(Esse post é sequência da publicação do dia 07/02/26)
Ao chegar à Argentina, o Madrigal Renascentista já carregava consigo uma reputação. O plano inicial era modesto: poucos dias em Buenos Aires, um concerto na Embaixada e a continuidade da viagem rumo ao Chile. Nada disso se manteve exatamente assim. Os convites se multiplicaram. A permanência, que deveria ser breve, estendeu-se por uma semana.
Só na Embaixada Brasileira foram realizados três concertos, além de uma gravação na Rádio Nacional. A cada apresentação, o mesmo desenho: presença de diplomatas, jornalistas convidados, autoridades culturais. A música no centro, mas cercada de contexto. Antes dos concertos, exibiam-se filmes oficiais do Brasil: Brasília em construção; o discurso de modernidade; o projeto de país. Era o tempo da Operação Pan-Americana, das tentativas de articulação regional, da diplomacia exercida também por meios simbólicos. O Madrigal fazia parte disso, não como ornamento, mas como veículo.
Um episódio foi particularmente revelador. O presidente da
Aerolineas Argentinas ofereceu conduzir o coro ao Chile em um avião da
companhia, substituindo a longa viagem de ônibus inicialmente prevista. O
gesto, evidentemente, trazia interesses de propaganda. Os jornais fizeram questão de registrar a chegada do coro brasileiro a Santiago a bordo do Comet
IV. Ainda assim, o efeito prático foi decisivo: o Madrigal pôde reorganizar
seus compromissos sem prejuízo artístico.
Ao desembarcar no Chile, em 31 de julho de 1959, o coro encontrou um cenário exigente. A tradição coral chilena era sólida, presente nas escolas, sustentada por público atento e crítico. Não era um terreno fácil para impressões superficiais. E, no entanto, o impacto foi imediato em poucos dias, o Madrigal realizou uma sequência intensa de apresentações, algumas chegando a seis concertos no mesmo dia, em espaços diversos: embaixada, clubes culturais, bibliotecas, liceus. Em certos momentos, o entusiasmo do público ultrapassava o esperado. Há relatos de cantores cercados por jovens estudantes, pedidos de autógrafos, necessidade de intervenção para garantir a saída do grupo.
Entre todas, uma apresentação ganha destaque especial: a
realizada na Biblioteca Nacional de Santiago. Público experiente, críticos
atentos, autoridades diplomáticas. Ali, segundo os registros, o Madrigal
executou pela primeira vez uma obra escrita especialmente para o coro: Balada
duma heroína, de Fernando Lopes-Graça. Uma escolha ousada. Música
contemporânea, sem tradição interpretativa, apresentada a um público que sabia
ouvir. Um risco calculado e um gesto de afirmação estética.
Essa passagem pelo Chile não marcou apenas a recepção
calorosa do coro. Ela produziu encontros duradouros. Foi ali que Marco Dusi,
então à frente do Coro da Universidade do Chile, conheceu o Madrigal e Isaac
Karabtchevsky. No ano seguinte, Dusi iria a Belo Horizonte reger o grupo,
dando continuidade a um diálogo que começava ali.
Ao final da viagem, a Federação de Coros do Chile enviou um
convite formal para que o Madrigal retornasse em 1960, para participar do Primeiro
Festival Latino-Americano de Coros e do Congresso de Diretores de Coros da
América. O texto da carta é eloquente: fala em admiração, exemplo, entrega à
música coral com devoção e mística.
A excursão de 1959, ao atravessar fronteiras, transformou o Madrigal Renascentista em referência latino-americana. Um coro que saíra de Minas e voltava com algo novo: pertencimento ampliado.
No próximo post, o fechamento da viagem e a pergunta que
fica: o que essa experiência deixou para o coro, para seus integrantes e para o
movimento coral brasileiro?
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