terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Encontro de Corais do NMC (2): Litterarum - Quando o Canto Vira Cor, Movimento e Comunidade

(Por Bambis e Arnon Oliveira)

Se há um grupo no Núcleo de Música Coral que parece carregar um pequeno carnaval dentro de si, esse grupo é o Coral Litterarum. Não no sentido da festa ruidosa, mas na vibração das cores, no gesto que dança, no brilho nos olhos de quem canta. Eles não entram no palco: eles chegam com aquilo que só a comunhão amadora propriamente dita consegue produzir.

O Litterarum é um lembrete vivo de que o canto coral pode ser, também, um espaço de invenção e liberdade. E muito disso nasce do trabalho do regente Victor Medeiros, que não dirige apenas vozes, mas possibilidades.

No Litterarum, cada pessoa tem um lugar. E esse lugar não é apenas vocal, mas expressivo. Victor incentiva que cada talento individual se torne parte da apresentação: duas coristas recitam um poema; outra marca o pulso com percussão, puxando a plateia para bater palmas; o grupo dança, move-se, respira em conjunto; e o concerto se encerra com o dueto improvável e encantador entre a gaita (harmônica) e o violino, tocado pelo próprio regente.

Não há constrangimento, não há hierarquia estética rígida, não há medo do lúdico. O que há é comunidade. Em suma: o Litterarum é um grupo que canta como vive: com espontaneidade, coragem e alegria.”

As músicas escolhidas, Banaha, Vilarejo, Costura da Vida, Simplicidade e Felicidade, formaram uma paleta de afetos e narrativas que combinavam com o espírito do coro. São obras que dizem, de modos diferentes, que a vida é feita de pequenos gestos, de encontro, de partilha. E, de certa forma, esse repertório funciona como autobiografia do grupo: leve, orgânico, próximo do público.

O Litterarum ligado à FALE (Faculdade de Letras da UFMG). É um coro amador e é justamente naquilo que poderia ser limite que surge sua força. Entre desafios de afinação, tessitura e disciplina cênica, o grupo se organiza como pode, e faz um trabalho extraordinário para a comunidade. Não pela perfeição, mas pela verdade artística que produz. Victor extrai de cada um o que cada um tem para dar, e, no fim, o que chega ao público é um retrato coletivo, sincero e luminoso.

Eles têm a alegria como método. Enquanto outros grupos constroem a performance pela elegância, pela densidade ou pela solidez técnica, o Litterarum constrói pelo entusiasmo. E isso não é pouca coisa: entusiasmo, no sentido original da palavra, é “estar cheio de Deus”.

Ao vê-los cantar, fica claro que ali existe algo que ultrapassa a técnica: um desejo profundo de estar juntos, de fazer arte com as mãos e com o corpo inteiro, de transformar a rotina em ritual. E talvez seja por isso que eles ocupam o palco com tanto magnetismo. Eles cantam como quem celebra. E celebram como quem agradece.

 










segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Encontro de Corais do NMC: Uma Tarde em que as Vozes se Reconheceram

(Por Bambis e Arnon Oliveira)

Bárbara Carvalho (a Bambis, como todos a conhecem) é bolsista do Núcleo de Música Coral da UFMG. Ela coordenou a organização do Encontro de Coros do NMC realizado em 30 de novembro. Abrindo um espaço para narrativas construídas em conjunto, preparamos esta sequência de textos para registrar o evento, suas impressões e seus desdobramentos. A partir do que ela me relatou, buscamos oferecer uma dimensão do que foi vivido naquele dia, para que outros coros e ações do Programa também encontrem aqui um lugar de memória. Afinal, este é também o propósito desses relatos. Vamos lá:

 

Alguns encontros não são apenas eventos: são gestos de comunidade, momentos em que as pessoas se reconhecem. O que se viveu naquele domingo, no Auditório da Escola de Música da UFMG, foi exatamente isso, um reencontro de vozes, histórias, pertencimento e alegria compartilhada. Um daqueles dias em que a música comunica o que palavras não alcançam.

