sexta-feira, 10 de outubro de 2025

O tambor e o gesto da criação

(Introdução à série sobre “The Making of the Drum”, de Bob Chilcott)

Há obras corais que encantam pela beleza sonora. Outras, pela profundidade simbólica. E há aquelas, raras, que conseguem reunir as duas coisas. The Making of the Drum é uma dessas obras.

Bob Chilcott, o compositor, é uma das vozes mais expressivas da música coral contemporânea. Cantor do lendário King’s Singers antes de se dedicar à composição, ele construiu um catálogo que mistura simplicidade, sofisticação e uma sensibilidade humanista que fala diretamente ao coração dos coros e do público. Em The Making of the Drum, escrita em 1999, ele une poesia de alma africana e escrita coral inglesa em uma peça de rara força espiritual.

O texto, do poeta de Barbados, Kamau Brathwaite, narra o nascimento de um tambor. Não é uma descrição técnica: é um rito. A cada verso, o instrumento é construído com matéria e alma. A madeira cortada, a pele esticada, a cabaça vazada, tudo é gesto, tudo é sacrifício. E, pouco a pouco, o tambor se transforma em símbolo: corpo e voz da própria humanidade.

Quando o Ars Nova apresentou essa obra no concerto do centenário da Escola de Música da UFMG, em abril de 2025, ela soou como uma metáfora perfeita para a própria Escola: feita de mãos, de vozes, de dedicação, de tempo, de uma matéria viva que só existe porque vibra.

Como o tambor, a Escola foi moldada por quem a tocou e por quem ainda a faz ressoar...

Nos próximos posts, seguirei por dentro da obra, parte por parte, acompanhando esse processo simbólico de construção.

Cada movimento é um capítulo do rito: a pele e a madeira, a cabaça e o espírito, o tambor que fala e a celebração que o transcende.

É um convite à escuta e à contemplação, porque, afinal, fazer um tambor é também fazer o som do mundo.

 

Bob Chilcott choral composer and conductor

 Bob Chilcott


Word Warrior . . . Kamau Brathwaite, Happy 90th Birthday (May 11 ...

 Kamau Brathwaite

 

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Cem anos em canto - Concerto do Centenário da Escola de Música da UFMG

No dia 9 de abril de 2025, tive a honra de reger o Ars Nova - Coral da UFMG no concerto comemorativo dos 100 anos da Escola de Música da UFMG, realizado no auditório da própria Escola.

Como professor de Regência desta instituição, participar dessa celebração foi mais do que conduzir um concerto: foi testemunhar a continuidade de um legado que atravessa gerações.

Cada gesto naquele palco parecia carregar algo que vinha de longe — ecos de mestres, memórias de sons, traços de uma história construída por tantos.

Regia o coro, mas também sentia que fazia parte de uma mesma corrente, uma linhagem que mantém viva a tradição de ensinar e aprender através da música.

O texto a seguir foi escrito para introduzir a apresentação do Ars Nova naquela noite. Ele marcou o início do concerto e, de certo modo, também expressou o sentido do que vivemos: uma celebração da arte, da memória e do tempo que continua a nos conduzir.

 

Senhoras e senhores, boa noite!

Esta noite celebramos uma travessia: cem anos de música, de histórias e de memórias que ecoam das paredes deste prédio e do velho Conservatório. Cem anos de mãos que ensinam e aprendem, de vozes que se encontram, de corações que batem ao compasso da criação musical.

Esta noite é um rito.

E como todo rito, tem um chamado, uma construção e uma celebração.

Começamos com o chamado: Exsultate Deo, de Alessandro Scarlatti.

Uma tradição que carrega a memória de Carlos Alberto Pinto Fonseca, nosso mestre maior, que tantas vezes escolheu essa peça para abrir os concertos do Ars Nova. Hoje, ela ressoa como um convite à exultação — ao júbilo que inaugura não apenas esta noite, mas também um novo ciclo para a nossa Escola.

Em seguida, percorremos o caminho da construção com The Making of the Drum, de Bob Chilcott.

Esta obra conta como nasce o tambor: a pele, a madeira, os bastões, as cabaças, e o som que só existe porque alguém o faz vibrar.

Como o tambor, a Escola de Música foi feita da matéria viva da dedicação de cada pessoa que a construiu. Sacrifícios, ofícios, talentos e paixões que, juntos, formaram este grande instrumento coletivo que pulsa até hoje.

Porque, como o tambor, a Escola só vive se for tocada — e se permitir ser tocada — por todas as vozes, mãos e corpos que insistem em permanecer, criar, ensinar, aprender e transformar.

