sábado, 24 de janeiro de 2026

1959 - o Madrigal Renascentista vai ao Sul (2)

(Esse post é sequência da publicação do dia 17/01/26)

Se no primeiro momento a excursão do Madrigal Renascentista pode ser vista como um acontecimento artístico acompanhado pela imprensa, basta avançar alguns passos para perceber que ela também operava em outro plano: o da diplomacia cultural. Isso porque nada ali era totalmente casual.

A temporada de 1959 se insere de maneira bastante clara no contexto da política externa do governo Juscelino Kubitschek. Um período em que o Brasil buscava afirmar sua imagem internacional, fortalecer relações regionais e apresentar-se como país moderno, organizado e culturalmente ativo. A música, e, nesse caso, o canto coral, tornou-se parte desse discurso.

Observem:

Antes de seguir para o Sul, o Madrigal participou de um evento de grandes proporções em São Paulo, em homenagem a Golda Meir, então ministra das Relações Exteriores de Israel. No estádio do Pacaembu, diante de cerca de vinte mil pessoas, o coro cantou em uma cerimônia marcada pelo encontro entre diplomacia, política e cultura. Não é irrelevante que o grupo tenha sido escolhido para esse momento: ali, o coro representava não apenas Minas Gerais ou o Brasil, mas também um diálogo simbólico com a comunidade judaica e com o Estado de Israel.

O gesto foi reconhecido. Golda Meir cumprimentou os cantores um a um, impressionada com a pronúncia e a interpretação das peças hebraicas, resultado direto do cuidado musical e linguístico do grupo, conduzido por Isaac Karabtchevsky, falante de iídiche. Não por acaso, dali surge o convite para que o Madrigal visitasse Israel no ano seguinte. Um convite diplomático, sim, mas mediado pela música.

Esse padrão se repete ao longo da viagem. Na Argentina, os concertos na Embaixada Brasileira foram acompanhados da exibição de filmes oficiais sobre a construção de Brasília e os feitos do governo JK. No Chile, as apresentações reuniam autoridades, representantes diplomáticos e críticos musicais, sempre cuidadosamente convidados. A música era o centro, mas não estava sozinha: ela operava como cartão de visita cultural.

Isso não diminui o valor artístico do coro, pelo contrário, só funciona diplomaticamente aquilo que é artisticamente consistente. Mas é importante reconhecer que o Madrigal circulava dentro de uma engrenagem maior, em que cultura e política se encontravam de forma explícita, assumida e estratégica.

A excursão de 1959 mostra com clareza algo que hoje às vezes esquecemos: a música coral já ocupou um lugar central na construção de imagens de país, de civilidade e de projeto cultural.

Nos próximos posts, vamos olhar mais de perto o que o coro cantava, como cantava e por que certas escolhas repertoriais, inclusive as mais arriscadas, eram feitas naquele contexto.

Aqui, fica o registro: em 1959, o Madrigal não apenas cantava. Ele representava o "Brasil".



Os cantores que foram à Excursão ao Sul
Nélio Abreu, Afonso Santana, Gilberto Godoy, Amin Feres, Edval Trindade, Jonas Travassos, Francisco Magaldi, Fábio Martins, João Gomes Oliveira, Roberto de Castro, Tarcísio Fiuza da Rocha
Ana Maria Godoy, Maria Amália Martins, Terezinha Miglio, Pitucha (Rosa Alice) Godoy, Alba Guimarães, Carmem Batista, Maria Lúcia Godoy, Desembargador Fragoso, Isaac Karabtchevsky, Maria Amélia Martins, Hilda SoaresZinda de Oliveira Santos, Alba Guimarães, Neide Lambert, Waldemira de Oliveira, Maria do Carmo Dollabela 



 



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