domingo, 5 de outubro de 2025

O coro que não cantou para mim

Há concertos que nos emocionam, e outros que nos revelam. Este texto nasceu de um desses momentos, após ouvir o muito esperado concerto de um coro que, em outro tempo, mudou minha vida... um reencontro com o passado e com o ouvido que o tempo transformou. Não é uma crítica, é uma escuta.


A igreja estava cheia.
O mesmo nome no programa, o mesmo tremor no coração, mas outra vida em mim.

As vozes começaram, e esperei o arrepio.
Ele não veio.
Veio o silêncio, e com ele, um eco distante: o jovem que eu fui, de olhos abertos e coração em brasas.

Hoje ouço com outro ouvido.
Não procuro mais o som que impressiona, procuro o som que confessa.
E o coro, afinado, limpo, impecável,
não me confessou nada.

A beleza que antes me incendiava agora repousa em mim, discreta, quase secreta.
Talvez o coro tenha mudado.
Talvez quem mudou fui eu.

Mas entre o que foi e o que é, aprendi algo simples:
o verdadeiro concerto acontece dentro da alma que escuta.

E com essa constatação, levantei-me e saí.
Frustrado? Sim. Mas com a estranha sensação de...
Completude.




sábado, 4 de outubro de 2025

O Madrigal na Europa – 1958 – Entre arte e poder (uma reflexão)

E chegamos ao fim da viagem de 1958. Foram semanas intensas, atravessando países, palcos, embaixadas e até a sala do Papa. Hoje, olhando para trás, é possível enxergar os fios políticos que envolviam o coro, mas não se pode esquecer que, para quem estava lá, a experiência tinha outro sabor. Os cantores pensavam na aventura, na convivência, na emoção de cantar em lugares históricos. O regente buscava, como qualquer jovem maestro, construir uma carreira e abrir espaços para si e para o grupo.

Se hoje falamos em representações culturais e estratégias de Estado, é porque a distância nos permite ler essas camadas. Naquele momento, o que se vivia era mais imediato: aplausos, viagens, descobertas, encontros inesperados. O Madrigal foi usado como vitrine, sim, mas não havia plena consciência disso dentro do próprio coro.

O contraste entre o presente da época e a leitura que fazemos hoje é o que mais chama atenção. O que parecia apenas um concerto em uma basílica, uma audiência no Vaticano ou um coquetel em embaixada era, ao mesmo tempo, instrumento de projeção do Brasil no exterior. Essa duplicidade, a vivência inocente dos músicos e o cálculo dos diplomatas, é talvez o traço mais revelador da excursão de 1958.

A viagem deixa claro que a música pode ser tanto espaço de criação e encontro quanto peça em engrenagens maiores, nem sempre visíveis para quem canta. O Madrigal voltou com histórias, aprendizados e portas abertas, mas também deixou registrado, ainda que de forma inconsciente, como a arte se cruza com o poder.



👉 Nos próximos textos, sigo para outros caminhos, pelo menos temporariamente, deixando o Madrigal aqui nas minhas pesquisas. Mas ele voltará...

 


sexta-feira, 3 de outubro de 2025

O Madrigal na Itália – Entre basílicas, palácios e o Papa

 A Itália foi o último destino da excursão europeia do Madrigal Renascentista em 1958. Os músicos chegaram em 9 de março, visitando Milão, onde se apresentaram no Palácio dos Doges, seguiram para Veneza, com concerto na Basílica de São Marcos, e depois para Florença, onde participaram de uma audição radiofônica.

O momento mais simbólico, porém, aconteceu em 18 de março, em Roma, quando o coro foi recebido em audiência pelo Papa Pio XII. Para ele, cantaram a Ave Maria, de Victoria. Segundo a cantora Suzy Botelho, o Papa se mostrou surpreso e comentou: “Nunca poderia imaginar que em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, houvesse um coro de qualidade como o Madrigal Renascentista.”