Participaram três coros do NMC: o Coral Litterarum, o Coral da Engenharia e o Coral da FALE. Grupos distintos, com identidades musicais diversas, mas unidos pelo desejo de estarem juntos e de partilharem seus processos. Logo no início, o regente Victor Medeiros conduziu o aquecimento geral. Fez isso de maneira expansiva, acessível e leve. Os coralistas se soltaram, riram, se reconheceram uns nos outros. A plateia também entrou no movimento: mesmo quem não canta sentiu-se convidado a participar. Era o NMC dizendo, sem precisar enunciar: aqui todo mundo cabe.

No início de cada apresentação, um coralista subia ao palco para apresentar seu grupo e contar sua experiência pessoal. Muitos relataram que encontraram uma nova família nos coros, que aprenderam música pela primeira vez ou que tiveram ali um contato essencial com a arte. Escutar essas falas ampliou o sentido de pertencimento tanto para quem dizia quanto para quem ouvia.

Como observou a Bambis: “Ouvir as histórias de cada um nos lembra por que fazemos tudo isso: porque a música transforma.”

Durante as apresentações, a plateia respondeu de forma espontânea. Palmas ritmadas, pessoas cantando junto em músicas conhecidas, atenção redobrada quando surgiam poemas, solos ou pequenas coreografias. Cada coro, à sua maneira, trouxe elementos que encontraram ressonância imediata no público. A fronteira entre palco e plateia praticamente desapareceu, criando um espaço comum.

O encerramento veio com “Noite Feliz”, cantada por todos os grupos reunidos no palco. Misturados, sem divisões formais, as vozes ocuparam o mesmo espaço e respiraram a mesma música. Foi simples. Foi simbólico. Foi belo. E, por alguns minutos, o palco deixou de ser palco e tornou-se um corpo coletivo.

E ali estava, talvez, o sentido maior do encontro: mostrar que o NMC não é apenas um conjunto de coros, mas uma comunidade que aprende, cresce, se apoia e cria junto. Como sintetizou a Bambis ao final: “É isso. É por isso que o núcleo existe.”

E é mesmo.

 


domingo, 7 de dezembro de 2025

Yesterday — Lennon & McCartney, arranjo de Bob Chilcott

Yesterday, de Lennon & McCartney, é uma dessas presenças que pairam sobre nós mesmo quando achamos que já a conhecemos inteira. Uma canção que atravessa décadas como quem atravessa uma sala silenciosa: sem esforço, sem pressa...

No nosso Concerto Internacional do Madrigale, ela reapareceu em nova luz, graças ao arranjo sensível de Bob Chilcott, que sabe como poucos vestir o familiar com roupagens que revelam camadas inesperadas. Chilcott não reinventa a canção, ele a respira. E, na respiração dele, há espaço para o coro murmurar como lembrança, para as harmonias abrirem frestas de melancolia e para a melodia original pousar com delicadeza no centro de tudo.

Foi nesse terreno íntimo que surgiu a voz da nossa solista, Emanuelle Cardoso.

Manu encontrou em Yesterday o equilíbrio exato entre presença e leveza, como se cantasse do lugar onde guardamos as memórias que não doem mais, mas ainda iluminam. A canção exige cuidado: não é para ser empurrada, é para ser oferecida. E ela ofereceu. O coro respondeu como se estivesse tecendo a atmosfera do tempo. Naquela noite, cada entrada, cada suspiro harmônico, cada sombra de acorde parecia confirmar que a verdadeira sofisticação não grita: ela sussurra.

E assim, Yesterday se tornou uma pausa no programa. Uma pausa preenchida, daquelas que lembram que a música popular também é patrimônio afetivo, também é universal, também nos pertence para além da língua e da época.

