terça-feira, 17 de março de 2026

Arnon, por que você não fala sobre o Coral BDMG?

 Fui questionado, recentemente, por um leitor/cantor sobre o por quê de, até agora, eu não ter falado sobre o Coral BDMG. Sem dúvida, essa é uma pergunta justa, afinal, trata-se de um coro pelo qual tenho um carinho enorme e com o qual vivi 18 anos da minha trajetória musical.

Mas há uma razão simples para esse silêncio provisório.

Na relação direta com coros, tenho revisitado memórias de maneira relativamente linear, quase cronológica. Tenho voltado aos anos 1990, à formação de certos projetos, às primeiras experiências como regente, aos encontros e desencontros que vêm moldando o meu caminho artístico. É um exercício curioso de memória: como se eu estivesse caminhando novamente por um território que já percorri, observando com outros olhos as decisões, os acasos e até os equívocos daquele tempo.

Minha entrada no Coral BDMG aconteceu apenas em 2005, ou seja, ele pertence a um capítulo posterior dessa história que estou contando agora.

Isso não significa, de forma alguma, que o coro esteja ausente da minha memória, muito pelo contrário. O Coral BDMG ocupa um lugar muito especial na minha vida musical. Ali, aconteceram experiências artísticas profundas, encontros humanos marcantes e momentos que certamente merecerão ser contados com calma.

Talvez justamente por isso eu tenha preferido, por enquanto, não antecipar essa narrativa, pois memórias também têm seu tempo de amadurecimento e algumas histórias pedem uma certa distância para serem vistas com clareza; outras pedem simplesmente o momento certo dentro da sequência da caminhada.

Mas agora que a pergunta apareceu, deixo outra no ar: Será que vale a pena esperar a linha do tempo chegar até 2005… ou talvez já seja o momento de abrir um pequeno desvio no caminho e começar a contar também essa história? Confesso que ainda estou pensando nisso.

Uma coisa, no entanto, é certa: quando chegar a hora de falar do Coral BDMG, será com o cuidado que se reserva às coisas realmente importantes.

 


P.S. Para quem não sabe, o antigo Coral BDMG renasceu como Coral 4 Cantos. É o resultado da resiliência de seus cantores, que não aceitaram ver desaparecer um trabalho construído ao longo de tantos anos quando o Governo de Minas e o BDMG decidiram, de forma abrupta, encerrar as atividades do BDMG Cultural. O coro sobreviveu porque seus integrantes decidiram que a música não terminaria ali. Bravi!!!

segunda-feira, 16 de março de 2026

Minha saída do Madrigal Scala em 1994

Há decisões na vida musical que, no momento em que acontecem, parecem apenas circunstanciais. Com o tempo, percebemos que elas marcam verdadeiras mudanças de percurso.

Minha saída do Madrigal Scala, em 1994, foi uma dessas passagens.

Naquele período eu começava a perceber com mais clareza as várias possibilidades de uma carreira como regente. O Scala era, para mim, um espaço muito importante de desenvolvimento: um coro intenso, musicalmente muito bom e que correspondia com seriedade às propostas que eu levava para os ensaios. Dentro do meio coral de Belo Horizonte, era também uma referência.

O ambiente do grupo era bom. Havia, de modo geral, um desejo coletivo de fazer o melhor pelo coro. Mas começava a aparecer uma diferença de expectativas. Ensaiávamos apenas uma vez por semana, aos sábados à tarde, e aquilo já me parecia insuficiente para o tipo de trabalho que eu imaginava desenvolver. Eu queria ampliar repertório, aprofundar processos, experimentar mais. Hoje vejo que, naquela época, eu ainda estava construindo minhas próprias ferramentas de ensaio e de condução artística, algo que só se desenvolve com o tempo.

O episódio que precipitou minha saída surgiu a partir de uma proposta de concerto que imaginei naquele momento. A ideia era reunir três coros: o Scala, o Madrigale e o Coral Acesita. Para mim, aquilo parecia uma oportunidade interessante de diálogo entre grupos em diferentes estágios de desenvolvimento. Mas a reação do coro me surpreendeu.

