Em 1963, Belo Horizonte quase ganhou uma nova orquestra.
A iniciativa partiu da Cultura Artística de Minas Gerais e estava diretamente ligada ao crescimento do Madrigal Renascentista e à presença cada vez mais marcante de Isaac Karabtchevsky na vida musical da cidade. A proposta era simples e ambiciosa ao mesmo tempo: criar uma orquestra de câmara capaz de ampliar as possibilidades artísticas daquele grupo de jovens músicos que começava a chamar a atenção do país. O repertório escolhido para a estreia incluía obras de Purcell e Mozart, o solista convidado era Arnaldo Estrela, um dos mais importantes pianistas brasileiros do período, e a Rádio MEC registraria o concerto. Havia planejamento, expectativa e um ambiente de entusiasmo em torno do projeto. Nada indicava improvisação.
A estreia confirmou essa impressão. Pouco tempo depois, Arnaldo Estrela publicou um comentário que ainda hoje chama atenção: segundo ele, ouvira em Belo Horizonte uma execução de Mozart que dificilmente encontraria no Rio de Janeiro. O elogio não era protocolar, porque vinha de um músico experiente, habituado a conviver com os principais intérpretes do país. Ele destacou a afinação, a clareza das linhas musicais, o equilíbrio sonoro e a expressividade do conjunto. Mas talvez o detalhe mais precioso de suas observações seja outro: ele percebeu o entusiasmo dos músicos. Programas de concerto e reportagens preservam datas e acontecimentos. Mais raramente conseguem registrar estados de espírito. Naquela noite, ficou documentada uma sensação que provavelmente era compartilhada por todos os envolvidos, a impressão de que algo importante estava começando.
Em retrospecto, sabemos que a história seguiria outro caminho. A Orquestra de Câmara do Madrigal teve vida breve, e isso torna sua trajetória ainda mais interessante. O problema não estava na música. Havia músicos qualificados, repertório, público, reconhecimento da crítica e apoio institucional. O que faltava era algo menos visível e mais difícil de construir: estabilidade financeira. A história da música brasileira está repleta de iniciativas semelhantes: projetos promissores que encontram público, produzem resultados artísticos relevantes e acabam esbarrando em limitações estruturais que impedem sua continuidade.
Sessenta anos depois, essa continua sendo uma questão familiar para quem trabalha com música no Brasil. Criar um projeto é difícil. Mantê-lo vivo costuma ser ainda mais. Talvez seja justamente por isso que essa pequena orquestra, desaparecida poucos meses após seu nascimento, continue merecendo ser lembrada, não apenas pelo que foi, mas pelo que poderia ter sido.
Compunham seus quadros os violinistas Milton Ismael de Miranda (Spalla), Raimundo Nonato de Souza (concertino), Adão de Oliveira, Gilberto Fernandes de Castro, José Dias Lanna, Lea Kalil e Ricardo Wagner Benício; os violistas Diógenes de Araújo Nébias, Wilson José de Assis Teodoro e Abreu e os violoncelistas Watson Clis, Márcio Eymard Maillard e Benhur Guimarães de Freitas; o contrabaixista Wilson de Aguiar; os oboístas Paolo Nardi e Afrânio Lacerda; e os trompistas Carlos Seabra e Raimundo Martins. Sua estrutura administrativa era formalizada: Karabtchevsky atuava como diretor artístico; Rosa Alice Godoy era a primeira-secretária; Benhur Guimarães de Freitas, o segundo-secretário; Gilberto Fernandes de Castro, o tesoureiro; Márcio Eymard Maillard, o arquivista; e a comissão artística era composta por Karabtchevsky, Milton Ismael de Miranda e Geraldo Figueiredo.[1]
[1] PORTUGAL, Luiz. Orquestra de Câmara realizará “Tournée”. Estado de Minas, 05/06/1963.