sábado, 6 de junho de 2026

Missa em Si bemol do Pe. Nunes Garcia (repertório coral brasileiro)

Entre as muitas obras da música coral brasileira, poucas me acompanham há tanto tempo quanto a Missa em Si bemol, do Padre José Maurício Nunes Garcia.

Minha relação com ela começou ainda na infância, quando a cantei como Menino Cantor. Anos depois, já regente, tive a alegria de conduzi-la em missas solenes na Basílica Cura D'Ars. Mais recentemente, voltei a ela numa celebração no Carmelo de Belo Horizonte. É uma dessas obras que parecem caminhar conosco pela vida, não porque imponham presença, mas porque voltam sempre no momento certo.

Escrita em 1801 para três vozes e acompanhamento de órgão, a Missa em Si bemol revela uma faceta diferente do Padre José Maurício. Quem conhece suas obras mais monumentais talvez se surpreenda com a delicadeza desta partitura. Aqui não há grandiosidade das grandes missas festivas, mas há um puro recolhimento. O Kyrie já anuncia esse caráter com linhas vocais que se entrelaçam com leveza e com solos que surgem quase como oração pessoal, tudo construído para um ambiente de proximidade, de escuta atenta, de devoção serena. A música não precisa elevar a voz para dizer o que tem a dizer.

É a sua simplicidade que explica a permanência dessa pequena missa. Mais de dois séculos depois de escrita, ela continua plenamente capaz de cumprir sua função musical e litúrgica e de tocar quem canta, não apenas quem ouve.

Como acredito que repertório existe para ser cantado, estou organizando um espaço para disponibilizar partituras de obras brasileiras de domínio público ou de circulação difícil. A Missa em Si bemol certamente está entre elas. Quem tiver interesse, é só clicar no link para baixar as partituras da Missa em Si bemol:

🎵 Missa em Si bemol - Pe. José Maurício Nunes Garcia




sexta-feira, 5 de junho de 2026

O problema do vibrato em coro (uma reflexão)

De tempos em tempos, o assunto volta. Alguém defende que o coro deve cantar sem vibrato e outro responde que vibrato é parte natural da voz. A conversa esquenta, surgem exemplos, gravações, tradições nacionais, escolas de canto e opiniões categóricas. No fim, quase sempre tenho a impressão de que a pergunta foi formulada de maneira errada, pois, para mim, o problema do vibrato em coro não é o vibrato. O problema é o excesso de individualidade sonora.

Boa parte dessa discussão nasce de uma situação muito comum. Muitos cantores de coro estudam canto lírico, e fazem muito bem. O repertório operístico, especialmente o romântico, utiliza o vibrato como elemento expressivo central. O cantor passa anos desenvolvendo recursos técnicos para construir uma voz saudável, flexível, capaz de preencher grandes espaços. Então chega ao coro e ouve: menos vibrato... Aí, é claro, a pergunta aparece imediatamente: por quê?

É uma pergunta legítima e muitos conflitos surgem porque nem sempre os regentes conseguem respondê-la com clareza. Pedir menos vibrato não deveria ser um dogma, deveria ser uma escolha consciente. Quando o cantor entende o motivo, quase nunca há problema. O problema aparece quando a orientação se resume a uma regra sem explicação.

Ao longo dos anos, fui percebendo que a discussão costuma ser apresentada como uma falsa guerra entre voz com vibrato e voz reta (vou usar essa terminologia para não repetir a usual, mas sem sentido, "voz branca"), como se o cantor precisasse escolher um lado, como se vibrato fosse sinônimo de musicalidade e ausência de vibrato fosse sinônimo de refinamento. Nenhuma das duas coisas me parece verdadeira. Gosto de vibrato e gosto muito. Também gosto de sonoridades mais diretas, mais limpas, mais transparentes. Tudo depende da música, do estilo, da intenção expressiva. Um spiritual pode perder parte de sua força humana se for cantado como exercício de neutralidade sonora. Uma obra de Rutter pode perder clareza se coberta por excesso de vibrato em todas as vozes. Uma peça renascentista pode ganhar elegância com maior controle da emissão, mas isso não significa que toda presença de vibrato seja um erro estilístico.