A comissão do Scala me procurou e explicou que muitos cantores não se sentiam confortáveis com a ideia. Havia o entendimento de que não faria sentido “emprestar” o nome do coro a grupos que ainda estavam iniciando seu caminho artístico. Hoje consigo compreender melhor as razões que estavam por trás daquela posição, mas, naquele momento, jovem como eu era, vivi aquilo como um sinal de que talvez eu encontrasse ali limites para desenvolver projetos mais amplos como diretor artístico.

Minha decisão foi então apostar completamente no Madrigale, um coro jovem que começava a nascer e que demonstrava acreditar nas ideias que eu queria experimentar.

O episódio foi doloroso. Ser confrontado em um projeto artístico nunca é simples, ainda mais para um regente jovem, cheio de convicções e também, naturalmente, de ego. Não sei dizer com certeza se hoje eu tomaria exatamente a mesma decisão. Talvez tivesse buscado outros caminhos de negociação, porque a experiência ensina a ouvir de outra maneira.

Olhando trinta anos depois, no entanto, percebo que aquela saída foi necessária para que minha trajetória continuasse. No Madrigale encontrei o espaço para desenvolver aquilo que eu buscava: pensar repertórios, construir um gesto próprio, experimentar ideias e desenvolver uma filosofia de trabalho coral.

Ao mesmo tempo, também reconheço que minha saída não foi, naquele momento, algo especialmente positivo para o Scala. Ainda assim, a história do coro seguiu seu caminho, e hoje existe entre nós um sentimento muito claro de respeito mútuo.

Quando penso no Madrigal Scala hoje, o sentimento que permanece é, sobretudo, gratidãoFoi ali que tive meu primeiro contato profundo com o universo dos coros adultos. Foi ali que muitas portas se abriram para mim como músico e regente. E certas portas, mesmo quando se fecham, continuam fazendo parte da casa onde aprendemos a viver.

Passados tantos anos, continuo olhando para o Madrigal Scala com grande respeito. Foi um coro fundamental na minha formação, e, por isso, mais do que recordar um episódio específico, prefiro guardar o Scala como parte essencial do caminho que me trouxe até aqui.





Posts referentes ao Madrigal Scala:

domingo, 15 de março de 2026

Inútil Paisagem (HelyElas)

Uma canção, um gesto de contemplação, um olhar que se demora sobre o mundo. E, de repente, uma pergunta:

Mas pra quê?
Pra quê tanto céu?
Pra quê tanto mar?

Na poesia, a paisagem aparece inteira diante de nós: o céu, o mar, a tarde, o vento, as flores pelo caminho. Tudo está ali, vasto, silencioso, aparentemente completo. E, no entanto, surge a inquietação: com a ausência, percebemos que a beleza do mundo não se basta sozinha. A paisagem precisa de um olhar que a reconheça, de uma sensibilidade que a transforme em experiência.

A onda que quebra no vento da tarde continua sendo bela. As flores continuam nascendo pelo caminho. O céu continua imenso. Mas a pergunta permanece suspensa:

De que serve a tarde?

Essa canção, de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira,  guarda algo muito próprio da sensibilidade brasileira: essa maneira quase filosófica de olhar o mundo através de imagens simples da natureza. A paisagem deixa de ser apenas cenário e passa a ser reflexão.

Talvez seja essa a beleza maior da canção: transformar céu, mar, vento e flores em uma pergunta que permanece aberta, e, de algum modo, profundamente humana.


🎬 Inutil paisagem - Coro Madrigale

 


Outros posts referentes ao HelyElas:

Blog do Maestro Arnon: Conversa de botequim (HelyElas)

Blog do Maestro Arnon: Encabulada (HelyElas)

Blog do Maestro Arnon: Canção do Amanhecer (HelyElas)

Blog do Maestro Arnon: Saia do meu caminho

Blog do Maestro Arnon: Ilusão à toa: a delicadeza como gesto

Blog do Maestro Arnon: Sabiá (HelyElas)

Blog do Maestro Arnon: João e Maria - delicadeza como escolha (HelyElas)

Blog do Maestro Arnon: Chovendo na roseira: pra florescer devagar

sábado, 14 de março de 2026

O disco do Madrigale - 1995 (por Gustavo Fonseca)

(Esse post foi escrito por Gustavo Fonseca, cantor do Madrigale)

Logo no início da história do Madrigale, nós gravamos um disco. O ano era 1995, eu tinha 17 anos de idade, e pouco mais de um ano como integrante do coro.

