Tenho revisto muitos programas, fotografias, listas de cantores e anotações antigas para escrever este blog. É curioso como quase nunca consigo olhar para esses materiais apenas como documentos. Uma fotografia me leva imediatamente a um tempo, às pessoas que estavam ali, ao repertório que fazíamos, às relações que existiam, às circunstâncias de uma apresentação. E, inevitavelmente, me faz pensar também no que tudo aquilo deixou no maestro e na pessoa que sou hoje.
Talvez por isso eu tenha pensado no coro como um lugar de memória.
Isso é particularmente evidente quando se trata de um coro longevo. Um grupo criado para um projeto específico também produz suas memórias: ficam a experiência da instituição que o criou, os resultados alcançados, os erros, os acertos, as relações estabelecidas naquele período. Mas um coro que atravessa muitos anos acumula outra quantidade de coisas. São as estradas, as pessoas e suas relações, os repertórios, as diferentes formações, os concertos que deram muito certo e aqueles que não deram, as viagens, os ensaios, os imprevistos e as aventuras que cercaram cada apresentação. Com o tempo, tudo isso forma um emaranhado de experiências, aprendizados e pertencimentos que participa daquilo que poderíamos chamar de personalidade do coro.
Essa memória está espalhada por muitos lugares. Está nos programas, nas fotografias, nas gravações, nas partituras anotadas e nos documentos que conseguimos guardar. Está também nas histórias que contamos. Mas uma parte importante dela está nas próprias pessoas e na maneira como trabalham juntas.
Quando um cantor novo chega a um coro que existe há muito tempo, ele percebe muito rapidamente como aquele grupo funciona. Aprende com os antigos o jeito de ensaiar, de ouvir, de reagir ao gesto, de se relacionar musicalmente com os demais. Costumo dizer que isso acontece por uma espécie de osmose. Não há nada de misterioso nesse processo. Para ingressar num conjunto já desenvolvido, o cantor precisa ter condições técnicas e musicais de participar dele e, portanto, chega trazendo uma experiência construída em outros lugares. Há também alguma afinidade necessária entre sua personalidade e a do grupo. Ele aprende com o coro, mas o coro também começa a ser modificado por sua presença.
Por isso gosto de pensar no coro como um organismo vivo e, ao mesmo tempo, como um instrumento. Um instrumento bastante peculiar, porque suas peças estão sendo continuamente substituídas. Algumas pessoas permanecem durante muitos anos; outras passam por períodos menores; novas vozes chegam. A sonoridade se modifica, as relações se reorganizam e as possibilidades técnicas podem aumentar ou diminuir. Apesar disso, alguma coisa permanece reconhecível.
O repertório é uma das situações em que percebo isso com mais clareza. Quando remontamos uma obra depois de muitos anos, nunca começamos realmente do zero. O tempo costuma ser um bom amigo nessas remontagens. Muito do esforço empregado na primeira preparação ficou arraigado na técnica do coro, mesmo que boa parte dos cantores daquela época já não esteja presente. Os que viveram a experiência anterior trazem lembranças musicais e também as histórias ligadas àquela obra. Os que chegaram depois recebem tudo isso e acrescentam sua própria experiência. A peça retorna, mas encontra outro coro.
E ainda bem que é assim. Se a memória servisse apenas para conservar uma determinada maneira de cantar, ela acabaria impedindo o grupo de se transformar. O que me interessa é justamente o contrário: aquilo que permanece torna possível fazer diferente. Uma remontagem pode ser tecnicamente mais rápida e, ao mesmo tempo, musicalmente muito distante da anterior. Entre uma interpretação e outra houve outros repertórios, outros cantores, outros regentes convidados, outros erros e descobertas. Houve tempo.
Nem tudo permanece, naturalmente. Pessoas vão embora, histórias deixam de ser contadas, documentos se perdem. Algumas experiências desaparecem com aqueles que as viveram. Isso não é uma particularidade dos coros. É como tudo na vida. Mas escrever este blog tem me mostrado com bastante clareza a quantidade de coisas que ficam.
Ao rever esses materiais, não estou apenas reconstruindo a história dos grupos que regi. Também encontro versões anteriores de mim mesmo. Algumas decisões ainda reconheço como minhas; outras provavelmente tomaria de maneira diferente. Certas preocupações desapareceram, outras continuam exatamente no mesmo lugar. Há experiências que hoje consigo compreender de uma forma que não conseguiria quando aconteceram.
Nesse sentido, a memória de um coro não pertence somente ao passado. Quando volto a ela, inevitavelmente penso no presente e no que ainda posso fazer no futuro.
Um coro longevo carrega as pessoas que passaram por ele sem permanecer igual a nenhuma delas. Talvez eu possa dizer o mesmo de um maestro.
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