A questão raramente é usar ou não usar. A questão costuma ser quanto, quando e por quê.

Vejo o vibrato como uma ferramenta expressiva. Um pincel fino e um pincel largo não competem entre si, cada um serve a uma necessidade diferente. O mesmo acontece com os recursos vocais. Quando peço mais vibrato, estou buscando determinada cor. Quando peço menos, estou buscando outra. Quando peço controle, estou buscando consciência. Talvez seja justamente essa palavra que mais me interesse.

Não me incomoda ouvir vibrato em um coro. O que me incomoda é ouvir recursos vocais utilizados sem relação com o estilo da obra, sem relação com o texto, sem relação com o som coletivo que o grupo está tentando construir. Cantar em coro exige uma habilidade muito particular: o cantor não abandona sua identidade vocal, mas também não canta como se estivesse sozinho. Aprende a colocar sua voz a serviço de uma intenção compartilhada e isso vale para o vibrato, para a articulação, para o volume, para o timbre e para tantas outras escolhas que fazemos ao cantar.

O objetivo do coro não é eliminar a personalidade da voz, mas fazer com que ela participe do conjunto com consciência do que a música precisa. Tudo fica mais simples quando deixamos de perguntar se o vibrato é certo ou errado. A pergunta mais interessante costuma ser outra: o que esta música precisa neste momento?






quinta-feira, 4 de junho de 2026

Sobre o concerto do Madrigale

Ontem, no dia seguinte ao concerto da Igreja da Boa Viagem, passei um bom tempo ouvindo as gravações que surgiram nos celulares dos cantores. Gosto desse momento. O concerto já passou, a tensão desapareceu, o público voltou para casa e as partituras foram guardadas (nem todas porque um próximo concerto vem aí). E então chega a hora de ouvir o que realmente aconteceu, não o que senti no palco, mas o que ficou registrado. Às vezes a gravação confirma, às vezes revela coisas que passaram despercebidas. 

Desta vez, ela me trouxe uma surpresa, ou melhor, uma lembrança. O Madrigale nunca foi o mesmo coro durante muito tempo. Ao longo de sua história, mudou de repertório, de cantores, de tamanho, de sonoridade, de maneira de ensaiar, de modo de ocupar o palco. Mudou porque o tempo muda as pessoas e, é claro, um coro é feito de pessoas. Na Igreja da Boa Viagem, essa transformação apareceu novamente.

O programa reunia músicas muito diferentes: peças de Palestrina, Scarlatti, Bruckner, Rutter, Ešenvalds, Malotte, além das obras contemporâneas que habitavam a segunda parte do concerto. Em outros momentos da história do grupo, talvez essa combinação produzisse outro tipo de sonoridade, mas o coro que cantou naquela noite foi este coro de agora.

A primeira coisa que me chamou a atenção nas gravações foi a densidade. Durante o concerto, imaginei que parte daquela impressão viesse da acústica da igreja. Ouvindo depois, percebi que não era apenas isso. Havia uma consistência diferente no corpo sonoro do grupo, uma massa vocal mais espessa, mais presente, capaz de sustentar harmonias amplas sem perder clareza. Alguns acordes pareciam ocupar o espaço inteiro da nave e algumas frases tinham peso sem perder movimento. Era um coro cheio de vida.

Talvez por isso eu tenha ficado tanto tempo com aquelas gravações. Elas me lembraram que um grupo artístico não permanece imóvel e o Madrigale continua se transformando, não para melhor ou para pior, apenas continua vivo o suficiente para mudar. Os repertórios passam, os cantores entram e saem, as formações se reorganizam e ainda assim, alguma coisa permanece: uma identidade difícil de explicar e fácil de reconhecer. Na Boa Viagem, ela estava lá, nas linhas serenas de Palestrina, nas harmonias luminosas de Rutter, na atmosfera noturna da Ballade to the Moon, na delicadeza de Only in Sleep.

