terça-feira, 10 de outubro de 2017

Bebendo na fonte

Aprendi, ao longo do tempo, e com alguns bons mestres, que determinadas obras musicais são como fontes de água pura, na qual se deve buscar um gole sempre. Ali, não se mata somente a sede, mas é possível se enxergar no reflexo, e se os olhos estiverem de fato abertos, notar-se-á as modificações de sua fisionomia ao longo do tempo.

Certamente, o Requiem de Brahms é daquelas “fontes” que não servem para todos, mas para aqueles que quiserem, de fato, sorver de uma água pura e miraculosa.

Estou aqui dizendo que somente alguns podem bebê-la? Não. Todos podem usufruir do precioso líquido, mas somente aqueles que estiverem verdadeiramente dispostos a apreciar o seu sabor aproveitarão, de fato, o presente.

Empáfia? Claro que não. O que acontece no nosso tempo é que muitos querem ter pronto e mastigado aquilo que foi processado com muito esforço por outros. A compreensão de determinados símbolos humanos demanda um esforço, um estudo, um agregar de informações, de viver situações, e uma busca de um crescimento interior que, no final, nada mais é do que o desenvolver da sensibilidade.

Contextualizando a fonte: um compositor, maduro aos 33 anos, retira dos mais profundos pesares (perdeu o melhor amigo e depois a mãe) a inspiração para compor uma obra que falasse da transformação do homem através da morte. Escolhe, ele próprio, os textos representativos do seu pensamento e sentimento, mas com o invulgar cuidado de não se expressar como um crente, mas como um ser humano. Essa é a informação básica para mergulhar na obra.

O que acrescentar a essa história? Simples. As outras histórias... a vivência de cada um e as suas experiências.


E quando, mais uma vez, busco essa fonte me vem a pergunta: Alimentado? Sim. Saciado? Não. Ainda demando muitos goles, e por muito tempo...

Madrigale apresentando o Requiem de Brahms
Auditório do Conservatório da UFMG
Belo Horizonte - MG

domingo, 24 de setembro de 2017

Coral BDMG: um exemplo de coro de empresa

Diz a lenda que um coral de empresa é uma atividade realizada por funcionários de uma instituição que tem como objetivo melhorar o relacionamento entre os mesmos a partir de uma inspiração cultural. De fato, o instrumento coral serve muito bem, já que não demanda um conhecimento aprofundado do universo musical. Coros assim são variáveis e criam características específicas de acordo com o tipo de empresa e, consequentemente, com o perfil dos empregados que ela possui.

Por experiência, acredito que essas formações funcionam melhor se forem iniciadas pelos próprios funcionários, mais do que pelo setor de Comunicação ou RH. Isso porque a raiz plantada surge de quem realmente interessa, ou seja, os funcionários. Ah, e como são diferentes os quadros de pessoal de uma empresa de mineração (Coral da Vale), de refinação de petróleo (Coral da Petrobras), de uma aciaria (Coral Acesita)!

Dispostos, desde o princípio, a vestir a “camisa da empresa” e, com essa camisa, divulgar o nome da instituição, cria-se uma vínculo indireto e, ao mesmo tempo, profundo com um nome, o qual, como sempre vi, ultrapassa momentos de bem ou mal-estar da empresa por si só e dos empregados com ela.

Como será o perfil do grupo? Isso varia e depende, na minha opinião, do regente escolhido para condução dos trabalhos. Além disso, a qualidade e a constituição de objetivos, de médio ou longo prazo, também se acertam com as características do maestro.

Isso traz à reflexão a questão da confiança estabelecida entre aqueles que almejam o desenvolvimento de um grupo musical, amadores na verdadeira acepção do termo, e aqueles que escolheram como condutor do trabalho. É notória a vida de curto prazo dos corais de empresa quando o regente não é um profissional da música, mas, como tantas vezes acontece, um colega que tem um “certo conhecimento musical”. Os limites são alcançados rapidamente, e o trabalho deixa de ter sentido de continuidade. Nota-se, então, aquilo tão evidente nesses coros: o desejo de continuidade e evolução. Há limites? Não! Já regi vários coros de empresa e sempre percebi que, quanto maior a exigência e o desafio, mais os integrantes reagem e evoluem.



Assim funciona com o Coral BDMG, um coro criado no Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais há 30 anos por funcionários da Casa e regido por mim há 14. Começou com uns 40, 50 cantores e, ao longo do tempo, viajou por Minas, pelo Brasil e pelo exterior. Hoje, tendo funcionários e gente de fora, com alguma relação com a instituição, já subiu nos principais palcos de Estado, cantando em parceria com artistas, o que outros coros, mesmo profissionais, não tiveram condições de fazer. Por várias razões: o impulsionamento da instituição sólida e também pelo fato de criar um nome forte e de respeito com a maturação.


