Na sequência dos cartazes antigos do Madrigale, chego agora aos trabalhos de Camila Malloy.
Camila tem uma relação antiga com o coro. Esteve por perto desde muito cedo, acompanhou ensaios, conviveu com cantores, viu o Madrigale existir antes de transformá-lo em imagem. Mas esse dado, embora importante, não deve conduzir a leitura. O que interessa aqui é observar a maneira como uma designer olha para o coro e organiza visualmente aquilo que ele apresenta ao público.
Nos cartazes de Camila, o que mais chama atenção é a ideia de sistema. Ela parece pensar menos no cartaz isolado e mais em conjuntos, séries, famílias gráficas. Isso fica muito claro na série dos 3 Requiems, de 2019, em que Mozart, Brahms e Fauré receberam cores e formas próprias: o vermelho de Mozart com uma geometria angular, o amarelo de Brahms com círculos entrelaçados, o azul claro de Fauré com triângulos sucessivos. O cartaz geral reúne as três formas sobre fundo preto, criando uma solução simples e muito eficiente. Cada obra tem identidade própria e, ao mesmo tempo, pertence a uma programação comum.
Gostei especialmente dessa escolha porque ela evitava o caminho mais previsível. Um Requiem costuma atrair imagens de morte, vela, sombra, túmulo, céu carregado, mãos em oração. Ali, Camila transformava cada obra em uma estrutura abstrata, como se a música aparecesse em forma de pensamento visual, ou de desenho de forças. Mozart ganhava tensão; Brahms, circularidade; Fauré, uma espécie de ascensão geométrica. Talvez essa leitura não tenha sido programada exatamente assim, mas o bom cartaz permite essas camadas e ele continua trabalhando mesmo depois de pronto. (E quem diria que logo depois de 3 Requiems teríamos uma pandemia?…)
Nos Concertos Espirituais na Boa Viagem, a lógica foi outra. A série trabalhava com textura: pedras, fumaça, nervuras de folha, terra rachada. A espiritualidade aparecia deslocada da iconografia religiosa direta. Não representava o sagrado pelos símbolos mais habituais, mas os aproximava da matéria do mundo observada de perto. Superfície, detalhe, silêncio. A pedra, a folha, a terra, a forma que se desfaz no ar. Um concerto espiritual não precisa ser anunciado apenas por cruzes, igrejas, vitrais ou anjos. Pode nascer também de uma atenção mais demorada às coisas.
Há nesses cartazes uma sobriedade que combina com a escuta. A informação fica organizada na parte inferior, a imagem ocupa o alto, o pequeno “m” aparece como assinatura discreta. Nada grita. E isso, em tempos de excesso visual, já é quase uma forma de resistência.
O cartaz de Madrigale canta Renascença Sacra seguiu outro caminho. A imagem do vitral, tomada em detalhe, aproxima o repertório sem transformá-lo em ilustração didática. Não vemos a igreja inteira. Vemos fragmento, vidro, cor, textura, mão, matéria. A tradição aparece recortada, ampliada, quase tátil. O título atravessa a imagem com peso suficiente para sustentar a leitura, e o repertório antigo não surge como objeto distante, mas como presença visual ainda ativa.
Já o cartaz de Beatles in Voices assumia outra natureza, mais pop, mais direta, mais teatral. As figuras coloridas, a composição aberta, o fundo claro, a chamada “Come Together” e o título em destaque indicam um concerto de outra energia. Aqui o Madrigale não aparece recolhido em atmosfera sacra ou em construção abstrata. Aparece em situação de espetáculo, dialogando com uma memória musical compartilhada por muita gente.
O conjunto desses trabalhos revela uma mudança importante na comunicação visual do coro. Era menos acúmulo e mais hierarquia, menos ornamento e mais conceito, menos vontade de explicar tudo e mais confiança na organização da imagem. A marca aparecia reduzida, os espaços respiravam, as séries se sustentavam por continuidade interna. Isso pertence a outro momento do design e também a outro momento do Madrigale.
Esses cartazes mostram um coro que já podia ser apresentado de maneira mais depurada, sem necessidade de colocar todas as informações no primeiro plano para afirmar sua existência. A imagem podia sugerir, organizar, criar atmosfera, construir continuidade entre os concertos. É por isso que esses materiais importam. Eles não apenas divulgaram apresentações; ajudaram a construir uma maneira de ver o Madrigale.
Nos trabalhos de Camila, o coro aparece como projeto visual articulado: às vezes abstrato, às vezes material, às vezes pop, às vezes mergulhado na tradição, mas sempre pensado com clareza. Quando um cartaz consegue fazer isso, ele deixa de ser apenas aviso e passa a fazer parte da história do concerto.
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