segunda-feira, 7 de setembro de 2026

O Hino da Independência e seu compositor imperador

Neste dia 7 de Setembro, certamente ouviremos algumas vezes o Hino da Independência. Sua melodia é imediatamente reconhecível, principalmente quando chega ao refrão “Brava gente brasileira”. Há, porém, uma particularidade que nem todo mundo tem conhecimento: seu compositor é ninguém menos que D. Pedro I.

Isso não deve ser entendido apenas como uma curiosidade sobre o imperador. D. Pedro teve uma formação musical bastante sólida. Estudou, entre outros, com dois músicos importantíssimos que viviam no Brasil naquele período, Marcos Portugal e Sigismund Neukomm, e tocava instrumentos como clarineta, fagote e violoncelo. A composição fazia efetivamente parte de sua formação. [1]

Mas a história do Hino da Independência tem alguns acréscimos importantes que passam sempre ao largo: a letra é de Evaristo da Veiga, jornalista, poeta e político brasileiro. O manuscrito de seu Hino Constitucional Brasiliense traz a data de 16 de agosto de 1822. Portanto, aqueles versos foram escritos algumas semanas antes do Grito do Ipiranga. Evaristo já respondia aos acontecimentos políticos que vinham conduzindo à separação entre Brasil e Portugal.

Isso, inclusive, desmonta um pouco aquela cena perfeita que a história popular gosta de construir: D. Pedro proclama a Independência, chega a São Paulo e imediatamente compõe o hino para celebrar o que acabara de fazer. Na verdade, não sabemos se foi assim. Na verdade, há bons motivos para acreditar que não.

A origem da música de D. Pedro permanece discutida pelos pesquisadores. Sabemos, por exemplo, que Marcos Portugal também musicou os versos de Evaristo da Veiga, e sua versão foi executada no Rio de Janeiro nas comemorações da aclamação de D. Pedro como imperador, em outubro de 1822. Há documentação segura da existência do hino composto por D. Pedro em 1824, mas sua associação imediata ao próprio 7 de Setembro não encontra o mesmo respaldo documental. Um estudo dedicado especificamente à história da obra considera provável que a composição do imperador tenha surgido em 1824. Acho essas incertezas muito mais interessantes do que a versão arrumada dos acontecimentos. A Independência não aconteceu inteira numa tarde às margens do Ipiranga, e seus símbolos também não ficaram prontos naquele instante. Foram sendo construídos.

E há a própria música. O Hino da Independência foi feito para funcionar coletivamente. Sua escrita é direta, afirmativa e ritmicamente muito marcada. O refrão é particularmente eficiente: “Brava gente brasileira” chega com uma ideia musical fácil de reconhecer e memorizar. Não é difícil entender por que uma música assim consegue reunir muitas pessoas em torno de uma mesma afirmação.

A letra também nos diz bastante sobre o momento em que nasceu. O Brasil aparece como pátria que rompe seus “grilhões”; há referências à liberdade, à coragem e à construção de uma nova condição política. E aparece também uma ideia muito característica da retórica patriótica daquele tempo: a disposição para morrer pela pátria. É justamente aí que minha relação com os hinos pátrios fica complicada.

Sempre me incomodou certa imagem ufanista que essas músicas podem produzir. Muitas vezes patriotismo, militarismo e uma linguagem quase bélica aparecem misturados, construindo uma representação idealizada do país que não combina muito com minha maneira de olhar para a realidade. Prefiro um país que possa ser conhecido também por suas contradições a uma imagem grandiosa que precise ser permanentemente celebrada.

Mas isso não diminui meu interesse pelo Hino da Independência. Ao contrário. Um hino também pode ser ouvido como um documento: ele nos conta como determinada época desejava representar a si mesma.

E talvez seja essa uma boa maneira de escutá-lo neste 7 de Setembro. Por trás do conhecido “Brava gente brasileira” há Evaristo da Veiga escrevendo seus versos antes da Independência, Marcos Portugal compondo outra música para eles, um imperador que era também músico e compositor e uma melodia cuja história é bem menos simples do que aprendemos na escola.

O hino continua o mesmo. Conhecer sua história é que muda um pouco a maneira de ouvi-lo. [2]



[1] Brasil - Subsídios para a gênese da imprensa musical brasileira e para a história do Hino da Independência, de Dom Pedro I Subsídios para a gênese da imprensa musical brasileira e para a história do Hino da Independência, de Dom Pedro I

[2] D. Pedro I - Hino da Independência do Brasil

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O Hino da Independência e seu compositor imperador

Neste dia 7 de Setembro, certamente ouviremos algumas vezes o Hino da Independência . Sua melodia é imediatamente reconhecível, principalmen...