No palco, foi só uma canção de dois minutos e meio. Mas na experiência do concerto… foi um instante de pura emoção, pois esse arranjo me acompanha há anos, como uma bela peça a ser cantada por todos os coros que rejo.


🎬 Madrigale Pop Internacional – 06. Yesterday

 

Pessoas no palco iluminado tocando instrumentos e cantando

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sábado, 6 de dezembro de 2025

Do Coro Menino Jesus ao Madrigale: quando um grupo encontra seu destino


Uma sequência do post anterior: a ideia original da Paróquia Menino Jesus era simples e bela: um grupo de meninos cantores, eco distante da tradição que eu mesmo havia vivido no Coral Dom Silvério, a dos Pueri Cantores. Mas, com o tempo, o fluxo de crianças diminuiu. Faltavam novos meninos, faltava renovação, faltava aquele movimento natural que permite a um coro infantil sobreviver.

Quando esse ciclo se encerrou, fiquei com a sensação de que uma porta se fechava, mas, como sempre acontece com a música, outra se abria ao lado, de mansinho. Algumas vozes, agora jovens e adultas, queriam continuar. E assim, quase sem perceber, formou-se o Coro Menino Jesus, um grupo misto, paroquial, que não tinha certezas, mas tinha algo raro: vontade de cantar e crescer juntos.

Cantávamos na própria igreja. Às vezes em celebrações, às vezes em encontros pequenos, às vezes apenas pelo prazer de experimentar um repertório que nos puxava para outro lugar. Havia ali um desejo de beleza, de rigor, de estudo, como se o grupo, mesmo jovem, já pressentisse uma identidade que ainda não sabia nomear. Mas como o coro não era necessário dentro da Paróquia, ele naturalmente terminou.

Foi nesse período que a vida me levou a um outro desafio: a regência do Coral Newton Paiva. Minha passagem por lá durou pouco, seis meses, mas foi suficiente para algo silencioso acontecer. Quando saí da Newton Paiva, alguns cantores de lá se juntaram aos cantores do Menino Jesus. Um encontro discreto, mas decisivo. E como tantas vezes acontece na história dos coros, quando duas vontades de cantar se colocam lado a lado, elas descobrem que pertencem, secretamente, à mesma estrada.

Esse encontro não foi planejado. Não houve reunião, estatuto, proposta formal. Houve apenas a percepção intuitiva de que estávamos prontos para outro tipo de repertório, outro tipo de sonoridade, outro nível de entrega. O que antes era um coro paroquial começou a se transformar. A música exigia mais. E nós queríamos mais dela.

Hoje, olhando de longe, vejo com clareza: o Coro Menino Jesus foi minha ponte entre o menino cantor que eu havia sido e o maestro que eu começava a ser. Ali testei repertórios, errei e acertei, aprendi a escutar as necessidades de um grupo nascente, percebi o que sustenta um coro e o que o fragiliza. E ali também, discretamente, nasceu o próprio Coro Madrigale. Não houve data inaugural, nem discurso, nem batismo. Houve apenas um punhado de vozes que, ao se juntar, descobriu que podia ir mais longe.

Isso mesmo. O Madrigale começou assim: numa igreja de bairro, entre pessoas comuns, com sonhos que ainda não tinham forma. E talvez seja isso que lhe deu raízes tão fundas: onde a música é sincera, a história sempre encontra um jeito de florescer.


 Pessoas em uma sala

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 Coro Menino Jesus, base do que viria a ser o Madrigale

Fila de trás: Bráulio, Guilherme; Mauro; Fábio; Beto; Caué; Marco Paulo
Fila da frente: Sandra, D. Clélia, Dorinha, Manu, Kátia, Joana, Fernanda, Ju Palhares, Juliana

 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

O Coro de Meninos da Igreja Menino Jesus: o retorno inesperado ao canto coral

Tem coisas e caminhos na vida que a gente não planeja, e, talvez por isso mesmo, sejam os que mais nos moldam. 

