No final do Internacional Pop Rock 2, pouco antes de Beat It, eu disse ao público que o Madrigale não quer ficar preso a uma única imagem de si mesmo. E essa frase continuou comigo depois do concerto.
Um grupo com mais de trinta anos de história inevitavelmente acumula marcas. Repertórios, sonoridades, maneiras de trabalhar, escolhas estéticas, experiências que acabam sendo associadas a ele. Isso é natural e, em muitos aspectos, desejável. Um coro também se constrói por aquilo que canta ao longo do tempo.
O problema começa quando essa história passa a funcionar como moldura fixa. Não me interessa um coro reconhecível porque repete sempre a mesma maneira de cantar. Ao contrário: quanto mais trabalho com um grupo, mais espero que ele seja capaz de mudar. Cada repertório pede outra escuta, outra relação com o texto, outro tipo de articulação, outra energia. Às vezes outra emissão, outra presença corporal, outro modo de construir a frase. Não existe uma sonoridade única capaz de servir igualmente a tudo. E aí está uma das questões que mais me interessam hoje como regente.
A identidade de um coro não está, necessariamente, em soar sempre do mesmo jeito. Pode estar justamente na capacidade de compreender o que cada música exige e responder a isso sem perder sua personalidade. Foi por essa razão que, durante o concerto, eu disse que nosso trabalho não era imitar as gravações originais, mas descobrir o que aquelas músicas poderiam se tornar ao passar pelo corpo de um grupo vocal.
A palavra “corpo” me parece importante. Um coro não é apenas a soma de vozes. Ele respira junto, articula junto, percebe pulsos, reage a gestos, ocupa o palco, escuta por dentro aquilo que está acontecendo ao redor. Quando uma música chega a esse organismo, alguma coisa muda inevitavelmente. E é exatamente essa mudança que me interessa.
Não quero saber se um coro consegue reproduzir uma banda, um cantor ou uma cantora. Isso seria sempre uma cópia empobrecida. Quero saber o que aquela música passa a ser quando encontra outro instrumento. Um instrumento feito de pessoas.
Esse processo também transforma o próprio coro. Quando trabalhamos repertórios com exigências rítmicas diferentes, com banda, microfones, outras formas de emissão ou outra presença de palco, não estamos simplesmente adquirindo recursos para usar naquele projeto específico. Estamos ampliando o vocabulário do grupo. E esse vocabulário permanece.
Depois, quando voltamos a outro repertório, algo daquela experiência retorna de outra maneira. Talvez numa articulação mais precisa. Numa escuta mais atenta. Numa consciência rítmica mais desenvolvida. Numa disposição corporal diferente.
Por isso não penso esses projetos como desvios. Eles fazem parte da formação do coro.
Ao longo dos anos, fui deixando de acreditar numa ideia de identidade construída por permanência e me interessando cada vez mais por outra: a identidade como capacidade de transformação.
Um coro pode mudar muito sem deixar de ser ele mesmo. Aliás, talvez só continue realmente vivo se puder fazer isso. Quero um Madrigale que saiba reconhecer a delicadeza quando ela é necessária, mas que também tenha força quando a música pede força. Que consiga sustentar uma linha longa e, em outro momento, encontre o pulso certo. Que compreenda estilos diferentes sem transformar nenhum deles em fantasia ou caricatura.
Não quero que o repertório confirme aquilo que o coro já sabe fazer. Quero que ele provoque o coro a descobrir outras possibilidades. Depois de tantos anos à frente de grupos, tenho cada vez menos interesse em perguntar qual é a cara de um coro. Prefiro outra pergunta:
quantas formas ele consegue assumir sem deixar de ser ele mesmo?
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