Tenho pensado cada vez mais no que significa cantar junto num mundo progressivamente individualizado. Falo a partir do lugar do maestro, de quem olha o coro não como soma de vozes, mas como um instrumento que busca um som cada vez mais harmonioso como resultante.
Para que esse instrumento funcione, não bastam recursos
técnicos isolados. É preciso saber tocar o coro. Isso envolve técnica,
claro, mas envolve também compreensão do texto, escuta real e, sobretudo,
postura humana. Um coro não soa bem apenas porque afina; soa bem quando há um
sentido compartilhado de estar junto.
Hoje, esse talvez seja o ponto mais delicado, o sentido de
estar junto. Cantores, normalmente, são severos dentro do grupo: avaliam,
comparam, se posicionam. Quando isso se desloca da música para o próprio
umbigo, algo se perde. O objetivo deixa de ser a obra e passa a ser a afirmação
individual. E o som denuncia isso imediatamente.
Penso que, hoje, o papel do maestro mudou. Não há mais
espaço para autoritarismos de outras épocas, e isso é bom, mas autoridade não
desapareceu. Ela se transformou. Hoje, autoridade é clareza de direção e
confiança naquele que conduz o trabalho. O problema é que, muitas vezes,
diálogo é confundido com ausência de direção, e quando cada opinião se coloca
como prevalente, o coletivo se fragiliza.
Depois da pandemia, essa fragilidade se tornou mais visível.
Mudou a paciência com processos longos. Mudou a tolerância com o outro.
Tornou-se mais difícil manter regularidade, sustentar projetos de longo prazo,
aceitar que um coro se constrói devagar. A ansiedade por reconhecimento
cresceu: desejo de destaque, comparação constante, dificuldade de aceitar o
lugar que se ocupa. Quando isso acontece, o coro deixa de ser um instrumento
equilibrado e passa a funcionar como um conjunto de cantores solistas cantando
juntos. E aí, o som perde centro, o gesto perde resposta e a música se
fragmenta.
Cabe ao maestro, então: proteger o grupo da vaidade
individual, mesmo quando isso gera desconforto; sustentar a responsabilidade
compartilhada; lembrar, com calma e firmeza, que cantar em coro pressupõe
renúncia momentânea do protagonismo em favor de algo maior, que o gesto ainda
fala e que a música vem antes da opinião.
Reger, hoje, é negociar mais, explicar mais, justificar
mais, mas continua sendo, essencialmente, dar direção, e confiar que o coletivo
pode responder a isso.
Talvez seja por isso que, apesar de tudo, ainda valha a pena
cantar junto. Porque o coro mantém vivo o senso do coletivo, a limitação
consciente da individualidade em favor da junção de várias pessoas e porque o
coro é, ainda, um instrumento maravilhoso.
A pergunta que fica é simples e difícil ao mesmo tempo: estamos
dispostos, hoje, a sustentar o “junto” que a música exige?
Lindo texto!
ResponderExcluirAcredito que aquele que busca se destacar no coral e se sobressair, pode ter certeza que não se trata de elogio.
É afastar-se do senso de conjunto, de trabalho harmônico e do sentido de "Coral "Sou admiradora do trabalho do Maestro Arnon. Desejo muitas realizações e agenda cheia ao Coral. At.te, Luciana (ex aluna da Lívia )