Na sequência desses cartazes antigos do Madrigale, volto agora a alguns trabalhos criados por Fred Aflalo.
Fred chegou à história do coro por um caminho que explica muito sobre a vida coral. Sua colaboração não nasceu de uma relação profissional distante, dessas em que alguém recebe informações, entrega uma arte e desaparece. A ligação dele com o Madrigale passava também por Clara Guzella, uma das cantoras mais importantes da nossa trajetória, e isso criava uma proximidade diferente porque ele olhava o coro de fora, mas não de muito longe. Talvez essa distância justa ajude a entender alguns desses cartazes.
Há neles uma capacidade de síntese que sempre me impressionou. Fred não transformava o cartaz numa explicação do concerto, ele escolhia uma imagem, uma ideia gráfica, um gesto visual, e deixava que aquilo abrisse a porta para o repertório. Um vitral, uma cruz, uma caixa de fósforos, uma flor, nuvens carregadas, linhas circulares quase obsessivas sobre o nome de Bach. Em cada caso, parecia encontrar um sinal capaz de preparar o olhar antes da escuta.
O cartaz do Concerto MPB, com Hely Drummond, sempre foi o meu preferido. A caixa de fósforos no alto, a composição em preto, branco e vermelho, a frase “contém 01 pianista convidado”. Sempre achei aquilo de uma inteligência rara. Havia humor, mas não piada. Havia leveza, mas sem descuido. O cartaz parecia entender algo do próprio Hely: aquela capacidade de chegar ao piano e acender o ambiente quando começava a tocar. Uma pequena faísca, e a música começava a pegar fogo.
Outros cartazes seguem por caminhos completamente diferentes. No Concerto de Natal, não aparecem os símbolos mais óbvios do período. Nada de árvore, neve, vela sentimental ou anjo domesticado. O que aparece é uma construção de linhas e cores, quase um vitral moderno, com verdes atravessados por uma faixa vermelha. O Natal ali não surge como enfeite, mas como forma, como espaço construído, como uma arquitetura de cor.
Nos cartazes de Música Sacra, a imagem se desloca outra vez. Em um deles, a cruz luminosa surge como vitral, feita de fragmentos coloridos. No outro, a cruz fotografada aparece entre galhos e céu, pesada, concreta, mineira de algum modo. São duas maneiras de tocar o mesmo universo: uma pela luz organizada da linguagem gráfica; outra pela presença física do símbolo no mundo.
Os cartazes do Réquiem de Mozart também dizem muito sobre aquele momento do Madrigale. Em um, as nuvens em preto e branco criam uma atmosfera densa, quase suspensa. Em outro, o roxo e o preto deixam Mozart pequeno no centro de um espaço escuro, como se a obra surgisse de um silêncio anterior. Não há excesso de teatralidade. O Requiem, para nós, já era uma espécie de rito recorrente, e o cartaz não precisava gritar isso. Bastava preparar a escuta.
Há ainda o cartaz dos arranjos de MPB de Hely Drummond para coro feminino, com aquela delicadeza quase de objeto oferecido: “De: Hely / Para: Elas”. Uma flor, uma etiqueta, muito espaço branco. É simples e, por isso mesmo, preciso. O concerto aparece como gesto de oferta, e era isso mesmo. Aquele repertório nascia de uma parceria, de uma escuta das vozes femininas do Madrigale, de um modo muito particular de Hely escrever para aquelas cantoras. Eu diria que o nome "HelyElas" surgiu desse cartaz.
Olhando esses materiais agora, percebo como eles documentam uma fase importante do coro. Não registram somente os concertos. Guardam uma maneira de produzir cultura. E um coro também se constrói assim. Com ensaios, claro, com repertório, estudo, vozes e convivência, mas também com quem pensa a imagem, com quem organiza a informação, com quem dá forma pública ao que ainda está sendo preparado em sala fechada. Antes de o público ouvir o primeiro acorde, já havia uma ideia em circulação: um cartaz na mão de alguém, um arquivo enviado por e-mail, uma imagem colada em algum mural.
Esses cartazes de Fred fazem parte dessa história. Entram como pensamento visual, como colaboração silenciosa, como mais uma camada desse trabalho coletivo que fez o Madrigale aparecer no mundo de tantas maneiras. Às vezes, a memória de um coro está numa gravação; às vezes, numa fotografia; às vezes, num nome pequeno no rodapé; e, às vezes, numa caixa de fósforos que ainda parece pronta para acender alguma coisa.
Obrigado demais, Fred!!!
Outros cartazes do Fred Aflalo:
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