Há pouco tempo reencontrei um projeto que escrevi no início dos anos 2000. Em determinado momento, aparece uma expressão que hoje quase ninguém usa: funcionalizar a música. Confesso que parei alguns minutos diante dela. Na época, a ideia me parecia natural. Hoje, depois de tantos anos, continuo achando que ela faz sentido.
Durante muito tempo, acostumamo-nos a pensar a música de concerto como um acontecimento: marcamos dia, horário e local, abrimos as portas do teatro e esperamos que o público venha. Mas, essa lógica tem um problema: ela parte do pressuposto de que as pessoas já adquiriram o hábito de frequentar concertos. E se não adquiriram?
Foi essa pergunta que orientou vários projetos dos quais participei. As Missas Cantadas, por exemplo, nasceram dessa inquietação. As obras haviam sido compostas para acompanhar celebrações religiosas. Em vez de levá-las imediatamente para uma sala de concertos, resolvemos devolvê-las ao ambiente onde haviam surgido, não por uma questão de religião, mas porque ali aquela música ainda cumpria uma função. Ela fazia parte da vida das pessoas. Com o Coral BDMG, essa mesma ideia apareceu no Quatro Cantos: em vez de esperar que o público procurasse os coros, levávamos os coros para a Praça da Liberdade. O concerto deixava de ser um destino e passava a fazer parte da cidade.
Hoje vejo iniciativas semelhantes acontecendo em hospitais, escolas, praças, parques e museus. A música ganha outra dimensão quando deixa de ser apenas um evento e volta a ocupar a vida cotidiana. Talvez seja justamente isso que eu queria dizer, vinte anos atrás, quando escrevi aquela expressão. A função da música não é utilitária, ela não existe para decorar ambientes nem para preencher silêncios. Sua função é criar encontros, provocar escuta, transformar um espaço comum em experiência, formar pouco a pouco o hábito de ouvir. Porque ninguém nasce frequentando concertos, assim como ninguém nasce gostando de literatura ou de teatro. Esses hábitos são construídos e uma das responsabilidades de quem faz música seja justamente ajudar a construí-los.
Hoje usamos outros nomes para isso. Mas continuo gostando daquela expressão antiga, porque ela ainda me parece dizer exatamente o que penso. A música precisa voltar a fazer parte da vida das pessoas e, para isso, às vezes é ela quem precisa dar o primeiro passo.
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