Mas o que mais me agradou foi outra coisa: a sensação de que o coro ainda tem futuro. Depois de tantos anos, ainda consegue se reinventar sem perder a própria essência. O Madrigale ainda encontra novas cores e poucos grupos conseguem isso.

Terminamos o concerto como sempre fazemos: guardando estantes, teclado, caixa de som, recolhendo partituras, conversando um pouco antes de voltar para casa. Nada de extraordinário. Mas, ouvindo as gravações no dia seguinte, tive a impressão de escutar algo que nem sempre percebemos quando estamos no meio do caminho: o Madrigale continua mudando. E continua cantando com a mesma vontade de seguir adiante.




Igreja da Boa Viagem - 02/06/2016




quarta-feira, 3 de junho de 2026

Um Coro recebendo a Medalha da Inconfidência (Madrigal Renascentista - 1963)

Em 1963, o Madrigal Renascentista recebeu a Medalha da Inconfidência. Hoje essa informação pode parecer apenas mais uma linha em uma cronologia, mas vale lembrar um detalhe: o coro tinha apenas seis anos de existência. Seis anos!!!

Era um grupo jovem, formado em Belo Horizonte, distante dos grandes centros musicais do país e ainda construindo sua identidade. Mesmo assim, já havia alcançado um nível de visibilidade suficiente para ser homenageado pelo Governo de Minas Gerais com uma das principais distinções do estado.

A medalha dizia muito mais do que parece à primeira vista. Naquele início dos anos 1960, Minas Gerais investia fortemente na construção de uma imagem de modernidade cultural. Universidades cresciam, instituições artísticas se fortaleciam e surgiam iniciativas que buscavam projetar o estado para além de suas fronteiras.

O Madrigal passou a ocupar um lugar importante nesse cenário. Não era apenas um coro que cantava bem. Tornava-se um símbolo de que Minas podia participar ativamente da vida musical brasileira em alto nível.

Talvez esse seja o aspecto mais interessante da homenagem. A medalha foi entregue a um coro. Mas, de certa forma, reconhecia também uma ideia: a de que a cultura poderia ser instrumento de afirmação pública, de identidade e de prestígio.

Poucos grupos artísticos conseguem alcançar esse lugar tão cedo. O Madrigal conseguiu.

 



terça-feira, 2 de junho de 2026

Quando Villa-Lobos reza em contraponto

Escrevendo aqui sobre algumas peças que tenho descoberto em minhas pesquisas, fui provocado por um colega a escrever também sobre o repertório de música coral brasileira, algo que, segundo ele, não se faz com frequência, a não ser nos concertos, quando explicamos as peças. Sendo assim, vou falando também sobre esse repertório que é maravilhoso. Vou iniciar com uma peça do Villa, bastante conhecida, e, aos poucos, vou adentrando no universo mais moderno da música coral do nosso país. 

Sempre que ouço ou rejo o Pater Noster, de Villa-Lobos, lembro-me de Carlos Alberto Pinto Fonseca, não apenas pela peça em si, mas pela maneira como ele a regia e como parecia compreender esse tipo de música: com o corpo inteiro, mas sem exagero; com intensidade, mas sem ruído; com uma profundidade que vinha menos da aparência do gesto e mais da escuta interior. É com essa memória que eu entro nessa obra.

O Pater Noster é uma dessas pequenas obras corais brasileiras que não precisam de grandes dimensões para dizer muito. É uma oração. O texto latino do Pai Nosso aparece numa escrita concentrada, quase recolhida, em que cada frase pede atenção ao som, à palavra e à respiração. Villa-Lobos, tão lembrado por suas obras de grande fôlego e por sua força nacionalista, aqui escolhe outro caminho. O caminho do contraponto, ou seja, da independência das vozes que, na sua combinação, formam um mosaico de resultante interdependente.

