Na Sexta-Feira Santa de 2021, o Madrigale apresentou mais um dos muitos coros virtuais produzidos naquele período em que o corpo precisava se conter, mas o coro não podia parar. Não se tratava de substituir o encontro presencial, nem de criar um espetáculo. Tratava-se, antes, de sustentar um gesto de reflexão possível.
Para aquele momento de Semana Santa, escolhemos produzir o Christus factus est, de Anton Bruckner, uma obra de completa entrega e concentração. Um texto breve, denso, que fala de obediência, sacrifício e silêncio, e que o compositor transformou em matéria sonora de recolhimento profundo.
Cantar esta peça já é, por si, uma experiência, porque ela é de difícil execução e interpretação. Em versão virtual, isso se intensifica. As vozes não compartilham o mesmo espaço acústico, mas precisam compartilhar a mesma intenção. Cada entrada exige escuta antecipada; cada suspensão harmônica pede confiança no tempo do outro. O que se perde em presença física precisa ser compensado em atenção.
Sempre temos que lembrar que, naquele momento, cantar era também aceitar o limite. Não havia como expandir o gesto, nem como acelerar o processo. A música pedia exatamente o que o tempo impunha: pausa, densidade, espera. A emoção não vinha de excessos, mas de contenção assumida.
Esse vídeo foi nossa forma de dizer que, mesmo separados, ainda era possível atravessar juntos um momento simbólico tão carregado de sentido. Não como resposta, mas como partilha. Não como afirmação, mas como escuta. Rever esse Christus factus est hoje é lembrar que há músicas que não servem para preencher o tempo. Servem para suspendê-lo. E, às vezes, é isso que mais precisamos.
🎬 Coro
Madrigale - Christus factus est
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