Antes de ser pai de duas filhas, fui pai da Camila. Minha primogênita. Minha primeira parceirinha de vida.
Quando penso nela pequena, uma imagem sempre me aparece: Camila nos meus ombros. Meiga, delicada, aquele sorriso bonito que continua exatamente no mesmo lugar tantos anos depois. É curioso como algumas coisas atravessam uma vida inteira. O corpo cresce, a personalidade se afirma, o mundo vai acrescentando experiências, alegrias e dificuldades, mas alguma coisa daquela menina permanece reconhecível para quem a carregou nos ombros.
Hoje é aniversário dela e quero olhar justamente para essa mulher que veio daquela menina.
Camila é organizada, metódica, analítica. Uma virginiana perfeita. Não costuma passar simplesmente pelas coisas. Precisa compreendê-las, examiná-las, encontrar alguma ordem possível. E pensa profundamente sobre a vida, às vezes até mais do que talvez fosse necessário para viver um pouco mais tranquilamente.
Inteligente, perspicaz e muito criativa, fez do design seu campo de trabalho e construiu um conhecimento que admiro. Há nela uma capacidade de perceber detalhes, relações e possibilidades que não estão imediatamente disponíveis para todo mundo. Acho que isso também faz parte de sua maneira de estar no mundo: Camila observa.
E eu observo Camila.
Talvez seja inevitável para um pai, mas com ela isso ganhou uma forma muito particular ao longo dos anos. Sempre fui cuidador. Preocupo-me, acompanho, tento ajudar, algumas vezes provavelmente mais do que deveria. É difícil saber exatamente onde termina o cuidado e começa aquela tarefa muito mais complicada de confiar que um filho encontrará suas próprias soluções.
Estou aprendendo isso também. Porque existe uma independência em Camila que sempre esteve muito clara para mim. Ela pensa por conta própria. Analisa, discorda, argumenta e é bastante teimosa quando acredita em alguma coisa. Nesse ponto, infelizmente, não posso reclamar muito. Conheço a procedência.
Há, porém, uma coisa curiosa em nossa relação. Algumas vezes percebo que minha filha ainda olha para mim através de uma imagem idealizada. Como se o pai precisasse corresponder sempre a uma determinada versão que ela construiu ao longo da vida.
Não corresponde, Filhota.
E talvez uma das coisas bonitas de envelhecermos juntos seja justamente esta: filhos descobrirem que os pais são apenas pessoas e pais poderem descobrir os filhos para além daquela criança que um dia carregaram nos ombros.
Eu quero conhecer cada vez mais essa Camila. A mulher madura que conserva o sorriso da menina. A designer talentosa. A pessoa profunda com quem compartilho música, humor e longas conversas. A filha que, em muitos momentos, já pode simplesmente sentar-se ao meu lado como alguém que conhece uma parte enorme da minha história.
E vejo com alegria que novos caminhos começam a se abrir diante dela. Há também alguém caminhando ao seu lado agora, e gosto de pensar que isso possa ajudá-la a descobrir outras formas de companhia, segurança e construção da própria vida. Talvez seja também uma boa oportunidade para este pai aprender a abrir um pouco as asas.
Não desaparecer. Só abrir espaço. Porque, depois de tantos anos querendo proteger, aquilo que mais desejo para Camila é muito simples. Não tenho para ela um projeto de vida, uma carreira ideal ou um roteiro que precise ser cumprido. Quero que encontre seus caminhos, que confie cada vez mais no enorme conjunto de qualidades que possui e que consiga olhar para si mesma com a generosidade com que tantas vezes olha para os outros.
Quero que seja muito, muito feliz.
Hoje, quando penso naquela menininha nos meus ombros e olho para a mulher que comemora mais um aniversário, descubro que algumas relações mudam de lugar sem perder aquilo que tinham de essencial.
Camila continua sendo minha filha. Mas é também, e há muito tempo, minha amiga querida do coração.
Feliz aniversário, minha primeira parceirinha de vida.
Parabéns Camila 🧡
ResponderExcluirQue lindo!
ResponderExcluirCamila uma filha preciosa e vc Arnon, um pai sensacional!