A Itália foi o último destino da excursão europeia do Madrigal
Renascentista em 1958. Os músicos chegaram em 9 de março, visitando Milão,
onde se apresentaram no Palácio dos Doges, seguiram para Veneza, com
concerto na Basílica de São Marcos, e depois para Florença, onde
participaram de uma audição radiofônica.
O momento mais simbólico, porém, aconteceu em 18 de
março, em Roma, quando o coro foi recebido em audiência pelo Papa Pio
XII. Para ele, cantaram a Ave Maria, de Victoria. Segundo a cantora Suzy
Botelho, o Papa se mostrou surpreso e comentou: “Nunca poderia imaginar
que em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, houvesse um coro de qualidade
como o Madrigal Renascentista.”
Com véus, tradição nas audiências papais, as cantoras do Madrigal Renascentista com Pio XII – 1958. Da esquerda para a direita: Maria Auxiliadora Lima Martins, Maria Amália Martins, Terezinha Miglio, Rosa Alice Godoy, Norma Augusta Pinheiro Graça, Ana Maria Godoy, Maria Lúcia Godoy, Papa Pio XII, Hilda Soares Fonseca, Suzy Botelho, Maria Amélia Martins, Edith Hasseck, Waldemira Oliveira, Neide Lambert e Zinda de Oliveira Santos. (Acervo Madrigal Renascentista)
Da esquerda para a direita: Francisco Magaldi, José Aurélio Vieira, Cláudio de Castro Ribeiro, Isaac Karabtchevsky, Laudelino Menezes, Papa Pio XII, Fábio Lúcio Martins, Amin Abdo Feres, Edival Trindade, Afrânio Lacerda, Gilberto Brandão, Ildeu Oliveira Santos, Wilson Bergo Duarte, Jonas Travassos. (Acervo Madrigal Renascentista)
As fotos desse encontro dizem muito. De um lado, as
cantoras, vestidas de acordo com o protocolo rígido do Vaticano: véus,
uniformes discretos, sem decotes ou adornos, saias abaixo do joelho. Algumas
sorriem, outras parecem constrangidas, numa postura cerimoniosa que imitava o
gesto do pontífice. Do outro lado, os homens: ternos escuros, mais diversidade
de expressão, Karabtchevsky em primeiro plano, encarando o fotógrafo com um
sorriso que destoava da formalidade geral.
Essa audiência não foi um concerto oficial, mas um gesto
político. O coro cantou apenas uma peça, e o peso da ocasião estava no
simbolismo do encontro, não no repertório.
No mesmo dia, o grupo cantou também na Grande Sala
Palestrina do Palácio Doria Pamphilj, sede da Embaixada do Brasil em
Roma, em concerto patrocinado pelo embaixador Adolpho Cardoso de
Alencastro Guimarães. Entre os convidados, estavam membros do corpo
diplomático, altos funcionários do governo italiano, críticos de arte e
personalidades da sociedade romana. Era a diplomacia cultural em sua forma mais
explícita: o Brasil sendo representado por vozes mineiras em um dos palcos mais
aristocráticos da Europa.
Poucos dias depois, a maior parte dos cantores voltou a
Lisboa para embarcar de regresso ao Brasil. Permaneceram em Freiburg Isaac
Karabtchevsky, Maria Lúcia Godoy e Amin Feres, que haviam conquistado
bolsas de estudo, acompanhados por Ana Maria Godoy. Ali começava um novo
capítulo na vida desses jovens músicos, ao mesmo tempo em que se encerrava a
primeira grande aventura internacional do Madrigal.
👉 No próximo post, será
hora de olhar para o todo e pensar no que essa excursão de 1958 significou:
vitrine artística, ferramenta política e marco na história da música coral
brasileira.
👉👉 Fontes no livro em: o_coro_do_brasil_o_madrigal.pdf