Saí de um encontro de coros pensando, mais uma vez, sobre uma pergunta que parece simples, mas não é: o que um coro aprende quando ouve outro coro?
Costumo dizer que não gosto muito de encontros de coros. A frase pode soar antipática, eu sei, mas ela nasce de uma experiência acumulada. Muitos desses encontros carregam uma atmosfera menos generosa do que anunciam. Por fora, fala-se em troca, confraternização, celebração da música coral. Por dentro, quase sempre existe alguma comparação silenciosa. Um coro escuta o outro, mas também se mede diante dele. Quer cantar bem, quer ser reconhecido, quer sair dali com a sensação de que sua apresentação teve valor. Quando isso não acontece, vem a frustração, mesmo que ninguém diga nada. Coro também tem vaidade, só que em naipes.
Ainda assim, seria injusto reduzir tudo a isso. Vivi encontros belíssimos, daqueles em que havia expectativa real de escuta, alegria em ver o outro cantar, curiosidade pelo repertório, vontade de permanecer na plateia. Houve tempos em que a sensação de pertencimento era muito forte, especialmente quando as articulações entre os coros criavam uma vida comum mais presente. Íamos ouvir outros grupos com interesse verdadeiro. Era festa, mas também era escola.
Um coro aprende muito quando senta para ouvir outro coro. Aprende, antes de tudo, a escutar de fora aquilo que normalmente vive por dentro. O cantor, quando está cantando, participa da engrenagem. Ouve o próprio naipe, tenta seguir o regente, procura a afinação, sustenta texto, respiração, entrada, corte, intenção. Mas, na plateia, o som aparece inteiro. A afinação deixa de ser uma cobrança abstrata do ensaio e se torna uma experiência concreta. O equilíbrio entre as vozes, a clareza das palavras, a qualidade do silêncio, a maneira de entrar no palco, tudo se revela de outro modo.
Há coisas que um regente pode repetir durante meses e que um cantor só compreende quando ouve outro grupo. De repente, percebe por que a dicção importa, por que o excesso de força endurece o som, por que um naipe desequilibrado desmonta uma frase, por que a postura antes da primeira nota já diz alguma coisa. Um coro experiente e cuidadoso mostra sua história antes mesmo de cantar. A entrada no palco, a organização interna, o olhar para o regente, a espera pelo gesto inicial, tudo isso informa. O coração que bate por dentro costuma aparecer no silêncio que antecede o primeiro acorde.
Mas um coro não aprende apenas com aquilo que admira. Aprende também com o incômodo.
Durante muito tempo, ouvi coros que me provocaram admiração imediata. Alguns mudaram minha maneira de pensar a arte coral, abriram repertórios, alteraram expectativas, criaram objetivos. Depois de escutar certos grupos, eu voltava para o ensaio querendo buscar outro tipo de som, outro tipo de disciplina, outra relação com o texto ou com o palco. Nessas horas, o outro coro se torna uma referência palpável. Mostra que algo é possível.
Em outros momentos, o aprendizado vinha pelo desconforto. Eu ouvia um coro considerado bom e alguma coisa não se ajustava dentro de mim. Com o passar dos anos, entendi melhor essa reação. O problema nem sempre estava no outro coro. Muitas vezes, o incômodo nascia da distância entre aquela maneira de pensar a música coral e o ideal que eu carregava comigo. Desde cedo, tive na cabeça uma imagem de coro que venho perseguindo, corrigindo, ampliando, desfazendo e refazendo. Quando um grupo se apresentava bem, mas a sua concepção não se aproximava dessa imagem, aquilo me obrigava a pensar de novo. Não para condenar o outro, mas para compreender melhor o que eu buscava.
Esse é um aprendizado importante. Um coro pode aprender ouvindo aquilo que deseja ser, mas também ouvindo aquilo que não deseja ser. A diferença ensina. O contraste afina a identidade.
O risco está na imitação. Coros jovens precisam de modelos, e isso é natural. Ninguém começa do nada. Todos nós ouvimos alguém, admiramos alguém, seguimos rastros deixados por outros grupos. Mas uma referência deve abrir caminho, não ocupar o lugar da própria voz. Quando um coro tenta copiar outro, empobrece antes mesmo de começar. Pode copiar repertório, gesto cênico, tipo de sonoridade, figurino, maneira de se apresentar, até os vícios. Mas não copia a história que produziu aquele resultado. E coro sem história própria soa como casa mobiliada com móveis de vitrine: tudo está no lugar, mas ninguém mora ali.
Ouvir outro coro deve ampliar a escuta, não substituir a própria voz.
Talvez esse seja o ponto principal. Quando um coro escuta outro, aprende música, mas aprende também convivência, postura, limite, possibilidade e diferença. Aprende que há muitas formas legítimas de construir som coletivo. Aprende que técnica sem presença pode esfriar a música. Aprende que emoção sem cuidado pode se desfazer rápido. Aprende que alguns grupos impressionam pela precisão, outros pela entrega, outros pela maturidade, outros pela coragem de repertório. Aprende, enfim, que ser coro é sempre uma escolha estética, humana e coletiva.
Também aprende humildade, embora essa palavra seja perigosa quando usada em excesso. Prefiro dizer que aprende proporção. Ao ouvir outro grupo cantar, um coro percebe que não está sozinho no mundo. Há outras pessoas ensaiando à noite, enfrentando ausências, procurando tenores, negociando repertórios, tentando afinar acordes impossíveis, carregando pastas, acreditando que aquele esforço todo ainda faz sentido. Isso cria uma espécie de parentesco, mesmo quando há comparação. Talvez os encontros de coros sejam imperfeitos justamente porque os coros são vivos. Onde há vida, há generosidade e disputa, admiração e vaidade, escuta e julgamento.
O melhor que pode acontecer é sair de um encontro com o ouvido maior.
Não necessariamente satisfeito. Nem sempre encantado. Às vezes incomodado, às vezes provocado, às vezes animado, às vezes frustrado. Mas com o ouvido maior. Um coro que ouve outro coro volta para si de maneira diferente. Volta com perguntas. E, se tiver maturidade, transforma essas perguntas em trabalho.
No fim, talvez seja isso que um coro aprende ouvindo outro coro: aprende que sua própria voz ainda está em construção.
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