sábado, 5 de setembro de 2026

Quando Júlio Medaglia regeu o Madrigal Renascentista

Ler documentos antigos conhecendo o que aconteceu depois cria algumas situações curiosas. Um nome que aparece quase casualmente numa notícia de jornal pode chamar imediatamente nossa atenção porque sabemos a importância que aquela pessoa alcançaria anos mais tarde. Foi o que aconteceu quando encontrei Júlio Medaglia entre os personagens da história do Madrigal Renascentista em 1966.

Naquele momento, Isaac Karabtchevsky dividia cada vez mais sua vida profissional entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro. Os compromissos cariocas aumentavam e sua presença junto ao Madrigal já não podia ser tão constante quanto nos primeiros anos. Durante uma dessas ausências, quem assumiu temporariamente a preparação do grupo foi Júlio Medaglia. Em maio de 1966, ele aparece inclusive regendo o Madrigal em um concerto realizado na Reitoria da UFMG. Visto apenas como informação de arquivo, é um episódio breve. Visto quase sessenta anos depois, ganha outra dimensão.

Medaglia tinha 28 anos. Havia estudado regência na Alemanha, com nomes importantes como Hans Swarowsky, e começava a construir uma trajetória que o colocaria no centro de alguns acontecimentos marcantes da música brasileira nas décadas seguintes. Seu nome ficaria fortemente associado à música de concerto, mas também ao diálogo com a música popular e, pouco depois, ao tropicalismo, especialmente por seu trabalho como arranjador. Em 1966, porém, nada disso estava organizado na perspectiva histórica com que hoje olhamos para sua carreira. Era um jovem maestro diante de um coro também formado majoritariamente por jovens.

O mesmo vale para Karabtchevsky. Hoje é impossível encontrar seu nome em um documento daquele período sem carregar conosco tudo aquilo que sabemos sobre a carreira que viria depois. Mas o Isaac que precisava se ausentar de Belo Horizonte em 1966 ainda estava construindo esse caminho. Maria Lúcia Godoy começava a ampliar sua atuação como solista, Affonso Romano de Sant’Anna havia passado poucos anos antes pelas fileiras do coro e também iniciava sua trajetória como escritor. Quando reunimos esses nomes, percebemos que o Madrigal não era interessante apenas pelas obras que cantava ou pelas viagens que realizava. Ele também estava inserido num ambiente em que várias trajetórias importantes da cultura brasileira se encontravam enquanto ainda estavam sendo construídas.

Gosto de pensar nisso porque a história costuma produzir uma ilusão retrospectiva. Depois que alguém constrói uma carreira importante, parece que seu destino sempre esteve evidente. Não estava. Em 1966, eram músicos e artistas procurando espaços, aceitando trabalhos, experimentando caminhos e estabelecendo relações. Ninguém participava de um ensaio pensando que décadas depois aquela situação seria examinada como parte da história da música brasileira.

Por isso, tenho algum cuidado com a ideia de simplesmente enumerar os “grandes nomes que passaram pelo Madrigal”. Ela pode produzir uma espécie de álbum de celebridades que pouco explica sobre o grupo. O que me interessa é quase o contrário. Antes de esses nomes ocuparem o lugar que hoje lhes atribuímos, muitos deles estavam ali, trabalhando juntos. O Madrigal fazia parte do ambiente em que essas trajetórias se cruzavam, e essas pessoas, por sua vez, ajudavam a construir aquilo que o conjunto estava se tornando.

Júlio Medaglia permaneceu pouco tempo à frente do Madrigal. Não é necessário aumentar artificialmente a importância daquele episódio. Sua presença foi circunstancial, ligada às ausências de Karabtchevsky, e a documentação que encontrei registra esse período de maneira relativamente breve. Ainda assim, gosto muito da imagem que ele nos oferece. 

Em algum momento de 1966, na Reitoria da UFMG, um maestro de 28 anos levantou os braços diante do Madrigal Renascentista. Hoje sabemos que era Júlio Medaglia. Naquela noite, era simplesmente o regente do concerto.



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