A pesquisa para o novo livro sobre o Madrigal Renascentista tem me colocado diante de personagens que eu conhecia bem, outros que conhecia apenas de nome e alguns que, para minha surpresa, praticamente desconhecia. Foi o que aconteceu com Henrique Gregori.
Quando cheguei à documentação de 1967, encontrei seu nome ocupando um lugar bastante importante. Isaac Karabtchevsky estava cada vez mais requisitado no Rio de Janeiro e Gregori assumiu interinamente a regência do Madrigal. Há inclusive uma fotografia muito bonita daquele ano, tomada em Ouro Preto, em 21 de abril, na qual ele aparece em primeiro plano conduzindo o coro.
Confesso que não tinha noção alguma de quem era Henrique Gregori.
E foi justamente por isso que resolvi procurá-lo.
A primeira surpresa veio com sua formação. Nascido em 1935, Gregori estudou na Escola Livre de Música de São Paulo, criada por Hans-Joachim Koellreutter, com quem estudou regência. Teve também formação em harmonia e contraponto com Damiano Cozzella, estudou viola e participou dos Seminários Livres de Música da Universidade da Bahia. Fez curso de regência com Kurt Thomas e, entre 1961 e 1962, esteve em Freiburg, na Alemanha, estudando canto.
Ou seja: aquele maestro que eu havia encontrado quase de passagem nos documentos do Madrigal tinha uma formação musical de enorme consistência.
Mas havia ainda outra surpresa. Gregori era também cantor, e contratenor. Em 1966 foi um dos fundadores do quarteto vocal Mestres Cantores, ao lado de Diogo Pacheco, Samuel Kerr e Paulo Herculano. O repertório do grupo passava pelo canto gregoriano e pela música medieval e renascentista. Um programa de 1968, por exemplo, traz obras de Morley, Sermisy, Janequin, Monteverdi e outros compositores desse universo.
Isso naturalmente mudou minha maneira de olhar para aquela fotografia de 1967. Não se tratava simplesmente de um regente disponível para substituir Isaac. Havia ali um músico que conhecia por dentro o trabalho vocal e possuía experiência direta com um repertório muito próximo daquele que fazia parte da identidade do Madrigal Renascentista.
Também não era alguém estranho ao próprio Isaac. Em 1966, Gregori havia trabalhado como seu assistente nos Seminários Livres de Música da Bahia. A passagem para a regência do Madrigal no ano seguinte começa, portanto, a fazer bastante sentido.
E sua história não terminou ali. Gregori teve uma longa trajetória como regente e professor. Em 1973 recebeu da Associação Paulista de Críticos de Arte o prêmio de melhor regente coral. Mais tarde dirigiu o Conservatório Pernambucano de Música, trabalhou em diferentes instituições de ensino e tornou-se professor da Unicamp. Sua importância como formador de regentes também aparece na trajetória de músicos que estudaram com ele. Hoje, a biblioteca do Conservatório Pernambucano de Música leva seu nome.
Tudo isso estava escondido, para mim, atrás de um nome numa documentação de 1967.
Há alguma coisa muito interessante nisso para quem trabalha com história. Certos personagens permanecem iluminados durante décadas. Outros vão ficando nas margens, às vezes porque estiveram pouco tempo em determinado lugar, às vezes porque suas trajetórias seguiram outros caminhos, às vezes simplesmente porque a narrativa acabou se organizando em torno de nomes mais conhecidos.
No caso do Madrigal Renascentista, isso é especialmente compreensível. Falar daqueles anos quase sempre nos leva imediatamente a Isaac Karabtchevsky e Maria Lúcia Godoy. São presenças enormes e incontornáveis. Mas justamente por serem tão grandes podem, sem que ninguém pretenda isso, lançar sombra sobre outras pessoas que também participaram decisivamente daquela história.
Henrique Gregori esteve ali em 1967. Regeu o Madrigal num momento em que Isaac começava a dividir sua vida profissional com compromissos cada vez maiores fora de Belo Horizonte. E o fez trazendo consigo uma formação que hoje me parece perfeitamente adequada àquele conjunto: regente, cantor, conhecedor da música antiga e músico formado num dos ambientes mais renovadores da música brasileira daquele período.
Eu não sabia nada disso quando encontrei seu nome.
Agora, quando volto à fotografia de Ouro Preto e vejo Henrique Gregori diante do Madrigal, ela já não é apenas o registro de um maestro substituto.
É a fotografia de um músico que eu precisava conhecer melhor.