quinta-feira, 2 de abril de 2026

Romancero Gitano VII. Crótalo

 


Chegamos à ultima peça do ciclo:


“Crótalo”

Aqui, Lorca faz um gesto curioso: escolhe um dos menores elementos da música, um instrumento simples, quase invisível, e coloca tudo ali: O crótalo.

Pequeno. Seco. Preciso. Algo como uma castanhola. E ele ganha vida...

Logo aparece uma imagem que define bem isso: um “escaravelho sonoro”, pequeno, rígido, vibrante.

Não é uma comparação decorativa. É uma maneira de fazer o som se tornar corpo. De dar ao ritmo uma presença física.

E então vem outro deslocamento importante: a mão. Lorca chama a mão de “aranha”. Os dedos se movem como patas, prendendo o ar, marcando o espaço. O ritmo não é apenas ouvido. Ele é desenhado.

O crótalo, dentro dessa mão, passa a dominar. Ele reina num “Reino de pau”, como diz o poema. Uma expressão simples, mas certeira. Porque ali, naquele pequeno espaço, ele organiza tudo: o tempo, o gesto, a dança.

É curioso. Depois de poemas carregados de dor, memória e destino, Tedesco/Lorca para aqui… e olha para o ritmo em si, sem narrativa, sem personagem, só o pulso.

E até a estrutura do poema acompanha isso: a palavra “Crótalo” se repete, como uma batida, como se o poema quisesse soar mais do que significar. Um poema que não descreve. Percute.

Quando Castelnuovo-Tedesco entra nesse texto, ele encontra um terreno diferente dos anteriores. Aqui, o centro não é a melodia nem a palavra. É o ritmo. A música se torna mais incisiva, mais fragmentada, mais precisa. O coro articula, recorta, quase como se estivesse também percutindo. E o violão entra no jogo.

Dentro do ciclo, Crótalo funciona como um ponto de energia concentrada: breve, brilhante e absolutamente necessário. Lembra algo essencial: antes da dor, da memória ou da imagem… há o pulso.

Uma linda obra, o Romancero Gitano.


🎬 Romancero Gitano Op.152 - "Crótalo" (Mario Castelnuovo-Tedesco)


VII – Crótalo (Tradução livre)

Crótalo.

Crótalo,

Crótalo.

Escaravelho sonoro.


Na aranha

da mão

riças o ar

cálido,

e te folgas em teu reino

de pau.


Crótalo.

Crótalo.

Crótalo.

Escaravelho sonoro.

 


quarta-feira, 1 de abril de 2026

Romancero Gitano VI. Baile


Depois do recolhimento de Memento, o ciclo volta a se mover carregando memória. 

Baile

O título sugere festa, mas Lorca não está interessado nisso. O que aparece é outra coisa. Uma figura histórica da paisagem de Sevilha:

(La) Carmem. 

Aquela mesma da ópera. E já na forma como ela é descrita, algo não encaixa: cabelos brancos, pupilas brilhantes. Uma imagem atravessada: tempo e intensidade no mesmo corpo; presença e desgaste convivendo.

Carmem dança pelas ruas de Sevilha. Mas essas ruas não estão cheias. Não há festa ao redor. Não há público. Ela dança quase sozinha...

E isso muda tudo. O baile deixa de ser celebração e passa a ser gesto interior. Como se a dança não estivesse acontecendo para os outros, mas para sustentar algo dentro dela.

E então aparece o refrão:

Meninas, correi as cortinas!

Esse chamado interrompe a cena como um aviso. Como se aquela presença não pudesse ser vista. Ou não devesse. Fechar as cortinas é se proteger. Mas proteger de quê? Da dança? Da mulher? Ou daquilo que ela revela? Porque Carmem não é apenas uma dançarina. Ela carrega uma imagem forte: uma serpente amarela enroscada na cabeça.

Aqui Lorca apenas sugere... Desejo. Perigo. Força instintiva. Algo que não se controla e que, talvez por isso, precise ser escondido.

Mas o centro do poema está em outro ponto. Carmem dança… e sonha. Sonha com galãs de outros tempos. 

E, nesse momento, o baile muda de natureza. Não é mais presente e sim memória em movimento.Ela dança com o passado e esse passado não vem limpo. Vem como espinho.

Lorca fecha o poema ampliando essa imagem: os corações andaluzes procuram antigos espinhos. Procuram aquilo que já feriu, como se dissessem que nem toda dor se abandona, pois que algumas são sempre revisitadas. E talvez o baile seja isso: um modo de não esquecer.

Quando Castelnuovo-Tedesco trabalha esse texto, ele entra nesse jogo de ambiguidade. A música se aproxima de ritmos de dança, sim — mas nunca se entrega completamente a eles.

Há sempre algo que desloca. O coro dança, mas não celebra; o violão pulsa, mas não resolve.

Dentro do ciclo, Baile traz movimento de volta, mas não como festa, como insistência.


🎬 Romancero Gitano Op.152 - "Baile" (Mario Castelnuovo-Tedesco)

 

VI – Baile (Tradução livre)

A Carmem está bailando

pelas ruas de Sevilha.

Brancos tem ela os cabelos

 E brilhantes as pupilas.

Meninas,

Correi as cortinas!


Na cabeça se lhe enrosca

uma serpente amarela,

e vai sonhando no baile

com galãs de antigos dias.

Meninas,

Correi as cortinas!


As ruas estão desertas

e nos fundos se adivinham,

andaluzes corações

buscando velhos espinhos. 

Meninas,

correi as cortinas!

 


Romancero Gitano VII. Crótalo

  Chegamos à ultima peça do ciclo: “Crótalo” Aqui, Lorca faz um gesto curioso: escolhe um dos menores elementos da música, um instrumento si...