Cantar essa peça exige uma medida difícil de encontrar. O coro não pode pesar demais, porque a música perde sua transparência. Também não pode cantar sem presença, porque a oração fica pálida. É preciso sustentar a linha, ouvir os acordes, deixar que o texto conduza a frase. A dificuldade está justamente nisso: cantar com simplicidade sem empobrecer o sentido.

Em 2014, o Madrigale cantou o Pater Noster na Catedral da Boa Viagem, em Belo Horizonte. A acústica da igreja ajudava a peça a encontrar seu espaço natural. A música não precisava ser empurrada, bastava deixá-la respirar.

Gosto dessas obras que parecem pequenas apenas no papel. Quando o coro entra nelas com verdade, elas crescem por dentro. O Pater Noster pertence a esse lugar: uma peça breve, exuberante, mas capaz de abrir um campo de exultação ao redor de quem canta e de quem escuta.


🎬 Pater Noster - Villa Lobos (Madrigale 2014)

 


E para aqueles que quiserem a partitura:

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Um espetáculo chamado Mulheres (Coral Acesita - 1998)

Em 1998, o Coral Acesita levou ao Teatro da Fundação Acesita um espetáculo chamado Mulheres. A proposta nasceu em torno do Dia Internacional da Mulher. Mas, olhando hoje para o programa e para as lembranças que vão voltando aos poucos, percebo que aquilo era mais do que uma apresentação comemorativa. Havia uma intenção clara de colocar as mulheres no centro do palco, com suas vozes, suas histórias, suas contradições, sua força e sua delicadeza.

O Coral Acesita vivia uma fase especial. Era um coro comunitário, ligado à Fundação Acesita, mas com vontade de experimentar formatos mais amplos. O teatro da Fundação nos dava essa possibilidade: não precisávamos ficar presos ao modelo tradicional de concerto. Podíamos construir cenas, alternar grupos, criar entradas e saídas, usar luz, trabalhar solos, inserir textos. Mulheres nasceu desse desejo.

O espetáculo misturava canções, monólogos e diferentes formações vocais. Havia o coro inteiro, grupos menores, solos femininos e masculinos. Mabel, Marília, Leila, Bel e Keyla aparecem nas lembranças como algumas das vozes solistas do projeto. Leila fazia também os monólogos, costurando dramaticamente as partes do espetáculo, o que dava ao programa uma dimensão cênica mais forte. A música não vinha apenas como sequência de números; havia uma tentativa de criar um percurso em torno da presença feminina.

O repertório ajudava: Mulheres de Atenas, Maria Maria, Carcará, Mudanças, Folhetim, Tigresa, Super-Homem a Canção, Moto Contínuo, entre outras. Algumas cantadas pelas mulheres, outras pelos homens como forma de homenagem. Os solos masculinos podiam variar de uma apresentação para outra: Luiz, Geraldo, Sérgio. A estrutura era viva, flexível, própria daquele tipo de montagem.

Uma imagem permanece forte na memória: todas as mulheres cantando Maria, Maria com echarpes de bolinhas enroladas de formas diferentes, representando mulheres de vários países. Era simples, mas funcionava. Não havia produção grandiosa — havia imaginação, desejo de cena e um grupo disposto a entrar na proposta.

O tom do espetáculo era misturado, como o próprio tema exigia. Havia homenagem e crítica; celebração e denúncia; canções de amor, de força, de dor; canções em que a mulher aparecia como personagem, como símbolo, como voz e como corpo presente.

