Assim como aconteceu quando escrevi sobre minha chegada ao Coral Acesita e Marília Ruas contou como aquele encontro foi vivido pelo grupo, ela me respondeu o post de ontem falando sobre outro extremo dessa história: o momento da partida e de quem estava do lado dos que cantam. O post anterior foi escrito do lugar de quem se despedia e este nasce do lugar de quem assistiu à despedida. São duas memórias sobre o mesmo acontecimento, separadas por mais de vinte anos, mas unidas pela convicção de que alguns vínculos permanecem muito depois que os ensaios terminam.
Reproduzo seu relato exatamente como o recebi:
(Por Marília Ruas - Presidente do Coral Acesita em 2000)
Tem coisas na vida que são difíceis de lembrar, de tentar recordar o momento, de revisitar um passado que deixou marcas profundas em todo um grupo. Falar sobre a saída do Arnon do Coral Acesita é um desses momentos.
O Coral Acesita foi um grupo que se transformou ao longo do tempo. Com a entrada de coralistas mais jovens, a dinâmica do coro foi se modificando e ali se formou um grupo coeso, amigo, que queria se desenvolver, crescer e ter acesso a um repertório mais desafiador.
Na nossa trajetória, a perda de uma regente muito querida, que iniciou esse processo de mudança, nos trouxe exatamente a pessoa que almejávamos. Chegou à regência do coro um jovem que eu definiria como destemido, trazendo consigo a vontade de fazer diferente, de transpor limites e de correr atrás daquilo em que acreditava. A passagem do Arnon pelo Acesita não representou apenas a passagem de um profissional brilhante por um grupo. Ali foram criados laços de confiança, respeito, admiração e amizade.
Ele encontrou um grupo disposto a encarar desafios, que queria, sobretudo, crescer musical e tecnicamente. Foi assim que o Coral Acesita se transformou em um coro conhecido e respeitado no cenário musical da época. Essa verve desafiadora, a disciplina, a responsabilidade e o talento cativaram todo o grupo, que reconhecia no trabalho realizado a satisfação de fazer parte de tudo aquilo.
A chegada da Fundação Acesita nos trouxe sentimentos antagônicos. Ao mesmo tempo em que nos proporcionou estabilidade estrutural, retirou nossa autonomia para pensar o coro, criar projetos e participar de decisões importantes para o desenvolvimento do trabalho. Esse processo culminou com a saída do Arnon da regência.
Lembro-me de uma conversa que tive com a diretoria da Fundação, tentando explicar que encontrar, no mercado do Vale do Aço ou mesmo em Belo Horizonte, um profissional da grandeza do Arnon não seria tarefa fácil. Tínhamos ali um dos melhores regentes de Minas Gerais, que já vinha realizando um trabalho de excelente nível, e deveríamos valorizá-lo. Infelizmente, a tentativa foi em vão e sua saída tornou-se inevitável.
Com o desenrolar dos fatos, tínhamos o pressentimento de que algo ruim iria acontecer, mas o impacto, no dia em que o Arnon anunciou sua saída, foi muito grande. O vínculo do grupo com ele era tão significativo que, depois de seu desligamento, apenas três dos trinta cantores permaneceram no coro.
Aquilo foi o desmonte de um trabalho incrível, que poderia ter frutificado muito mais. Foi também o silenciamento de um grupo de pessoas que reconhecia em seu regente não apenas um profissional da maior grandeza, mas, acima de tudo, um grande amigo.