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Aqui é importante, para que os mais jovens entendam o que esse processo representava para o grupo, dar um contexto da época e explicar a situação dos recursos tecnológicos disponíveis.

Hoje é possível gravar um álbum usando um smartphone qualquer, editá-lo, mixá-lo, masterizá-lo e incluir overdubs com aplicativos gratuitos, enviá-lo para as plataformas digitais facilmente por meio de distribuidoras, e esse processo pode ser aprendido rapidamente com inúmeros tutoriais disponíveis na Internet. Com o mesmo smartphone se fazem facilmente a foto e a capa do álbum. Sem falar nas recentes tecnologias de IAs generativas que já são acessíveis a qualquer um, e simplificam esse processo de forma exponencial.

Em 1995, as pessoas não tinham smartphones, nem mesmo celulares. Os computadores eram uma porcaria e não tínhamos acesso à Internet. Não havia gravadores de CDs domésticos acessíveis. Gravadores de som portáteis eram dispositivos muito rudimentares que usavam microfones toscos e fitas cassete, e a transferência desses áudios analógicos para mídias profissionais era absolutamente inviável. Cabe dizer que a qualidade dos áudios era tão pavorosamente baixa que mesmo que fosse possível transferi-los, o resultado não valeria a pena. Nós vivíamos uma era diferente na economia da produção musical.

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Resumindo, gravar um álbum no sistema do-it-yourself em 1995 era impossível, portanto essa era uma empreitada reservada a quem tivesse acesso a uma equipe profissional de gravação, com equipamentos profissionais, e orçamento de produção semelhante ao de um carro zero.

Então quando o Maestro Arnon Oliveira chegou com a notícia bombástica de que o Madrigale gravaria um disco, isso foi recebido com absoluta euforia, e até um pouco de incredulidade, pelo grupo. A aventura foi possível porque na época conseguimos um patrocinador: um (raríssimo) empresário que era entusiasta da música erudita e do canto coral, e decidiu nos dar, além de uma ajuda de custo mensal, o apoio financeiro para gravarmos o disco.

E aqui temos outro recorte temporal: a proposta inicial era a gravação de um LP em vinil. Num determinado momento a aposta subiu e foi decidido que seria um CD, tecnologia mais nova, mais cara e mais desejável na época. Mal sabíamos nós que hoje, mais de 30 anos depois, um vinil seria uma relíquia profundamente revalorizada, enquanto CDs viraram lixo inútil na maioria dos lares.

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Foi assim que, no inverno de 1995, entramos no antigo auditório da Usiminas, em Belo Horizonte, para dois dias de gravação. Empolgação e apreensão foram constantes e simultâneas durante esse período.

Eu consigo me lembrar de dois perrengues bravos, passados nesses dias.

O primeiro foi a unha do meu dedo indicador direito, que decidiu se quebrar justamente na véspera da gravação do violão da faixa “Passarim”, e para conseguir tocar eu tive que improvisar uma solução detestável com supercola. Aliás, a participação do violão, que hoje seria muito simples através de uma sobreposição com mixagem separada, foi feita ao vivo junto com o coro, o que complicou bastante o posicionamento de microfones e a equalização do som em tempo real. O tempo passou, mas eu ainda me lembro bem da aflição espantosa que eu senti com isso.

O segundo perrengue foi uma notinha, durante a gravação da faixa “Alleluia”, que não soou correta e comprometeu uma sequência harmônica da peça. Um problema novo numa peça antiga que já tinha sido apresentada perfeitamente dezenas de vezes no passado. Depois de perdermos uns dois takes e a nota continuar não saindo, bateu a preocupação geral. O Arnon Oliveira ainda não era o grande maestro de hoje, mas um regente bem jovem e muito menos experiente. Ainda assim, ele tirou o coro do palco, levou todo mundo lá para o fundo do teatro e, com a partitura e os cantores na mão, ele achou e matou a nota errada. Voltamos para o palco e gravamos a faixa.

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Após alguns percalços, causados por falhas dos equipamentos, além de nossa profunda inexperiência com o processo de gravação, e também de uns resfriados de alguns cantores, terminamos a gravação. Depois de um tempo interminável aguardando mixagem, masterização e prensagem dos discos, recebemos uma caixa enorme cheia de CDs lindos, com capa belíssima feita pela Juliana Palhares, e encarte ilustrado com as fotos profissionais que tiramos no Museu Abílio Barreto.

