quinta-feira, 25 de setembro de 2025

O Madrigal em registros sonoros - Memória que se ouve

Se contar um pouco da história do Madrigal Renascentista é importante, mais ainda é poder ouvir essa história. Até 1965, o coro deixou gravado um conjunto significativo de peças que, felizmente, chegaram até nós. São documentos sonoros que nos dá uma ideia do som daquele coro. Daquele porque o Madrigal mudou ao longo do tempo, e, consequentemente, sua personalidade sonora também.

Essas gravações estão reunidas no canal que mantenho no YouTube:

👉 https://www.youtube.com/@maestroarnon/videos

Não são apenas lembranças: tratam-se de fontes históricas que ajudam a compreender o percurso do Madrigal em seus primeiros anos. Cada registro carrega marcas de estilo, de escolhas artísticas e da forma como o coro se afirmava no cenário cultural brasileiro.

Vale insistir: sem esses documentos, muito desse percurso ficaria perdido. Torná-los acessíveis é, ao mesmo tempo, preservar a memória e oferecer material para novas leituras e pesquisas.

Vale a exploração dessas gravações e a escuta não apenas a música, mas também a percepção do contexto que ela carrega. É memória viva, disponível para todos.

 


👉 No próximo post, retomaremos a narrativa da excursão de 1958, começando por Portugal, a primeira etapa dessa viagem.

 


quarta-feira, 24 de setembro de 2025

O Madrigal na Europa (1958) - Quando a música vira diplomacia

Em 1958, apenas dois anos após sua estreia em Belo Horizonte, o Madrigal Renascentista embarcou em sua primeira excursão internacional. O itinerário foi impressionante: Portugal, Espanha, França, Bélgica, Holanda, Suíça, Alemanha e Itália. De Minas Gerais para a Europa, um coro ainda amadurecendo em sua proposta artística se apresentava em alguns dos principais centros culturais do velho continente.

Não se tratava apenas de música. O Brasil vivia os anos do governo JK, marcados pelo desejo de mostrar ao mundo um país moderno, dinâmico e culturalmente sofisticado. O Madrigal, com sua qualidade musical e repertório refinado, encaixava-se perfeitamente nessa imagem.

Essa excursão de 1958 foi, na prática, um ato de diplomacia cultural: a música usada como cartão de visitas, como ponte entre nações. Cada concerto funcionava como afirmação de que o Brasil podia dialogar de igual para igual no cenário internacional, levando uma mensagem de cultura e modernidade.

Por trás desse feito, havia circunstâncias concretas: o apoio do governo, as conexões culturais de Minas, a mediação de instituições como a Pró-Arte, tudo isso foi determinante. Não se pode ler a história como mero triunfo espontâneo: havia talento, mas também contexto político e redes de poder que abriram caminhos.

O Madrigal Renascentista consolidava-se, assim, como símbolo de um projeto de país. A música atravessava fronteiras, mas também carregava consigo a representação de um ideal político e cultural.

São muitas as informações e detalhes dessas viagens, mais do que caberia registrar num espaço de blog. Por isso, mais uma vez, convido os leitores a baixarem o livro O Coro do Brasil: o Madrigal Renascentista, no link o_coro_do_brasil_o_madrigal.pdf, onde essa história é contada de maneira mais ampla.

 

 

Madrigal em Portugal (1958)


👉 Nos próximos textos, quero trazer episódios específicos dessa excursão e refletir sobre o que ela significou: para o Brasil que buscava se afirmar no exterior e para o conceito de diplomacia cultural que guiava esse movimento.

 

 


terça-feira, 23 de setembro de 2025

JK, Clóvis Salgado e o Madrigal

Quando a política encontra a música

No dia 11 de janeiro de 1957, véspera da apresentação no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o Madrigal Renascentista viveu um daqueles momentos que mudam a trajetória de um grupo. Foram recebidos no Palácio do Catete pelo presidente Juscelino Kubitschek. Foi a primeira vez que JK ouviu o Madrigal e os jovens, que foram apresentados a ele pelo então Ministro da Educação e Cultura, Clóvis Salgado.

