Seguindo um planejamento, em 2006, começamos a levar a Missa Afro-Brasileira para o interior de Minas. O projeto havia sido aprovado pela Lei Estadual de Incentivo à Cultura e previa uma circulação que continuaria no ano seguinte.
A primeira cidade foi Ouro Preto. Um estreia complicada. Carlos Alberto deveria reger aquele concerto, mas veio a falecer poucas semanas antes. O projeto estava pronto, a apresentação marcada e nós tivemos que seguir. Lembro-me muito mais do peso daquela ausência do que propriamente das dificuldades musicais da apresentação. Era impossível não pensar que aquele lugar à frente do coro deveria estar sendo ocupado por ele. Então, por estas questões do destino, abríamos a temporada de apresentações da Missa prestando um homenagem ao Mestre e Amigo do Madrigale.
Depois fomos a Juiz de Fora, Itajubá, Ouro Branco, Timóteo e São João del Rei.
Juiz de Fora ficou especialmente marcada na minha memória. Cantamos no Theatro Central, dentro do festival de música da cidade, com a casa cheia. A Missa funcionava muito bem em espaços assim. O público reagia à força rítmica da obra, às mudanças bruscas de caráter, aos momentos em que o coro parecia quase uma massa percussiva. Não era preciso explicar muita coisa antes. A música fazia seu trabalho.
Em 2007, retomamos a turnê: Uberlândia, Uberaba, Montes Claros, Itabirito e o fechamento em Belo Horizonte.
Meus registros daquela época são curiosos porque mostram como dois concertos da mesma obra, feitos praticamente pelo mesmo coro, podiam resultar completamente diferentes. Sobre Uberaba, anotei que a apresentação não tinha sido tão boa e que ficamos um pouco inibidos diante de um público frio. Sobre Uberlândia, escrevi exatamente o contrário: “foi um show”, com público receptivo e caloroso.
Isso é uma coisa que aprendi muito cedo e que a estrada confirma: não existe concerto em laboratório. Podemos chegar com a mesma preparação, o mesmo repertório e praticamente os mesmos cantores, mas o espaço, a acústica, o cansaço, o público e até o clima entre as pessoas interferem. Algumas noites levantam o coro. Outras exigem que ele se levante sozinho.
Ao longo dessas viagens, a Missa também foi ficando menos assustadora. Nos primeiros tempos, havia uma atenção enorme para os problemas técnicos: regiões extremas das vozes, articulações difíceis, resistência física, equilíbrio entre os naipes. Depois de muitas apresentações, essas questões não desapareceram, mas deixaram de ocupar o centro de tudo.
E isso é uma vantagem que só a repetição pública de uma obra oferece. Ensaiar muito não produz exatamente a mesma experiência. É preciso cantar diante das pessoas, errar algumas coisas, acertar outras, perceber onde a energia cai, onde o coro exagera, onde o público responde, onde a acústica muda aquilo que parecia resolvido na sala de ensaio.
Ao final de 2007, tínhamos passado por onze cidades e quando vejo essa lista hoje, penso menos em uma “turnê” e mais em uma sucessão de igrejas, teatros, viagens de ônibus, ensaios rápidos, públicos diferentes e cantores tentando manter uma obra de trinta minutos de pé concerto após concerto.
Foi assim que a Missa Afro-Brasileira deixou de ser, para nós, apenas aquela peça enorme que tínhamos decidido montar em 2004. Passou a ser repertório. E virar repertório já é muita coisa.
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