Eu confesso que o resultado, no meu ouvido, não foi bom e até hoje não é. Depois de escutar o disco uma vez, eu nunca mais consegui escutá-lo inteiro de novo. Às vezes paro para ouvir parte de uma faixa, mas o som me parece duro e frio. Ainda assim, eu considero que essa experiência é meio definidora de alguns aspectos da minha vida, e me ajudou a entender e dominar bem melhor todos os muitos outros processos de gravação dos quais eu participei ao longo dos anos, como cantor, instrumentista e produtor.

E que venham novas gravações para o Madrigale, no futuro.


A capa do disco (arte de Juliana Palhares)




A turma do disco
Arnon, Sandra, Letícia, Pollyanna, Kátia, Daniela, Fernanda, Clélia, Joana, Juliana, Luciana, 
Joubert, Decat, Gustavo, Ricardo, Sérgio, Marco Paulo, André, Felipe.

Gustavo Fonseca




sexta-feira, 13 de março de 2026

O trabalho silencioso (uma reflexão)

Há uma parte da vida musical que quase ninguém vê. Ela não acontece no palco, nem no concerto, nem no momento em que o público aplaude. Ela acontece antes, muito antes, no estudo, na preparação paciente, na espera.

Grande parte do trabalho de um músico é silenciosa. É feita de horas diante da partitura, de repetição de pequenos trechos, de tentativas que ainda não soam como gostaríamos. É um tempo que raramente produz espetáculo, mas sem o qual o espetáculo não existiria. Mas também há momentos em que a imaginação sobre o que a obra pode transmitir é tão intensa que a emoção, arrepios, é de uma intensidade sem medida.

Nós, os regentes, aprendemos cedo que a música exige esse tipo de disciplina interior. Antes de soar para o mundo, ela precisa primeiro se organizar dentro de nós. A técnica se constrói assim: lentamente, quase invisível, como quem prepara um terreno antes de semear.

Também no trabalho coral esse processo é evidente. Um concerto é apenas a superfície visível de algo muito maior. Por trás dele estão semanas de ensaio, ajustes de afinação, busca de equilíbrio entre vozes, compreensão do texto, construção da interpretação. São pequenas decisões acumuladas que, juntas, permitem que a música aconteça.

Esse tempo de preparação exige uma virtude cada vez mais rara: paciência. Vivemos em uma época que valoriza o resultado imediato, mas a música continua obedecendo a outro ritmo. Ela precisa de maturação. Como certos vinhos, como certas amizades, como certas ideias.

O trabalho silencioso também ensina algo importante sobre humildade. Nem todo esforço se transforma imediatamente em aplauso. Às vezes o estudo prepara algo que só florescerá muito tempo depois. Ainda assim, o processo vale por si mesmo.

Talvez seja essa uma das lições mais profundas da prática musical: aprender a confiar no tempo da construção. A aceitar que aquilo que hoje é apenas exercício, tentativa ou repetição, amanhã poderá se transformar em forma, som e sentido.

A música nasce muitas vezes no silêncio. E é justamente desse silêncio paciente que surgem os momentos que, mais tarde, parecerão naturais no palco.






quinta-feira, 12 de março de 2026

Madrigal Renascentista (1959) - nem sempre o sucesso acontece em casa ou "em casa de ferreiro, espeto é de pau".

Depois da excursão pelo sul do país, que havia projetado o nome do Madrigal Renascentista para além de Minas Gerais, o grupo voltou a se apresentar em Belo Horizonte. O concerto aconteceu no auditório do Colégio Izabela Hendrix, em 26 de agosto de 1959, e marcava também uma despedida temporária de Isaac Karabtchevsky, que em outubro retornaria à Alemanha para mais uma etapa de estudos.

Curiosamente, essa apresentação chama atenção por um motivo pouco habitual na trajetória do coro: ela não empolgou o público.

Não se tratava de uma execução ruim. Pelo contrário. O cronista João Marschner, escrevendo no Estado de Minas, reconheceu que o Madrigal estava tecnicamente excelente naquela noite. O que teria faltado, segundo ele, foi outra coisa, aquilo que muitas vezes decide a atmosfera de um concerto: o calor da comunicação com a plateia. O próprio crítico registrou a situação de maneira direta: o Madrigal pareceu ressentir-se da frieza do público, e à apresentação faltou justamente o “calor da transmissão”, elemento que ele considerava uma das marcas do grupo.

