quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Cantar junto, hoje (uma reflexão)

Tenho pensado cada vez mais no que significa cantar junto num mundo progressivamente individualizado. Falo a partir do lugar do maestro, de quem olha o coro não como soma de vozes, mas como um instrumento que busca um som cada vez mais harmonioso como resultante.

Para que esse instrumento funcione, não bastam recursos técnicos isolados. É preciso saber tocar o coro. Isso envolve técnica, claro, mas envolve também compreensão do texto, escuta real e, sobretudo, postura humana. Um coro não soa bem apenas porque afina; soa bem quando há um sentido compartilhado de estar junto.

Hoje, esse talvez seja o ponto mais delicado, o sentido de estar junto. Cantores, normalmente, são severos dentro do grupo: avaliam, comparam, se posicionam. Quando isso se desloca da música para o próprio umbigo, algo se perde. O objetivo deixa de ser a obra e passa a ser a afirmação individual. E o som denuncia isso imediatamente.

Penso que, hoje, o papel do maestro mudou. Não há mais espaço para autoritarismos de outras épocas, e isso é bom, mas autoridade não desapareceu. Ela se transformou. Hoje, autoridade é clareza de direção e confiança naquele que conduz o trabalho. O problema é que, muitas vezes, diálogo é confundido com ausência de direção, e quando cada opinião se coloca como prevalente, o coletivo se fragiliza.

Depois da pandemia, essa fragilidade se tornou mais visível. Mudou a paciência com processos longos. Mudou a tolerância com o outro. Tornou-se mais difícil manter regularidade, sustentar projetos de longo prazo, aceitar que um coro se constrói devagar. A ansiedade por reconhecimento cresceu: desejo de destaque, comparação constante, dificuldade de aceitar o lugar que se ocupa. Quando isso acontece, o coro deixa de ser um instrumento equilibrado e passa a funcionar como um conjunto de cantores solistas cantando juntos. E aí, o som perde centro, o gesto perde resposta e a música se fragmenta.

Cabe ao maestro, então: proteger o grupo da vaidade individual, mesmo quando isso gera desconforto; sustentar a responsabilidade compartilhada; lembrar, com calma e firmeza, que cantar em coro pressupõe renúncia momentânea do protagonismo em favor de algo maior, que o gesto ainda fala e que a música vem antes da opinião.

Reger, hoje, é negociar mais, explicar mais, justificar mais, mas continua sendo, essencialmente, dar direção, e confiar que o coletivo pode responder a isso.

Talvez seja por isso que, apesar de tudo, ainda valha a pena cantar junto. Porque o coro mantém vivo o senso do coletivo, a limitação consciente da individualidade em favor da junção de várias pessoas e porque o coro é, ainda, um instrumento maravilhoso.

A pergunta que fica é simples e difícil ao mesmo tempo: estamos dispostos, hoje, a sustentar o “junto” que a música exige?

 



Um comentário:

  1. Lindo texto!
    Acredito que aquele que busca se destacar no coral e se sobressair, pode ter certeza que não se trata de elogio.
    É afastar-se do senso de conjunto, de trabalho harmônico e do sentido de "Coral "Sou admiradora do trabalho do Maestro Arnon. Desejo muitas realizações e agenda cheia ao Coral. At.te, Luciana (ex aluna da Lívia )

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