Em agosto de 2020, ainda em plena pandemia, voltamos a cantar, cada um de sua casa, separados pelo espaço, mas unidos pela memória dos palcos e pela fé que sempre nos moveu. Naquele momento de muitas incertezas e estresses acumulados de alguns meses, escolhemos a Ave Maria de Franz Xaver Biebl, uma das mais belas obras do repertório coral do século XX.
Composta em 1964, a peça foi escrita originalmente para coro
masculino, e foi exatamente com as vozes masculinas do Madrigale que a
recriamos em sua versão virtual. O texto combina o Angelus e a Ave Maria,
alternando solo e coro em uma estrutura de diálogo, como se a própria oração se
fizesse conversa entre o humano e o divino.
Cantá-la virtualmente foi um gesto de resistência e de ternura. Cada voz gravada em casa tornava-se um fragmento de presença, pequenas luzes que, reunidas na montagem final, recriavam o coro e devolviam o sentido de comunidade. Era o tempo em que a música nos permitia continuar respirando juntos, ainda que separados.
A data não poderia ser mais simbólica: 15 de agosto, dia da Assunção de Nossa Senhora e também de Nossa Senhora da Boa Viagem, padroeira de Belo Horizonte. Naquele mesmo templo que tantas vezes nos acolheu, havíamos cantado, no ano anterior, um concerto inteiro de Ave Marias, celebrando a restauração do altar. Desta vez, a igreja estava vazia, mas o canto, mesmo distante, parecia preencher o espaço.
Foi ali, no meio da solidão das telas, que percebi que a pandemia nos afastou dos ensaios, mas não da escuta. E talvez seja essa a maior lição que essa peça nos deixou: que a distância pode ser apenas mais uma forma de presença, e que a música, mesmo quando separada por quilômetros, continua sendo oração.
🎧 Ave
Maria, Biebl - Coro Madrigale
Produção virtual do Coro Madrigale (vozes masculinas), agosto de 2020 , em homenagem à Assunção de Nossa Senhora e à padroeira de Belo Horizonte, Nossa Senhora da Boa Viagem.
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