Em 2004, resolvemos enfrentar a Missa Afro-Brasileira (de Batuque e Acalanto), de Carlos Alberto Pinto Fonseca. E “enfrentar” não é força de expressão. Escrita em 1971 para o Ars Nova, a obra já havia se tornado uma referência da música coral brasileira e estava profundamente associada ao compositor e ao coro que ele dirigira durante décadas. Para mim, montá-la era entrar em um território que conhecia muito bem como ouvinte, mas que agora precisávamos descobrir por dentro.
A Missa exige bastante de um coro. São cerca de trinta minutos de música a cappella, com extremos de registro, muitas articulações rítmicas e uma demanda considerável de resistência vocal e física. Não basta aprender as notas. É preciso compreender sua estrutura, administrar a energia ao longo da obra e encontrar uma maneira de fazer toda aquela complexidade rítmica soar como música, e não como uma sucessão de dificuldades vencidas. Executá-la continua sendo, ainda hoje, uma espécie de ousadia para qualquer conjunto.
Havia ainda outro desafio. Nossa memória da obra estava inevitavelmente ligada ao Ars Nova. A Missa fora escrita para aquele coro e Carlos Alberto a regera inúmeras vezes. Mas nunca me interessou transformar o Madrigale numa reprodução de outro conjunto, por melhor que fosse nossa referência. Cada coro possui suas vozes, suas possibilidades, seus limites e sua personalidade. Precisávamos encontrar a nossa Missa Afro.
Foi então que surgiu uma oportunidade que mudava completamente o sentido do projeto: convidar o próprio Carlos Alberto para trabalhar conosco e reger a apresentação. Naquele momento, ele já não estava à frente do Ars Nova. Sua aposentadoria compulsória na UFMG havia provocado também seu afastamento do coro ao qual dedicara grande parte da vida. Não fora uma escolha sua, e acompanhei o quanto aquela separação o abalou. Houve tentativas de encontrar alguma forma de continuidade, mas elas não prosperaram. Para alguém cuja história pessoal e musical estava tão profundamente ligada a um conjunto, não devia ser simples descobrir que uma norma administrativa era capaz de estabelecer uma data para o encerramento daquela relação.
O convite ao Madrigale nasceu também daí. Ter Carlos Alberto trabalhando conosco seria uma oportunidade extraordinária de aprendizado. Queríamos outra visão sobre o coro, e dificilmente poderíamos encontrar avaliação mais qualificada. E que obra poderia proporcionar esse encontro melhor do que sua própria Missa Afro-Brasileira? E ele aceitou prontamente.
Carlos Alberto participou do processo de montagem, mas, próximo à apresentação marcada para 10 de outubro, teve um problema de saúde e não pôde reger. O concerto estava organizado, o coro preparado, a Fundação de Educação Artística reservada, mas coube a mim assumir. Foi um susto. Eu havia preparado o Madrigale, naturalmente, mas não era esse o plano. De repente estava diante do coro para reger uma das obras mais emblemáticas de Carlos Alberto Pinto Fonseca, com o próprio compositor sentado na plateia e, junto dele, vários cantores do Ars Nova que conheciam aquela música por dentro. Não era exatamente uma situação destinada a baixar a pressão arterial de um regente.
Havia, felizmente, uma relação muito bonita entre os dois coros. O Ars Nova sempre funcionou para nós como uma espécie de padrinho coral. Era uma referência e, ao mesmo tempo, havia entre seus integrantes uma torcida pelo crescimento do Madrigale. Isso tornava aquela plateia exigente, sem torná-la hostil.
Meu registro feito logo depois do concerto é bem menos solene do que minha memória atual: “Show pela energia. Tá cheio de pequenos problemas que não incomodaram tanto ao público quanto a mim. De qualquer forma, foi um show. O povo fica empolgadíssimo. Valeu o trabalhão.” Reconheço perfeitamente o regente que escreveu isso. O público saíra entusiasmado e eu continuava contabilizando os problemas.
Mas uma coisa estava decidida: aquela não poderia ser a única apresentação. E sobre isso, eu falo amanhã...
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