Era 8 de dezembro de 2000, uma sexta-feira, nove horas da manhã. Na Basílica do Santo Cura d’Ars, em Belo Horizonte, o Madrigale (ainda Nansen naquela época) se preparava para cantar a Missa em Si menor, de Johann Sebastian Bach. Inteira. Dentro de uma celebração religiosa. Com coro, solistas, orquestra e tudo o que aquela obra imensa exigia de nós.
Hoje, quando olho para esse programa, costumo rir um pouco do jovem regente que eu era. Havia uma dose clara de ousadia. Talvez até de loucura. Mas era uma loucura movida por paixão, trabalho e confiança. Eu sempre fui apaixonado pela Missa em Si menor. O ano de 2000, com as comemorações pelos 250 anos da morte de Bach, parecia pedir uma realização à altura. O Madrigale sempre foi um coro de desafios. Naquele momento, ainda como Madrigale Nansen, era um grupo em crescimento, ambicioso, tecnicamente muito bem estruturado e formado por excelentes cantores.
A proposta foi minha. Ao longo daquele ano, fomos preparando a obra aos poucos, cantando partes da Missa em celebrações solenes na própria Cura d’Ars. Esse processo foi fundamental. A peça entrou na vida do coro por etapas, dentro do espaço em que seria apresentada, com a comunidade acompanhando sua aproximação.
O apoio do Pe. Sérgio Palombo foi decisivo. Ele acreditou na proposta de maneira incondicional. Mais do que abrir a igreja, preparou os fiéis durante semanas. Avisava que seria uma celebração longa, muito longa, e que deveriam participar apenas aqueles que estivessem dispostos a permanecer ali por horas. Mesmo assim, a igreja estava lotada.
Esse detalhe torna tudo ainda mais emblemático. A Missa em Si menor, uma das obras mais complexas e monumentais de Bach, não foi apresentada naquela manhã como peça de concerto isolada. Ela aconteceu dentro de uma missa solene. O rito, a comunidade, o templo, o texto latino, o coro e a orquestra estavam reunidos numa mesma experiência.
A montagem foi hercúlea. Faltavam recursos. Sem a boa vontade dos músicos, seria impossível. A orquestra foi formada por professores e alunos da UEMG, da UFMG e da Fundação Clóvis Salgado. Os solistas eram todos do próprio coro. Havia ali uma mistura de coragem, precariedade, generosidade e desejo artístico que hoje me comove.
Dois nomes precisam ser lembrados: Nichola Viggiano, spalla da orquestra, foi essencial. Sem sua ajuda, eu não teria conseguido montar a peça. Oiliam Lanna também teve papel decisivo. Foi ele quem mais me desafiou para que a proposta acontecesse. Em projetos assim, a gente descobre que a coragem individual só se realiza quando encontra parceiros capazes de sustentá-la.
A Missa em Si menor é longa, difícil, exigente. Não perdoa dispersão. Cada número pede uma concentração própria. Há coros de grande densidade contrapontística, solos delicados, mudanças de caráter, movimentos de brilho instrumental, trechos de recolhimento quase absoluto. Para um coro em crescimento, era um salto enorme.
Mas o Madrigale respondeu. Guardo uma lembrança muito clara do Kyrie inicial. Quando ele soou, eu soube que daria certo. Aqueles primeiros compassos abriram a obra e, ao mesmo tempo, abriram em mim uma certeza. A partir dali, ainda havia muito caminho pela frente, mas o essencial já tinha acontecido: o coro entrou na obra.
Ao final, veio tudo junto: alívio, orgulho, exaustão. Fazer a Missa em Si menor já vale uma carreira. Qualquer músico que se aproxime dela sabe disso. Não se trata apenas de executar uma grande obra. Trata-se de atravessar uma montanha musical, espiritual e humana. Ninguém sai igual.
Para mim, aquele dia teve importância ímpar. A apresentação afirmava o Madrigale como um coro capaz de enfrentar repertórios de grande porte. Afirmava também um caminho meu como regente. Eu ainda era jovem, mas já havia ali uma convicção que continuaria a me acompanhar: um coro cresce quando recebe desafios à altura de sua possibilidade.
Talvez nem sempre eu tenha medido completamente o tamanho dos riscos. Ainda bem. Algumas experiências só acontecem porque alguém, em algum momento, acredita antes de ter todas as garantias. A Missa em Si menor de 2000 foi assim. Uma proposta grande demais, feita com recursos menores do que o ideal, sustentada por gente generosa e realizada com uma entrega que ainda hoje permanece viva na memória.
Bach soou naquela manhã. E, de alguma forma, quando o Kyrie começou, eu também comecei a entender melhor quem eu queria ser como regente.
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