quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Gloria de Vivaldi no Conservatório

1994. Numa aula com o meu querido Mestre Sérgio Magnani, em algum momento, entre uma frase e outra, ele disse, assim como quem não quer nada, que eu deveria reger o Gloria, de Antonio Vivaldi. A primeira reação foi incredulidade. Logo depois, medo. Mas havia algo mais forte atravessando tudo isso: a confiança dele e nele. Uma confiança que não explicava, não justificava, apenas apontava para frente. 

Magnani tinha esse dom raro de colocar alguém em risco consciente. Via caminhos antes que o próprio caminhante os enxergasse. Apostava no futuro como quem continua um trabalho de vida. 

Aceitei. Não porque me sentisse pronto, mas porque aquele desafio acendeu um fogo interno que reconheço até hoje. Descobri ali algo que só mais tarde formulei com clareza: eu sabia reunir pessoas em torno de um objetivo. Mesmo sem todas as respostas, eu sabia chamar, organizar, seguir.

O coro foi montado com o que havia. Juntei o Madrigale e o Coral Acesita para dar corpo à obra. Outros convites foram feitos, nem todos aceitos. Seguimos com quem topou estar ali. Não como solução ideal, mas como solução possível e honesta. Foi um teste para todos nós.  no auditório do Conservatório. Naquela época, ainda Escola de Música da UFMG.

A orquestra nasceu do mesmo espírito. Jovens músicos, alguns ainda crianças, que chegaram com entusiasmo e entrega. Ensaiar com eles me ensinou duas coisas fundamentais: paciência e clareza de gesto. Curiosamente, nunca me lembro de ter pensado que aquilo poderia não dar certo. Éramos jovens. Éramos ousados. Não havia razão para duvidar.

Quando se assume um projeto assim, aprende-se rápido que a responsabilidade não se divide. Ela se compartilha, mas pesa. É preciso cuidar das pessoas, sim, mas é preciso, sobretudo, ser fiel à música que se quer realizar.

As solistas, Kátia Malloy e Tereza Cançado, trouxeram segurança e apoio num momento crucial. Foram preparadas com rigor técnico pela saudosa Vania Soares. Ali aprendi outra lição que ficou: estamos o tempo todo nos apoiando uns nos outros e, ao mesmo tempo, todos esperam que alguém sustente a confiança.

Foi nesse Gloria que se firmou uma ideia que nunca mais me deixou: fazer música com o que se tem nas mãos. Não esperar a tal “situação ideal”. Essa postura não nasceu de heroísmo, mas de necessidade, e se revelou, com o tempo, uma escolha ética. Ela me acompanhou depois, já como professor universitário, e me acompanha até hoje, mesmo quando não há mais nada a provar.

Quando o concerto terminou, o que senti foi alegria. Logo em seguida, o pensamento no próximo desafio. Hoje, quando volto a essa história, a alegria permanece, acompanhada de uma saudade mansa e imensa do Magnani.

Aquele Gloria não encerrou nada. Ele apenas abriu a porta.








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Gloria de Vivaldi no Conservatório

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