Depois da minha passagem intensa pelo Coral Dom Silvério, eu não imaginava que voltaria a trabalhar com coros infantis. Aquela fase parecia concluída, fechada como um livro que se guarda com carinho, mas que não se pretende reabrir. E, naquele momento, alguém que me ofereceu um apoio que não esqueço, um gesto simples, mas decisivo, desses que recolocam a vida no eixo. 

O Padre José Januário Moreira, pároco da Igreja Menino Jesus, em Belo Horizonte, ex-menino cantor do Dom Silvério, como eu, me chamou para montar um coro de meninos naquela paróquia. Aceitei o convite, ainda sem perceber que estava regressando, por outras vias, ao território que me formara.

Assim nasceu o Coral de Meninos da Igreja Menino Jesus.

O grupo durou cerca de três anos. Anos de descoberta, leveza e aprendizado, para eles e para mim. Sem rotatividade de crianças, o ciclo se encerrou naturalmente. Mas aquela turma aprendeu a cantar com afinco, com alegria, com brilho. Arriscamos inclusive pequenas polifonias, sempre com o cuidado que as vozes jovens pedem.

Cantávamos em missas simples e solenes, e havia ali uma dignidade musical que, mesmo modesta, era profundamente verdadeira. Não guardei o nome de todos, falta imperdoável das minhas anotações de então. Ficaram somente as vozes na memória, esse arquivo vivo sem índice, mas cheio de afeto.

Do processo, alguns adultos seguiram caminhos musicais em outros coros: Marco Paulo, Leonardo Coelho, Beto Antonini… outros se dispersaram no curso natural da vida.

Quando o coro infantil chegou ao fim, eu imaginava que aquela experiência terminaria ali. Mas a música, como sempre, tinha outros planos. Do desejo de continuar, de algumas permanências e novas chegadas, surgiria pouco depois um grupo diferente: o Coro Menino Jesus, já adulto, já outro, misto, mas nascido da mesma raiz.

O que eu não sabia naquele momento, e só compreendo hoje, olhando para trás, é que o caminho iniciado com aqueles meninos continuaria a se desdobrar. E que, depois de muitas voltas, ele me levaria à criação de um coro que se tornaria parte fundamental da minha vida. (Essa parte, eu conto no próximo post)

E é assim: às vezes, a história começa nos lugares mais improváveis; àss vezes, basta uma voz de menino para anunciar tudo o que ainda virá.

 

Grupo de pessoas posando para foto

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quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Costurando Presença: O Desafinado e a Reinvenção da Escuta na Pandemia

Entre as muitas memórias que o ano de 2020 me legou, e que ainda insistem em habitar minhas escutas e reflexões, estão os vídeos virtuais. Essas produções, que surgiram como pequenas colchas de retalhos sonoros, foram a tentativa mais honesta e corajosa de costurar presença no meio da distância imposta pelo isolamento. 

Cantamos muito naquele ano. Fomos forçados a voltar a peças antigas, a descobrir detalhes que nunca havíamos ouvido, a estreitar repertórios. Foi um processo de reinvenção enquanto grupo, enquanto músicos e, talvez, enquanto gente. O isolamento nos obrigou a revisitar a própria definição de afinação. Aprendemos que a precisão técnica é importante, pois a coerência sonora é o mínimo que se espera de um grupo coral, mas a afinação, naquele contexto, não era tudo.

A experiência era, em si, um paradoxo. Cada músico gravando do seu canto, cada respiração lutando contra o delay da tecnologia, cada olhar buscando um outro olhar que, fisicamente, não estava ali. E, no entanto, a música, com sua força inabalável, acontecia. Um desses momentos, que guardo com especial carinho, foi a produção do nosso "Desafinado" com o Madrigale Virtual. O arranjo para vozes femininas de Hely Drummond sobre o clássico de Tom Jobim e Newton Mendonça ganhou, naquele setembro de 2020, uma nova camada de significado.