Esse tipo de situação é conhecido por qualquer artista. Às vezes, o público da própria cidade reage com maior reserva, enquanto plateias de fora acolhem o trabalho com entusiasmo. Em casa, por alguma razão difícil de explicar, o vínculo pode ser mais frio.

Naquela noite, segundo Marschner, o ambiente começou a mudar apenas quando entrou em cena a solista Maria Lúcia Godoy. Com o início das peças folclóricas e, especialmente, em I Got Religion, o gelo finalmente se quebrou. O crítico chegou a escrever, com evidente admiração, que o “misticismo vocal” de Maria Lúcia tinha a capacidade de comover até mesmo os minerais.

A palavra “místico” aparece com alguma frequência nas críticas da época quando se referem às apresentações do Madrigal Renascentista. Talvez porque, naquele contexto musical brasileiro ainda pouco acostumado a coros de concerto com grande refinamento técnico, ouvir um conjunto desse nível pudesse realmente parecer algo incomum, algo quase mágico.

Também é possível que houvesse ali uma questão de repertório. O programa do Madrigal seguia um percurso bastante elaborado: começava com música da Renascença, atravessava diferentes períodos da história da música e só na parte final chegava aos compositores brasileiros. Mesmo então, as obras nacionais apareciam em tratamento erudito, o que talvez fosse exigente para um público que ainda não tinha o hábito de ouvir o coro como instrumento de concerto.

Esse episódio lembra algo simples e verdadeiro na vida artística: nem todo triunfo acontece diante do público da própria casa. Às vezes é justamente fora dela que o trabalho encontra sua recepção mais calorosa.


🎬 Madrigal Renascentista - I got religion

 

 


quarta-feira, 11 de março de 2026

Little Singers of Armenia

A internet tem essa capacidade curiosa de nos colocar, de repente, diante de vozes que vêm de lugares muito distantes. Sempre que alguém me envia uma apresentação de um coro que me impressiona, eu logo me ponho a buscar informações sobre ele e tento ouvir o máximo do que produzem. É uma forma de aprendizado que me acompanha pela vida, porque guarda conhecimentos transmissíveis que não estão contidos em livros. 

Entre essas descobertas está o Armenian Little Singers, coro juvenil sediado em Yerevan, capital da Armênia. O grupo foi fundado em 1992 pelo maestro Tigran Hekekyan. Desde então, tornou-se uma referência importante na vida musical do país. Na verdade, não se trata de um único coro, mas de um projeto amplo de formação musical que reúne crianças e jovens em diferentes níveis, acompanhando seu desenvolvimento vocal e artístico ao longo dos anos.

O repertório do coro percorre caminhos diversos, com obras do repertório coral internacional, música contemporânea e composições ligadas à tradição armênia. Essa presença constante da cultura local faz com que o coro carregue consigo algo que vai além do concerto: uma espécie de memória cantada de seu próprio país.

Há também um aspecto que chama atenção quando observamos o trabalho do grupo: a dimensão pedagógica. O Armenian Little Singers não parece nascer apenas do desejo de apresentar música, mas de formar músicos. O coro funciona como um espaço de crescimento artístico, onde a prática coral se torna parte da educação e da construção sensível de cada jovem cantor.

Para quem gosta de observar o universo coral em diferentes culturas, descobrir grupos como esse é também uma forma de lembrar que o canto coletivo continua sendo, em muitos lugares do mundo, uma maneira profunda de formar pessoas, preservar tradições e criar beleza em comum.


🎬 Edelweiss - The Sound of Music, Little Singers of Armenia

 

 

🎬 Claude Debussy-Salut Printemps, Little Singers of Armenia choir

 

 

🎬 For me, formidable - Charles Aznavour - Little Singers of Armenia

 

 


terça-feira, 10 de março de 2026

Renato Goulart - In Principio

E ainda sobre o compositor mencionado nos dois últimos posts.

Renato Goulart é saxofonista, compositor, arranjador, regente, educador e produtor cultural. Graduado em Música pela UFMG, com habilitação em saxofone, e pós-graduado em Educação Musical, desenvolve uma trajetória que transita entre criação artística, performance e formação de músicos.

