sábado, 11 de julho de 2026

Da coleção Vaga-Lume aos arquivos do Madrigal

Quando cheguei aos documentos do Madrigal Renascentista de 1964, apareceu ali um nome que me pegou de surpresa: Lúcia Machado de Almeida. Ela estava nos registros como presidente do coro, recebendo Robert Shaw em sua casa, no Edifício Niemeyer, no meio daquela movimentação toda da vida cultural de Belo Horizonte. Essa surpresa foi porque, para mim, Lúcia já vinha de muito antes. Antes do Madrigal, antes da pesquisa, antes dos arquivos. Era nome de livro da minha infância.

Eu devia ter uns oito, talvez dez anos, quando lia a coleção Vaga-Lume sem parar. Meu primeiro livro da série foi A Ilha Perdida, de Maria José Dupré. Depois vieram outros. Muitos. Eu lia com aquela ansiedade de menino que termina um livro já querendo outro. Entre eles estava O caso da Borboleta Atíria, de Lúcia Machado de Almeida. 

Mistério! O mundo dos insetos! Aquela capa... que só se explicava mesmo no fim do livro. Aquilo me marcou. Não era só a história que guardava segredo; o próprio livro parecia guardar. A imagem da capa voltava depois da leitura e fazia a gente entender outra coisa. Para uma criança, isso era muito forte.

Anos depois, encontro Lúcia nos documentos do Madrigal. Agora não mais como autora da Borboleta Atíria, ou do Escaravelho do Diabo, mas como presidente do coro, escritora respeitada, figura importante da cultura mineira, alguém capaz de reunir em casa músicos, políticos, diplomatas, artistas e visitantes estrangeiros. Era estranho e bonito perceber que aquela escritora da infância estava também dentro dessa história coral que eu pesquisava.

E não é um detalhe pequeno ela ter presidido o Madrigal Renascentista. Isso diz muito sobre o coro naquele momento. O Madrigal não era apenas um grupo vocal bem ensaiado, dirigido por Isaac Karabtchevsky e prestes a ganhar projeção internacional. Ele circulava em um ambiente maior, onde música, literatura, imprensa, política, diplomacia e convivência social se misturavam. A presença de Lúcia à frente do grupo mostra que o Madrigal tinha uma força pública que ia além do repertório.

Quando ela recebeu o Robert Shaw Chorale em sua casa, não estava apenas oferecendo uma recepção elegante. Uma escritora mineira, autora de livros que formaram tantos leitores, abria sua sala para o encontro entre um grande coro norte-americano e um coro belo-horizontino que também começava a olhar para fora. Havia ali uma ideia de cultura menos separada em gavetas. Literatura de um lado, música de outro, política em outro canto, conversa em outro. Tudo parecia fazer parte da mesma vida.

Para mim, há algo pessoal nesse reencontro. A Borboleta Atíria, os insetos, a capa misteriosa, a coleção Vaga-Lume, o menino leitor e o pesquisador diante dos arquivos acabaram se encontrando no mesmo caminho. A memória faz isso às vezes. Um nome que aparece num documento já estava guardado na gente muito antes.

Lúcia Machado de Almeida presidindo o Madrigal Renascentista não é nota de rodapé. É uma pista importante. Mostra que aquele coro fazia parte de uma vida cultural em que a música conversava com a literatura, com as casas, com as relações, com a cidade. A história de um coro nunca é feita só de partituras e concertos. Também é feita de livros lidos na infância, de salas abertas, de conversas, de nomes que voltam quando a gente menos espera.











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