Na mesma viagem, surgiu também o primeiro convite para uma excursão à Europa, feito por um representante da Pró-Arte, do Rio de Janeiro. Entusiasmado com a apresentação do coro, ele propôs uma temporada no exterior, lembrando a visita recente de um grupo vocal catalão ao Brasil. O comentário foi categórico: o Madrigal poderia se apresentar em qualquer parte do mundo artístico sem ficar devendo a nenhum conjunto similar. E isso, de fato, aconteceu em 1958, quando o Madrigal Renascentista fez a sua primeira excursão à Europa

É importante notar que esse encontro não aconteceu no vazio. Além do talento musical, havia também a inserção do grupo em círculos influentes da política e da cultura mineira, conexões que abriram caminhos. O apoio de JK foi decisivo, mas não no sentido simplista de que “o Madrigal só existiu por causa dele”. O que houve foi um jogo mais complexo: de um lado, um presidente hábil em usar a cultura como símbolo de modernização; de outro, um coro jovem, disposto a encarnar esse ideal e a se tornar representante da cultura brasileira.

Isaac Karabtchevsky lembra assim em um trecho do seu livro:

“O Juscelino era muito identificado com o coro. Lembro da gente fazendo serenata para ele, cantando ‘É a ti flor do céu’ e diversas canções do folclore mineiro. Foi ele que patrocinou, por intermédio do Ministério das Relações Exteriores, várias turnês internacionais do Madrigal. No governo JK nós viajamos para o Uruguai, a Argentina, o Chile, os Estados Unidos e a Europa. Também percorremos o Brasil.” (Karabtchevsky, O que é ser maestro. Record, 2003, p. 30)



 Madrigal Renascentista em 1957. (Acervo Madrigal Renascentista)


👉 No próximo post, falarei um pouco sobre essa excursão do coro e aquilo que muito me interessa nessa pesquisa: o conceito aplicado de diplomacia cultural.

 


segunda-feira, 22 de setembro de 2025

A força de vontade da juventude - Quando o impossível parece natural

O primeiro concerto do Madrigal Renascentista aconteceu em 2 de fevereiro de 1956, no auditório da Sociedade Mineira de Engenheiros, em Belo Horizonte. Jovens ainda, alguns quase iniciantes, reunidos mais pela paixão pela música do que por um projeto estruturado, apresentaram-se em público e, para surpresa de muitos, foram recebidos com entusiasmo. Havia ali um frescor sonoro, uma energia coletiva e uma novidade que ultrapassavam o simples “ajuntamento” de estudantes.

Em meio àquela vibração, Karabtchevsky disse a frase que ficou como marco: “No próximo ano, estaremos no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.” À primeira vista, podia soar como um exagero juvenil, mas não demorou para que se tornasse realidade. Em pouco tempo, o Madrigal estava no palco mais prestigiado do país, cumprindo uma profecia que parecia impossível.

É claro que esse feito não se deve apenas à ousadia da juventude ou a um grande talento musical. Esses jovens circulavam em ambientes influentes da cidade, próximos a famílias e instituições que tinham peso na vida cultural mineira. Isso abriu portas, favoreceu convites, acelerou processos. O sonho se realizou também porque encontrou terreno fértil nas redes de sociabilidade e nos espaços de poder.

A lição que fica é dupla: de um lado, a força de vontade da juventude, que acredita e arrisca sem medir tanto os obstáculos; de outro, a consciência crítica de que a arte também se move em meio a estruturas sociais, privilégios e conexões que influenciam seu alcance. O Madrigal nasceu justamente nesse cruzamento entre ideal e realidade, entre sonho e circunstância.

 

O Madrigal no Municipal do Rio, em 1957.


