sábado, 31 de janeiro de 2026

1959 - o Madrigal Renascentista vai ao Sul (3) ou O disco possível

 (Esse post é sequência da publicação do dia 24/01/26)

No meio da excursão de 1959, entre concertos lotados, compromissos diplomáticos e deslocamentos contínuos, o Madrigal Renascentista realizou algo que, à época, já era um feito raro: gravou um disco. O LP foi registrado pela Chantecler, escolhida pelo próprio coro após disputa com outras gravadoras. Não se tratava apenas de uma decisão comercial, porque gravar significava fixar uma sonoridade, deixar um vestígio material de um grupo que, até então, existia sobretudo na experiência ao vivo: efêmera, intensa e irrepetível.

Segundo os registros jornalísticos da época, foram necessárias apenas cinco horas de estúdio para gravar 24 faixas. O dado impressiona e diz muito sobre a disciplina do grupo, mas também aponta para as limitações do processo. Não havia tempo para longos testes, nem para uma busca minuciosa de equilíbrio acústico. A gravação aconteceu como podia acontecer naquele contexto: rápida, funcional, direta.

Anos depois, Isaac Karabtchevsky foi severo ao avaliar esse registro. Em sua autobiografia, afirmou que o disco não refletia a real dimensão do Madrigal, considerando-o tecnicamente precário. Talvez haja aí um rigor excessivo, típico de quem conhece intimamente o que foi possível ouvir ao vivo. Ainda assim, a crítica não é descabida.

O LP apresenta diferenças claras de equalização entre as faixas, o que sugere um trabalho feito sem condições ideais de estúdio e, possivelmente, sem técnicos especializados na gravação de conjuntos corais. À época, gravar coro não era prática comum, nem prioridade comercial. Os estúdios eram pensados para pouca reverberação, o oposto do que favorece vozes em conjunto. O resultado sonoro carrega essas marcas.

Mas há algo que o tempo não apagou. Mesmo com limitações técnicas, o disco permite ouvir a qualidade alcançada pelo Madrigal apenas dois anos após sua criação. Permite reconhecer o equilíbrio vocal, a clareza de emissão e a musicalidade coletiva. E mais: preserva vozes que se tornariam centrais na história musical brasileira, como as de Maria Lúcia Godoy e Amin Abdo Feres, ainda jovens, ainda em formação.

A capa do LP também se tornou emblemática. A imagem do coro na escadaria interna do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, sob regência de Karabtchevsky, passou a circular como símbolo de uma época. O disco, mesmo imperfeito, tornou-se referência para gerações de músicos e coros no Brasil.

Talvez seja esse o ponto mais importante: o LP de 1959 não é o retrato ideal do Madrigal. É o registro possível. E, justamente por isso, é precioso. Porque guarda não apenas um som, mas um momento da história em que cantar junto já era, por si só, um gesto de afirmação cultural.

No próximo post, seguimos viagem, agora para o Sul do Brasil, onde o Madrigal começa a ser tratado não mais como promessa, mas como fenômeno.

🎧 MADRIGAL RENASCENTISTA - segundo lp. completo 1959 - SÉRIE RELÍQUIAS - acervo PEDRO l. BRASIL


Foto tirada na escadaria interna do Theatro Municipal de São Paulo (1959)

 
 Foto tirada logo após a foto do disco. A identificação dos cantores só foi possível graças à ajuda de um dos cantores da época, o querido João Gomes Oliveira. De baixo para cima, da esquerda para a direita:
1-Anna Maria Godoy, Maria Amália Martins, Evandro Lopes.
2-Waldemira de Oliveira, João Gomes de Oliveira.
3-Nélio Abreu, Terezinha Miglio, Maria Lúcia Godoy, Hilda Soares Fonseca, Alba Guimarães e Neyde Lambert.
4-Desconhecido, Desconhecida, Rosa Alice Godoy, Carmen Lúcia G. Batista, Amin A. Feres, Maria do Carmo Dolabella, Cláudio de Castro.
5-Esposa do Sr. Romeo Godoy, Maria Amélia Martins, Zinda de Oliveira Santos e Bete Godoy.
6-Sr. Romeo Godoy, Isaac Karabchevsky, Roberto de Castro e Esposa.
AUSENTES NA FOTO: Francisco Magaldi, Tarcísio Fiuzza, Jonas Travassos, Edival Trindade.

 

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