(Esse post é sequência da publicação do dia 17/01/26)
Se no primeiro momento a excursão do Madrigal Renascentista pode ser vista como um acontecimento artístico acompanhado pela imprensa, basta avançar alguns passos para perceber que ela também operava em outro plano: o da diplomacia cultural. Isso porque nada ali era totalmente casual.
A temporada de 1959 se insere de maneira bastante clara no
contexto da política externa do governo Juscelino Kubitschek. Um período em que
o Brasil buscava afirmar sua imagem internacional, fortalecer relações
regionais e apresentar-se como país moderno, organizado e culturalmente ativo.
A música, e, nesse caso, o canto coral, tornou-se parte desse discurso.
Observem:
Antes de seguir para o Sul, o Madrigal
participou de um evento de grandes proporções em São Paulo, em homenagem a Golda Meir, então
ministra das Relações Exteriores de Israel. No estádio do Pacaembu, diante de
cerca de vinte mil pessoas, o coro cantou em uma cerimônia marcada pelo
encontro entre diplomacia, política e cultura. Não é irrelevante que o grupo
tenha sido escolhido para esse momento: ali, o coro representava não apenas
Minas Gerais ou o Brasil, mas também um diálogo simbólico com a comunidade
judaica e com o Estado de Israel.
O gesto foi reconhecido. Golda Meir cumprimentou os cantores
um a um, impressionada com a pronúncia e a interpretação das peças hebraicas, resultado direto do cuidado musical e linguístico do grupo, conduzido por Isaac
Karabtchevsky, falante de iídiche. Não por acaso, dali surge o convite para que
o Madrigal visitasse Israel no ano seguinte. Um convite diplomático, sim, mas
mediado pela música.
Esse padrão se repete ao longo da viagem. Na Argentina, os
concertos na Embaixada Brasileira foram acompanhados da exibição de filmes
oficiais sobre a construção de Brasília e os feitos do governo JK. No Chile, as
apresentações reuniam autoridades, representantes diplomáticos e críticos
musicais, sempre cuidadosamente convidados. A música era o centro, mas não
estava sozinha: ela operava como cartão de visita cultural.
Isso não diminui o valor artístico do coro, pelo contrário, só funciona diplomaticamente aquilo que é artisticamente consistente. Mas é
importante reconhecer que o Madrigal circulava dentro de uma engrenagem maior,
em que cultura e política se encontravam de forma explícita, assumida e
estratégica.
A excursão de 1959 mostra com clareza algo que hoje às vezes esquecemos: a música coral já ocupou um lugar central na construção de imagens de país, de civilidade e de projeto cultural.
Nos próximos posts, vamos olhar mais de perto o que o coro
cantava, como cantava e por que certas escolhas repertoriais, inclusive as
mais arriscadas, eram feitas naquele contexto.
Aqui, fica o registro: em 1959, o Madrigal não apenas cantava. Ele representava o "Brasil".
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