Algumas viagens são apenas deslocamentos. Outras, raras, mudam o lugar que algo ocupa no mundo. A excursão do Madrigal Renascentista em 1959, ao sul do Brasil, Argentina e Chile, pertence a esse segundo tipo, não apenas pelo número de concertos, pela duração (43 dias) ou pelos países envolvidos, mas porque, a partir daquele momento, o coro deixou de ser apenas um grupo de alta competência musical para se tornar um fato público acompanhado, narrado e observado em tempo real.
O jornal O Diário, de Belo Horizonte, destacou um
repórter exclusivamente para acompanhar o coro. Não se tratava de uma cobertura
pontual, nem de uma crítica eventual. Era o registro cotidiano: ensaios,
deslocamentos, recepções, bastidores, reações do público. Como se narrar o dia
a dia de um coro em excursão fosse, por si só, de interesse coletivo. E era.
Guardadas as proporções, esse tipo de acompanhamento se
aproxima do que se faz com missões diplomáticas, com eventos políticos ou com
frentes culturais estratégicas. O investimento do jornal revela algo
importante: havia um público que queria saber, dia após dia, o que acontecia
com aquele grupo de jovens músicos que saía de Minas para representar algo
maior do que a si mesmos.
O sucesso fora do Brasil, especialmente na Argentina e no
Chile, não foi apenas celebrado depois. Ele foi vivido junto, acompanhado
passo a passo, quase como um romance em capítulos. Isso diz muito sobre o lugar
que o canto coral ocupava naquele momento da vida cultural brasileira.
Hoje, quando falamos em circulação, visibilidade e
relevância da música coral, é difícil imaginar um cenário semelhante. Em 1959,
porém, um coro lotava teatros, era convidado para programas de rádio e
televisão, mobilizava autoridades, despertava curiosidade e provocava
investimento institucional.
Esse primeiro post não é ainda sobre repertório, nem sobre política externa, nem sobre gravações. É sobre outra coisa: sobre o momento em que o Madrigal passou a existir também fora do palco, como narrativa, como símbolo, como acontecimento acompanhado.
Ficaram curiosos sobre o que foi essa excursão? Nos próximos textos, eu entro nos detalhes. Aqui, o que importa é registrar o ponto de inflexão: quando cantar deixou de ser apenas cantar e passou a ser presença no mundo (e narrada).
de Valparaíso (Chile) – 1959 (Acervo Madrigal Renascentista)
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