Mãos de Isaac Karabtschevsky à frente do do Madrigal Renascentista
Entre as muitas impressões deixadas pela segunda viagem do Madrigal Renascentista à Argentina, uma crítica publicada em Buenos Aires me chamou a atenção justamente por não se render ao entusiasmo geral. Vem na mão contrária à ideia de que só se permitiam críticas positivas ao conjunto.
O coro carregava uma responsabilidade e uma expectativa. Havia cantado na Argentina no ano anterior, voltava agora como representante oficial do Brasil e participava de um festival que reunia grupos importantes das Américas. Era natural que houvesse curiosidade. Também era natural que houvesse comparação.
Mas o crítico do Clarín não escreveu como quem estava disposto apenas a confirmar uma boa fama. Leiam a crítica:
O conjunto brasileiro (...) está bem formado, com vozes de boa qualidade e atua sob uma ponderável disciplina. Não é um coro excepcional cujo trabalho transcenda excepcionalmente o âmbito do perfeito; carece, por exemplo, do refinamento que exige a estética francesa impressionista. Seu ritmo é impecável; assim o manifestou particularmente nas pitorescas páginas de Villa-Lobos que figuraram no programa. Mas, em suma, reúne qualidades que atraem pela solidez com que foram elaboradas. Há que se lamentar a ausência no programa de obras integrais para coro que configurariam uma nota de maior interesse em vez desse conglomerado de pequenas peças que, ainda que formosas, mostram escassa preocupação artística em quem conduz e guia os destinos deste conjunto.(1)
Vejam que o crítico reconheceu as qualidades do Madrigal. Falou de vozes bem formadas, boa disciplina, solidez de trabalho e ritmo impecável, especialmente nas peças de Villa-Lobos, o que, por si só, já dizia muito. Não se tratava de uma crítica negativa. O coro era respeitado. Mas vinha o reparo.
Para o crítico, faltava ao grupo um refinamento maior em certos repertórios, especialmente na estética francesa impressionista. E, mais ainda, faltavam obras integrais no programa. A sucessão de pequenas peças, ainda que bonitas, lhe parecia uma escolha artística limitada. Em outras palavras: o Madrigal impressionava, mas o programa talvez buscasse efeito demais e construção de longo fôlego de menos.
A observação é dura. Talvez injusta em parte. Mas é interessante justamente por isso. Quem trabalha com coro sabe que a montagem de um programa é sempre uma negociação. Não basta escolher boas peças. É preciso pensar no grupo, no público, no espaço, na ocasião, no tempo de ensaio, na resistência vocal, na variedade de estilos e também no impacto de cada obra dentro do conjunto.
Um programa formado por peças curtas pode ser superficial, mas também pode ser uma escolha inteligente. Tudo depende de como essas peças se relacionam. Uma miniatura coral, quando bem escrita e bem colocada, às vezes, diz mais do que uma obra longa mal sustentada. O problema talvez não esteja no tamanho das peças, mas na intenção que organiza o programa. Pequenas obras podem formar apenas uma sequência agradável, quase uma vitrine de efeitos. Mas também podem construir um percurso, apresentar uma estética, revelar diferentes faces de um coro.
No caso do Madrigal, essa era uma questão ainda mais delicada. O grupo tinha na variedade uma de suas marcas. Circulava por repertórios antigos, música brasileira, obras sacras, peças modernas e páginas de efeito coral. Essa mobilidade ajudou a formar sua identidade, e o coro parecia querer mostrar não apenas que cantava bem, mas que era capaz de transitar.
A crítica argentina, portanto, toca num ponto que continua atual. Muitos coros ainda montam programas como quem organiza uma coleção de peças bonitas. Uma depois da outra, todas corretas e agradáveis, mas, ao final, fica a pergunta: que ideia sustentava aquilo? E esse é o tipo de pergunta que uma crítica séria deve provocar.
Por isso essa nota é valiosa. Ela não diminui o Madrigal. Ao contrário, trata o grupo como um conjunto digno de exigência. O elogio fácil teria sido mais confortável, mas menos útil. O crítico ouviu o coro como se ele pudesse mais. E isso, quando não vem carregado de má vontade, é uma forma de respeito.
A história dos grupos corais costuma ser contada por suas consagrações. Concertos lotados, elogios, viagens, aplausos, convites. Tudo isso importa. Mas há também as pequenas fricções: a crítica que incomoda, a pergunta que permanece, o comentário que obriga a pensar.
O Madrigal saiu daquela viagem reconhecido. Mas não saiu intocado. E talvez seja bom que tenha sido assim. Um coro que só recebe aplauso pode se acomodar na própria imagem. Um coro que é ouvido com atenção, inclusive nos seus limites, ganha a chance de se compreender melhor.
A crítica que não se ajoelhou talvez tenha prestado ao Madrigal um serviço raro: lembrou que o sucesso não dispensa pensamento artístico. E que um bom programa coral não se mede apenas pelo brilho de cada peça, mas pela necessidade que une uma peça à outra.
(1) S/ autor. Conciertos de Cámara. Clarín, Buenos Aires, 25/07/1960. (Acervo do Madrigal Renascentista, livro 4, p. 14)
Baseado no trecho sobre a recepção crítica do Madrigal Renascentista em Buenos Aires, especialmente a crítica publicada no Clarín em 1960.
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