Com véus, tradição nas audiências papais, as cantoras do Madrigal Renascentista com Pio XII – 1958. Da esquerda para a direita: Maria Auxiliadora Lima Martins, Maria Amália Martins, Terezinha Miglio, Rosa Alice Godoy, Norma Augusta Pinheiro Graça, Ana Maria Godoy, Maria Lúcia Godoy, Papa Pio XII, Hilda Soares Fonseca, Suzy Botelho, Maria Amélia Martins, Edith Hasseck, Waldemira Oliveira, Neide Lambert e Zinda de Oliveira Santos. (Acervo Madrigal Renascentista)


Da esquerda para a direita: Francisco Magaldi, José Aurélio Vieira, Cláudio de Castro Ribeiro, Isaac Karabtchevsky, Laudelino Menezes, Papa Pio XII, Fábio Lúcio Martins, Amin Abdo Feres, Edival Trindade, Afrânio Lacerda, Gilberto Brandão, Ildeu Oliveira Santos, Wilson Bergo Duarte, Jonas Travassos. (Acervo Madrigal Renascentista)

As fotos desse encontro dizem muito. De um lado, as cantoras, vestidas de acordo com o protocolo rígido do Vaticano: véus, uniformes discretos, sem decotes ou adornos, saias abaixo do joelho. Algumas sorriem, outras parecem constrangidas, numa postura cerimoniosa que imitava o gesto do pontífice. Do outro lado, os homens: ternos escuros, mais diversidade de expressão, Karabtchevsky em primeiro plano, encarando o fotógrafo com um sorriso que destoava da formalidade geral.

Essa audiência não foi um concerto oficial, mas um gesto político. O coro cantou apenas uma peça, e o peso da ocasião estava no simbolismo do encontro, não no repertório.

No mesmo dia, o grupo cantou também na Grande Sala Palestrina do Palácio Doria Pamphilj, sede da Embaixada do Brasil em Roma, em concerto patrocinado pelo embaixador Adolpho Cardoso de Alencastro Guimarães. Entre os convidados, estavam membros do corpo diplomático, altos funcionários do governo italiano, críticos de arte e personalidades da sociedade romana. Era a diplomacia cultural em sua forma mais explícita: o Brasil sendo representado por vozes mineiras em um dos palcos mais aristocráticos da Europa.

Poucos dias depois, a maior parte dos cantores voltou a Lisboa para embarcar de regresso ao Brasil. Permaneceram em Freiburg Isaac Karabtchevsky, Maria Lúcia Godoy e Amin Feres, que haviam conquistado bolsas de estudo, acompanhados por Ana Maria Godoy. Ali começava um novo capítulo na vida desses jovens músicos, ao mesmo tempo em que se encerrava a primeira grande aventura internacional do Madrigal.

👉 No próximo post, será hora de olhar para o todo e pensar no que essa excursão de 1958 significou: vitrine artística, ferramenta política e marco na história da música coral brasileira.

   👉👉 Fontes no livro em: o_coro_do_brasil_o_madrigal.pdf

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

O Madrigal na Suíça – Quando a diplomacia fecha a porta

A temporada suíça começou em 7 de março, mas em Zurique o Madrigal Renascentista se deparou com uma realidade dura: sem o apoio da diplomacia, não havia palco. A carta da coralista Suzy Botelho, enviada ao Diário de Minas, não deixa dúvidas:

Bem, e agora estamos já nos despedindo de Zurich (sic). Aqui foi o único lugar onde nada fizemos, do ponto de vista artístico, por não termos conseguido estabelecer contatos a tempo. Procuramos o Cônsul daqui para sabermos se poderíamos fazer qualquer coisa, mas pela primeira vez durante nossa viagem à Europa, não somos bem recebidos por um diplomata. Não sei o nome dele ainda, mas vou saber. Mas foi bom que não tivéssemos compromissos, pois descansamos um pouco. Partiremos amanhã muito cedo para Milão.

Esse episódio mostra de forma clara que a chamada diplomacia cultural não é neutra nem automática. Ela depende de interesses, de vontade política, de embaixadores engajados, ou não. O coro podia ter talento e repertório, mas sem o selo da oficialidade e sem as chaves da diplomacia, sua voz não se fazia ouvir.

