Antes de tudo, é preciso dizer: o Madrigal Scala completou recentemente 35 anos de atuação no cenário musical de Belo Horizonte. Um coro que atravessou décadas, repertórios, formações e mudanças profundas no modo de fazer música coletiva na cidade. Dito isso, volto ao início, não ao Scala que se consolidou, mas ao Scala que ainda não sabia o que seria.
Minha passagem pelo Madrigal Scala não foi longa, mas foi
suficientemente intensa para não caber no esquecimento. Quando penso nela hoje,
não a vejo apenas como mais um grupo por onde passei, mas como um ponto de
inflexão: foi ali que entendi que precisava fazer uma escolha clara. Não apenas
tocar, não apenas acompanhar. Ser, efetivamente, um regente de coro.
Cheguei ao Scala em 1990, por um encontro casual. Fui
chamado por Ricardo Penido, que dirigia o Grupo Mozart, um conjunto bastante
atuante em cerimônias e eventos, e a proposta era reger o grupo de cantores
ligado a esse trabalho. Não havia ali, da minha parte, um plano de carreira nem
uma estratégia consciente. Havia curiosidade, abertura e, talvez sem que eu
soubesse ainda, uma necessidade de deslocamento.
O grupo que encontrei tinha uma história própria. A maioria
dos cantores havia passado pelo Coral Júlia Pardini e saíra de lá depois de uma
excursão à Europa. Eram pessoas que já se conheciam profundamente, que tinham
vivido experiências fortes juntas e que não queriam perder isso. A vontade de
continuar cantando como coro era central. Não se tratava apenas de trabalho;
era identidade. Eles gostavam do que faziam nos casamentos, mas aquilo não
bastava. Queriam palco. Queriam repertório. Queriam ser coro.
Entrei nesse conjunto como alguém de fora e, ao mesmo tempo,
como alguém que poderia catalisar musicalmente aquele desejo. Eles não estavam
satisfeitos em exercer um papel apenas funcional. Queriam aprofundamento,
linguagem, escuta coletiva. E o Scala, desde o início, se revelou um grupo de
alta performance. Isso me colocou num lugar novo: eu precisava corresponder à
qualidade humana e musical que estava diante de mim.
Foi ali que me afirmei como regente, não por discurso, mas
por prática. Pelo estudo, pela construção dos ensaios, pelas escolhas de
repertório, pela maneira de organizar o som e o tempo do grupo. Pela primeira
vez, senti com clareza que dominava a linguagem desse instrumento específico
que é o coro e que reger não era um desdobramento do piano, mas uma função em
si, com ética, técnica e responsabilidade próprias.
O nome do grupo também nasceu desse momento. A proposta de
“Madrigal Scala” foi minha, acolhida pelo conjunto, um nome que apontava para a
ideia de construção, de subida, de percurso. Nada estava dado. Tudo estava por
ser feito.
O Scala antecede o Madrigale e o Acesita na minha vivência como regente. Ele pertence a um
tempo de formação, de afirmação e de aposta. As histórias, os concertos, as
crises e os deslocamentos que vieram depois merecem outros textos. Aqui, por
ora, fica o começo: o encontro entre um grupo que queria continuar sendo coro e
um jovem músico que, ali, entendeu que precisava ser regente.
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