(Esse post é sequência da publicação do dia 31/01/2026)
1959 — quando o sucesso ganha corpo
Ao chegar ao Sul do Brasil, o Madrigal Renascentista já não era apenas um coro em excursão. Era um nome que despertava expectativa. E Porto Alegre deixou isso claro.
O primeiro concerto aconteceu em Teatro São Pedro, em 19 de julho de 1959, sob patrocínio da Divisão de Cultura do Estado. Os relatos da imprensa são diretos: teatro lotado, público espremido pelas galerias, aplausos insistentes, entusiasmo difícil de conter. Não se tratava mais de curiosidade. Era adesão.
Os solos de Maria Lúcia Godoy e Amin Abdo Feres foram
destacados como momentos de arrebatamento coletivo. Mas o efeito não se
restringia aos indivíduos. O coro, como conjunto, produzia uma impressão de
energia organizada, juventude disciplinada e presença musical madura, combinação rara e poderosa.
Poucos dias depois, o Madrigal retorna ao mesmo teatro para
um concerto oferecido aos participantes do IV Congresso Nacional de Folclore. O
contexto já era outro: um público especializado, pesquisadores, músicos,
autoridades culturais. Ainda assim, ou justamente por isso, o impacto foi
semelhante. Ao final, o palco foi tomado por pessoas que queriam cumprimentar
os cantores e, sobretudo, Isaac Karabtchevsky. Foi preciso “boa política”, como
registrou o jornalista, para permitir a retirada do coro e o cumprimento do
compromisso seguinte.
Esse detalhe é revelador. O Madrigal começava a ocupar um
lugar que ultrapassava o concerto em si. Passava a ser referência, modelo,
ponto de convergência. Não apenas pela qualidade musical, mas pelo modo como se
apresentava: repertório ambicioso, execução cuidadosa, postura coletiva firme.
Aqui já é possível falar, sem exagero, no fenômeno Madrigal
Renascentista. Um coro que lotava salas, atraía imprensa, mobilizava
instituições e circulava com apoio oficial. Um grupo jovem que, em pouco tempo,
passou a representar uma ideia de excelência possível, construída com trabalho,
disciplina e convicção artística.
O Sul foi, nesse sentido, um espelho. Ali, o Madrigal se viu refletido pelo olhar do público e confirmou algo que já se desenhava: o coro não era apenas bem-sucedido. Ele era necessário.
No próximo post, atravessamos a fronteira. A Argentina entra
em cena — e, com ela, um outro nível de articulação entre música, imprensa e
diplomacia.
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