Num grupo como o Coral Acesita, formado por pessoas da empresa e da região, um espetáculo desse tipo tinha uma dimensão muito concreta. As mulheres que cantavam não eram personagens distantes, eram colegas, amigas, mães, trabalhadoras, vizinhas. Quando subiam ao palco, levavam consigo essa presença real. Por isso Mulheres não foi apenas um tema, foi uma maneira de olhar para o próprio grupo, de perceber quem estava ali, de dar protagonismo a vozes que sustentavam grande parte da vida coral com dedicação e afeto.

Rever esse material é também reencontrar uma fase da minha própria trajetória. Eu ainda buscava formas de fazer o coro ocupar o palco com mais liberdade, queria que o canto coral pudesse dialogar com a cena, com o texto, com a memória afetiva do público. Hoje, talvez eu olhe para algumas escolhas com outra maturidade. O tempo muda a escuta, mas reconheço naquele projeto uma intenção verdadeira: a de afirmar a importância das mulheres dentro do coro, dentro da comunidade e dentro da vida.

Um espetáculo feito com os recursos possíveis, com a imaginação disponível e com a coragem de tratar um tema importante dentro de um coral comunitário. Havia beleza, ingenuidade e força. E havia, sobretudo, um grupo disposto a cantar algo que tocava diretamente a vida de quem estava no palco e na plateia.















domingo, 31 de maio de 2026

Quem sabe isso quer dizer amor (HelyElas - 2014)

No HelyElas 2014, as vozes femininas do Madrigale cantaram Quem sabe isso quer dizer amor, de Lô Borges, Márcio Borges e Milton Nascimento, com Hely Drummond ao piano.

É uma canção delicada, muito ligada à sensibilidade mineira: amor dito de forma indireta, com aquela mistura de ternura, recolhimento e luminosidade que aparece tantas vezes na música do Clube da Esquina.

No HelyElas, essa música encontrou um lugar natural. Hely conhecia profundamente a canção brasileira e sabia acompanhar o coro sem endurecer a melodia. As vozes femininas do Madrigale deram à peça uma sonoridade íntima, clara e afetiva.

Joubert Oliveira, na apresentação daquele show, disse que sentia nessa canção um “cheirinho e gosto de pão de queijo”. A imagem é perfeita. Há músicas que explicam Minas sem precisar falar de Minas.

Esta é uma delas. Vale ouvir com calma:

🎬Quem sabe isto quer dizer amor? - Lô e Márcio Borges/Milton Nascimento (Coro Madrigale 2014)

 


sábado, 30 de maio de 2026

O Messias cantado pelo Coral BDMG (2011)

No dia 16 de dezembro de 2011, o Coral BDMG cantou trechos de O Messias, de Haendel, na festa de fim de ano do banco.

Dito assim, parece simples: um coral, uma orquestra, uma apresentação institucional. Mas quem já viveu esse tipo de evento sabe que a palavra "simples" quase nunca cabe nessas situações. Havia o peso próprio das ocasiões em que tudo precisa dar certo. Estavam presentes os principais diretores do BDMG e do BDMG Cultural. A festa tinha sua solenidade, sua expectativa, sua carga simbólica, e nós tínhamos um Haendel pela frente.

O Messias não é uma obra qualquer. Mesmo quando se canta apenas uma seleção de números, ela traz consigo uma tradição imensa: brilho, solenidade, energia coral, trechos de profunda delicadeza e uma escrita que exige do coro prontidão permanente. A música parece clara, mas não é fácil. Ela pede articulação, firmeza rítmica, afinação segura e uma relação muito viva com o texto.

O programa reunia alguns dos grandes coros da obra: Behold the Lamb of God, And the Glory of the Lord, For Unto Us a Child Is Born, All We Like Sheep, Lift Up Your Heads e, naturalmente, o Hallelujah. E eu contava com uma formação de cantores e instrumentistas construída com esforço, amizade musical e boa vontade, coisas que aparecem pouco para quem assiste, mas que sustentam tudo. Muitas vezes, a música coral e orquestral acontece porque há pessoas dispostas a fazer mais do que o estritamente necessário. Naquele dia, havia até a tensão de bastidor inevitável: um cantor chegou atrasado, uma musicista machucou o olho e não pôde tocar. Mas a apresentação aconteceu assim mesmo. 