👉 Nos próximos textos, vou falar sobre esses primeiros passos, que levaram o coro a conhecer JK e Clóvis Salgado, aqueles que pensaram o Madrigal como uma referência cultural e diplomática.

 


domingo, 21 de setembro de 2025

A fundação de um coro (Madrigal Renascentista)

 Revisitar o Madrigal Renascentista é como voltar a um ponto de origem. Sua história começa em 1956, quando um grupo de jovens, movidos pelo entusiasmo da música e pela força de um tempo em transformação, deu corpo a um coro que logo ultrapassaria os limites de Belo Horizonte.

Era um Brasil que respirava modernização, mas também tensões políticas. Em Minas, a vida cultural se agitava: universidades se expandiam, teatros se consolidavam, grupos artísticos nasciam com o impulso de afirmar uma identidade própria. Foi nesse ambiente que surgiu o Madrigal, trazendo o nome Renascentista como um manifesto de estética e de visão de mundo.

O livro descreve esse início como um gesto coletivo, mas também como fruto da liderança de jovens regentes e cantores que começaram, mineiramente, quase por acaso, ali na casa de Carlos Alberto Pinto Fonseca, solfejando coletivamente, polifonicamente, algumas peças renascentistas que ele, Isaac Karabtchevsky e Carlos Eduardo Prates estavam descobrindo nas aulas com Koellreutter em São Paulo. Na conjunção com Maria Lúcia Godoy, Malinha e Melinha, Terezinha Miglio e outros não menos importantes, perceberam que aquilo era mais do que um simples ajuntamento e se propuseram a uma apresentação. Coisas que a juventude permite sem grandes preocupações. Não demorou muito para acreditarem que a música coral poderia ocupar um espaço de protagonismo no cenário belorizontino, mineiro e brasileiro. Depois, veio a Europa...

Uma bela história que, eu acredito, merece ser lida porque ajuda a entender não apenas a gênese de um grupo, mas também a atmosfera de uma cidade e de um país. O Madrigal Renascentista nasceu pequeno, mas nasceu com vocação de grandeza: era, ao mesmo tempo, o ensaio de uma obra e o esboço de uma política cultural.


 Cantoras fundadoras do Madrigal Renascentista. Da esquerda para a direita: Carmen Lúcia Gomes Batista; Clementina Lima Costa; Maria Lúcia Godoy; Yeda Prates Octaviani Bernis; Norma Augusta Pinheiro Graça; Ana Maria Godoy; Alda Perilo; Lúcia Amélia Prates; Lucíola Teixeira de Azevedo; Maria Amélia Martins, Maria Amália Martins e Terezinha Miglio. (Acervo Madrigal Renascentista)

👉 Ao longo dos próximos textos, trarei muito dessa pesquisa sobre o Madrigal e sobre o movimento coral em Belo Horizonte. Mas também abrirei espaço para outros cenários que merecem atenção. Vamos ver...

 E quem não viu o post anterior, o livro está aqui: o_coro_do_brasil_o_madrigal.pdf

sábado, 20 de setembro de 2025

O Madrigal Renascentista - um coro que virou história

Se ontem falei da música como instrumento de diplomacia cultural, hoje é hora de aproximar o foco e olhar para um protagonista desse processo: o Madrigal Renascentista, coro que nasceu em Belo Horizonte, em 1956, e que se tornaria um dos mais importantes cartões de visita culturais do Brasil nas décadas de 1950, 60 e 70.

Fundado em meio a um ambiente de efervescência artística e institucional, o Madrigal se destacou não apenas pelo nível musical refinado, mas também pela capacidade de dialogar com projetos políticos e diplomáticos. Era um coro que, ao mesmo tempo em que cantava obras do Renascimento e da modernidade, representava o país em palcos internacionais, levando consigo uma imagem de sofisticação cultural e de modernidade brasileira.

