Quando se fala em disciplina num coro, é fácil pensar apenas em horário. E horário é importante, claro. Mas um coro que funciona bem depende de uma disciplina muito maior, formada por uma quantidade de pequenas atitudes que, depois de incorporadas, quase deixam de ser percebidas.
Ela está no cantor que chega com sua partitura, cuida dela, faz as marcações pedidas e estuda o que precisa ser estudado. Está no cuidado com a própria voz e também com o uniforme que será usado no concerto. Está em saber permanecer em silêncio enquanto outro naipe ensaia, acompanhar o que está sendo trabalhado e manter a concentração. Nada disso parece especialmente importante quando observado isoladamente. Junto, faz uma diferença enorme.
Há também uma disciplina propriamente musical. E talvez esta seja ainda mais importante: a disciplina do respeito ao coletivo. Num coro, nem sempre se pode cantar como individualmente se gostaria. É preciso escutar as outras vozes, controlar a própria intensidade, modificar o timbre quando necessário, respirar no lugar combinado, responder ao gesto do regente. Às vezes é preciso fazer menos justamente para que o resultado seja maior.
Isso ajuda a explicar uma coisa que encontro com frequência. Um excelente cantor pode ser muito difícil dentro de um coro. E outro, talvez menos desenvolvido tecnicamente, pode se tornar fundamental porque sabe trabalhar, escutar e construir junto. Evidentemente, o melhor é quando as duas coisas se encontram: qualidade musical e disciplina coletiva.
Disciplina, porém, não significa submissão ao maestro. Um cantor pode e deve questionar. Também precisa saber quando e como fazê-lo. Um ensaio não funciona se cada decisão se transformar numa discussão, mas também não me interessa um grupo de pessoas que simplesmente execute tudo sem pensar.
E essa relação vale para os dois lados. Se espero pontualidade, estudo e concentração dos cantores, eles podem esperar de mim exatamente o mesmo compromisso. Tenho obrigação de chegar preparado, conhecer a partitura, saber o que quero trabalhar e não desperdiçar o tempo das pessoas. E, naturalmente, reconhecer quando estou errado. A disciplina coral não é uma exigência do maestro para o coro. É uma maneira de trabalhar que envolve todos.
Depois de algum tempo, acontece uma coisa interessante. Já não é preciso pedir silêncio a todo momento, lembrar que determinada passagem precisa ser marcada ou explicar novamente procedimentos que o grupo conhece. As coisas simplesmente começam a acontecer.
Costumo dizer que, nesse momento, o coro funciona “por música”.
E quem está na plateia provavelmente não percebe nada disso. Vê um grupo subir ao palco, abrir as partituras, olhar para o regente e cantar. Quando o coro é muito disciplinado, pode até parecer fácil.
Quando não é, curiosamente, o público percebe.
Talvez não saiba dizer exatamente o que está errado. Mas percebe.