quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Elements 1. Terra – o som que sustenta o mundo

O primeiro movimento de Elements, de Katerina Gimon, é Earth, e, como na alquimia, tudo começa pela matéria. A Terra é o elemento da forma, da densidade e do tempo. É o que acolhe e o que limita, mas também o que dá estrutura ao sonho. A Terra é movimento constante.

Na peça, o coro se transforma em solo vivo. As vozes se entrelaçam em sons graves, contínuos, que parecem vir do interior da própria terra. Não há pressa, há pulsação. O som cresce lentamente, como se brotasse, lembrando-nos de que todo nascimento é silencioso antes de se tornar canto.

A música de Katerina Gimon não descreve o elemento: ela o encarna. O coro se faz chão, corpo, matéria sonora. É como se cada voz se tornasse uma partícula de barro vibrando em conjunto, sustentando o peso e o equilíbrio do mundo.

No Tarot, a Terra corresponde ao naipe de Ouros, o reino do concreto, do trabalho e da realização. É o símbolo daquilo que se constrói, daquilo que permanece.

No mapa astrológico, ela é o que ancora, Touro, Virgem e Capricórnio, lembrando-nos que o espírito também precisa de casa, rotina e ordem.

E na música coral, ela é o corpo, a base física da emissão, o apoio respiratório, a gravidade que dá sentido ao som.

Cantar a Terra é cantar o peso sagrado de existir. É reconhecer que o som nasce do corpo, e o corpo nasce do mundo. Que toda voz, antes de ser ar, é músculo, é matéria vibrando. Há algo profundamente espiritual nesse reconhecimento. Quando o coro entoa Earth, o som parece vir de um lugar anterior ao humano, um murmúrio ancestral que recorda o princípio das coisas. É o som da criação ainda sem forma, o instante em que o silêncio decide mover-se. E assim, a Terra se torna o primeiro aprendizado de todo canto: antes de erguer-se ao céu, a voz precisa conhecer o chão.


🎧 (7) Earth from Elements (Katerina Gimon) - YouTube

 



 

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Elements - a força dos elementos em som

Uma música nascida não de uma ideia, mas da própria natureza. Foi essa a sensação que tive ao conhecer Elements, da jovem compositora canadense Katerina Gimon, uma das vozes mais criativas da nova geração coral.

A peça é formada por quatro movimentos, cada um inspirado em um dos elementos clássicos: Terra, Ar, Fogo e Água. Mas, em vez de usar palavras, Katerina cria uma linguagem própria: sons inventados, sílabas abertas, respirações, percussões vocais. A voz deixa de contar uma história para se tornar o próprio elemento: matéria viva, sopro, chama e correnteza. O resultado é uma obra que parece pintar o mundo em som.

Em Earth, sentimos o peso e a quietude do solo. Em Air, o vento ganha corpo em linhas ascendentes e leves. Em Fire, a energia se espalha como faísca e explosão. E em Water, tudo se dissolve e se reflete, num movimento de ondas e espelhos.

Mais do que uma sequência de imagens sonoras, Elements é um exercício de escuta interior. Cada elemento fala não apenas da natureza externa, mas também das forças que nos habitam: estabilidade, leveza, paixão e fluidez. É uma música que dialoga com o Tarot e com a simbologia ancestral: a Terra como base e corpo; o Ar como pensamento e espírito; o Fogo como energia criadora; e a Água como emoção e transformação.

O coro, nesse contexto, torna-se o espaço onde esses mundos se encontram. As vozes se misturam como matéria e energia, revelando o poder da arte coral de transmutar o invisível em presença sonora. Porque ouvir Elements é também ouvir a nós mesmos: a respiração que molda o som, a chama que move o gesto, a raiz que sustenta o corpo, a corrente que leva o coração adiante.

Nos próximos posts, quero caminhar por cada um desses elementos, não apenas como movimentos musicais, mas como expressões simbólicas da experiência humana. E aqui eu faço uma sugestão de escuta da peça completa, antes de falar e sugerir gravações de cada um dos "Elementos".

🎧 Elements (Earth, Air, Fire and Water) by Katerina Gimon / performed by SORA


 

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Indodana – o canto que nasce da terra e se eleva ao céu

 

Entre as muitas obras interpretadas pelo Stellenbosch University Choir, uma delas me tocou de forma especial: Indodana, um hino tradicional pascal em isiXhosa, uma das línguas da África do Sul.

“IsiXhosa”, palavra que já soa como música, é o idioma do povo Xhosa, cuja cultura é profundamente marcada pelo canto, pela oralidade e pelos sons que imitam a própria natureza. É uma língua de ritmo e respiração, de cliques e pausas, em que o corpo inteiro participa da fala. E talvez seja por isso que, quando cantada, ela parece atravessar o ar como uma oração viva.