Até então, em cada país, a presença de embaixadores e diplomatas brasileiros havia sido decisiva. Foram eles que garantiram salas de concerto, convites de última hora, plateias qualificadas. Em Paris, por exemplo, chegou-se a articular até uma verba extra para que o coro retornasse à cidade e se apresentasse em um congresso latino-americano na Sorbonne. Ali, a engrenagem diplomática funcionava. Em Zurique, não.

O contraste é revelador. O Madrigal só existia como cartão de visitas do Brasil porque havia uma máquina política e cultural que o sustentava. Quando essa máquina falhou, restou apenas o silêncio.

 



👉 No próximo post, acompanharemos a passagem pela Itália, onde o Madrigal encerrou a excursão de 1958 e recolheu os frutos dessa longa viagem.

  👉👉 Fontes no livro em: o_coro_do_brasil_o_madrigal.pdf

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

O Madrigal na Alemanha – Freiburg e os caminhos da formação

Na Alemanha, o Madrigal Renascentista se apresentou na Staatliche Hochschule für Musik Freiburg im Breisgau e na Rádio Freiburg. A acolhida veio do maestro Arthur Hartmann, diretor da Escola Superior de Música da Universidade de Freiburg e um dos incentivadores da excursão desde o ano anterior. Houve até alguns tropeços: problemas de correspondência atrapalharam parte da programação de concertos. Ainda assim, a passagem por Freiburg acabou sendo decisiva.

Foi ali que se abriram portas para o futuro. Pouco depois, Isaac Karabtchevsky, Maria Lúcia Godoy e Amin Feres conquistaram bolsas de estudo do governo alemão para estudar na prestigiada escola da cidade. Sobre uma das apresentações, Hartmann não poupou elogios:

“O Madrigal Renascentista de Belo Horizonte, Brasil, é um conjunto que se pode comparar aos melhores europeus pela sua harmonia, seu respeito ao espírito da obra e a sua alta classe artística.”

A escolha de Freiburg tinha também um valor simbólico. Karabtchevsky buscava seguir os passos de seu mestre Hans-Joachim Koellreutter, que havia se formado justamente ali. Era como se a trajetória do regente brasileiro reencontrasse suas raízes na tradição alemã, ao mesmo tempo em que se projetava para o futuro.

Essa etapa mostra como a excursão europeia não foi feita apenas de concertos, mas também de conexões duradouras. O coro cantava, mas, ao fundo, já se desenhavam caminhos de formação, bolsas de estudo e redes de contato que marcariam a vida de alguns de seus principais integrantes.

 


👉 No próximo post, acompanharemos a passagem do Madrigal pela Suíça, o único lugar em que a diplomacia não deu certo. 

 👉👉 Fontes no livro em: https://musica.ufmg.br/selominasdesom/wp-content/uploads/sites/3/2023/05/o_coro_do_brasil_o_madrigal.pdf

 

terça-feira, 30 de setembro de 2025

O Madrigal na Bélgica e na Holanda – 1958

Depois da França, o Madrigal Renascentista chegou a Bruxelas em 27 de fevereiro de 1958. A princípio, seria apenas uma passagem, já que o coro tinha compromissos oficiais na Holanda. Mas a visita à embaixada brasileira acabou mudando os rumos. O deputado pernambucano Carlos de Lima Cavalcanti, impressionado com o grupo, organizou às pressas uma apresentação no Salon des Beaux-Arts, um dos principais centros culturais belgas da época.

Na plateia estavam críticos locais e o francês Marcel Cuvellier, presidente e fundador das Jeunesses Musicales International. O entusiasmo foi imediato. O Madrigal foi convidado a cantar no congresso internacional da instituição, que reunia músicos do mundo inteiro em Bruxelas. A soprano Maria Amália Martins se lembrava da cena com emoção:

“Eram 100 músicos de toda a Europa. De todo o mundo! O melhor pianista, o melhor cantor… E nós fomos convidados pra cantar pra eles. Pra mim foi a coisa mais impressionante que eu já vi, porque a gente estava chegando na Europa. Ninguém sabia qual recepção a gente ia ter. Foi assim uma coisa tão entusiástica… Eles fizeram a gente voltar umas 15 vezes ao palco. Exigiam que a gente cantasse… Era uma coisa impressionante, eles batiam pé, palma, não deixavam a gente sair.”