Para encerrar celebrando, damos voz à nossa música popular.

Pra Machucar Meu Coração e Lata D’água nos lembram que a música pulsa também nas ruas, nos quintais, nas comunidades que constroem, todos os dias, sua própria resistência e beleza.

E a imagem da lata d’água na cabeça fala profundamente: simboliza o peso das responsabilidades, a força necessária para sustentar o lar, e a coragem de Maria subindo o morro — como tantas mulheres brasileiras.

Mas também reflete a construção e a permanência da nossa Escola: sustentada por quem carrega, dia após dia, o peso e a honra de manter viva a tradição e a esperança.

Que esta noite seja mais que uma lembrança.

Que seja uma promessa: a de continuarmos construindo juntos o som que atravessará os próximos cem anos.

E que a música, sempre ela, nos conduza.

Clique aqui para assistir: 09.04.2025 - Coral Ars Nova nos 100 anos da Escola de Música da UFMG


A apresentação começa no minuto 4:35.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Alleluia (coro virtual — tempo de travessia)

O fechamento na pandemia começou em março de 2020. Lembram-se?

Cada um cantava de sua casa, tentando, por um instante, reviver o calor dos ensaios, o gesto do maestro, o olhar do colega ao lado. Foi nesse tempo que o Madrigale gravou este Alleluia, de Ralph Manuel, um canto de fé, leveza e esperança.

“De alegria”, dizia a introdução, “aqueles que cultivam a fé e a esperança conseguem abrir um sorriso, mesmo quando uma lágrima desce de nossas faces.”

Era exatamente isso.

Cantávamos com o nó na garganta, mas também com a certeza de que a música ainda era capaz de unir. Cada voz gravada separadamente carregava, por trás do microfone, um gesto de resistência,um amém silencioso diante do mundo suspenso.

O Alleluia não foi apenas uma peça. Foi um abraço virtual. Uma forma de lembrar que, mesmo distantes, continuávamos juntos, cantando, acreditando, respirando o mesmo som...


Alleluia, Ralph Manuel - Coro Madrigale


Gravado em 2020, durante o isolamento social. Disponível no canal do Coro Madrigale no YouTube.


P.S. — Ao revisitar esses registros virtuais, reparem como tudo se transformou: as edições, mais cuidadosas; os enquadramentos, mais ousados; e o coro, que em vez de diminuir, foi crescendo.
Cada novo vídeo trazia mais vozes, mais rostos, mais esperança.
Como se, a cada Aleluia, a distância se tornasse um pouco menor.

 

 

 


terça-feira, 7 de outubro de 2025

Entre telas e vozes: o Madrigale virtual

Se o silêncio da pandemia foi duro, ele também nos empurrou para uma experiência que jamais imaginaríamos: cantar sem estar juntos. O Madrigale, assim como tantos outros coros, precisou se reinventar. E assim nasceram os nossos coros virtuais, mosaicos digitais que uniam vozes espalhadas pela cidade, cada uma gravada em sua casa, mas que, quando reunidas, formavam de novo um vitral colorido.

Era tudo novo. Cada cantor gravava como podia: celular, microfone improvisado, quartos transformados em estúdios. Havia ruídos, atrasos, inseguranças. E eu? Deixei de ser apenas maestro para virar também técnico de som, editor de paciência, orientador à distância. O gesto que sempre conduziu respirações coletivas virou instrução por e-mail, referência gravada, tentativa de recriar no virtual aquilo que só existe plenamente na presença.

E, no entanto, o resultado surpreendia. Não era o som vivo do ensaio, não havia aquela vibração imediata que preenche o corpo, mas havia uma força própria: a prova de que, mesmo separados, ainda éramos um coro. Cada vídeo lançado pelo Madrigale naquele tempo foi um lembrete de que a música não se deixa aprisionar por paredes, nem por telas, nem pelo medo.

Foi um aprendizado. De técnica, sim. De paciência, certamente. Mas, sobretudo, de vínculo. Descobrimos que cantar junto não é apenas estar lado a lado: é partilhar uma intenção, é confiar que a voz do outro também virá, mesmo que gravada horas depois, em outro canto da cidade.

Hoje, quando revejo aqueles registros, sinto como se fossem cartas enviadas de uma ilha distante. Mensagens que diziam, com todas as vozes juntas: “continuamos aqui”. E de fato continuamos. O Madrigale permaneceu vivo. Porque a música, mesmo confinada às telas, insistiu em nos unir.

 


👉 Vou convidar a todos a observarem o que foi uma evolução na produção dos coros virtuais. Esse primeiro, ou talvez o movimento dos CV, não existiria se não fosse a dedicação inicial da Manu, da Redd, do Gabriel e do Leandro. 