Ser um coro amador é diferente de um coro profissional? Pode ser, na questão da qualidade técnica de alto impacto de um profissional, mas não na seriedade que pode ser adquirida por uma pequena comunidade com o passar dos anos. Isso é o que se chama “amador”. Infelizmente, cada vez menos, se criam corais de empresa. Por quê? Talvez porque, para além das modificações econômicas, quase não existam mais funcionários estáveis ou que almejem carreiras de longo prazo nas empresas. Exatamente por isso, perde-se o desejo de “vestir a camisa” da instituição. Ainda bem que temos o exemplo vivo do CORAL BDMG! 




quinta-feira, 21 de setembro de 2017

De volta...

Olá a todos!!!

Depois de um ano de adaptações, modificações, reassumo este blog. Tendo como referência os trabalhos que executo como professor na Escola de Música da UFMG e como regente dos Coros Madrigale e BDMG, pretendo continuar explicando e discutindo aquilo que acontece no ambiente dos concertos  em Belo Horizonte e pelo mundo. 


As estatísticas do "Blogger.com" me incentivaram ainda mais a dar continuidade ao projeto. Pude perceber que, mesmo sem publicar há algum tempo, as pessoas continuavam lendo os meus posts. A quantidade de acessos foi surpreendente! Então, vamos lá. A partir de amanhã, tem assunto novo por aqui! 


terça-feira, 12 de abril de 2016

Novas peças corais: I Cannot Dance


O compositor, regente e cantor canadense Larry Nickel escreveu, em 2015, a peça I Cannot Dance para ser estreada pelo Salt Lake Vocal Artists. A obra impressiona pela maneira como explora os registros vocais sem estressá-los, o que é marca daqueles que sabem escrever bem para o instrumento coral.

Mais de uma vez, escrevi sobre esse impressionante coro e seu diretor, o maestro Brady Allred. Além de se apresentar em várias partes dos Estados Unidos, realizam regulares turnês à Europa, onde apresentam novas obras do repertório coral.


Também, muitas vezes ao me referir ao Salt Lake Vocal Artists, chamo a atenção ao posicionamento ideal dos microfones para a gravação de coros. Observem a sonoridade plena captada.


segunda-feira, 11 de abril de 2016

Fotos do 4 Cantos BDMG


Uma bela noite. Uma bela cantoria coral.
Não podia ter sido melhor o início da temporada de apresentações do Coral BDMG, abrilhantada pela participação especial dos Corais: Copasa, Melodia e São Tiago.
Um retorno ao coreto, lugar correto para apresentações musicais na praça.

Aqui, algumas fotos tiradas pelo Vinícius Peroni.






quinta-feira, 7 de abril de 2016

Quem sabe cantar o Hino?


Descobri que vários alunos dos cursos superiores de música não sabem cantar o Hino Nacional Brasileiro. Como assim, não sabem cantar o Hino? Isso mesmo. Não sabem. (Estou reafirmando porque esse “óbvio” é extensível a vários que estão lendo este post, pois sei que muitos também não sabem)

Lá pelos idos de 1970, 1980, a gente era obrigado a aprender utilizando a contracapa dos cadernos escolares. Lembram-se? A gente não podia errar. É certo que não entendíamos nada do “se o penhor dessa igualdade” ou “o lábaro que ostentas”, mas a gente tinha que fazer certinho.

Aí vieram os 1990 e 2000 e o glorioso ficou démodé. Os novos passaram a acreditar que não valia a pena aprender aquela música enorme, com aquele texto maior ainda e sem sentido nenhum. “Não nos diz nada”, dizem até hoje. E talvez vários que estão lendo vão confirmar esse pensamento.

Então, que venha o pensamento do músico professor. Meus caros, essa música continua sendo ensinada pelo Brasil a fora, por muitos que não sabem cantar direito, nem explicam do que se trata. Dessa mesma forma, várias outras músicas são ensinadas, sem um devido respeito à partitura, ao texto, à afinação, à dinâmica, etc. E entendam que esses alunos são futuros professores que terão que ensinar como se faz.


Para que os novos aprendam a estudar uma partitura e ensiná-la direito, me propus a trabalhar com eles o Hino Nacional completinho. Será um modelo para o processo de aprendizado de partitura. Daqui a algumas semanas, cantarão para toda a Escola de Música, de cor. E para que provem que sabem fazer mesmo, o regente será um aluno argentino que é da mesma turma. Filmarei e mostrarei a todos. Aguardem.


terça-feira, 5 de abril de 2016

Ah, esses jovens...


Noutro dia, ouvi um jovem músico dizendo: estou desanimado. Já estudei tanto e não consigo nada na minha área.

Quanto anos tem o mancebo? 18.... e por isso aqui reflito:

Sou de um tempo (ah! Em outros tempos eu achava que jamais diria isso) em que nós, alunos músicos, lutávamos para, simplesmente, frequentar a aula, ou participar do trabalho do professor X, ou Y.

Sou de um tempo em que o aprendizado era visto como essencial para uma escalada numa profissão ainda tida como supérflua e excêntrica.

Sou de um tempo em que a paixão pela música nos movia de uma maneira tal que enfrentávamos o mundo inteiro para sermos aceitos como respeitáveis dentro da profissão que escolhemos. Tínhamos que merecer um lugar junto a um conjunto de músicos que, para nós, eram o supra-sumo de um conhecimento e que almejávamos, um dia, chegarmos perto do que eles eram e significavam.

