No texto anterior, escrevi que o coro só existe quando estamos juntos. Muitas vozes, quando conseguem realmente se integrar, produzem uma resultante que nenhuma delas conseguiria produzir sozinha. Mas existe outra consequência desse encontro que vai além da música. Um coro pode se tornar uma comunidade.
Digo “pode” porque isso não acontece necessariamente. Existem grupos que permanecem apenas reuniões de pessoas que ensaiam, cantam e vão embora. Podem até produzir bons resultados musicais, mas não chegam a construir uma identidade comum.
Quando essa identidade aparece, alguma coisa muda. As pessoas passam a compartilhar não apenas partituras, ensaios e concertos, mas uma história. Criam vínculos, memórias, hábitos, referências. Desenvolvem um sentimento de pertencimento. E, principalmente, passam a acreditar em um objetivo comum. Para mim, isso faz muita diferença.
Talvez isso explique por que algumas pessoas permanecem durante tantos anos em um mesmo coro. Evidentemente existe a música. Existem também as amizades e a convivência. Mas acredito que exista algo ainda mais forte: a percepção de fazer parte de uma história que também ajudamos a construir.
Isso não significa, porém, que eu veja o coro como uma espécie de família onde todos precisam permanecer a qualquer custo. Comunidade também pressupõe compromisso. Se no texto anterior eu dizia que cada voz precisa encontrar seu lugar dentro da sonoridade coletiva, penso que o mesmo vale para as relações humanas. Cada pessoa é importante, mas o trabalho precisa continuar sendo maior do que qualquer individualidade. A amizade pode fortalecer enormemente um coro. Pode criar confiança, cumplicidade e prazer de estar junto. Mas também pode produzir grupos fechados, privilégios, conflitos e interesses particulares. Cabe ao regente perceber esses movimentos e estabelecer limites quando começam a interferir no trabalho. Porque o regente, queira ou não, acaba exercendo também uma liderança humana.
Durante muito tempo aprendi que reger um coro não é apenas ensinar notas, construir frases ou decidir andamentos. É também lidar com pessoas e tentar fazer com que elas compreendam que existe um projeto coletivo que precisa ser preservado. E aqui talvez esteja uma questão menos confortável: nem todo mundo necessariamente pertence a todo coro. Acolher não significa abrir mão das exigências que permitem ao grupo existir. É preciso compromisso, disponibilidade, responsabilidade e disposição para trabalhar em função do conjunto. Cada integrante precisa funcionar dentro dessa grande engrenagem. Quando isso deixa de acontecer de maneira persistente, o próprio sentido de comunidade começa a ser comprometido.
Pode parecer contraditório, mas não acho que seja. Uma comunidade não se sustenta apenas porque as pessoas gostam umas das outras. Ela se sustenta porque existe alguma coisa que essas pessoas decidiram construir juntas. No nosso caso, essa coisa é a música. E talvez seja justamente por isso que um coro possa ocupar um lugar tão importante na vida de alguém. Entramos para cantar. Com o tempo, descobrimos que ajudamos a construir um som, uma história e uma identidade.
Resumindo: um coro continua sendo um instrumento. Só que é um instrumento feito de gente.
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