Os próximos textos deste blog nascem diretamente da pesquisa que venho desenvolvendo para meu novo livro sobre o Madrigal Renascentista. Ao longo de uma série de posts, pretendo revisitar uma das experiências mais extensas, importantes e, curiosamente, menos comentadas da história coral brasileira: a excursão realizada pelo grupo aos Estados Unidos, nos meses de janeiro e fevereiro de 1965. Foi uma viagem de grandes proporções, com cerca de cinquenta dias de duração, 36 apresentações e passagem por 47 cidades norte-americanas.
Não se tratava apenas de uma turnê destinada a divulgar o trabalho de um coro. O Madrigal viajava como representante de uma determinada imagem do Brasil: um país que, em plena Guerra Fria e poucos meses depois do golpe civil-militar de 1964, desejava apresentar-se internacionalmente como moderno, culto e capaz de produzir arte de alto nível. A excursão integrava o circuito dos Community Concerts, uma estrutura que levava artistas e conjuntos de diferentes países a universidades, auditórios e pequenas cidades espalhadas pelo território norte-americano. Em alguns desses espaços, o Madrigal apareceu na mesma temporada de nomes como Arthur Rubinstein, a Filarmônica de Berlim, a Filarmônica Tcheca e outros artistas de circulação internacional.
A viagem foi, portanto, artística e diplomática ao mesmo tempo. No palco, estavam a sonoridade cuidadosamente construída pelo coro, o rigor de Isaac Karabtchevsky, a presença de Maria Lúcia Godoy, o repertório brasileiro e europeu e uma disciplina de trabalho que impressionou críticos estrangeiros. Fora dele, havia recepções oficiais, contatos com diplomatas, encontros com comunidades locais e uma constante expectativa de que aqueles jovens mineiros personificassem, diante do público, algo reconhecível como cultura brasileira. O sucesso da excursão contribuiu decisivamente para consolidar a imagem do Madrigal como o “Coro do Brasil”.
Essa consagração, porém, não deve ser contada apenas como uma sequência de vitórias. O capítulo do livro dedicado a 1965 é longo justamente porque a experiência foi muito mais complexa. Os integrantes do Madrigal conciliavam ensaios e viagens com profissões, estudos e compromissos pessoais, quase sempre sem remuneração compatível com o prestígio alcançado. A distância entre os aplausos recebidos e as condições concretas de sustentação do grupo acompanha toda a excursão: o coro era celebrado internacionalmente, mas continuava dependendo do idealismo, do esforço e da resistência física de seus cantores.
Os relatos preservados também revelam uma viagem de descobertas. Os cantores atravessaram estradas interestaduais, hospedaram-se em motéis que ainda pareciam novidade para muitos brasileiros, conheceram supermercados, universidades, museus e grandes centros urbanos. Encontraram uma sociedade fascinante pela modernização tecnológica e pela abundância, mas atravessada por desigualdades, tensões raciais e contradições políticas profundas. A turnê permitiu que o Madrigal fosse ouvido pelos Estados Unidos, mas também obrigou seus integrantes a ouvir e observar aquele país para além da imagem luminosa do chamado sonho americano.
Nos próximos posts, acompanharemos essa travessia por diferentes ângulos: a preparação e o sentido diplomático da viagem; o funcionamento dos Community Concerts; a chegada a Miami; os concertos em cidades do interior do país, além de Washington e Nova York; o repertório e sua recepção; a experiência do consumo e da modernidade norte-americana; o encontro com a segregação racial; os dias fora do palco; o encerramento em Key West e a recepção quase triunfal do grupo em Belo Horizonte.
Mais do que reconstruir um itinerário, interessa compreender o que estava em jogo quando um coro brasileiro atravessou os Estados Unidos apresentando-se como expressão musical de um país inteiro. Por quase dois meses, o Madrigal Renascentista cantou carregando uma ideia de Brasil... e voltou transformado pelo país que encontrou.