Ah! Mas os tempos são outros. Passados. E hoje, que poderíamos nos considerar herdeiros daquela geração que nos preparou, nos vemos no meio de uma nova geração que, por si só, são músicos qualificados e que assumem o mercado de uma maneira voraz e impura. Impura porque, despreparados, se julgam capazes de serem marqueteiros, propagandistas, administradores e... músicos.

Chamam-nos de camaradas, colegas, e se dizem muito bons no que fazem (e são mesmo). Mas se esquecem de que os maravilhosos cachês de um começo não significam muito numa trajetória musical, e aí eu vejo vários caindo pelo caminho, sem perspectiva, sem objetivo. Seria isso porque se esqueceram da paixão que os impulsionou a seguir o caminho da música? Ou seria um modismo de produção de “artistas” no nosso tempo. Meu Deus!!! Como temos artistas nesse nosso tempo!!!

Magnani fazia uma distinção entre um instrumentista e um músico. Para ele a diferença entre um e outro estava na busca constante, por parte do segundo, de uma formação intelectual, humana e espiritual, que possibilitasse a ele uma compreensão do universo musical, e que o tornasse independente de outro músico (professor) na elaboração do discurso musical. A música para além da técnica. A técnica a serviço da música, e do que de melhor se pode buscar nela.

Ser instrumentista é relativamente fácil comparado com o ser músico, e aqui, só quem é músico sabe do que estou falando. Mas, como algo inerente à juventude, paciência é uma palavra que está cada vez menos na mente, e no coração, daqueles que escolheram uma profissão extremamente difícil e que exige um aprimoramento diário, para além das escalas e arpejos.

Jovens, vocês que começam, sigam um conselho precioso: na nossa profissão é necessário termos sabedoria. Acalmem-se. Progridam. Amadureçam. Tenham paciência. Aprimorem-se tecnicamente, mas aguardem um amadurecimento que só vem com o tempo e com muito, muito estudo. Vocês querem tudo muito rápido e não é assim que se faz música.


Você que tem os seus 18 anos, acalme-se, pois não falta muito. Quem sabe aos 78 tudo se resolve? Ou na próxima encarnação? Tenha calma.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Mais uma edição do 4 Cantos


E lá se vão 22 anos que o Coral BDMG promove esse evento de importância para o cenário da música coral: o 4 Cantos – Coral na Praça. Comigo, são 12 anos.

A fórmula é simples: de abril a setembro, por causa do período de chuvas, outros três corais se juntam ao BDMG para uma noite de canto coral na Praça da Liberdade. 4 Corais, 4 peças musicais de cada um. E ao longo desses vários anos, vários grandes grupos se apresentaram, grandes maestros e solistas, pianistas acompanhadores. Mas também, lá vimos surgir novos grupos, pois foram muitos que no projeto fizeram a sua primeira apresentação. E também novos regentes, que hoje já não são jovens se analisarmos a idade do evento.

Nem sempre aconteceu na Praça da Liberdade, pois em alguns anos ela esteve fechada para reformas. E a Praça da Assembléia e a Basílica de Lourdes nos ajudaram no intermezzo. Mas sempre ali no entorno, chamando a atenção para a bela praça e seu belo coreto.


E para mais um ano de corais na praça, lá estaremos no dia 07 de abril, às 19:30. Venham nos prestigiar!!!


sexta-feira, 1 de abril de 2016

Disney a cappella para o fim de semana

Bons cantores, bons arranjos, bom equipamento de gravação e, sem esquecer, um bom engenheiro de gravação. Que resultado se pode ter de uma boa combinação?

Que tal ouvir The Magic of Voices nesse fim de semana e se embevecer um pouco com suas versões de peças musicais da Disney?


Divirtam-se!!!


Disney Fly Medley



A whole new world



Disney Love Medley



Once upon a dream



When you wish upon a star


Um ótimo fim de semana a todos!!!


terça-feira, 29 de março de 2016

Batalha de coros


Evito emitir opiniões sobre os concursos vocais tão em voga na TV brasileira, pois não acredito, sinceramente, na completa integridade dos mesmos. Na verdade, entendo que em todas as partes do mundo o show business tem que fazer valer o investimento dos muitos patrocinadores e proporcionar um espetáculo que prenda as pessoas em casa à noite (ou nas tardes de domingo). No entanto, é possível observar que os “The Voices”, ou “The Choirs”, são diferentes onde há uma tradição que valoriza o trabalho vocal em conjunto.

Um exemplo? Vamos lá. Que tal a final de uma competição na Austrália? Os coros finalistas se unem na interpretação de Bohemian Rhapsody.



Mas, aqui vai um post no estilo “síndrome de vira-lata”? Negativo. Meu trabalho é melhorar e incentivar a formação e capacitação de grupos corais. Viso o futuro, e estamos melhorando. Certo?

Bohemian Rhapsody - Freddie Mercury

Madrigal Renascentista: O senhor não precisar cantar, presidente

Em abril de 1968, o Madrigal Renascentista estava mais uma vez em Brasília. O grupo havia sido convidado para participar das comemorações do...