Depois de falar da natureza coletiva do Carnaval, da arquitetura do arranjo e da herança de Marcos Leite, talvez seja o momento de tocar num ponto mais específico e decisivo: a importância de escrever bem para o instrumento coral.
Cantar músicas de carnaval em coro não é apenas escolher boas marchinhas ou sambas. É compreender que, ao passar para as vozes, essas músicas exigem um tratamento próprio. O coro não é uma banda, não é uma bateria, não é um bloco de rua. Ele tem leis internas: respiração comum, articulação compartilhada, equilíbrio entre naipes, emissão sustentada no ar (não na pele do tambor).
Escrever arranjos para Carnaval pede conhecimento real do instrumento vocal coletivo. A rítmica precisa funcionar dentro da emissão cantada. A síncope não pode depender de uma percussão que não está ali e a divisão de vozes deve sustentar o pulso sem fragmentar o conjunto. O texto precisa permanecer inteligível mesmo quando a harmonia se expande. Se o arranjador ignora esses princípios, a marcha perde o chão, o samba se torna pesado e a energia se dilui.
Quando, ao contrário, há entendimento do funcionamento do coro, algo se organiza com naturalidade. O ritmo ganha clareza as entradas respiram juntas, o humor surge com precisão e a leveza deixa de ser improviso e passa a ser construção consciente.
Vivo falando/reclamando que este é um dos desafios às escolas de composição brasileiras: formar arranjadores que conheçam profundamente o instrumento coral. Que saibam quando usar homofonia para afirmar o pulso, quando inserir pequenos jogos polifônicos sem comprometer a fluidez rítmica, quando simplificar para que o balanço apareça.
E pensando nesse repertório tão específico das músicas de carnaval, para um coro, um arranjo é antes de tudo um exercício de organização rítmica compartilhada. Nada de sofisticar o que é simples, mas de respeitar simultaneamente a natureza da canção e a NATUREZA DO CORO. Tem que aprender a escrever pra esse instrumento!!!
No fim, cantar em grupo é sempre um gesto coletivo, mas escrever para coro é um gesto de responsabilidade musical. E quando essa responsabilidade é assumida, a festa se faz... afinada.
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