Esse protagonismo se deve, em parte, a figuras centrais como o jovem regente Isaac Karabtchevsky, que começava sua carreira e encontrou no Madrigal um espaço de experimentação e afirmação, e a soprano Maria Lúcia Godoy, cuja presença cativante levou a música brasileira e internacional a plateias diversas, tornando-se um dos rostos mais visíveis da arte mineira naquele período.

O reconhecimento desse papel se reflete também nos registros escritos. O primeiro livro dedicado ao Madrigal Renascentista já apontava a relevância do grupo no contexto cultural mineiro e nacional, reunindo memórias, depoimentos e análises que ajudam a compreender como um coro de jovens pôde alcançar tamanho protagonismo. Na minha sequência de pesquisas, penso que revisitar esse livro hoje é essencial porque ele nos oferece um retrato da época e, ao mesmo tempo, abre caminhos para novas perguntas e novas leituras.

Nas próximas postagens, quero explorar alguns trechos dessa obra, dialogando com documentos de arquivo e com minhas próprias impressões de pesquisador. Mais do que contar uma história, trata-se de revisitar e refletir sobre uma memória viva, que ainda ecoa nas partituras, nos relatos e, sobretudo, nas pessoas que participaram dessa trajetória.

 


📖 Para aqueles que quiserem, o livro está disponível em: o_coro_do_brasil_o_madrigal.pdf

 


sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Diplomacia cultural e o Madrigal Renascentista - quando a música se torna embaixadora

Um dos motivos de eu estar aqui, em Portugal, é entender cada vez mais o alcance daquilo que chamamos de diplomacia cultural. Em linhas simples, trata-se do uso da cultura — música, literatura, artes, esportes — como ferramenta de aproximação entre povos e como representação oficial de um país diante do mundo. Não é apenas intercâmbio artístico: é política feita por meio da arte. Basta olhar para a história recente para percebermos como a música foi usada como cartão de visitas de muitos governos, sobretudo em períodos mais duros da política.

Há tempos pesquiso sobre o movimento coral em Belo Horizonte, e o Madrigal Renascentista se tornou um objeto dessa investigação não só pela sua importância no cenário da música coral de câmara, mas também pela sua representação como cartão oficial de visitas de um país: um grupo de vozes que carregava, para fora das fronteiras, uma imagem de civilização, sensibilidade e refinamento cultural. Era como se cada concerto fosse uma carta de apresentação do Brasil ao mundo.

 Portugal, nesse contexto, foi um destino recorrente. Sempre bem acolhido, o coro encontrava aqui não apenas plateias, mas também uma ligação histórica e simbólica. Afinal, apresentar-se em Portugal significava reforçar laços, revisitar origens e, de certo modo, mostrar um Brasil que buscava afirmar-se no cenário internacional.

 Entender um pouco desse país e do momento político em que essas apresentações aconteceram é essencial para compreender o que realmente se buscava nessas viagens. Não se tratava apenas de música, era diplomacia em forma de canto.

 Este será um dos fios que pretendo puxar ao longo dos próximos textos: como a música coral brasileira, e em especial o Madrigal, atuou como ponte entre culturas, povos e governos. E como, por trás dos aplausos e das partituras, se desenhava também uma estratégia de presença internacional.


(Foto: Madrigal Renascentista em apresentação em Portugal em 1958)

 

👉 No post de amanhã, falarei um pouco mais sobre o Madrigal Renascentista e de um primeiro livro que trata de sua história, costurando memórias e documentos para entender como esse coro se tornou símbolo de um tempo e de uma política cultural.

 



quinta-feira, 18 de setembro de 2025

UM RECOMEÇO


Olás!!! Depois de um bom tempo de silêncio, volto a abrir este espaço de escrita, agora em um novo tempo da minha vida. O blog nasceu, anos atrás, da vontade de registrar, partilhar e refletir sobre a música, os coros, os encontros e até os desencontros que a vida foi trazendo. Durante muito tempo, as histórias do Madrigale ocuparam quase todo o espaço por aqui. Hoje, continuo trazendo a música como centro, mas o blog não será apenas sobre um coro, um grupo ou um período. Será sobre a travessia...