O "Desafinado" é, por natureza, uma obra de ironia terna. É um samba moderno que fala sobre a imperfeição, sobre a falha humana que, no fundo, é o que nos torna autênticos. E o formato virtual, com suas limitações técnicas e sua exposição crua e charmosa da individualidade, revelou uma delicadeza que o palco, por vezes, esconde.

O verdadeiro aprendizado estava na generosidade e na paciência. O vídeo virtual era um exercício de coragem, pois expunha a vulnerabilidade de cada voz, a luta contra o silêncio do mundo. No fundo, como diz o texto original que acompanhou o vídeo, a mensagem era mais profunda: "afinados ou desafinados, temos todos um coração." E era essa pulsação, a pulsação humana por trás do som, a intenção de não deixar a voz silenciar, que realmente aparecia na tela. O som era um veículo, mas o significado era a conexão.

Olhando agora, com a distância que só o tempo pode oferecer, percebo que cada vídeo virtual é uma prova irrefutável de que a música sempre encontra uma fresta para entrar. A arte verdadeira não se dobra às circunstâncias; ela se adapta, se transforma e insiste em cumprir sua missão essencial: iluminar e unir.

O Madrigale Virtual e o nosso "Desafinado" não foram apenas um registro da pandemia. Foram um testemunho de que, mesmo quando estamos separados, ou, talvez, justamente por isso a música insiste em nos juntar, reafirmando que a presença mais importante é aquela que se estabelece na escuta mútua e na intenção compartilhada. A música, em sua essência, é a nossa linha direta com a humanidade.

 

🎬 HELYELAS - Desafinado (Tom Jobim e Newton Mendonça)

 

Grupo de pessoas posando para uma foto

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quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Alô, Magnani!!!

Volta e meia, a memória me traz de volta a um post que escrevi em 2015, uma homenagem simples, mas carregada de afeto, ao meu mestre, Sergio Magnani (1914-2001). Se estivesse vivo, ele completaria, hoje, 111 anos. Nesse dia, sinto a necessidade de ir além da efeméride e mergulhar na essência de seu legado, naquilo que ele nos ensinou sobre a tradição, a memória e, acima de tudo, o que significa ser músico.

O título, "Alô, Magnani",(1) é uma licença poética, um desejo de estabelecer uma comunicação direta com o meu mestre, como se o seu "telefone vermelho" estivesse sempre ativo, pronto para me (nos) guiar.

Magnani, com sua sabedoria concisa, nos deixou aforismos que são verdadeiras bússolas para a vida cultural. Um deles ressoa com particular força:

A memória e a tradição é que faz a grandeza de um povo.

Esta frase não é apenas uma constatação histórica; é um chamado à responsabilidade. Em um mundo onde a "memória recente se perde muito fácil e é justamente a mais acessível", o mestre nos lembra que a tradição não é um peso morto, mas o alicerce sobre o qual construímos nossa identidade.

Para o músico, isso significa que a escuta e o conhecimento não podem se limitar ao presente. É preciso revisitar os mestres, compreender o contexto, a intenção por trás da nota. A grandeza de um coro, de um regente, reside na capacidade de honrar essa tradição, de fazer com que a música do passado ilumine o presente.

Outra lição de Magnani que carrego comigo é a definição de músico em sua forma mais pura e exigente:

Ser músico é dominar a linguagem musical. Quem passa o ano inteiro estudando três obras não é músico.

Aqui, o mestre nos oferece uma crítica à superficialidade e à vaidade que, por vezes, se infiltram no meio artístico. O domínio da linguagem - a gramática, a sintaxe, a retórica da música - é o que nos permite ir além da mera execução. É o que transforma o instrumentista em intérprete, o regente em comunicador.

A música, assim como a polifonia que tanto amo, exige coerência e profundidade. Não basta o brilho externo; é preciso a luz interna do conhecimento.

