sábado, 17 de janeiro de 2026

1959 - o Madrigal Renascentista vai ao Sul (1)

Algumas viagens são apenas deslocamentos. Outras, raras, mudam o lugar que algo ocupa no mundo. A excursão do Madrigal Renascentista em 1959, ao sul do Brasil, Argentina e Chile, pertence a esse segundo tipo, não apenas pelo número de concertos, pela duração (43 dias) ou pelos países envolvidos, mas porque, a partir daquele momento, o coro deixou de ser apenas um grupo de alta competência musical para se tornar um fato público acompanhado, narrado e observado em tempo real.

O jornal O Diário, de Belo Horizonte, destacou um repórter exclusivamente para acompanhar o coro. Não se tratava de uma cobertura pontual, nem de uma crítica eventual. Era o registro cotidiano: ensaios, deslocamentos, recepções, bastidores, reações do público. Como se narrar o dia a dia de um coro em excursão fosse, por si só, de interesse coletivo. E era.

Guardadas as proporções, esse tipo de acompanhamento se aproxima do que se faz com missões diplomáticas, com eventos políticos ou com frentes culturais estratégicas. O investimento do jornal revela algo importante: havia um público que queria saber, dia após dia, o que acontecia com aquele grupo de jovens músicos que saía de Minas para representar algo maior do que a si mesmos.

O sucesso fora do Brasil, especialmente na Argentina e no Chile, não foi apenas celebrado depois. Ele foi vivido junto, acompanhado passo a passo, quase como um romance em capítulos. Isso diz muito sobre o lugar que o canto coral ocupava naquele momento da vida cultural brasileira.

Hoje, quando falamos em circulação, visibilidade e relevância da música coral, é difícil imaginar um cenário semelhante. Em 1959, porém, um coro lotava teatros, era convidado para programas de rádio e televisão, mobilizava autoridades, despertava curiosidade e provocava investimento institucional.

Esse primeiro post não é ainda sobre repertório, nem sobre política externa, nem sobre gravações. É sobre outra coisa: sobre o momento em que o Madrigal passou a existir também fora do palco, como narrativa, como símbolo, como acontecimento acompanhado.

Ficaram curiosos sobre o que foi essa excursão? Nos próximos textos, eu entro nos detalhes. Aqui, o que importa é registrar o ponto de inflexão: quando cantar deixou de ser apenas cantar e passou a ser presença no mundo (e narrada).

 Este texto integra uma série sobre a segunda excursão internacional do Madrigal Renascentista, em 1959. Publicarei um segundo post no dia 24/01. Até lá!!!



Foto do coro em momento de descontração com autoridades 
de Valparaíso (Chile) – 1959 (Acervo Madrigal Renascentista)

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