No período de pesquisa na Argentina, depois de Mendoza, onde tudo parecia mais concentrado em aulas, universidade e trabalho direto com estudantes, fomos para a região de Córdoba, que se abriu em círculos mais largos. Vários compromissos, claro, mas havia também estrada, comida, amigos, coros pequenos, pueblos serranos, conversas de mesa e música acontecendo sem pedir licença.
Lá, eu conheci, no dia 1º de maio, o locro. Para quem não conhece, locro é um prato feito com milho, feijão, carnes e temperos, muito comum na Argentina em datas cívicas e encontros comunitários. Ali entendi um pouco melhor o ajuntamento e a hospitalidade argentinos. Imaginem umas 2000 pessoas em um lote de uns 1000 m2. É algo assim. Pode parecer exagero, mas eu juro que não é. E ainda acham espaço para bailar suas danças folclóricas.
Antes que a semana começasse, o fim de semana nos levou a uma viagem pelas serras de Cordoba. Valle de Rosas, San Javier, Salsipuedes, Unquillo, nomes que eu não carregava antes e que agora ficam presos a imagens: estrada, montanha, feira no caminho, cabana, silêncio de pueblo, assado com amigos, conversa sem pressa. Assado, na Argentina, também não é simplesmente churrasco, é um ritual doméstico e social. Tem fogo, espera, carne, conversa, tempo comum. E quando há música por perto, tudo se mistura com naturalidade.
E ao longo da semana, tivemos o contato com a Universidade de Córdoba, essa instituição que é uma das mais antigas da América Latina e que nos recebeu num dia agitado de estudantes se mobilizando contra cortes e falta de repasses por parte do governo atual do país. Ali, participar de uma aula, conversamos sobre possibilidades de intercâmbio, pensamos, dentro das nossas limitações, em caminhos futuros entre Brasil e Argentina: uma semente. Como não tínhamos poder decisório, nada se resolveu, mas alguma coisa fica plantada e vamos ver o que virá...
Depois veio Unquillo, uma charla, palavra que os argentinos usam para conversa, palestra ou encontro de fala mais livre. Confesso que tinha uma expectativa maior do que aquilo que de fato aconteceu. Eu esperava a presença de mais regentes locais e eles não vieram como eu imaginava. Isso frustra, porque a gente prepara uma fala pensando num determinado interlocutor. Mas o coro estava lá e só o trabalho com ele valeu a pena.
Às vezes, a viagem ensina isso: a gente prepara uma ponte para algumas pessoas, mas quem atravessa são outras. O trabalho não se perde por isso. Apenas muda de direção.
Lívia brilhou nesses encontros. Vi isso em Mendoza e voltei a ver em Córdoba. Ela se coloca muito bem nos espaços de transmissão. Fala com clareza, canta com verdade, organiza o pensamento sem endurecer a música. Foi bonito acompanhar esse crescimento dela dentro da própria viagem.
Nem tudo, porém, foi leve. A certa altura, o cansaço começou a cobrar seu preço e uma viagem longa tem esse ponto de virada. Primeiro, tudo é descoberta, depois, tudo continua sendo descoberta, mas o corpo já não responde com a mesma generosidade. A paciência encurta, a bagagem pesa e a atenção oscila. Uma apresentação pode não sair como deveria, uma escaleta pode não ajudar, uma fala atravessada pode virar discussão... Isso também fez parte de Córdoba.
Não quero transformar a viagem em cartão-postal. Seria falso. Houve beleza, mas houve desgaste. Houve acolhimento, mas houve limite. Houve música boa, mas também houve dias em que a música precisou atravessar o cansaço.
Em Salsipuedes, o nome já parecia uma provocação. “Sai se puder.” E, de algum modo, foi isso mesmo. O lugar foi nos prendendo não pela grandiosidade, mas pela delicadeza dos vínculos. O ensaio com o Coro Municipal da cidade abriu uma dessas portas inesperadas. Tocar Dirait-on, de Morten Lauridsen, com um coro desconhecido, numa noite das serras de Córdoba, depois de um dia difícil, teve algo de inesperado e especial.
E ainda tivemos tempo para um sarau: músicos que não se conheciam, repertórios se encontrando, uma casa aberta, empanadas e uma alegria sem solenidade. Foi como uma despedida sem se anunciar como despedida. Casa de Suzana e Jorge (Duo Cadencia), amigos reunidos, comida, música, conversa. Esses encontros são assim: na hora parecem apenas bons momentos; depois, quando a viagem já ficou para trás, revelam que eram o centro de tudo.
Córdoba, para mim, foi menos uma sequência de compromissos e mais uma experiência de convivência. Atividade constante, cansaço, mas um lugar que eu retornaria sem problemas. A universidade, os coros, as charlas, os ensaios, o locro, o assado, o sarau, as serras, a casa dos amigos. Tudo entrou no mesmo aprendizado. O intercâmbio musical não acontece apenas quando assinamos acordos, damos aulas ou fazemos concertos. Ele acontece também quando se aceita o tempo do outro, quando se escuta uma cidade menor, quando se come o que nos oferecem, quando se toca com pessoas que até ontem não existiam em nossa vida.
E foi mais ou menos assim: Mendoza me fez pensar no trabalho em deslocamento; Córdoba me fez pensar na música como convivência.
João Gomes: Parabéns Maestro, importante relato. As vezes é assim, de onde menos se espera a expectativa é satisfeita por caminhos diversos, mas verdadeiros. É a Cavalarial Rusticana.
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