ao de um carro zero.

Então quando o Maestro Arnon Oliveira chegou com a notícia bombástica de que o Madrigale gravaria um disco, isso foi recebido com absoluta euforia, e até um pouco de incredulidade, pelo grupo. A aventura foi possível porque na época conseguimos um patrocinador: um (raríssimo) empresário que era entusiasta da música erudita e do canto coral, e decidiu nos dar, além de uma ajuda de custo mensal, o apoio financeiro para gravarmos o disco.

E aqui temos outro recorte temporal: a proposta inicial era a gravação de um LP em vinil. Num determinado momento a aposta subiu e foi decidido que seria um CD, tecnologia mais nova, mais cara e mais desejável na época. Mal sabíamos nós que hoje, mais de 30 anos depois, um vinil seria uma relíquia profundamente revalorizada, enquanto CDs viraram lixo inútil na maioria dos lares.

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Foi assim que, no inverno de 1995, entramos no antigo auditório da Usiminas, em Belo Horizonte, para dois dias de gravação. Empolgação e apreensão foram constantes e simultâneas durante esse período.

Eu consigo me lembrar de dois perrengues bravos, passados nesses dias.

O primeiro foi a unha do meu dedo indicador direito, que decidiu se quebrar justamente na véspera da gravação do violão da faixa “Passarim”, e para conseguir tocar eu tive que improvisar uma solução detestável com supercola. Aliás, a participação do violão, que hoje seria muito simples através de uma sobreposição com mixagem separada, foi feita ao vivo junto com o coro, o que complicou bastante o posicionamento de microfones e a equalização do som em tempo real. O tempo passou, mas eu ainda me lembro bem da aflição espantosa que eu senti com isso.

O segundo perrengue foi uma notinha, durante a gravação da faixa “Alleluia”, que não soou correta e comprometeu uma sequência harmônica da peça. Um problema novo numa peça antiga que já tinha sido apresentada perfeitamente dezenas de vezes no passado. Depois de perdermos uns dois takes e a nota continuar não saindo, bateu a preocupação geral. O Arnon Oliveira ainda não era o grande maestro de hoje, mas um regente bem jovem e muito menos experiente. Ainda assim, ele tirou o coro do palco, levou todo mundo lá para o fundo do teatro e, com a partitura e os cantores na mão, ele achou e matou a nota errada. Voltamos para o palco e gravamos a faixa.

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Após alguns percalços, causados por falhas dos equipamentos, além de nossa profunda inexperiência com o processo de gravação, e também de uns resfriados de alguns cantores, terminamos a gravação. Depois de um tempo interminável aguardando mixagem, masterização e prensagem dos discos, recebemos uma caixa enorme cheia de CDs lindos, com capa belíssima feita pela Juliana Palhares, e encarte ilustrado com as fotos profissionais que tiramos no Museu Abílio Barreto.

Eu confesso que o resultado, no meu ouvido, não foi bom e até hoje não é. Depois de escutar o disco uma vez, eu nunca mais consegui escutá-lo inteiro de novo. Às vezes paro para ouvir parte de uma faixa, mas o som me parece duro e frio. Ainda assim, eu considero que essa experiência é meio definidora de alguns aspectos da minha vida, e me ajudou a entender e dominar bem melhor todos os muitos outros processos de gravação dos quais eu participei ao longo dos anos, como cantor, instrumentista e produtor.

E que venham novas gravações para o Madrigale, no futuro.


A capa do disco (arte de Juliana Palhares)




A turma do disco
Arnon, Sandra, Letícia, Pollyanna, Kátia, Daniela, Fernanda, Clélia, Joana, Juliana, Luciana, 
Joubert, Decat, Gustavo, Ricardo, Sérgio, Marco Paulo, André, Felipe.

Gustavo Fonseca




sexta-feira, 13 de março de 2026

O trabalho silencioso (uma reflexão)

Há uma parte da vida musical que quase ninguém vê. Ela não acontece no palco, nem no concerto, nem no momento em que o público aplaude. Ela acontece antes, muito antes, no estudo, na preparação paciente, na espera.

Grande parte do trabalho de um músico é silenciosa. É feita de horas diante da partitura, de repetição de pequenos trechos, de tentativas que ainda não soam como gostaríamos. É um tempo que raramente produz espetáculo, mas sem o qual o espetáculo não existiria. Mas também há momentos em que a imaginação sobre o que a obra pode transmitir é tão intensa que a emoção, arrepios, é de uma intensidade sem medida.

Nós, os regentes, aprendemos cedo que a música exige esse tipo de disciplina interior. Antes de soar para o mundo, ela precisa primeiro se organizar dentro de nós. A técnica se constrói assim: lentamente, quase invisível, como quem prepara um terreno antes de semear.

Também no trabalho coral esse processo é evidente. Um concerto é apenas a superfície visível de algo muito maior. Por trás dele estão semanas de ensaio, ajustes de afinação, busca de equilíbrio entre vozes, compreensão do texto, construção da interpretação. São pequenas decisões acumuladas que, juntas, permitem que a música aconteça.

Esse tempo de preparação exige uma virtude cada vez mais rara: paciência. Vivemos em uma época que valoriza o resultado imediato, mas a música continua obedecendo a outro ritmo. Ela precisa de maturação. Como certos vinhos, como certas amizades, como certas ideias.

O trabalho silencioso também ensina algo importante sobre humildade. Nem todo esforço se transforma imediatamente em aplauso. Às vezes o estudo prepara algo que só florescerá muito tempo depois. Ainda assim, o processo vale por si mesmo.

