sábado, 29 de novembro de 2025

Um (O) Magnum Mysterium em Lisboa

Recentemente, visitei o Coro da Universidade Nova de Lisboa, dirigido pelo maestro Diogo Gonçalves. Fui recebido com muita consideração e simpatia, tanto pelos cantores quanto pelo maestro, uma acolhida que me deixou verdadeiramente agradecido.

Logo no início do ensaio, tive uma surpresa especial: o coro cantou O Magnum Mysterium, de D. Pedro de Cristo. Conheço a peça há bastante tempo e já a cantei tanto no Madrigal Scala quanto no Coro Madrigale. Ouvi-la novamente, ali, naquele contexto, trouxe uma sensação boa de reconhecimento, quase como revisitar um espaço interno que a música guarda para nós.

Essa experiência despertou o desejo de escrever sobre a obra, não apenas pela beleza que ela carrega, mas pelo lugar que ocupa na tradição coral portuguesa e nas minhas próprias memórias musicais.

 

O Magnum Mysterium é um moteto natalino que celebra o “grande mistério” da encarnação. Sua força não está em efeitos grandiosos, mas na simplicidade: linhas vocais transparentes, fraseado claro e uma construção polifônica que valoriza a palavra antes de qualquer ornamento.

O que mais me impressiona nessa peça é a naturalidade. Nada parece excessivo. Nada parece buscar brilho pelo brilho. É uma música que se apoia na precisão e no recolhimento. Cantar essa obra pede intenção, escuta e respeito ao texto, não apenas pela dimensão religiosa, mas pelo modo como a música cria um espaço interno de quietude. É uma peça que não se impõe; ela se revela. E talvez seja justamente isso que a torna tão marcante: ela nos lembra que o canto coral é feito de presença, atenção e equilíbrio. É música que não quer impressionar, quer iluminar.

A interpretação do Coro da Nova foi exatamente assim para mim: tocante e bela. Um presente.

No próximo post, falo sobre o compositor que deu vida a esta obra e sobre o lugar que ele ocupa na tradição coral portuguesa.


🎧 O Magnum Mysterium | D. Pedro de Cristo 




Texto e tradução

Texto latino

O magnum mysterium,

et admirabile sacramentum,

ut animalia viderent Dominum natum,

jacentem in praesepio.

Beata Virgo cujus viscera

meruerunt portare

Dominum Iesum Christum.

Alleluia.

 

Tradução livre

Ó grande mistério

e admirável sacramento,

que os animais tenham visto o Senhor recém-nascido,

deitado na manjedoura.

Bem-aventurada a Virgem, cujas entranhas

mereceram trazer ao mundo

o Senhor Jesus Cristo.

Aleluia.

 


 

 

Um comentário:

  1. É uma peça que sempre gostei de cantar e não sei ainda explicar o por quê. Acho que o Arnon colocou parte disso no texto.

    ResponderExcluir

Deixe seu nome e e-mail para que eu responda. Obrigado.

O Madrigale em Poços de Caldas, 1995

Eu ainda me lembro da sensação de colocar as partituras na mochila com um frio no estômago desde Belo Horizonte. Era um verdadeiro teste. Pa...