Reencontrei um registro de trabalho, desses que a gente faz pra não perder nomes, repertório, detalhes práticos e algumas impressões depois de uma apresentação. a anotação antiga, datado de 18 de maio de 2003. No alto da página, aparece a referência à Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, em Ouro Preto e, logo abaixo, o repertório da missa solene. Olhando a lista, me lembrei do motivo pelo qual estivemos ali: cantar a Missa em Mi bemol, de Tristão José Ferreira.
A apresentação aconteceu dentro de uma missa solene, no jubileu da Ordem. Coro e músicos estavam no coro alto, integrados à celebração. Uma missa solene, com direito a procissão de entrada, incensos intensos (daqueles que nunca ajudam os cantores nas primeiras músicas da cerimônia e um padre totalmente versado nas artes das missas cantadas em latim. A música não estava diante do rito; estava dentro dele. E talvez por isso, me chamou a atenção um frase que escrevi naquele registro: “A missa do Tristão é uma festa.”
Tristão José Ferreira foi músico e compositor ligado à Igreja do Carmo de Ouro Preto no início do século XIX. Esse dado, quando lido apenas como informação biográfica, não diz muito, mas, naquele dia, ele ganhou outro significado. Havia uma funcionalidade na música e havia também uma funcionalidade na arquitetura. Os compositores que escreveram para aquelas igrejas conheciam o espaço, a reverberação, a distância entre o coro alto e a nave, o modo como os metais se projetavam, o tempo que o som levava para se espalhar e retornar. Aquilo que no ensaio, feito na Cura d’Ars, em Belo Horizonte, não tinha funcionado tão bem, encontrou na Igreja do Carmo seu lugar natural. O som dos metais se abriu de outro modo e a Missa pareceu compreender o espaço antes de nós.
Isso me impressiona ainda hoje. Às vezes, estudamos uma partitura como se ela fosse um objeto autônomo, capaz de funcionar em qualquer lugar, bastando que o coro cante bem e os músicos toquem corretamente. Mas há obras que carregam dentro de si a memória do espaço para o qual foram pensadas. A Missa em Mi bemol de Tristão, especialmente no Gloria, tem uma sonoridade ampla, brilhante, festiva, mais próxima do universo de João de Deus de Castro Lobo do que de uma escrita recolhida e introspectiva. Na Igreja do Carmo, a arquitetura musical esteve perfeitamente de acordo com a arquitetura da igreja.
A partitura havia chegado a mim por intermédio de Mary Angela Biason, responsável pelo acervo musical de Ouro Preto na época. Ela sabia que eu vinha trabalhando com o resgate de partituras sacras mineiras e me propôs esse contato com a obra de Tristão, além de fazer a ligação com a Irmandade para que a execução acontecesse dentro de uma missa solene. Visto agora, isso também é parte da história. Uma obra não volta a soar sozinha. Há sempre alguém que guarda, alguém que localiza, alguém que confia, alguém que abre uma porta, alguém que coloca o músico diante de uma responsabilidade.
Mas há uma lembrança daquele dia que talvez diga mais sobre a natureza da celebração do que qualquer análise musical. Antes da missa, havíamos combinado com o padre celebrante que não haveria respostas do coro às entoações em latim, justamente porque a maioria dos cantores não conhecia esse repertório de respostas. Mas o padre era mais velho, havia celebrado missas em latim durante muitos anos e, tomado talvez pela solenidade do momento, entoou sem hesitar o "Dominus vobiscum". Eu me assustei porque aqui exigia resposta e não estávamos prontos para aquilo. Não havia muito tempo para pensar. Puxei com o coro a resposta que vinha da memória, e a memória, nesse caso, era mais antiga do que o regente. Era memória de menino cantor, de muitas missas solenes cantadas, de um repertório litúrgico incorporado no corpo antes mesmo de ser objeto de reflexão. Em certo momento, no "Sursum corda", eu não me lembrava da resposta. Ela veio no último segundo: "Habemus ad Dominum". E assim, sem planejar, acabei me tornando uma espécie de solista involuntário dentro da celebração. O coro ria de mim, provavelmente tentando entender de onde eu tirava aquelas respostas. Eu tirava de um lugar que não estava na partitura daquele dia, mas estava na minha história.
Essa cena, meio cômica e meio reveladora, conta muita coisa: a música sacra que cantávamos ali não era apenas repertório antigo, mas uma prática, uma linguagem, uma maneira de organizar som, espaço, rito e memória. Quando tudo isso se encontrava, a música deixava de ser apenas execução correta e passava a cumprir uma função, e como tenho falado isso nos últimos posts. Talvez seja por isso que aquele dia tenha ficado tão marcado para mim. O coro cantou muito bem, as peças saíram quase perfeitamente, a igreja estava cheia, os metais se integraram ao espaço, e a Missa de Tristão pareceu, enfim, estar em casa.
Hoje, ao rever essa anotação, penso que muitas vezes usamos a palavra “resgate” de maneira um pouco apressada. Resgatar uma partitura não é apenas tirá-la de um arquivo, copiá-la, editar suas vozes e colocá-la diante de um coro. Isso é parte do trabalho, e uma parte fundamental. Mas o resgate se completa de outro modo, quando a música volta a encontrar um corpo sonoro, um espaço, uma escuta, uma função. Naquele 18 de maio de 2003, a Missa em Mi bemol de Tristão José Ferreira não foi apenas apresentada. Ela voltou a participar de uma solenidade para a qual parecia saber caminhar.
Talvez por isso minha anotação tenha sido tão simples: “Foi lindo.” Às vezes, depois de uma missa como aquela, não há muito mais o que escrever.
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