(Esse post é sequência da publicação do dia 13/02/26)
Toda excursão termina no retorno, mas nem tudo volta no mesmo estado. Quando o Madrigal Renascentista regressou ao Brasil, depois de semanas intensas entre São Paulo, Sul do país, Argentina e Chile, algo já não era exatamente igual ao que havia antes da partida. O coro retornava com concertos feitos, compromissos cumpridos, aplausos acumulados, mas, sobretudo, com consciência de lugar.
A viagem de 1959 não foi apenas uma sequência de
apresentações bem-sucedidas. Ela consolidou um modo de existir. O Madrigal
passou a saber, na prática, que seu trabalho era compreendido, desejado e
valorizado para além do território de origem, e isso altera a relação de um grupo
consigo mesmo.
Primeiro, aconteceu um efeito interno. Uma excursão longa testa tudo:
resistência física, convivência, pactos, disciplina, escuta. Não se sustenta um
percurso desses apenas com entusiasmo. O que se observa é um grupo que aprende
a funcionar sob pressão, a representar algo maior do que seus indivíduos, a
manter qualidade mesmo quando o cansaço chega. Isso não se perde ao voltar para
casa.
Outro aspecto fundamental é o repertório. As escolhas
feitas, inclusive as mais arriscadas, como a apresentação de música
contemporânea fora do Brasil, mostram um coro que não se contentava em
agradar. Havia ali uma clara intenção de afirmar um projeto artístico, mesmo
quando isso significava correr riscos de recepção. Isso marca profundamente a
identidade de um grupo.
E há, ainda, o campo ampliado. Os encontros com outros
maestros, outros coros, outras tradições deixaram sementes. O contato com o
Chile, em especial, abriu um diálogo que se estenderia nos anos seguintes, com
intercâmbios e retornos. O Madrigal deixou de ser apenas um coro brasileiro em
viagem e passou a integrar uma rede latino-americana de canto coral.
E, talvez, seja esse o legado mais duradouro da excursão de 1959: ela ensinou ao coro que ele podia ser, ao mesmo tempo, instrumento artístico, agente cultural e espaço de formação humana, que cantar é mais do que apenas produzir som, mas é também ocupar um lugar no mundo.
Para mim, revisitar esses documentos a cada ano ou mês nunca é somente um exercício de nostalgia, mas é lembrar que já houve um tempo em que a música coral era tratada como assunto de interesse público, acompanhada pela imprensa, apoiada por instituições e entendida como parte de um projeto cultural maior. A pergunta que fica não é apenas histórica, ela é contemporânea: que lugar estamos dispostos a ocupar hoje com nossos coros?
E aqui encerro essa série de posts sobre a excursão de 1959 do Madrigal Renascentista. Outras histórias virão, pois o movimento coral de Belo Horizonte, e as viagens do Madrigal, não pararam por aí. Outras viagens aconteceram e outros documentos esperam ser lidos e compartilhados.
Post relacionados a essa viagem:
Blog do Maestro Arnon: 1959 - o Madrigal Renascentista vai ao Sul (1)
Blog do Maestro Arnon: 1959 - o Madrigal Renascentista vai ao Sul (2)
Blog do Maestro Arnon: 1959 - o Madrigal Renascentista vai ao Sul (3) ou O disco possível
Blog do Maestro Arnon: 1959 - o Madrigal Renascentista vai ao Sul (4)
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