Cheguei a Timóteo em 1992, por convite do maestro Luciano Lima. Naquele momento, eu era regente do Madrigal Scala e ainda aluno do curso de regência da Escola de Música da UFMG. Não era alguém “pronto”, mas alguém em formação, aprendendo enquanto fazia.
Timóteo, à época, era Acesita, não como figura de linguagem,
mas como realidade social. A empresa organizava o ritmo da cidade, o trabalho,
os vínculos, os afetos. O Coral Acesita refletia isso: formado por membros da
comunidade, funcionários e externos, mas todos, de algum modo, atravessados
pela mesma identidade coletiva.
A ideia de coro que existia ali era clara e legítima para
aquele contexto: uma atividade cultural, um espaço de lazer, uma vontade de
fazer música sem grande compromisso com uma disciplina coral mais rigorosa.
Para a região, aquilo já era suficiente e o coro cumpria seu papel,
representava bem a empresa e a cidade, e ninguém sentia falta de algo além
disso.
Minha chegada se deu num momento delicado. Eu substituía a
Cristina Grossi, assistente do regente titular Luciano Lima e muito querida por
todos. Cristina precisou se afastar porque estava grávida e a viagem até o Vale
do Aço era, e é, muito cansativa.
Fui recebido com aquele olhar mineiro típico: educado,
silencioso, atento, um “quem é esse?” dito sem palavras. A diferença entre mim
e o trabalho que já existia não estava em ideias abstratas, mas no ensaio.
Sempre acreditei que o ensaio é o verdadeiro lugar de transformação de um coro.
Falo pouco, deixo que cantem mais. Busco harmonia entre todos, atenção à
afinação, cuidado com a interpretação e, sobretudo, um aumento da autoestima
coletiva. Acredito no fazer bem porque é possível, não porque alguém mandou.
O Luciano ensaiava um dia da semana, eu em outro. Tínhamos
formas distintas de trabalhar. De um lado repertórios mais acessíveis; de
outro, menos fala, mais exigência, mais desafio. O episódio que marcou essa
virada foi a apresentação no fim daquele ano, quando propusemos cantar o Credo
de Vivaldi. Mesmo com a incredulidade de muitos, disse que cantariam, sim.
Organizei o ensaio, sustentei tudo ao piano, trabalhei com método e confiança e eles cantaram. Ali não foi nenhum gesto heroico, mas, sim, um gesto pedagógico.
A partir dali, passou a fazer sentido a ideia de que aquele
coro podia mais do que imaginava. A mudança foi coletiva e, um ano depois, o
Coral Acesita já era assumido como um importante cartão de visitas da empresa,
convidado para apresentações em toda a região e, em determinado momento, vindo
cantar em Belo Horizonte e outras cidades do país.
O coro deixou de ser apenas um espaço de lazer para tornar-se um
espaço de expressão e de exigência. E exigência, quando vem acompanhada de
cuidado, gera orgulho. O momento em que eles conseguiram cantar algo que
parecia difícil, mas para o qual haviam se dedicado, foi decisivo. Ali se
afirmaram como músicos, mesmo sem formação formal.
Hoje, olhando para trás, penso que a transformação maior não
foi do coro, mas das pessoas. Se aquele grupo tivesse permanecido apenas como
uma atividade cultural dentro de uma empresa, teria sido apenas isso: um coro
que apresentava pequenas peças para a comunidade. O que se ganhou ali foi outra
coisa: a experiência de que o esforço coletivo pode revelar capacidades que
ninguém imaginava possuir.
Para mim, ficou uma amizade profunda por uma turma muito boa, muito alegre, e a confirmação de algo que nunca abandonei como regente: ser “teimoso”. Isso, no melhor sentido da palavra, é acreditar nas pessoas antes que elas acreditem em si mesmas.
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