Depois do recolhimento de Memento, o ciclo volta a se mover carregando memória.
Baile
O título sugere festa, mas Lorca não está interessado nisso. O que aparece é outra coisa. Uma figura histórica da paisagem de Sevilha:
(La) Carmem.
Aquela mesma da ópera. E já na forma como ela é descrita, algo não encaixa: cabelos brancos, pupilas brilhantes. Uma imagem atravessada: tempo e intensidade no mesmo corpo; presença e desgaste convivendo.
Carmem dança pelas ruas de Sevilha. Mas essas ruas não estão cheias. Não há festa ao redor. Não há público. Ela dança quase sozinha...
E isso muda tudo. O baile deixa de ser celebração e passa a ser gesto interior. Como se a dança não estivesse acontecendo para os outros, mas para sustentar algo dentro dela.
E então aparece o refrão:
Meninas, correi as cortinas!
Esse chamado interrompe a cena como um aviso. Como se aquela presença não pudesse ser vista. Ou não devesse. Fechar as cortinas é se proteger. Mas proteger de quê? Da dança? Da mulher? Ou daquilo que ela revela? Porque Carmem não é apenas uma dançarina. Ela carrega uma imagem forte: uma serpente amarela enroscada na cabeça.
Aqui Lorca apenas sugere... Desejo. Perigo. Força instintiva. Algo que não se controla e que, talvez por isso, precise ser escondido.
Mas o centro do poema está em outro ponto. Carmem dança… e sonha. Sonha com galãs de outros tempos.
E, nesse momento, o baile muda de natureza. Não é mais presente e sim memória em movimento.Ela dança com o passado e esse passado não vem limpo. Vem como espinho.
Lorca fecha o poema ampliando essa imagem: os corações andaluzes procuram antigos espinhos. Procuram aquilo que já feriu, como se dissessem que nem toda dor se abandona, pois que algumas são sempre revisitadas. E talvez o baile seja isso: um modo de não esquecer.
Quando Castelnuovo-Tedesco trabalha esse texto, ele entra nesse jogo de ambiguidade. A música se aproxima de ritmos de dança, sim — mas nunca se entrega completamente a eles.
Há sempre algo que desloca. O coro dança, mas não celebra; o violão pulsa, mas não resolve.
Dentro do ciclo, Baile traz movimento de volta, mas não como festa, como insistência.
🎬 Romancero
Gitano Op.152 - "Baile" (Mario Castelnuovo-Tedesco)
VI – Baile (Tradução livre)
A Carmem está bailando
pelas ruas de Sevilha.
Brancos tem ela os cabelos
E brilhantes as
pupilas.
Meninas,
Correi as cortinas!
Na cabeça se lhe enrosca
uma serpente amarela,
e vai sonhando no baile
com galãs de antigos dias.
Meninas,
Correi as cortinas!
As ruas estão desertas
e nos fundos se adivinham,
andaluzes corações
buscando velhos espinhos.
Meninas,
correi as cortinas!
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