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Entre silêncios e retornos

Houve um tempo em que o silêncio se impôs de forma brutal. A pandemia não trouxe apenas o medo e o isolamento: trouxe, para mim, o vazio de não poder ouvir nem reger vozes. Foi como se o chão que me sustentava tivesse desaparecido. Os palcos, que sempre foram extensão do meu corpo, se fecharam. As salas de ensaio, que sempre guardaram a respiração coletiva, se calaram. E, de repente, precisei me escutar sozinho.

Vieram as experiências virtuais, esse estranho recurso de tentar juntar o que estava separado. Coros em vídeos editados, ensaios em plataformas digitais, encontros que mais pareciam miragens do que presenças. Não era o mesmo, e nunca poderia ser. Mas foi nesse tempo que compreendi que a música é também resistência: ela se transforma em gesto, em lembrança, em promessa de futuro. Aprendi a aceitar que cantar junto, mesmo de modo fragmentado, ainda assim era um ato de teimosia contra o vazio.

O Madrigale, nesse período, foi para mim mais do que um grupo artístico. Foi a memória viva de tudo o que construímos ao longo dos anos e, ao mesmo tempo, a lembrança constante do quanto a música depende da presença, do corpo, do olhar. Mantê-lo em suspenso foi doloroso, mas também foi um exercício de fé: a certeza de que voltaríamos a nos encontrar e de que o coro ainda teria voz quando as portas se reabrissem.

Quando o tempo da reabertura chegou, os retornos foram lentos, cheios de cautela. Mas cada ensaio de novo presencial parecia uma conquista, cada concerto um rito de renascimento. O Madrigale voltou ao palco com a mesma entrega de sempre, mas em mim havia um olhar diferente: o de quem sabe o que significa perder, e o que significa reencontrar. Vieram outras tarefas, novas responsabilidades, e também o pós-doutorado que me instiga a pensar de onde vim e para onde caminho.

Olho hoje para esses últimos anos e percebo que não foram apenas sobre sobrevivência. Foram sobre reconhecimento: a música não me pertence apenas como profissão, mas como pulsação vital. E mesmo quando o palco desaparece, mesmo quando a sala de ensaio se fecha, ela insiste em permanecer.

Entre silêncios e retornos, descobri que a vida é feita de travessias. E que nenhuma delas é definitiva.

 


 Das muitas fotos que tirei da minha varanda... ao longo da pandemia.

👉 No próximo post, falarei um bocado sobre os coros virtuais dos tempos de pandemia. Pra não esquecer daqueles tempos sombrios.

domingo, 5 de outubro de 2025

O coro que não cantou para mim

Há concertos que nos emocionam, e outros que nos revelam. Este texto nasceu de um desses momentos, após ouvir o muito esperado concerto de um coro que, em outro tempo, mudou minha vida... um reencontro com o passado e com o ouvido que o tempo transformou. Não é uma crítica, é uma escuta.


A igreja estava cheia.
O mesmo nome no programa, o mesmo tremor no coração, mas outra vida em mim.

As vozes começaram, e esperei o arrepio.
Ele não veio.
Veio o silêncio, e com ele, um eco distante: o jovem que eu fui, de olhos abertos e coração em brasas.

Hoje ouço com outro ouvido.
Não procuro mais o som que impressiona, procuro o som que confessa.
E o coro, afinado, limpo, impecável,
não me confessou nada.

A beleza que antes me incendiava agora repousa em mim, discreta, quase secreta.
Talvez o coro tenha mudado.
Talvez quem mudou fui eu.

Mas entre o que foi e o que é, aprendi algo simples:
o verdadeiro concerto acontece dentro da alma que escuta.

E com essa constatação, levantei-me e saí.
Frustrado? Sim. Mas com a estranha sensação de...
Completude.




sábado, 4 de outubro de 2025

O Madrigal na Europa – 1958 – Entre arte e poder (uma reflexão)

E chegamos ao fim da viagem de 1958. Foram semanas intensas, atravessando países, palcos, embaixadas e até a sala do Papa. Hoje, olhando para trás, é possível enxergar os fios políticos que envolviam o coro, mas não se pode esquecer que, para quem estava lá, a experiência tinha outro sabor. Os cantores pensavam na aventura, na convivência, na emoção de cantar em lugares históricos. O regente buscava, como qualquer jovem maestro, construir uma carreira e abrir espaços para si e para o grupo.