Escrevo de Portugal, onde vivo um novo ciclo de estudos e de vida. Ando cercado de vozes, partituras, arquivos e também de histórias antigas que parecem querer se reencontrar comigo. Ao mesmo tempo, carrego comigo o Brasil, as lembranças de tantos concertos, os amigos de estrada e essa teia invisível que a música sempre cria entre nós.

Quero que este blog seja um pouco de tudo: espaço de memória, diário de bordo, janela para o que ando pesquisando e também para o que me atravessa como pessoa. Nem sempre falarei de música; às vezes será apenas um pensamento, uma paisagem, uma lembrança. Outras vezes, será uma obra comentada, um compositor revisitado, um concerto compartilhado.

Acredito que escrever é, também, reger palavras: dar-lhes tempo, respiro, intensidade. Sendo assim, espero seguir regendo ideias e sentimentos, na tentativa de manter viva a chama da música e da reflexão.

Seja bem-vindo(a) a este recomeço.




quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Sobre um concerto Renascentista

Regi o Coro Madrigale em um concerto inteiramente dedicado à música sacra do período da renascença musical. Um concerto especial que me trouxe a vontade de escrever um pouco sobre o estilo e o que significa cantar uma música que está muito distante do nosso tempo.

A idéia, na verdade, não foi nossa, mas do pároco da Catedral da Boa Viagem, aqui de Belo Horizonte, o Padre Marcelo Silva. Ele nos sugeriu esse tema desde o princípio do ano e, eu confesso, fiquei um pouco receoso, já que entendo que as músicas daquele período são por demais funcionais e nem sempre são muito compreendidas pelo público.

Explicando: música funcional é aquela destinada a um momento (função) próprio, uma missa, por exemplo, e nem sempre é plenamente vivenciada e entendida se sai do seu contexto específico. Assim é o caso da música polifônica renascentista, do gregoriano, do ritual da pajelança numa aldeia de índios, dos cantos de congado... Ou seja, nem sempre cabem em concertos!!!

Por isso, foi necessária uma pequena contextualização, explicação, para que o público se ajustasse auditiva e espiritualmente, tendo como bom anteparo (palavra terrível) a nave da Igreja da Boa Viagem com a sua acústica perfeita para esse tipo específico de música.

Aqui cabe uma consideração sobre o fazer essa música e o que ela significa para os coros e cantores. Nem todos apreciam o estilo polifônico-modal da renascença, mas isso entra no âmbito do gosto e é inquestionável. Mas todos entendem o que essa música específica traz de benefícios e acertos para o instrumento coral, já que trata da melhor maneira de se escrever para vozes em conjunto, algo que é, constantemente, resgatado e perdido ao longo da história das composições. 

Trata-se de música feita por quem, de fato, entendia do instrumento vocal e explorava sonoridades de acordo com acústicas e momentos litúrgicos específicos. Exige conhecimento e expertise o tempo inteiro e conduz a uma inteireza de conjunto que não se consegue em outros estilos. Não que seja melhor do que os outros, mas é mais específico. Os compositores daquela época eram especialistas em coro. Simples assim.

Me lembro de um comentário feito para mim pelo meu mestre Sergio Magnani, em algum momento de minha formação, quando perguntei sobre a melhor maneira de se montar um coro. Ele disse: comece pela renascença e não haverá erro no percurso. Tinha razão o velho mestre, o que posso constatar pela minha já longa experiência coral, pois o que veio depois das primeiras experiências foi um caminho natural de progressão para os outros estilos, sempre com segurança na abordagem das novas linguagens.

Mesmo hoje, para mim, é fácil observar em alguns conjuntos a falha no conhecimento do universo horizontal da melodia, na confiança de grupo adquirida pelo passar o bastão da melodia de um para o outro, sendo, por sua vez, amparado pelo outros de maneira integral e independente. É se fazer interdependente ao invés de independente, como propõe o pensamento vertical. Resumindo: o que importa é força do conjunto.