Essa busca pela essência o levou a uma situação que revela a ironia do sistema acadêmico:

Sou autor do único livro de musicologia de um certo peso no Brasil, mas sou impedido de ensinar por falta de titulação.

O livro em questão, Expressão e Comunicação na Linguagem da Música 1, é um marco. O fato de o autor de uma obra tão fundamental ser barrado pela burocracia da titulação é um lembrete de que a erudição e o domínio nem sempre andam de mãos dadas com os diplomas. A verdadeira autoridade reside na obra e no legado, não no papel.

A trajetória de Magnani, que iniciou seus estudos de piano aos quatro anos e, depois de combater pela Itália durante a 2ª Guerra Mundial, transferiu-se para o Brasil em 1950, é um testemunho de resiliência e humanidade. Sua reflexão sobre a guerra é um dos momentos mais tocantes:

A guerra foi o único período da vida em que vi os homens como eles são de fato. Sem hipocrisia, porque na guerra hipocrisia não adianta. [...] E vêm à tona muitas coisas boas. O melhor da humanidade, episódios de fraternidade, de compreensão e colaboração humana que eu vi durante a guerra, não vi em outros períodos da minha vida.

Essa experiência de vida, onde a simplicidade e a fraternidade se impõem diante da tragédia, moldou sua arte. A música de Magnani, e o trabalho que ele iniciou, como a fundação do Ars Nova - Coral da UFMG em 1959, carregam essa marca: a busca pela verdade e pela comunicação essencial, sem adornos desnecessários.

Ele trouxe para o Brasil a disciplina e a profundidade da tradição europeia, mas a aplicou com a humanidade e a fraternidade que aprendeu nos momentos mais duros da vida.

Sergio Magnani não foi apenas um maestro, arranjador, compositor e pesquisador. Ele foi um educador que nos ensinou que a arte é um ato de coerência entre o que se sabe, o que se sente e o que se faz.

O seu legado, que hoje se manifesta na Sala Sergio Magnani da Fundação de Educação Artística e na perenidade do Ars Nova,[3] é um convite constante à escuta atenta e à presença.

"Alô, Magnani" é o som da tradição que nos chama, nos lembra que a grandeza está na memória e que o domínio da linguagem musical é o caminho para a iluminação que a música nos oferece. E essa linha direta, felizmente, nunca cai.

                                 

🎬 A pouco tempo, encontrei essa preciosidade que merece ser assistida: Entrevista do Maestro Sergio Magnani para o Canal 25


Referências:
[1) Assim Magnani atendia ao telefone.

[2] Magnani, Sergio. Expressão e Comunicação na Linguagem da Música. Editora UFMGG, 1989. 

[3] Magnani criou o coro da União Estadual dos Estudantes, em Belo Horizonte. Anos mais tarde, passaria a regência a Carlos Alberto Pinto Fonseca. Ao ser assumido pela UFMG, o coro passou a se chamar Ars Nova - Coral da UFMG.




 


 


 

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

O Madrigal Renascentista e o Telefone Vermelho

Volta e meia, nas minhas releituras de meu livro O Coro do Brasil, reencontro pequenas relíquias que, como aqueles objetos guardados no fundo de uma gaveta antiga, brilham ainda mais quando revisitados. Desta vez, a faísca veio de um lugar improvável: uma tira de jornal do Estado de Minas, seção “Gurilândia” (de outros tempos).

No quadrinho, em meio à euforia de um “casamento real”, um personagem grita: “VOU TELEFONAR PARA A TURMA DO MADRIGAL: ELES TÊM QUE CANTAR NO CASAMENTO!” Imaginem!!! Um grupo dedicado à polifonia de Palestrina virar referência de crônica social? Pois virou.

A tira se referia ao casamento de Maria Estela Kubitschek, filha de Juscelino Kubitschek, em julho de 1962, episódio no qual o Madrigal Renascentista, já famoso, foi chamado a assumir a trilha sonora de um evento que misturava política, sociedade e alta cultura. Não era apenas música: era sinalização simbólica.