Suas obras sinfônicas, camerísticas e corais já foram executadas no Brasil e em diversos países, como Estados Unidos, Portugal, Espanha, Chile, Colômbia, Argentina e Polônia. Em 2018, sua peça coral The Daughter Who Flew Through the Atmosphere & Into a State of Nature, escrita em parceria com a poeta norte-americana Marci Vogel, foi a única obra estrangeira selecionada pelo programa Choral Arts Initiative, em Los Angeles.

Na música para banda, sua Suite do Vale foi finalista do WASBE Composition Contest, na Holanda, e a obra orquestral Impressões Francesas integrou o Festival Tinta Fresca, da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais.

Além da atividade composicional, Renato desenvolve forte atuação educacional. Fundou e coordenou a Orquestra de Sopros da Fundação de Educação Artística (2008–2015) e idealizou o Pró-Banda – Programa de Formação Musical para Músicos de Banda. Atua também como professor convidado em cursos e festivais de música, ministrando aulas de saxofone, composição, arranjo e orquestração.

Atualmente dedica-se ao trabalho com bandas de música em Minas Gerais, sendo maestro da Euterpe Santa Cecília, em Buenópolis — cidade onde iniciou sua formação musical.

Suas composições e arranjos são publicados internacionalmente por editoras como Dorn Publications, Murphy Music Press e SMP Press, nos Estados Unidos.

 

🎬 Vale registrar aqui outra bela obra desse compositor mineiro. O Coro Madrigale interpretou In Principio em maio de 2011, na Fundação de Educação Artística, acompanhado ao piano por Adão Oliveira e com a presença do próprio compositor.

Naquele momento chamou nossa atenção o interesse de Renato pela linguagem coral e, sobretudo, seu talento especial para construir sonoridades expressivas para o instrumento coral.

A obra utiliza o texto do Evangelho de São João (1:1–3; 1:14):

In principio erat Verbum, et Verbum erat apud Deum, et Deus erat Verbum.
Omnia per ipsum facta sunt; et sine ipso factum est nihil quod factum est.
Et Verbum caro factum est, et habitavit in nobis.

Tradução

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e Deus era o Verbo.
Tudo foi feito por Ele; e sem Ele nada foi feito do que foi feito.
E o Verbo se fez carne e habitou entre nós.


In Principio - Renato Goulart (Concerto Música Sacra 2011)

 



segunda-feira, 9 de março de 2026

Entre a Música e a Poesia: Memórias de uma Residência Artística na França (por Renato Goulart)

(Na sequência do post de ontem, o compositor Renato Goulart resolveu nos presentear com a narrativa da experiência que resultou na peça The Daughter. Vamos lá...)



No final de 2016, entre os meses de outubro e novembro, embarquei em uma jornada que se revelaria profundamente transformadora: minha primeira residência artística. Viabilizada por meio de um projeto de financiamento coletivo, que contou com o apoio de vários amigos e familiares que acreditaram no meu trabalho, pude realizar essa etapa fundamental da minha formação. O destino era o Camac – Centro de Artes, situado na pacata e charmosa comuna de Marnay-sur-Seine, no interior da França. Levei na bagagem um objetivo claro: dedicar-me integralmente à composição de uma nova obra para orquestra sinfônica. O que eu não esperava era que o verdadeiro presente daquela temporada seria o encontro com outras linguagens artísticas e as conexões humanas que floresceriam ali.



Camac


Um Caldeirão de Criatividade

Apesar do foco inicial na música, a experiência no Camac me proporcionou algo raro e valioso: a imersão em um ambiente multidisciplinar. A residência reunia artistas de origens e áreas completamente diferentes, criando um fértil caldeirão de ideias. Ali, ao lado de músicos, conviviam pintores, poetas e artistas plásticos, cada um com seu processo criativo e sua visão de mundo. Foi nesse contexto de troca constante que tive a sorte de conhecer a poeta norte-americana Marci Vogel, vinda da ensolarada Los Angeles. Ela estava na França para uma pesquisa literária sobre a cultura francesa, mas foi ao compartilhar sua poesia que nossos caminhos artísticos se entrelaçaram.

