Não sei medir um concerto pelo relógio. Sei que ele começa em determinada hora, que existe uma sequência de músicas, que cada arranjo tem tantos minutos e que, em algum momento, chegaremos ao final. Tudo isso está previsto. Mas existe outro tempo, que só descubro quando levanto os braços e começo a reger.
Na última quarta-feira, no Teatro SESIMINAS, esse tempo passou muito depressa. É curioso porque, antes disso, tudo havia sido demorado. Escolher repertório, procurar arranjos, experimentar ideias, ensaiar naipes, juntar o coro, colocar a banda, resolver figurino, divulgação, luz, som. Um concerto vai ocupando semanas e meses de nossas vidas. Aos poucos, aquelas músicas que estavam espalhadas em partituras, arquivos, gravações e planos começam a formar alguma coisa que ainda não existe inteiramente.
Até que chega o dia. O teatro tem outro cheiro. O palco já não é a sala de ensaio. Há cabos pelo chão, instrumentos, microfones, refletores sendo ajustados, gente entrando e saindo. O coro chega, conversa, aquece, espera. A plateia começa a ocupar as cadeiras do outro lado.
Para mim, há sempre um momento em que tudo isso desaparece. Levanto os braços e, dali em diante, não penso mais no tempo cronológico.
Naquela noite começamos com Dream On e Sweet Dreams e fui percebendo o concerto acontecer diante de mim. Não exatamente como havia imaginado, porque um concerto nunca é a reprodução perfeita de uma ideia. Há o público. Há os cantores naquele dia. Há uma respiração que demora um pouco mais, um acorde que chega de um jeito inesperado, uma energia que cresce, uma reação da plateia que entra no palco e modifica discretamente o que fazemos.
É por isso que continuo gostando tanto do concerto ao vivo. Ele não pode ser inteiramente previsto. Mesmo quando conheço profundamente o coro que está diante de mim, existe aquele pequeno território que só aparece quando a música começa. E, quando a noite é boa, tenho a impressão de que todos entramos nele juntos.
Foi assim com o Queen. Foi assim nas músicas mais delicadas. Foi assim quando chamei Lívia Itaborahy para cantar Your Song sem que ela soubesse, sem que o coro soubesse, sem que o público soubesse. Durante alguns minutos, uma coisa que não existia até aquele instante passou a existir... E desapareceu logo depois.
Talvez seja essa uma das estranhezas da profissão de músico. Trabalhamos muito para construir coisas que duram pouquíssimo.
Um acorde termina.
Uma música termina.
Um concerto termina.
Não conseguimos guardar exatamente aquilo que aconteceu. Podemos filmar, fotografar, gravar. Podemos guardar o programa, as partituras e, hoje, centenas de imagens nos telefones. Mas aquela combinação exata de pessoas, sons, expectativa, concentração e emoção aconteceu uma única vez.
Na quarta-feira, enquanto regia, eu não estava pensando em nada disso. Estava simplesmente dentro do concerto. E este é justamente o sinal que aprendi a reconhecer. Nos concertos difíceis, percebo o tempo; sei quanto ainda falta, penso na próxima música, resolvo problemas, sinto o esforço da condução. Nos concertos muito bons, acontece o contrário: entro e, quando me dou conta, já estamos chegando ao final. Foi o que aconteceu. Beat It chegou cedo demais.
Ainda tínhamos uma pequena travessura guardada. O público pensava que o concerto havia acabado, mas coro e banda sabiam que faltava Dancing Queen. Voltamos para o bis e prolongamos um pouco mais aquela noite. Depois, acabou mesmo. Baixei os braços pela última vez. Vieram os aplausos, os cumprimentos, as fotografias, as conversas, a desmontagem. O teatro começou lentamente a voltar a ser apenas teatro.
No dia seguinte, quando fui escrever meu diário, poderia ter falado do repertório, do desempenho do coro, da banda, do público, das coisas que deram certo e das que ainda poderiam melhorar. Maestro sempre encontra o que analisar. Mas não escrevi nada disso. Escrevi somente: “Dos bons concertos da vida.”
Hoje penso que escrevi pouco porque não precisava escrever mais...
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