Fundado em 1956, o Madrigal já era um nome de peso. Cantara na inauguração de Brasília, respirava o ideal modernizador da época e carregava aquele brilho sóbrio da polifonia renascentista: luminosidade por dentro, nunca por fora.

Ser escolhido para o casamento da filha de JK era, no fundo, um gesto de afirmação estética e política. E o jornal sabia disso. A referência à “Lavourinha”, apelido do Banco da Lavoura, anunciante poderoso, colocava o Madrigal no centro do jogo entre cultura e economia. O coro já não era só coro: era prestígio. E é aqui que entra a metáfora divertida: o telefone vermelho.

Durante a Guerra Fria, ele simbolizava a linha direta entre as grandes potências. Nas mãos do cronista, virou o canal imediato para chamar o Madrigal. E havia estratégia nisso. Para garantir sofisticação, quem quisesse assinatura de qualidade cultural ligava para o Madrigal. Mais que isso: era comunicação essencial. A música do grupo tinha essa capacidade rara de ir direto ao ponto, sem ruídos, sem adornos desnecessários.

A tira cômica humaniza tudo: a urgência, o exagero, a ordem apressada. Quase dá pra ouvir a frase ecoando no corredor: - Liga pro Madrigal! Eles têm que cantar!

Que um grupo dedicado à simplicidade sonora do Renascimento tenha virado personagem de quadrinhos nos anos 60 é, no fundo, a prova de que a verdadeira arte se infiltra onde menos esperamos. E o telefone vermelho continua lá, sempre pronto para tocar.




 


segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

O Bando de Surunyo – Quando uma peça nos leva a outro caminho

No post anterior, ao falar de D. Pedro de Cristo, encontrei no YouTube o vídeo que compartilhei e me chamou a atenção uma interpretação do Bando de Surunyo, grupo português dedicado à música antiga. A precisão, a naturalidade e a postura musical do grupo fizeram com que eu quisesse saber mais sobre eles.

Para acompanhar este post, deixo aqui um vídeo que considero uma boa porta de entrada para quem nunca ouviu o grupo. É um madrigal belíssimo e a interpretação diz muito sobre a estética e o cuidado artístico do ensemble:

🎧 Plimo plimo que grita

 

Pessoas sentadas ao redor de um computador com a imagem de uma mulher

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O Bando de Surunyo é um ensemble português fundado em 2015, sob direção artística de Hugo Sanches, lutenista e pesquisador de música antiga. O nome vem de um vilancico (canções sacras ou devocionais com sabor popular, muitas vezes festivas)  português do século XVII, “o bando de surunyo”, expressão que também alude a um bando de estorninhos, criando uma imagem de movimento, pluralidade e vozes em voo.

O grupo é especializado em repertório dos séculos XVI e XVII, sobretudo o repertório ibérico. Seu trabalho combina pesquisa histórica, leitura de manuscritos ou fac-símiles, interpretação informada pelas práticas da época e uma abordagem que integra palavra, corpo e som. O ensemble costuma trabalhar com formação vocal reduzida (geralmente 8 cantores) acompanhada por baixo contínuo (viola da gamba, tiorba, harpa ou outros instrumentos históricos), embora a formação varie conforme o programa.

 

O que primeiro me chamou a atenção no Bando de Surunyo foi a integração entre pesquisa e performance. Eles não tratam a música antiga como algo distante, reservado a especialistas. Ao contrário: colocam-na em cena com clareza, energia e naturalidade. 

