quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Brahms e seu Réquiem Alemão: os que choram e os que esperam

O início do Réquiem Alemão de Brahms sempre me chama a atenção pela maneira como a música se aproxima do sofrimento humano.

O primeiro movimento começa sem qualquer gesto grandioso. A escrita é contida, e o coro entra com as palavras Selig sind, die da Leid tragen (Bem-aventurados os que choram). É uma música que pede cuidado com a sonoridade, com a respiração e com o peso de cada frase.

Pouco a pouco, Brahms acrescenta outro texto bíblico: “Os que semeiam com lágrimas colherão com alegria”. A passagem do sofrimento à esperança já aparece, portanto, nos primeiros minutos da obra.

O segundo movimento nos leva a um ambiente bastante diferente. Denn alles Fleisch, es ist wie Gras (Pois toda carne é como a erva...)”. A música assume o caráter de uma marcha lenta, insistente, quase implacável. Sua repetição parece nos fazer sentir o próprio passar do tempo.

Brahms coloca diante de nós a fragilidade da existência. Tudo aquilo que floresce também está sujeito a desaparecer. Mas, novamente, a música não permanece nesse pensamento: surge um trecho mais luminoso, associado à paciência e à espera, antes de um desfecho vigoroso.

Essa alternância entre reconhecimento da finitude e perspectiva de consolo é uma das características que percorrem todo o Réquiem.

Para quem canta, a passagem de um movimento para o outro exige mais do que uma mudança de andamento ou de intensidade. É preciso compreender o sentido de cada texto e encontrar a sonoridade adequada para expressá-lo.

Tenho pensado bastante nisso durante a preparação com o Madrigale. Brahms exige que a palavra esteja inteiramente integrada à construção musical, e é nessa relação que boa parte da força da obra se revela.

🎬 Ein Deutsches Requiem - Johannes BRAHMS (1. Selig sind die da Leid)

🎬 Ein Deutsches Requiem - Johannes BRAHMS (2. Denn alles Fleisch)



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