E aconteceu muito bem.

Uso essa expressão com cuidado, porque ela carrega a sensação do dia. Ali, não era apenas cantar bem, mas era representar o Coral BDMG diante da própria instituição que o sustentava, mostrar que aquele grupo tinha consistência, responsabilidade e qualidade artística. Era fazer com que a música ocupasse um lugar digno dentro da vida do banco. Naquela época, isso era e foi valorizado, o que, infelizmente, não aconteceu anos depois, quando o BDMG Cultural e o próprio coro foram finalizados pela instituição. 

Mas, retornando: o Hallelujah, desse Messias, tem sempre uma força própria. Mesmo quem não conhece a obra inteira reconhece a sua peça mais famosa. Mas gosto de pensar que, naquele concerto, o valor não esteve apenas no número mais conhecido, mas no conjunto, na capacidade do coro de atravessar uma obra exigente, num contexto institucional difícil, mantendo qualidade e presença. Ao final, ficou aquela sensação de alívio que todo regente conhece: a de ter atravessado uma ocasião importante sem perder o controle, sem que a música se apequenasse diante da formalidade do evento.

Hoje, olhando para minhas anotações, vejo mais do que nomes e peças. Vejo um retrato de um momento do Coral BDMG, um grupo capaz de reunir cantores, instrumentistas, funcionários e gestores em torno de uma realização comum. Haendel, naquela noite, serviu também para isso: para lembrar que um coro institucional pode ser muito mais do que uma atividade interna. Pode ser presença artística, afirmação cultural e, acima de tudo, uma forma de fazer a comunidade ouvir a si mesma com outra grandeza.




O coro no Messias:
Atrás: Luiz, Ramos, Paulo, Celso, Álvaro, Saymon, Ismael, Romulo, Alexandre, Marcílio
Frente: Isabel, Thais, Alzira, Mônica, Cida, Adilea, Gislaine, Rita, Leila 


sexta-feira, 29 de maio de 2026

Ballade to the Moon - Daniel Elder

Na próxima semana, farei um concerto coral, onde esta peça se constitui em uma das minhas preferidas no programa. Mais uma dessas belas descobertas. Ballade to the Moon, de Daniel Elder, é uma peça coral para coro misto e piano, primeira do ciclo Three Nocturnes. A própria descrição da editora diz que o texto é um “noturno” sobre experiências ligadas a amor, natureza, escuridão e luz. É uma peça coral sobre uma caminhada noturna.

Talvez seja a melhor porta de entrada para quem não tem o hábito de ouvir música coral. Antes de pensar em técnica, harmonia ou escrita vocal, vale imaginar a cena: alguém caminha à noite, sob a luz da lua, com a mente tomada por pensamentos de amor, natureza, escuridão e luz. O texto não conta uma história com começo, conflito e desfecho. Ele registra uma experiência. Uma pessoa caminha numa noite enluarada, a paisagem desperta pensamentos e sensações, o caminho é escuro mas há prazer em seguir. Em alguns momentos, não se sabe se a voz poética fala com a própria lua, com a natureza ou com alguém amado. Essa ambiguidade não é imprecisão, ela faz parte da peça.

Musicalmente, isso aparece na forma como o coro canta. As frases são longas. O som precisa ser leve, mas sustentado. O piano constrói o ambiente, como se preparasse o espaço por onde as vozes caminham. A peça não depende de grandes efeitos e sua força está na continuidade, no cuidado com o texto e na construção de uma sonoridade que não pese. Cantar uma peça assim não é apenas acertar notas: é controlar o excesso, não transformar delicadeza em fraqueza, manter afinação, timbre e intenção sem endurecer o som. Quando o coro pesa demais, a música perde o caráter. Quando canta sem presença, ela fica sem vida.