O impacto foi tanto que Cuvellier declarou: “Fiquei impressionado pela mestria e técnica de seu regente, que muitos corais europeus poderiam invejar. Sua tournée pela Europa trará a este conjunto os sucessos de que todos são merecedores.”

Da Bélgica, o coro seguiu para a Holanda, único país onde já havia um convite oficial ainda no Brasil. A agenda foi intensa: apresentações na Embaixada do Brasil em Amsterdã, na Universidade das Nações Unidas, em uma igreja presbiteriana, além de encontros com corais locais. Em Haia, foram recebidos no Instituto Cultural Holanda-Portugal-Brasil e, em Utrecht, houve recepção oficial pelo burgomestre da cidade, seguida de concerto no Centro Cultural Holandês-Hispano-americano.

Ali, a recepção mostrou-se ainda mais significativa. Não era um público desavisado, mas plateias acostumadas ao canto coral, em um país onde, como registrou Karabtchevsky em carta ao Diário de Minas, “cada lugarejo conta com quatro ou cinco corais”. O Madrigal encontrava, assim, um terreno fértil de escuta e de diálogo.

Esses episódios deixam claro como a excursão de 1958 foi marcada tanto pela música quanto pela política. A cada concerto, o coro era aplaudido como grupo artístico de alto nível, mas também se via inserido em circuitos oficiais, acolhido por embaixadas, instituições e políticos. A música servia de ponte entre povos, mas também de representação de Estado.

 


👉 No próximo post, seguiremos para a Suíça e a Alemanha, refletindo sobre como a presença do Madrigal nesses países, ainda em reconstrução no pós-guerra, reforçou seu papel como instrumento de diplomacia cultural.

 👉👉 Fontes no livro em: o_coro_do_brasil_o_madrigal.pdf 


segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Quando a fome fala mais alto que a música contemporânea

Paris, fevereiro de 1958. O Madrigal Renascentista já tinha feito bonito no concerto do Institut des Hautes Études de l’Amérique Latine: aplausos calorosos, sete “extras” pedidos pela plateia e a certeza de que a música mineira tinha atravessado o Atlântico com força. Entre os presentes, nomes de peso, inclusive um crítico brasileiro, Eurico Nogueira França, que profetizava sucesso internacional para o coro.

Mas um fato engraçado estava por vir, e aqui faço um parênteses para lembrar, ou informar, que mineiros, a exemplo dos italianos, têm um problema com os horários de alimentação. Pois, vamos lá: entre os ouvintes, ninguém menos que Pierre Boulez — maestro, compositor, pianista, escritor e já então uma das figuras mais respeitadas do mundo musical. Talvez impressionado com a apresentação, ele convidou o coro (ou alguns cantores) e o regente Isaac Karabtchevsky para uma visita à sua casa. Lá, ofereceu uma palestra sobre suas pesquisas de ponta em música eletroacústica.

Isaac não perdeu a chance: escreveu para o Diário de Minas destacando que Boulez estava “satisfeito por saber que já existia em Belo Horizonte pelo menos um grupo, pequeno, mas representativo, que compreendia e assimilava uma nova corrente na expressão musical.” Belo Horizonte, afinal, não ficava atrás de Paris.

Só que a história, contada de dentro, soa um pouco diferente. A ex-coralista Maria Amália Martins deixou registrada a cena:

“Houve um mal-entendido na conversação com o mestre francês, que entendeu ser o grupo um representante das universidades brasileiras. Ele então resolveu proferir a palestra para todos... em francês. Claro que esta foi pouco assimilada, pois todos os cantores estavam com fome e não entendiam praticamente nada do que Boulez dizia.”

