domingo, 15 de fevereiro de 2026

Carnaval e coro (3) - Marcos Leite e a inteligência do popular

Se há alguém que entendeu profundamente a relação entre música popular brasileira e canto coral, foi Marcos Leite. Um compositor que não tratava o Carnaval como concessão ao repertório leve, mas como matéria musical legítima. Nas mãos dele, marchinhas e sambas não perdiam o riso, mas ganhavam estrutura. A leveza não excluía rigor. Pelo contrário: era sustentada por ele.

O que sempre me chamou atenção em seus arranjos era a naturalidade. As síncopes estavam no lugar certo e a harmonia era rebuscada sem pesar. A divisão de vozes respeitava o fluxo da canção, sem excessos e gratuidades. Nada de arranjo fácil, mas que desafiavam pela beleza da sua construção. O humor vinha da própria escrita.

Ele entendia que o coro brasileiro não precisava imitar modelos estrangeiros para soar sofisticado. Bastava aprofundar o que já estava na própria tradição, isso porque a música popular, quando bem tratada, revela uma riqueza rítmica e harmônica que desafia qualquer grupo vocal.

Marcos Leite também tinha algo raro: sabia equilibrar disciplina e alegria. Ensaiava com exigência, mas nunca perdia o brilho do repertório. Mostrava que cantar músicas de carnaval não é fazer graça, é fazer música. E talvez sua maior contribuição tenha sido essa: demonstrar que o popular pode e deve ser tratado com a mesma seriedade que dedicamos a qualquer outro repertório. Sem hierarquias artificiais e sem complexos.

No carnaval coral brasileiro, há um antes e um depois dele. E, ainda hoje, quando um coro canta marchinha com precisão rítmica, clareza de texto e balanço natural, é possível perceber essa herança.



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