Em ensaio, Ballade to the Moon obriga o grupo a entender o que está cantando. Cada frase precisa ter direção, cada respiração interfere no sentido, cada palavra precisa aparecer sem quebrar a linha musical. O texto fala de uma caminhada e a música também precisa caminhar.

Para o ouvinte, talvez a melhor forma de entrar nessa peça seja acompanhar essa imagem: uma pessoa atravessando a noite com a lua como companhia. A escuridão está ali. A luz também. E a música acontece exatamente nesse espaço entre as duas.

🎬 Daniel Elder - "Ballade to the Moon" (from Three Nocturnes)

 

Ballade to the Moon (Daniel Edgar)

On moonlit night I wander free,
my mind to roam on thoughts of thee.
With midnight darkness beckoning
my heart toward mystic fantasy:

Come, dream in me!

How beautiful, this night in June!
And here, upon the velvet dune,
I weep with joy beneath the moon.

The path lies dark before my sight,
and yet my feet with pure delight
trod onward through the darkened vale,
beneath the starry sky so bright.

O share thy light!

These woods, their weary wanderer soon
in awe and fearful wonder swoon;
I weep with joy beneath the moon.

And as the darkened hours flee,
my heart beats ever rapidly.
Though heavy hangs my eyes with sleep,
my singing soul, it cries to thee:

Come sing with me!

The twinkling sky casts forth its tune:
O must I leave thy charms so soon?
I weep with joy beneath the moon.

Balada para a Lua (Tradução livre)

Em noite enluarada, caminho livre,
minha mente a vagar em pensamentos sobre ti.
Com a escuridão da meia-noite chamando
meu coração para uma fantasia mística:

Vem, sonha em mim!

Como é bela esta noite de junho!
E aqui, sobre a duna aveludada,
choro de alegria sob a lua.

O caminho está escuro diante dos meus olhos,
e ainda assim meus pés, com puro encanto,
seguem adiante pelo vale escurecido,
sob o céu estrelado tão brilhante.

Ó, compartilha tua luz!

Estes bosques, seu cansado andarilho, em breve,
em reverência e assombro temeroso, desfalecerão;
choro de alegria sob a lua.

E enquanto as horas escuras fogem,
meu coração bate cada vez mais rápido.
Embora meus olhos pesem de sono,
minha alma cantante clama por ti:

Vem cantar comigo!

O céu cintilante lança sua melodia:
Ah, devo deixar teus encantos tão cedo?
Choro de alegria sob a lua.

 

 

 

 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

O ensaio é onde a música nasce (uma reflexão)

Para quem está começando na regência, é comum olhar para o concerto como o grande objetivo. E ele é, claro. Mas existe uma preciosidade no processo que não pode ser tratada como simples preparação. O ensaio não é o caminho até o resultado, ele é uma parte essencial da experiência musical.

Eu gosto muito dos concertos. É ali que o público encontra aquilo que preparamos, que a música se expõe, que o risco aparece e que o coro precisa sustentar, diante de todos, a ideia que construiu. Mas confesso: muitas vezes, gosto ainda mais dos ensaios. É no ensaio que a música se mostra em estado de nascimento. No concerto, ela já precisa estar de pé. No ensaio, ela ainda pode procurar o seu corpo. Ali se pode errar, respirar mal, desafinar, se perder, recomeçar, descobrir uma palavra, mudar uma cor, encontrar uma intenção que antes não estava clara.

A partitura chega ao cantor com notas, ritmos, textos, pausas, indicações. Mas nada disso canta sozinho. Alguém precisa transformar sinais em intenção,  dizer por que uma frase respira naquele ponto, por que uma palavra precisa de mais presença, por que um acorde não pode ser apenas afinado, mas precisa ter determinada tensão, determinada luz, determinada sombra. É no ensaio que isso acontece. Ali se decide se uma frase será mais íntima, mais suspensa, mais luminosa. Uma simples vogal pode ocupar minutos de trabalho. Um trecho pequeno pode parar o ensaio inteiro porque ainda não encontrou seu sentido. E quando encontra, é maravilhoso.