E assim, o encontro histórico entre o Madrigal e o papa da vanguarda francesa ficou marcado não tanto pelo mergulho na música eletroacústica, mas pelo coro faminto tentando acompanhar, sem sucesso, uma aula que parecia em outro idioma (e era mesmo, em vários sentidos).

 


👉 No próximo post, sigo acompanhando a excursão de 1958 e como a passagem pela Bélgica e Holanda reforçou ainda mais esse papel diplomático.

 

 


domingo, 28 de setembro de 2025

O Madrigal em Paris – Entre polifonias e diplomacia

No dia 24 de fevereiro de 1958, o Madrigal Renascentista se apresentou em uma audição na Televisão Francesa. Foi um momento marcante da excursão europeia: cantar em Paris significava entrar no grande palco internacional, em uma cidade que, desde o século XIX, já era ponto de encontro entre Brasil e França.

As relações culturais entre os dois países vinham de longe. A França buscava difundir sua língua e cultura no Brasil, enquanto o Brasil enviava jovens músicos para estudar em Paris, muitas vezes apoiados por bolsas de estudo. Até a década de 1930, esse intercâmbio era feito de forma esparsa, sem uma política organizada.

Isso começou a mudar com a participação brasileira no Instituto Internacional de Cooperação Intelectual (IICI), criado em Paris em 1925. O Itamaraty nomeou Élysée Montarroyos como delegado, e ele logo percebeu o potencial da cultura como forma de projeção internacional. Em 1932, propôs a criação de um serviço voltado para essa função, o que levou ao Serviço de Expansão Intelectual, fundado em 1934. Sua lógica era clara: “judiciosamente conduzida, a propaganda intelectual de um país abre-lhe novos caminhos para sua propaganda econômica.”

Décadas depois, já na UNESCO, nomes como Luiz Heitor Corrêa de Azevedo ampliaram essa rede de contatos, promovendo artistas brasileiros e garantindo espaço para a difusão da nossa cultura. Em Paris, havia também iniciativas como o programa de rádio Aquarelles du Brésil (1957–1975), transmitido pela Radiodifusão Francesa, que apresentava semanalmente aspectos da música popular e folclórica do Brasil. E foi nesse programa que o Madrigal cantou...

A beleza da polifonia se somava, assim, à engrenagem da diplomacia. A presença do coro na Cidade Luz não pode ser vista apenas como mais um concerto de turnê: fazia parte de uma estratégia que já vinha sendo construída há décadas. Paris, com sua aura de capital cultural do Ocidente, servia de vitrine. O Madrigal cantava, mas atrás dele havia toda uma política que transformava o canto em representação.



Karabtchevsky rege apresentação na Tv Francesa (Acervo Madrigal Renascentista)


 👉 No próximo post, um respiro para mostrar que nem só de música viviam os cantores durante a excursão... uma blague envolvendo Pierre Boulez.

 👉👉 Fontes no livro em: o_coro_do_brasil_o_madrigal.pdf


 

 




sábado, 27 de setembro de 2025

O Madrigal em Madri – Diplomacia em forma de canto

O Madrigal Renascentista chegou a Madri em 13 de fevereiro de 1958. A recepção aconteceu na própria sede da Embaixada Brasileira, sob os cuidados do embaixador João Pizarro Gabizo de Coelho Lisboa, irmão da escritora Henriqueta Lisboa. Conta-se que o diplomata se comoveu ao ouvir as canções apresentadas pelo coro. Ali também estava o escritor mineiro Murilo Rubião, então chefe do Escritório Comercial do Brasil na Espanha, que anos mais tarde viria a ser presidente do Madrigal.

Nos dias seguintes, o coro se apresentou novamente nos salões da embaixada (14 de fevereiro) e realizou um concerto no Instituto de Cultura Hispânica (15 de fevereiro), seguido de um coquetel oferecido pelo embaixador (17 de fevereiro). É importante sublinhar: o centro da agenda madrilenha não foi o público comum, mas os espaços diplomáticos. O Madrigal cantava para plateias compostas por autoridades, convidados das embaixadas, representantes de governo. Isso já mostra o caráter eminentemente político da viagem.

