terça-feira, 1 de setembro de 2026

Quando Carlos Alberto Pinto Fonseca regeu o Madrigale (2)

(...) Mas uma coisa estava decidida: aquela não poderia ser a única apresentação. O projeto havia sido concebido para que Carlos Alberto regesse o Madrigale e queríamos que isso acontecesse. Marcamos então um novo concerto para 7 de novembro, novamente na Fundação de Educação Artística. Dessa vez, ele estava lá.

Lembro-me do ensaio como algo especial. Carlos Alberto apareceu com o carisma que lhe era próprio e com absoluto domínio daquela música. Para nós, que havíamos passado meses construindo nossa interpretação, era o encontro com alguém que conhecia cada dobra da obra e carregava uma história inteira dentro dela. Ao mesmo tempo, não transformou aquela experiência em uma demonstração de autoridade. Deixou o coro à vontade e trabalhou sobre aquilo que havíamos construído.

Eu fui cantar. Sempre gostei de entrar no Madrigale quando tinha oportunidade e, naquele dia, havia ainda o privilégio de ver Carlos Alberto de frente. Também queria saber como o coro responderia a outro regente. Um conjunto cresce quando aprende a fazer música sob outras perspectivas; se só consegue funcionar diante de quem o ensaia todas as semanas, alguma coisa ainda precisa amadurecer. Minha anotação depois daquele concerto registra justamente essa preocupação: “Valeu a intenção inicial de fazer o coro cantar com outro maestro. Ele aguentou bem.”

Mas hoje percebo que aquele 7 de novembro significou outra coisa que, aos trinta e poucos anos, talvez eu não dimensionasse completamente. Carlos Alberto havia sido obrigado pelas circunstâncias institucionais a se separar do Ars Nova e aquilo lhe custara muito. Ele próprio nos disse quanto era importante voltar a ter diante de si um coro, receber novamente o reconhecimento do público e perceber a possibilidade de novos trabalhos.

E novos trabalhos começaram, de fato, a ser imaginados. Planejamos levar a Missa Afro-Brasileira para outras cidades, primeiro em Minas e depois pelo país. Parte desse projeto chegaria a acontecer em 2006 e 2007, mas Carlos Alberto já não estaria conosco para vê-lo. Essa é outra história.

Por enquanto, prefiro ficar naquele domingo de novembro de 2004. Carlos Alberto diante do Madrigale. Eu no meio do coro. E sua Missa Afro-Brasileira novamente viva diante dele. 













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