domingo, 3 de maio de 2026

15 anos do Coral BDMG (2004)

E, de repente, lá estava eu à frente do Coral BDMG comemorando os seus 15 anos. Um coro que tinha já uma história longa, que tinha passado pelas mãos de outros regentes, que havia viajado pelo Brasil e pelo exterior... quanta responsabilidade. Um ano é pouco tempo para conhecer bem um coro, mas às vezes é suficiente para entender o que ele pode ser.

Era um turma acostumada a palcos diversos e que tinha já um projeto forte, o 4 Cantos Coral na Praça, do qual falarei depois. Mas esse concerto já determinava uma direção que havia sido iniciada com o maestro Rafael Grimaldi, que era a exploração do repertório da Música Colonial Mineira. Nessa apresentação, tivemos o Te Deum de Manoel Dias de Oliveira, mas numa sequência de anos, várias peças e autores compuseram o repertório do projeto BDMG na Estrada Real. Outra linda história a ser contada.

O BDMG chegou até mim com uma trajetória já considerável: viagens pelo Brasil, Buenos Aires, Assunção, Roma, Alemanha, França, Portugal. Esse histórico deixava nos cantores uma autoestima alta, o que é compreensível, mas que nem sempre correspondia de forma direta ao nível técnico do grupo. Havia ali uma distância entre o orgulho acumulado e o trabalho que ainda precisava ser feito. Parte do meu percurso nos anos seguintes seria justamente esse: construir, junto com aquela turma, a qualidade que a história deles merecia.

Mas o concerto de 15 anos era um momento de afirmação. O programa Minas Colonial em Quatro Cantos foi uma ideia que eu já acalentava antes mesmo de chegar ao BDMG. O repertório da música colonial mineira sempre me interessou, não como peça de museu, mas como material vivo, com estrutura, expressão e identidade próprias. Era um projeto: percorrer esse universo de forma sistemática, com rigor musicológico e presença de palco. O BDMG era o coro certo para isso.

Para o concerto de 15 anos, o programa reuniu compositores das principais regiões da província colonial: Marcos Coelho Neto, de Ouro Preto e Mariana; José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita, do Serro e Diamantina; Manoel Dias de Oliveira, de Tiradentes e São João del-Rei; e Antônio Lopes Serino, a quem se atribui uma Ladainha de origem ainda incerta, encontrada no Curral del-Rei, hoje Belo Horizonte. A escolha do repertório era uma tentativa de dar ao concerto uma dimensão geográfica e histórica, de mostrar que aquela música não nasceu num ponto só, mas se espalhou pelo território da capitania com uma vitalidade que a historiografia demorou a reconhecer.

O Te Deum de Manoel Dias de Oliveira tinha para mim um peso particular. Eu já conhecia a obra, inclusive havia feito uma edição crítica dela em conjunto com meu orientador de mestrado, o musicólogo José Maria Neves. Reger uma peça que você ajudou a recuperar do manuscrito é uma experiência difícil de nomear. Há ali uma responsabilidade dupla: com o texto musical que você reconstituiu e com o compositor que nunca saberá que sua obra voltou a soar.

O concerto aconteceu com orquestra de cordas, trompas e flautas. Era um programa grande para um grupo que completava 15 anos e que, naquele momento, começava também um novo capítulo.

O projeto Coral BDMG na Estrada Real, que viria nos anos seguintes, nasceu em parte dali. A ideia de levar esse repertório colonial às cidades históricas de Minas, cantar Lobo de Mesquita em Diamantina, Manoel Dias de Oliveira em São João del-Rei, era a consequência natural de um trabalho que o concerto de 15 anos havia inaugurado. Mas essa é outra história. E ela merece ser contada com o cuidado que tem. 



 












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