Essa visita não pode ser dissociada das relações Brasil–Espanha no período. Na década de 1950, os dois países buscavam aproximar-se em comércio, cultura e imigração. O próprio JK, ainda antes de tomar posse, em 1956, já havia feito questão de visitar Franco e receber, em Madri, o título de Doutor Honoris Causa pela Real Academia Española. Em seu discurso, não deixou de sublinhar a afinidade estratégica entre os dois países, apoiada nos valores cristãos que Franco usava como sustentação ideológica do seu regime:

“Esta homenagem cordial e carinhosa autoriza-me a falar em nome do Brasil da simpatia e afeto que ali se sente pela Espanha, e a afirmar que nos dois países existe um ideal comum, já que temos a mesma filosofia e o mesmo sentido cristão das cousas, seguros de que assim nos salvaremos todos.”

É incômodo, mas necessário, lembrar: o Madrigal foi recebido e aplaudido dentro desse mesmo ambiente. A música servia, ao mesmo tempo, como arte e como reforço simbólico de alianças políticas. Enquanto o coro cantava polifonias, o governo brasileiro afirmava proximidade com o regime franquista.

Essa sobreposição entre beleza e política é um dos paradoxos da diplomacia cultural: o concerto pode comover um embaixador, emocionar um público, mas também legitimar um regime. É olhando para essas tensões que podemos compreender a dimensão real do que significou cantar em Madri em 1958.

 


👉 No próximo post, sigo acompanhando o Madrigal em outras paradas da excursão, refletindo sempre sobre o quanto de música e o quanto de política havia em cada apresentação.

 

 


sexta-feira, 26 de setembro de 2025

O Madrigal em Portugal – A porta de entrada para a Europa

A primeira viagem do Madrigal Renascentista à Europa começou por Portugal. Penso que há um simbolismo aí: a estreia do coro no continente se deu justamente neste país com quem o Brasil sempre manteve laços profundos, mas que vivia, então, os tempos duros da ditadura de Salazar. Pois bem, JK era amigo do ditador português...

O caminho até essa viagem teve sua história curiosa. As passagens foram conseguidas graças a Rosa Godoy, a Pitucha, que interceptou o presidente JK no aeroporto da Pampulha e arrancou dele o apoio necessário. Entre coragem e esperteza, ficou garantido que o coro cruzaria o Atlântico.

Em Portugal, o Madrigal foi bem recebido. Mas não só pelo público ou pela crítica. Houve também a recepção oficial: o coro foi apresentado ao próprio António de Oliveira Salazar. Esse encontro mostra que a excursão estava longe de ser apenas artística. A música servia também como aproximação entre governos, e não podemos esquecer o peso simbólico disso.

Outro detalhe importante: em várias cidades, as apresentações aconteceram nas embaixadas brasileiras. Ou seja, não se cantava apenas para o público local, mas também para diplomatas e convidados ligados ao governo. Fica a pergunta: quando se canta em uma embaixada, a quem se oferece a música?

Isso não diminui o valor artístico do Madrigal, mas ajuda a entender melhor a sua função naquele momento. A excursão de 1958 foi, sim, um ato de diplomacia cultural, em que arte e política se misturavam sem que fosse possível separar totalmente uma da outra.

Escrevendo de Lisboa hoje, é impossível não pensar nesse paradoxo. A música pode ser beleza e criação autêntica, mas também pode servir a interesses de regimes e governos. O desafio é olhar para essa história sem ingenuidade, tentando perceber suas várias camadas.



👉 No próximo post, sigo com a viagem e as passagens do coro por outros países da Europa, pensando cada vez mais nesse cruzamento entre música e diplomacia.

 

Madrigal Renascentista: O senhor não precisar cantar, presidente

Em abril de 1968, o Madrigal Renascentista estava mais uma vez em Brasília. O grupo havia sido convidado para participar das comemorações do...