Se há alguém que entendeu profundamente a relação entre música popular brasileira e canto coral, foi Marcos Leite. Um compositor que não tratava o Carnaval como concessão ao repertório leve, mas como matéria musical legítima. Nas mãos dele, marchinhas e sambas não perdiam o riso, mas ganhavam estrutura. A leveza não excluía rigor. Pelo contrário: era sustentada por ele.
O que sempre me chamou atenção em seus arranjos era a
naturalidade. As síncopes estavam no lugar certo e a harmonia era rebuscada sem
pesar. A divisão de vozes respeitava o fluxo da canção, sem excessos e gratuidades. Nada de arranjo fácil, mas que desafiavam pela beleza da sua construção. O humor vinha da própria escrita.
Ele entendia que o coro brasileiro não precisava imitar
modelos estrangeiros para soar sofisticado. Bastava aprofundar o que já estava
na própria tradição, isso porque a música popular, quando bem tratada, revela uma riqueza
rítmica e harmônica que desafia qualquer grupo vocal.
Marcos Leite também tinha algo raro: sabia equilibrar disciplina e alegria. Ensaiava com exigência, mas nunca perdia o brilho do repertório. Mostrava que cantar músicas de carnaval não é fazer graça, é fazer música. E talvez sua maior contribuição tenha sido essa: demonstrar que o popular pode e deve ser tratado com a mesma seriedade que dedicamos a qualquer outro repertório. Sem hierarquias artificiais e sem complexos.
No carnaval coral brasileiro, há um antes e um depois dele.
E, ainda hoje, quando um coro canta marchinha com precisão rítmica, clareza de
texto e balanço natural, é possível perceber essa herança.
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