Talvez seja essa uma das lições mais profundas da prática musical: aprender a confiar no tempo da construção. A aceitar que aquilo que hoje é apenas exercício, tentativa ou repetição, amanhã poderá se transformar em forma, som e sentido.

A música nasce muitas vezes no silêncio. E é justamente desse silêncio paciente que surgem os momentos que, mais tarde, parecerão naturais no palco.






quinta-feira, 12 de março de 2026

Madrigal Renascentista (1959) - nem sempre o sucesso acontece em casa ou "em casa de ferreiro, espeto é de pau".

Depois da excursão pelo sul do país, que havia projetado o nome do Madrigal Renascentista para além de Minas Gerais, o grupo voltou a se apresentar em Belo Horizonte. O concerto aconteceu no auditório do Colégio Izabela Hendrix, em 26 de agosto de 1959, e marcava também uma despedida temporária de Isaac Karabtchevsky, que em outubro retornaria à Alemanha para mais uma etapa de estudos.

Curiosamente, essa apresentação chama atenção por um motivo pouco habitual na trajetória do coro: ela não empolgou o público.

Não se tratava de uma execução ruim. Pelo contrário. O cronista João Marschner, escrevendo no Estado de Minas, reconheceu que o Madrigal estava tecnicamente excelente naquela noite. O que teria faltado, segundo ele, foi outra coisa, aquilo que muitas vezes decide a atmosfera de um concerto: o calor da comunicação com a plateia. O próprio crítico registrou a situação de maneira direta: o Madrigal pareceu ressentir-se da frieza do público, e à apresentação faltou justamente o “calor da transmissão”, elemento que ele considerava uma das marcas do grupo.

Esse tipo de situação é conhecido por qualquer artista. Às vezes, o público da própria cidade reage com maior reserva, enquanto plateias de fora acolhem o trabalho com entusiasmo. Em casa, por alguma razão difícil de explicar, o vínculo pode ser mais frio.

Naquela noite, segundo Marschner, o ambiente começou a mudar apenas quando entrou em cena a solista Maria Lúcia Godoy. Com o início das peças folclóricas e, especialmente, em I Got Religion, o gelo finalmente se quebrou. O crítico chegou a escrever, com evidente admiração, que o “misticismo vocal” de Maria Lúcia tinha a capacidade de comover até mesmo os minerais.

A palavra “místico” aparece com alguma frequência nas críticas da época quando se referem às apresentações do Madrigal Renascentista. Talvez porque, naquele contexto musical brasileiro ainda pouco acostumado a coros de concerto com grande refinamento técnico, ouvir um conjunto desse nível pudesse realmente parecer algo incomum, algo quase mágico.

Também é possível que houvesse ali uma questão de repertório. O programa do Madrigal seguia um percurso bastante elaborado: começava com música da Renascença, atravessava diferentes períodos da história da música e só na parte final chegava aos compositores brasileiros. Mesmo então, as obras nacionais apareciam em tratamento erudito, o que talvez fosse exigente para um público que ainda não tinha o hábito de ouvir o coro como instrumento de concerto.

Esse episódio lembra algo simples e verdadeiro na vida artística: nem todo triunfo acontece diante do público da própria casa. Às vezes é justamente fora dela que o trabalho encontra sua recepção mais calorosa.


🎬 Madrigal Renascentista - I got religion

 

 


quarta-feira, 11 de março de 2026

Little Singers of Armenia

A internet tem essa capacidade curiosa de nos colocar, de repente, diante de vozes que vêm de lugares muito distantes. Sempre que alguém me envia uma apresentação de um coro que me impressiona, eu logo me ponho a buscar informações sobre ele e tento ouvir o máximo do que produzem. É uma forma de aprendizado que me acompanha pela vida, porque guarda conhecimentos transmissíveis que não estão contidos em livros. 

Entre essas descobertas está o Armenian Little Singers, coro juvenil sediado em Yerevan, capital da Armênia. O grupo foi fundado em 1992 pelo maestro Tigran Hekekyan. Desde então, tornou-se uma referência importante na vida musical do país. Na verdade, não se trata de um único coro, mas de um projeto amplo de formação musical que reúne crianças e jovens em diferentes níveis, acompanhando seu desenvolvimento vocal e artístico ao longo dos anos.

O repertório do coro percorre caminhos diversos, com obras do repertório coral internacional, música contemporânea e composições ligadas à tradição armênia. Essa presença constante da cultura local faz com que o coro carregue consigo algo que vai além do concerto: uma espécie de memória cantada de seu próprio país.

Há também um aspecto que chama atenção quando observamos o trabalho do grupo: a dimensão pedagógica. O Armenian Little Singers não parece nascer apenas do desejo de apresentar música, mas de formar músicos. O coro funciona como um espaço de crescimento artístico, onde a prática coral se torna parte da educação e da construção sensível de cada jovem cantor.

Para quem gosta de observar o universo coral em diferentes culturas, descobrir grupos como esse é também uma forma de lembrar que o canto coletivo continua sendo, em muitos lugares do mundo, uma maneira profunda de formar pessoas, preservar tradições e criar beleza em comum.


🎬 Edelweiss - The Sound of Music, Little Singers of Armenia

 

 

🎬 Claude Debussy-Salut Printemps, Little Singers of Armenia choir

 

 

🎬 For me, formidable - Charles Aznavour - Little Singers of Armenia

 

 


A vida coral na Letônia

A Letônia é um país pequeno, com pouco menos de dois milhões de habitantes. Mesmo assim, estima-se que dezenas de milhares de pessoas partic...