Quem nunca viveu isso talvez pense que repetir seja apenas insistir. Mas no ensaio coral a repetição tem outra função: repetimos para compreender melhor, para ouvir diferente, para que o corpo ganhe segurança e a escuta ganhe profundidade. Repetir não é voltar ao mesmo lugar, é passar pelo mesmo trecho com outra consciência. O que era insegurança vira intenção. O que era nota vira frase. O que era esforço vira música.

O regente tem uma função decisiva nesse processo. Não basta conhecer a partitura, marcar o compasso, querer um resultado bonito. É preciso conduzir os cantores até a ideia sonora da obra. Quando o regente não sabe traduzir o que deseja, o coro fica tentando adivinhar e cantar por adivinhação gera insegurança e frustração. O grupo até produz sons corretos, mas dificilmente alcança uma interpretação verdadeira. 

Uma fala clara pode resolver o que dez repetições confusas não resolvem. Uma imagem bem colocada muda o timbre do coro. Às vezes, o principal trabalho do regente é retirar o medo, organizar o caminho e permitir que o coro faça aquilo que já tem condições de fazer. Foi isso que senti num ensaio recente do Madrigale.

Estamos preparando um concerto de atmosfera íntima, com textos sutis e timbres muito sensíveis. Em determinado momento, percebi que o coro havia entendido a ideia onírica do programa e ali não era mais apenas a execução das peças. O grupo entrou no clima, na cor, no tipo de escuta que aquele repertório pedia. A partir dali, minha função mudou. Eu já não precisava explicar tudo. Precisava dar segurança. O resto, o próprio coro começou a construir.

Um ensaio cresce quando o coro deixa de obedecer e começa a compreender. A obediência pode produzir uma execução correta. A compreensão produz música viva. Isso só acontece porque o ensaio permite uma negociação constante entre a voz individual e o som coletivo. Cada cantor chega com sua voz, sua energia, seu cansaço. Mas o coro exige outra lógica: às vezes é preciso cantar menos para que o conjunto soe melhor, mudar uma vogal, segurar o impulso, confiar no outro naipe, aceitar que a própria voz só encontra sentido dentro de um desenho maior. Esse aprendizado é técnico, mas também humano.

O ensaio é também o lugar onde se pode errar. E ainda bem. O erro, quando bem trabalhado, não é vergonha, é informação. Mostra onde falta escuta, onde falta estudo, onde falta estilo. O papel do regente é ajudar o grupo a perceber esse caminho. Às vezes com paciência, às vezes com firmeza, às vezes com uma bronca boa, dessas que não humilham, mas recolocam o trabalho no lugar. Porque o ensaio é também uma forma de respeito ao público. Quem vai nos ouvir merece receber uma música pensada, cuidada, desejada.

O concerto começa muito antes da entrada no palco. Começa quando o coro entende uma respiração, quando uma frase finalmente ganha direção, quando o texto deixa de ser pronunciado e passa a ser dito. Para os cantores mais novos, talvez essa seja a grande descoberta: o ensaio não é um obstáculo entre a partitura e o concerto. É o lugar onde a música realmente se forma. O público escuta o resultado, mas dentro daquele resultado estão todas as tardes e noites de tentativa, correção, repetição, silêncio e descoberta.

Por isso eu gosto tanto dos ensaios, porque ali a música ainda está viva em processo. E como eu repito peças ao longo da minha vida, eu vivo em constantes ensaios...


Missa em Si bemol do Pe. Nunes Garcia (repertório coral brasileiro)

Entre as muitas obras da música coral brasileira, poucas me acompanham há tanto tempo quanto a Missa em Si bemol, do Padre José Maurício Nun...