Essa música soa fora do nosso mundo? Sim. Mas é plena quando enxergada da maneira como tão intensamente disse o Padre Marcelo no dia do concerto: é ver a música sem olhar, se entregando a ela de maneira plena, sem individualidade, entendendo para que se faz a música e, sobretudo, para quem se faz a música. Perfeito.




quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Requiem de Mozart


A certeza da morte e o entendimento da sua inevitabilidade só nos faz viver com intensidade, e a reflexão sobre esse tema, no campo da criação musical, nos deixou um legado todo especial de obras-primas, com algumas das mais belas melodias de todos os tempos.

No caso de Mozart, uma possível consciência do próprio fim conduziu à criação de cenários dramáticos de uma beleza indescritível. Se ele compôs o seu Requiem para o seu próprio funeral, ou se foi coagido a escrevê-la tendo sido assombrado por fantasmas de vida e de morte, isso não nos afeta no ato da execução da obra, mas, sim, a busca por uma recriação desse universo, pensado por ele, dentro da perspectiva do nosso tempo e de nossas experiências.

E por que os músicos têm tanto interesse nessa obra do compositor vienense? Porque é bela? Porque é popular? Porque emociona? Porque é um desafio de execução e interpretação? Porque é uma fonte inesgotável de aprendizados técnicos musicais? Porque nos convida a reflexões acerca da vida e da morte? Sem dúvida, a resposta é uma junção de todos esses elementos.

As interpretações do Requiem são muitas, e mesmo as desse maestro se modificam com o passar do tempo já que o percurso de vida modifica intensamente a maneira de pensar a música. A desse ano foge, eu diria, do princípio escatológico, pois foi precedida do estudo e execução de um outro Requiem, o de Brahms, uma composição que celebra a vida, mesmo que tendo como tema principal a morte.

Jamais penso nessa obra como uma missa de mortos, mas como uma celebração da plenitude da vida que conduz ao descanso. Esta celebração, ainda que intimista, eu tento reproduzir a partir da presença marcante do tímpano, o qual é, para mim, um solista dentro da grande obra. Quem não se emociona, sobretudo se estamos dentro de um templo, com as três primeiras batidas desse instrumento que antecedem a primeira entrada dos baixos, justamente com essa palavra mágica: Requiem (descanso)?

A consciência do pecado, tema ainda tão discutido no nosso tempo, não pode, nem deve, ser menosprezada nessa execução, pois somente com essa consciência se vislumbra o cenário operístico de pânico criado na “Sequência”, a partir do tão conhecido Dies Irae. Como não visualizar as chamas do inferno de Dante na apresentação das cordas e no timbre acentuados dos instrumentos de metal?

Mas nada tão tocante quanto, no meio de todo esse pavor, aquele canto do Recordare onde se pede ao Pai que não se esqueça de nós no momento do juízo final. E não percamos de vista a doçura mozartiana estabelecida desde o início pelo quarteto de madeiras. É certo que o pensamento original, com um corne de basseto (vale uma pesquisa para saber que instrumento é esse), é modificado timbristicamente pela clarineta moderna, mas, ainda assim, duvido que Mozart ficaria entristecido com a substituição pelos solos delicados desse instrumento.


E, finalizando, não é interessante como a perspectiva do fim do mundo ainda afeta emocionalmente o nosso tempo? Aprendi, há muito, que essa visão ainda deixa muitos de cabelos arrepiados, e, por isso, me afeta, acima de tudo, como intérprete. Mas que a celebração da vida, ainda que refletindo sobre a morte, se faça com a união estabelecida a cada ano por aqueles, músicos, cantores e público, que se juntam para essa execução do Requiem de Mozart.


Madrigal Renascentista: O senhor não precisar cantar, presidente

Em abril de 1968, o Madrigal Renascentista estava mais uma vez em Brasília. O grupo havia sido convidado para participar das comemorações do...