Outro aspecto marcante é a relação com o texto. Na música renascentista e no repertório português do século XVII, a palavra é o centro da experiência musical. O Surunyo trabalha isso com precisão: dicção clara, gestualidade contida e um sentido de fraseado que respeita a prosódia histórica. Além disso, o grupo tem um forte compromisso com o resgate do patrimônio portuguêsMuitas obras apresentadas por eles são estreia moderna, peças que permaneciam adormecidas em arquivos e que voltam a soar graças ao estudo minucioso de manuscritos. Essa união entre rigor e frescor é rara.

O Surunyo não tenta “modernizar” o repertório; mas também não o congela. Eles o fazem respirar.


Penso que há algo de profundamente significativo em ver jovens cantores e instrumentistas portugueses recriando, hoje, a música que circulou nos claustros, igrejas e salões do século XVII. E ouvir o Bando de Surunyo é, de certa forma, ouvir um fragmento do passado que se projeta no presente, sem perder sua humanidade, sua vibração ou seu sentido.

Se você gosta de música coral polifônica, de repertório renascentista ou barroco, o trabalho do Surunyo é uma referência importante. Vale explorar os vilancicos portugueses, os motetos ibéricos, o repertório de transição entre Renascença e Barroco e as encenações que o grupo frequentemente realiza integrando música e corpo.

O Surunyo mostra que a música antiga não é um monumento, mas é uma prática viva, feita de escolhas, de pesquisa e de sensibilidade. E, para quem trabalha com coro, é sempre inspirador ver como esse repertório pode ganhar vida com clareza, simplicidade e força artística.

 

domingo, 30 de novembro de 2025

D. Pedro de Cristo - uma essência da polifonia portuguesa

Se O Magnum Mysterium nos encanta pela simplicidade luminosa, seu autor, D. Pedro de Cristo (1545/1550-1618), é uma das figuras mais importantes da polifonia portuguesa dos séculos XVI e XVII.

Nascido em Coimbra, ele ingressou em 1571 no Mosteiro de Santa Cruz, onde estudou com Francisco de Santa Maria, então mestre de capela. Pedro de Cristo não apenas sucedeu seu mestre no cargo, como mais tarde ocupou também a função de mestre de capela no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, uma das instituições musicais mais prestigiadas do país na época. Ao longo da vida, alternou sua atuação entre esses dois centros, retornando a Santa Cruz em 1605 e voltando novamente a São Vicente em 1615. Morreu em Coimbra, em 1618, em consequência de uma queda.

Grande parte de sua produção inclui motetos (peças curtas sobre textos litúrgicos), vilancicos (canções sacras ou devocionais com sabor popular, muitas vezes festivas) e responsórios (peças para a liturgia das horas, geralmente em alternância entre solistas e coro). Poucas missas completas sobreviveram: apenas uma íntegra, uma missa ferial e um Gloria isolado.

D. Pedro de Cristo compõe dentro da tradição renascentista, mas sua escrita tem algo muito próprio: uma clareza portuguesa, uma contenção que não empobrece, mas ilumina. Não há excessos, nem ornamentos desnecessários. A palavra é sempre o centro. O som nasce do texto e se organiza ao serviço dele.

Ao ouvir sua música, percebo uma autoria que não busca grandiosidade externa, mas profundidade interna, um tipo de espiritualidade sonora que atravessa séculos sem perder força. É música que não depende de artifícios; depende de intenção, de escuta, de coerência entre a voz e o significado. Sua produção, ainda pouco conhecida no Brasil, merece ser mais cantada, estudada e celebrada. É patrimônio vivo, e, sempre que interpretada, reacende uma tradição que ecoa séculos e continua a dizer muito sobre nós, sobre a música que queremos fazer e sobre o silêncio que ainda precisamos aprender a ouvir.

 

🎧 D. Pedro de Cristo "Ai mi Dios que causa ha sido"

 

Foto em preto e branco de mulher com os braços para cima

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Quanto o tempo corre diferente: o Internacional Pop Rock 2026 (1)

Não sei medir um concerto pelo relógio. Sei que ele começa em determinada hora, que existe uma sequência de músicas, que cada arranjo tem ta...