Ao folhear alguns de seus livros, um poema em especial me saltou aos olhos e, mais do que isso, ressoou imediatamente em minha imaginação musical: “The Daughter Who Flew Through the Atmosphere & Into a State of Nature” (A Filha Que Voou Através da Atmosfera e Entrou em um Estado de Natureza). A leitura daquele texto não foi apenas intelectual; foi uma experiência sensorial. Visualizei um movimento ascendente, movimentos harmônicos que representavam um flutuar, o etéreo. Senti a textura musical se dissolvendo, como se a matéria se tornasse gradualmente mais sutil, flutuante, até atingir um estado de pura natureza e suspensão. Era como se o poema já contivesse em si uma partitura invisível, esperando para ser revelada em notas.


Renato Goulart e Marci Vogel


Viagem no Tempo pelas Páginas da História

As descobertas na residência, porém, não se limitaram ao convívio com os artistas contemporâneos. Um dos tesouros que encontrei estava silenciosamente guardado na biblioteca do Camac. Logo ao lado do piano, repousava uma coleção histórica fascinante: uma vasta seleção de edições do jornal parisiense L'Illustration. Para quem, como eu, é apaixonado por história e cultura francesa, foi como abrir um portal para o passado.

Para contextualizar, o L'Illustration foi um semanário de grande prestígio, cuja primeira edição data de 1843. Ele detém marcos importantes no jornalismo, como ter sido o primeiro jornal francês a publicar uma fotografia, em 1891, e a primeira fotografia a cores, em 1907. A coleção do Camac reúne um acervo impressionante que cobre justamente o período áureo da publicação, de 1843 a 1914, abrangendo mais de sete décadas de registros históricos até o limiar da Primeira Guerra Mundial.

Ao folhear aquelas páginas, tive era uma experiência única. A qualidade das gravuras e, posteriormente, das fotografias, era de uma riqueza impressionante. Ao explorar os índices, fiz algumas descobertas que me tocaram particularmente: pequenas notas e artigos que mencionavam compositores franceses que admiro. Encontrei, por exemplo, uma reportagem sobre os ensaios da ópera Thaïs, de Jules Massenet, e uma breve nota anunciando a publicação da peça para piano Rêverie, de Claude Debussy. Era como se a história da música francesa sussurrasse aos meus ouvidos diretamente daquelas páginas.





O Olhar do Pintor e a Gênese das Obras

Outro encontro marcante foi com o pintor tcheco Jaroslav Grodl. Sua obra se dedicava a capturar a beleza singela das cenas do cotidiano, e eu acabei me tornando, sem querer, um de seus modelos. Foi uma surpresa me ver em suas telas: em uma delas, estou na sacada da residência, observando o jardim durante uma pausa para o chá; em outra, ele me retratou trabalhando ao piano, durante o processo de composição. Ver meu próprio trabalho sendo observado e recriado pelo olhar sensível de outro artista foi uma forma de validação e inspiração muito especial.

Todo esse caldeirão de influências – a poesia de Marci, o silêncio histórico da biblioteca, o olhar de Jaroslav e a paisagem serena de Marnay-sur-Seine – começou a frutificar. Durante a residência, tive a oportunidade de apresentar uma primeira versão da peça inspirada no poema de Marci. Foi um momento intimista e poderoso: eu ao piano, executando a música enquanto a própria poeta fazia a leitura de seus versos. Mais tarde, essa obra ganharia uma nova roupagem, sendo finalizada em uma instrumentação para coro a capella.

Paralelamente, as sementes da obra orquestral que eu viera buscar começaram a germinar. O resultado foi “Impressões Francesas”, uma peça sinfônica em três movimentos, cada um dedicado a um local que marcou minha passagem pelo país: a tranquilidade de Marnay-sur-Seine, a energia boêmia de Montmartre em Paris, e a grandiosidade histórica do Castelo de Versalhes. A peça foi concluída em 2017 e apresentada no mesmo ano pela Orquestra Filarmônica de Minas Gerais.


Jaroslav Grodl



Reencontros que Atravessam Fronteiras

O tempo passou, mas os laços criados na França permaneceram vivos. Em 2018, fui selecionado para participar do festival Choral Arts Initiative em Los Angeles, um encontro dedicado a compositores contemporâneos de música coral. A oportunidade não poderia ser mais adequada: levaria minha peça para ser apresentada nos Estados Unidos. E, por uma feliz coincidência, LA também era a cidade de Marci Vogel. Pude reencontrá-la e, mais uma vez, unir música e poesia, desta vez em solo americano, durante uma primeira leitura da obra.