Se hoje falamos em representações culturais e estratégias de Estado, é porque a distância nos permite ler essas camadas. Naquele momento, o que se vivia era mais imediato: aplausos, viagens, descobertas, encontros inesperados. O Madrigal foi usado como vitrine, sim, mas não havia plena consciência disso dentro do próprio coro.

O contraste entre o presente da época e a leitura que fazemos hoje é o que mais chama atenção. O que parecia apenas um concerto em uma basílica, uma audiência no Vaticano ou um coquetel em embaixada era, ao mesmo tempo, instrumento de projeção do Brasil no exterior. Essa duplicidade, a vivência inocente dos músicos e o cálculo dos diplomatas, é talvez o traço mais revelador da excursão de 1958.

A viagem deixa claro que a música pode ser tanto espaço de criação e encontro quanto peça em engrenagens maiores, nem sempre visíveis para quem canta. O Madrigal voltou com histórias, aprendizados e portas abertas, mas também deixou registrado, ainda que de forma inconsciente, como a arte se cruza com o poder.



👉 Nos próximos textos, sigo para outros caminhos, pelo menos temporariamente, deixando o Madrigal aqui nas minhas pesquisas. Mas ele voltará...

 


sexta-feira, 3 de outubro de 2025

O Madrigal na Itália – Entre basílicas, palácios e o Papa

 A Itália foi o último destino da excursão europeia do Madrigal Renascentista em 1958. Os músicos chegaram em 9 de março, visitando Milão, onde se apresentaram no Palácio dos Doges, seguiram para Veneza, com concerto na Basílica de São Marcos, e depois para Florença, onde participaram de uma audição radiofônica.

O momento mais simbólico, porém, aconteceu em 18 de março, em Roma, quando o coro foi recebido em audiência pelo Papa Pio XII. Para ele, cantaram a Ave Maria, de Victoria. Segundo a cantora Suzy Botelho, o Papa se mostrou surpreso e comentou: “Nunca poderia imaginar que em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, houvesse um coro de qualidade como o Madrigal Renascentista.”


Com véus, tradição nas audiências papais, as cantoras do Madrigal Renascentista com Pio XII – 1958. Da esquerda para a direita: Maria Auxiliadora Lima Martins, Maria Amália Martins, Terezinha Miglio, Rosa Alice Godoy, Norma Augusta Pinheiro Graça, Ana Maria Godoy, Maria Lúcia Godoy, Papa Pio XII, Hilda Soares Fonseca, Suzy Botelho, Maria Amélia Martins, Edith Hasseck, Waldemira Oliveira, Neide Lambert e Zinda de Oliveira Santos. (Acervo Madrigal Renascentista)


Da esquerda para a direita: Francisco Magaldi, José Aurélio Vieira, Cláudio de Castro Ribeiro, Isaac Karabtchevsky, Laudelino Menezes, Papa Pio XII, Fábio Lúcio Martins, Amin Abdo Feres, Edival Trindade, Afrânio Lacerda, Gilberto Brandão, Ildeu Oliveira Santos, Wilson Bergo Duarte, Jonas Travassos. (Acervo Madrigal Renascentista)

As fotos desse encontro dizem muito. De um lado, as cantoras, vestidas de acordo com o protocolo rígido do Vaticano: véus, uniformes discretos, sem decotes ou adornos, saias abaixo do joelho. Algumas sorriem, outras parecem constrangidas, numa postura cerimoniosa que imitava o gesto do pontífice. Do outro lado, os homens: ternos escuros, mais diversidade de expressão, Karabtchevsky em primeiro plano, encarando o fotógrafo com um sorriso que destoava da formalidade geral.

Essa audiência não foi um concerto oficial, mas um gesto político. O coro cantou apenas uma peça, e o peso da ocasião estava no simbolismo do encontro, não no repertório.

No mesmo dia, o grupo cantou também na Grande Sala Palestrina do Palácio Doria Pamphilj, sede da Embaixada do Brasil em Roma, em concerto patrocinado pelo embaixador Adolpho Cardoso de Alencastro Guimarães. Entre os convidados, estavam membros do corpo diplomático, altos funcionários do governo italiano, críticos de arte e personalidades da sociedade romana. Era a diplomacia cultural em sua forma mais explícita: o Brasil sendo representado por vozes mineiras em um dos palcos mais aristocráticos da Europa.

Poucos dias depois, a maior parte dos cantores voltou a Lisboa para embarcar de regresso ao Brasil. Permaneceram em Freiburg Isaac Karabtchevsky, Maria Lúcia Godoy e Amin Feres, que haviam conquistado bolsas de estudo, acompanhados por Ana Maria Godoy. Ali começava um novo capítulo na vida desses jovens músicos, ao mesmo tempo em que se encerrava a primeira grande aventura internacional do Madrigal.

