Depois da festa, começa outro percurso. A quarta-feira de cinzas não é apenas o dia seguinte ao Carnaval, até porque, em muitos lugares, a festa continuará até o fim de semana, inclusive em BH. Mas, por tradição cristã, é a abertura de um tempo que se alonga até a Semana Santa: o tempo da quaresma. Em termos de música funcional, o repertório se transforma. A música deixa de celebrar e passa a meditar.
A tradição musical ocidental legou a esse período algumas das páginas mais intensas da história coral. Os motetos penitenciais de Palestrina e Victoria, os Lamentationes, as Paixões de Bach, o Stabat Mater de Pergolesi, Scarlatti, Dvořák, os responsórios de Tomás Luis de Victoria. Não são obras escritas para impressionar; são obras que exigem concentração, controle interno e consciência textual.
Se o Carnaval organiza a alegria, a Quaresma organiza o silêncio, e esse silêncio não é vazio. Ele é estrutura. Ele prepara a escuta para algo mais essencial.
Ao longo das semanas que levam à Semana Santa, o coro reaprende uma lição antiga: a música também é espaço de reflexão. A intensidade não está no volume, mas na intenção. A beleza não está no brilho, mas na verdade da emissão. E talvez por isso esse repertório permaneça tão atual, porque ele nos obriga a desacelerar, a sustentar frases longas, a ouvir o outro com mais cuidado e a compreender o peso das palavras.
Depois da euforia coletiva, a disciplina meditativa. Depois do riso, a concentração. E, no fundo, é essa alternância que mantém o canto (coral) vivo.
🎬Coro
Madrigale - Christus factus est
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