Esses reencontros se repetiram de outras formas, em outros lugares. Anos mais tarde, durante uma passagem por Berlim, encontrei Nina Ansari, a talentosa artista iraniana que também conheci no Camac. Conversamos sobre nossos percursos, as cidades que agora habitamos — ela atualmente reside na capital alemã — e como aquelas semanas em Marnay-sur-Seine seguiram ecoando em nossos trabalhos.

Ao olhar para trás, percebo que a residência no Camac foi muito mais do que um período de composição. Foi um lembrete poderoso de que a arte floresce no encontro, na troca e na abertura para o inesperado. As obras que nasceram ali carregam não apenas minhas notas, mas também um pouco da poesia da Marci, das cores do Jaroslav e dos ecos da história que sussurravam nas páginas do L'Illustration. E tudo isso só foi possível graças à generosidade de tantas pessoas que, ao apoiarem o financiamento coletivo, tornaram essa experiência realidade.


https://www.renatogoulart.mus.br/blog

https://www.instagram.com/camac_art/  Marci Vogel: https://marcivogel.com/ 

Jaroslav Grodl: https://www.pure-beauty.cz/ Nina Ansari: https://www.ninaansari.com  

  

domingo, 8 de março de 2026

The Daughter, uma peça que esperou o seu tempo

Em 2017 recebi um e-mail do compositor Renato Goulart. Ele me enviava uma peça coral recém-composta, The Daughter, sobre um poema da poeta norte-americana Marci Vogel. A mensagem vinha acompanhada da partitura, de uma gravação ao piano e de um comentário que me chamou a atenção: ele achava que a estética da peça tinha muito a ver com o Madrigale.

Eu gostei imediatamente da provocação.

Na época, respondi que estava justamente pensando em montar um concerto dedicado ao repertório coral do século XXI e a peça entrou para aquele campo de ideias que às vezes ficam amadurecendo em silêncio.

Três anos depois, em 2020, no meio da pandemia, Renato voltou a me escrever. Agora com uma proposta concreta: realizar a gravação da obra. Estávamos no tempo dos coros virtuais e o Madrigale produzia a pleno vapor uma série de vídeos com repertórios diversos e foi justamente nesse contexto que The Daughter encontrou o seu caminho. Selecionei uma turma de cantores e partimos para a elaboração dessa difícil obra. Foi um processo trabalhoso, paciente e cheio de pequenos desafios técnicos, mas também profundamente simbólico, pois era a realização de uma peça musical que estava no plano das ideias e queria se tornar música numa realidade confusa e sensível. 

E aquela peça que tinha chegado como uma “provocação” alguns anos antes encontrou finalmente a sua primeira vida sonora. E é assim: algumas músicas sabem esperar o tempo certo de nascer.

🎬 Coro Madrigale - The Daughter

 


The Daughter Who Flew Through the Atmosphere & Into a State of Nature

(Marci Vogel)

 

If she were in Ovid, she might be

a tree, not Daphne, but another

racing through a blue slit

in the sky. Up, up―

the houses, miniature

squares. The streets,

nowhere she need ever travel

again. Some tangles

turn to knots, their laces

undone. Here,

sweet mortal, feel

the stepping out of shoe

into limb, the rising, root,

the leafing.


A Filha que Voou pela Atmosfera até um Estado de Natureza (Tradução livre)

Se ela estivesse em Ovídio, talvez fosse

uma árvore, não Dafne, mas outra

correndo por uma fenda azul

no céu. Para cima, para cima —

as casas, quadrados

em miniatura. As ruas,

lugares por onde ela nunca mais

precisará passar. Alguns emaranhados

se tornam nós, seus laços

desfeitos. Aqui,

doce mortal, sente

o sair do sapato

para o membro, a ascensão, a raiz,

o brotar em folhas.

 

(poema retirado do livro At the Border of Wilshire & Nobody - Ed. Howling Bird Press, Minneapolis, 2015)

 

Site da escritora: marcivogel.com


 


 

Arnon, por que você não fala sobre o Coral BDMG?

 Fui questionado, recentemente, por um leitor/cantor sobre o por quê de, até agora, eu não ter falado sobre o Coral BDMG. Sem dúvida, essa é...