👉 No próximo post, será hora de olhar para o todo e pensar no que essa excursão de 1958 significou: vitrine artística, ferramenta política e marco na história da música coral brasileira.

   👉👉 Fontes no livro em: o_coro_do_brasil_o_madrigal.pdf

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

O Madrigal na Suíça – Quando a diplomacia fecha a porta

A temporada suíça começou em 7 de março, mas em Zurique o Madrigal Renascentista se deparou com uma realidade dura: sem o apoio da diplomacia, não havia palco. A carta da coralista Suzy Botelho, enviada ao Diário de Minas, não deixa dúvidas:

Bem, e agora estamos já nos despedindo de Zurich (sic). Aqui foi o único lugar onde nada fizemos, do ponto de vista artístico, por não termos conseguido estabelecer contatos a tempo. Procuramos o Cônsul daqui para sabermos se poderíamos fazer qualquer coisa, mas pela primeira vez durante nossa viagem à Europa, não somos bem recebidos por um diplomata. Não sei o nome dele ainda, mas vou saber. Mas foi bom que não tivéssemos compromissos, pois descansamos um pouco. Partiremos amanhã muito cedo para Milão.

Esse episódio mostra de forma clara que a chamada diplomacia cultural não é neutra nem automática. Ela depende de interesses, de vontade política, de embaixadores engajados, ou não. O coro podia ter talento e repertório, mas sem o selo da oficialidade e sem as chaves da diplomacia, sua voz não se fazia ouvir.

Até então, em cada país, a presença de embaixadores e diplomatas brasileiros havia sido decisiva. Foram eles que garantiram salas de concerto, convites de última hora, plateias qualificadas. Em Paris, por exemplo, chegou-se a articular até uma verba extra para que o coro retornasse à cidade e se apresentasse em um congresso latino-americano na Sorbonne. Ali, a engrenagem diplomática funcionava. Em Zurique, não.

O contraste é revelador. O Madrigal só existia como cartão de visitas do Brasil porque havia uma máquina política e cultural que o sustentava. Quando essa máquina falhou, restou apenas o silêncio.

 



👉 No próximo post, acompanharemos a passagem pela Itália, onde o Madrigal encerrou a excursão de 1958 e recolheu os frutos dessa longa viagem.

  👉👉 Fontes no livro em: o_coro_do_brasil_o_madrigal.pdf

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

O Madrigal na Alemanha – Freiburg e os caminhos da formação

Na Alemanha, o Madrigal Renascentista se apresentou na Staatliche Hochschule für Musik Freiburg im Breisgau e na Rádio Freiburg. A acolhida veio do maestro Arthur Hartmann, diretor da Escola Superior de Música da Universidade de Freiburg e um dos incentivadores da excursão desde o ano anterior. Houve até alguns tropeços: problemas de correspondência atrapalharam parte da programação de concertos. Ainda assim, a passagem por Freiburg acabou sendo decisiva.

Foi ali que se abriram portas para o futuro. Pouco depois, Isaac Karabtchevsky, Maria Lúcia Godoy e Amin Feres conquistaram bolsas de estudo do governo alemão para estudar na prestigiada escola da cidade. Sobre uma das apresentações, Hartmann não poupou elogios:

“O Madrigal Renascentista de Belo Horizonte, Brasil, é um conjunto que se pode comparar aos melhores europeus pela sua harmonia, seu respeito ao espírito da obra e a sua alta classe artística.”

A escolha de Freiburg tinha também um valor simbólico. Karabtchevsky buscava seguir os passos de seu mestre Hans-Joachim Koellreutter, que havia se formado justamente ali. Era como se a trajetória do regente brasileiro reencontrasse suas raízes na tradição alemã, ao mesmo tempo em que se projetava para o futuro.

Essa etapa mostra como a excursão europeia não foi feita apenas de concertos, mas também de conexões duradouras. O coro cantava, mas, ao fundo, já se desenhavam caminhos de formação, bolsas de estudo e redes de contato que marcariam a vida de alguns de seus principais integrantes.

 


👉 No próximo post, acompanharemos a passagem do Madrigal pela Suíça, o único lugar em que a diplomacia não deu certo. 

 👉👉 Fontes no livro emhttps://musica.ufmg.br/selominasdesom/wp-content/uploads/sites/3/2023/05/o_coro_do_brasil_o_madrigal.pdf

 

Explicações corais: o que significa dividir um naipe?

Em uma partitura coral, é bastante comum encontrarmos a palavra divisi . Ela vem do italiano e significa, simplesmente, divididos . Num coro...