Eu guardo os cartazes de minhas apresentações, sobretudo as do Madrigale. Alguns voltaram agora, meio por acaso, meio porque esse blog tem feito com que eu reveja um percurso para reflexões acerva do passado, presente e futuro. Com isso, é natural que a gente abra uma pasta, procure uma data, tente confirmar um nome, e de repente aparece ali uma imagem que, no primeiro olhar, parecia apenas divulgação de concerto. Depois, quando a gente mira um pouco mais aquelas figuras (e isso só é possível porque tenho quase tudo digitalizado), alguma coisa se desloca. O cartaz começa a falar de novo, mas já não fala somente do concerto que anunciava. Foi assim que voltei aos cartazes criados por Gustavo Fonseca.
Gustavo é um dos cantores mais antigos do Madrigale, e essa informação importa muito. Quando de suas criações, ele não desenhava o coro de fora, como quem recebe apenas um título de concerto, uma data, um horário e a lista de patrocinadores. Sabia o que estava por trás daquilo: o cansaço dos ensaios, a ansiedade antes das grandes obras, as conversas atravessadas, os sonhos talvez grandes demais para as condições que tínhamos. Sabia também das pessoas, e isso muda uma percepão, porque um cartaz feito por alguém de dentro guarda uma intimidade difícil de explicar.
Quando olho hoje para o cartaz do Requiem de Mozart, de 2002, vejo ainda um Madrigale em afirmação. A imagem é direta, grave, com o nome de Mozart atravessado por aquele vermelho que imediatamente cria tensão. O meu nome ainda aparece inteiro, comprido, quase solene demais para quem depois simplificaria a própria assinatura. Esse detalhe me faz sorrir, porque a juventude também tem suas liturgias.
Poucos anos depois, no Romancero Gitano, a imagem já respira outro mundo: o desenho, a tipografia, a figura quase popular, quase grotesca, quase saída de uma Espanha inventada pela nossa imaginação brasileira. Na minha percepção de hoje, Gustavo não tentou explicar Lorca, tentou criar uma porta de entrada. Talvez fosse exatamente isso que o cartaz precisava fazer: preparar um estado de escuta antes que a música começasse.
O mesmo acontece nos outros materiais. A Missa Afro-Brasileira aparece com uma teatralidade própria, com personagens, corpo, rito, batuque. No cartaz de Música Barroca, de 2009, a imagem caminha para outro lugar: instrumentos, papéis, objetos antigos, uma espécie de gabinete sonoro. No Requiem Alemão, de Brahms, a árvore seca e o vermelho sobre a paisagem criam uma atmosfera de recolhimento duro, sem sentimentalismo. Ainda bem. Brahms não pede açúcar (e esse continua sendo um dos meus favoritos).
O que me chama atenção, revendo tudo isso, é a variedade. Os cartazes não tentam prender o Madrigale a uma única cara. Eles mudam conforme o repertório, e isso diz muito sobre o coro que fomos construindo, um coro que cantava Mozart, Brahms, Carlos Alberto Pinto Fonseca, música barroca, música brasileira, repertório sacro, obras contemporâneas. Por ser tão eclético, seria falso dar a tudo isso a mesma aparência e Gustavo parecia entender isso muito bem. A unidade do Madrigale não estava numa fórmula visual repetida, mas na disposição de atravessar repertórios diferentes mantendo alguma verdade de grupo.
Esses cartazes também contam outra história, menos aparente: a da produção cultural. Cada nome pequeno no rodapé, cada logomarca, cada indicação de pianista, solista, igreja, teatro, horário, parceria ou patrocínio revela a engrenagem que sustentava os concertos. O público via a apresentação, mas antes dela havia outro coro trabalhando em silêncio: gente fazendo arte, buscando apoio, fechando programa, corrigindo informação, imprimindo material, carregando pasta, telefonando, resolvendo o que sempre precisava ser resolvido. Em grupos como o Madrigale, as funções raramente ficam separadas por paredes muito claras: quem canta também ajuda; quem desenha também ensaia; quem organiza também sobe ao palco. Talvez por isso esses materiais tenham uma vibração tão particular, porque eles não nasceram de uma estrutura distante, nasceram de uma convivência.
Por isso não quero olhar para esses cartazes apenas com saudade. Ela aparece, claro, e entra sem pedir licença, como cantor atrasado que abre a porta no meio do ensaio achando que ninguém percebeu. Mas ela não pode ser a única lente. Esses cartazes são vestígios de trabalho coletivo. Guardam fases do coro, escolhas estéticas, modos de produção, ambições, limites, parcerias, afetos. Guardam inclusive aquilo que esquecemos.
Talvez seja essa a força dos programas antigos, dos cartazes, dos papéis que sobrevivem em pastas e arquivos meio desorganizados: eles nos lembram que um concerto começa antes do primeiro som, muitas vezes quando alguém olha para aquilo tudo e inventa uma imagem capaz de dizer ao mundo que este coro vai cantar.
Outros cartazes do Gustavo Fonseca:
Amei! Cantei em todos esses concertos ou então em quase todos! 🥰
ResponderExcluir