quinta-feira, 9 de julho de 2026

Robert Shaw na sala, Lumumba no terraço (Madrigal Renascentista - 1964)

Em 13 de julho de 1964, poucos meses depois do golpe militar, Belo Horizonte recebeu a visita do Robert Shaw Chorale, uma das grandes referências da prática coral internacional naquele momento. Robert Shaw já era reconhecido como um dos mais importantes regentes corais de sua geração, e a presença de seu grupo na cidade dizia muito sobre a capacidade da Cultura Artística de Minas Gerais de inserir Belo Horizonte em circuitos internacionais de concerto. Mas o episódio que mais me interessa não aconteceu apenas no palco. Aconteceu na casa de Lúcia Machado de Almeida, então presidente do Madrigal Renascentista, em seu apartamento no Edifício Niemeyer.

A imagem é expressiva: uma escritora mineira de enorme projeção recebia um dos maiores coros do mundo, enquanto o Madrigal, ainda jovem, mas já cercado de prestígio, se apresentava informalmente para Robert Shaw e seus cantores. Puro gesto de afirmação cultural. Lúcia não era uma presidente decorativa; sua presença à frente do Madrigal mostrava como o coro circulava entre escritores, artistas, professores, diplomatas, políticos, jornalistas e intelectuais, ocupando um lugar que ultrapassava o universo estritamente musical.

Segundo Luiz Portugal, que registrou o encontro em O Estado de Minas, a recepção reuniu figuras importantes da sociedade belo-horizontina, incluindo o governador Magalhães Pinto. Isaac Karabtchevsky, então regente do Madrigal, saudou Robert Shaw e anunciou a futura turnê do conjunto mineiro pelos Estados Unidos, sob contrato com a Columbia Artists. Esse detalhe é fundamental. O Madrigal não recebia o Robert Shaw Chorale apenas como quem admira uma referência distante. Recebia-o no momento em que também se preparava para atravessar fronteiras.

Ainda assim, a parte mais bonita do episódio talvez tenha acontecido depois da formalidade. Luiz Portugal conta que, em certo momento, moças e rapazes subiram ao terraço e começaram a se entrelaçar em melodias brasileiras e norte-americanas. Lumumba, cantor do Madrigal, pegou o violão e liderou uma roda musical com sambas e bossa nova. Em resposta, um cantor americano entoou Night and Day, de Cole Porter. Era um “toma lá dá cá” musical que talvez diga mais sobre o encontro do que qualquer discurso: Robert Shaw na sala, Lumumba no terraço, Lúcia recebendo, Isaac anunciando os Estados Unidos, o cônsul americano na fotografia, o Madrigal cantando informalmente e Belo Horizonte, em julho de 1964, tentando se pensar diante do mundo.

No primeiro plano: Romeu Godoy, Lúcia Machado de Almeida e o Governador Magalhães Pinto (Acervo Madrigal Renascentista)

 

Casa de Lúcia Machado de Almeida – audição Robert Shaw – 13/07/64 (Acervo Madrigal Renascentista)

Da direita para a esquerda: Isaac Karabtchevsky, Robert Shaw, Lúcia Machado de Almeida, Herbert Okun (Cônsul dos EUA em BH), na residência de Lúcia em Belo Horizonte, em 13/07/64. Fonte: Acervo Madrigal Renascentista



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