segunda-feira, 1 de junho de 2026

Um espetáculo chamado Mulheres

Em 1998, o Coral Acesita levou ao Teatro da Fundação Acesita um espetáculo chamado Mulheres. A proposta nasceu em torno do Dia Internacional da Mulher. Mas, olhando hoje para o programa e para as lembranças que vão voltando aos poucos, percebo que aquilo era mais do que uma apresentação comemorativa. Havia uma intenção clara de colocar as mulheres no centro do palco, com suas vozes, suas histórias, suas contradições, sua força e sua delicadeza.

O Coral Acesita vivia uma fase especial. Era um coro comunitário, ligado à Fundação Acesita, mas com vontade de experimentar formatos mais amplos. O teatro da Fundação nos dava essa possibilidade: não precisávamos ficar presos ao modelo tradicional de concerto. Podíamos construir cenas, alternar grupos, criar entradas e saídas, usar luz, trabalhar solos, inserir textos. Mulheres nasceu desse desejo.

O espetáculo misturava canções, monólogos e diferentes formações vocais. Havia o coro inteiro, grupos menores, solos femininos e masculinos. Mabel, Marília, Leila, Bel e Keyla aparecem nas lembranças como algumas das vozes solistas do projeto. Leila fazia também os monólogos, costurando dramaticamente as partes do espetáculo, o que dava ao programa uma dimensão cênica mais forte. A música não vinha apenas como sequência de números; havia uma tentativa de criar um percurso em torno da presença feminina.

O repertório ajudava: Mulheres de Atenas, Maria Maria, Carcará, Hoje eu vou mudar, Se acaso me quiseres, Tigresa, Super-Homem a Canção, Moto Contínuo, entre outras. Algumas cantadas pelas mulheres, outras pelos homens como forma de homenagem. Os solos masculinos podiam variar de uma apresentação para outra: Luiz, Geraldo, Sérgio. A estrutura era viva, flexível, própria daquele tipo de montagem.

Uma imagem permanece forte na memória: todas as mulheres cantando Maria, Maria com echarpes de bolinhas enroladas de formas diferentes, representando mulheres de vários países. Era simples, mas funcionava. Não havia produção grandiosa — havia imaginação, desejo de cena e um grupo disposto a entrar na proposta.

O tom do espetáculo era misturado, como o próprio tema exigia. Havia homenagem e crítica; celebração e denúncia; canções de amor, de força, de dor; canções em que a mulher aparecia como personagem, como símbolo, como voz e como corpo presente.

Num grupo como o Coral Acesita, formado por pessoas da empresa e da região, um espetáculo desse tipo tinha uma dimensão muito concreta. As mulheres que cantavam não eram personagens distantes, eram colegas, amigas, mães, trabalhadoras, vizinhas. Quando subiam ao palco, levavam consigo essa presença real. Por isso Mulheres não foi apenas um tema, foi uma maneira de olhar para o próprio grupo, de perceber quem estava ali, de dar protagonismo a vozes que sustentavam grande parte da vida coral com dedicação e afeto.

Rever esse material é também reencontrar uma fase da minha própria trajetória. Eu ainda buscava formas de fazer o coro ocupar o palco com mais liberdade, queria que o canto coral pudesse dialogar com a cena, com o texto, com a memória afetiva do público. Hoje, talvez eu olhe para algumas escolhas com outra maturidade. O tempo muda a escuta, mas reconheço naquele projeto uma intenção verdadeira: a de afirmar a importância das mulheres dentro do coro, dentro da comunidade e dentro da vida.

Um espetáculo feito com os recursos possíveis, com a imaginação disponível e com a coragem de tratar um tema importante dentro de um coral comunitário. Havia beleza, ingenuidade e força. E havia, sobretudo, um grupo disposto a cantar algo que tocava diretamente a vida de quem estava no palco e na plateia.
















Um espetáculo chamado Mulheres

Em 1998, o Coral Acesita levou ao Teatro da Fundação Acesita um espetáculo chamado Mulheres . A proposta nasceu em torno do Dia Internaciona...