Indodana significa “O Filho”. É uma canção que fala do sacrifício e da esperança, da dor e da transcendência, mas sem drama, sem ênfase teatral. O que se ouve é uma espiritualidade calma, terrosa, ancestral. Há algo de sagrado e humano ao mesmo tempo nesse canto, como se a própria voz coletiva se tornasse chão e céu.

Na interpretação do Stellenbosch University Choir, o arranjo contemporâneo, criado por Michael Barrett e Ralf Schmitt, preserva a simplicidade do original, mas o amplia em dimensão coral. As vozes se erguem em ondas, primeiro suaves, depois intensas, até se dissolverem novamente no silêncio. É um canto que cresce de dentro para fora, como um sopro, um alento.

O que mais me comove em Indodana é essa fusão entre o espiritual e o humano. A peça não busca impressionar; ela se oferece. Não há virtuosismo, mas verdade.

E, por isso mesmo, ela nos lembra o poder essencial da música coral: ser ponte entre o som e o espírito, entre a tradição e o instante presente.

Ao ouvir Indodana, é impossível não sentir que há algo maior ressoando dentro de nós. É o canto da terra que se faz oração, é o som do povo que se faz lembrança,

é a voz que, ao buscar o divino, nos devolve ao humano.

Indodana - Stellenbosch University Choir

 

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segunda-feira, 10 de novembro de 2025

All of me - Tudo de mim...

Há momentos na vida em que a música deixa de ser apenas som, e passa a ser a própria tradução de um sentimento. Foi o que aconteceu quando, em um dos concertos internacionais do Coro Madrigale, cantamos All of Me, de John Legend, tendo como solista a minha amada Lívia Itaborahy.

Lembro-me daquele instante com uma nitidez que ainda me comove. O ambiente, a emoção, a respiração coletiva do coro... tudo parecia convergir para algo maior que a própria canção. Havia ali uma entrega rara, uma dessas que não se ensaia, não se explica, apenas acontece.

A letra fala de um amor que se doa por inteiro:

“Dê tudo de si para mim, eu vou dar tudo de mim para você.

Você é o meu fim e o meu começo.

Mesmo quando eu perco, estou ganhando, porque eu te dou tudo de mim

E você me dá tudo de você...”

Mas, ao cantá-la, o que mais me tocava não era a tradução literal das palavras, e sim o modo como elas ecoavam em nós, entre os olhares, os timbres, a cumplicidade do gesto. Era uma música que nos atravessava não como intérpretes, mas como pessoas.

Ver e ouvir a Lívia ao meu lado, naquele palco distante, foi como reencontrar o sentido de tudo o que a arte nos dá: a capacidade de unir o íntimo e o universal. 

Enquanto ela cantava, eu percebia o coro como uma extensão dessa entrega, um corpo sonoro que respirava o mesmo ar, sustentava o mesmo sentimento. E, por um breve instante, senti que a fronteira entre o pessoal e o artístico desaparecia.

A música nos expõe, nos desarma. E talvez seja por isso que ela continua sendo o meio mais puro de dizer o indizível. All of Me não era apenas uma canção de amor, era a confissão de um tempo, de uma parceria, de uma vida partilhada, do início da superação de um tempo difícil...

Hoje, quando volto a ouvi-la, ela ainda me devolve aquele silêncio luminoso que se instala logo após o último acorde. Um silêncio cheio de presença, de gratidão e de amor...

Te amo, Lívia Itaborahy!!!


Madrigale Pop Internacional – 04. All of Me

 



 

 

domingo, 9 de novembro de 2025

Stellenbosch University Choir - quando a emoção encontra a voz coletiva

Pesquisar coros nas redes tem sido, para mim, a abertura de um novo universo a explorar. Ouvir novos coros tem sido algo muito bom, porque percebo que o canto coral está mais vivo que nunca e florescendo de diversas maneiras. 

Entre tantas formações corais espalhadas pelo mundo, algumas chamam a atenção não apenas pela precisão técnica, mas pela emoção que provocam. Foi o que senti ao ouvir o Stellenbosch University Choir, da África do Sul, um grupo jovem, vibrante, cheio de energia. Daqueles coros que parecem cantar com o corpo inteiro.

Fundado em 1936 e ligado à Universidade de Stellenbosch, o coro reúne estudantes de diferentes cursos e origens. O que os une é o desejo simples e profundo de cantar. E talvez seja isso que o torne tão especial: não há distanciamento entre arte e vida. Cada voz carrega uma história, e juntas formam um som que é, ao mesmo tempo, preciso e humano.

Sob a regência de André van der Merwe, o coro tem construído uma trajetória marcada por interpretações cheias de emoção e por um repertório que atravessa estilos, do clássico ao contemporâneo, da música africana às harmonias universais. Em cada performance, é como se o grupo recriasse o mundo em canto.

Ao assistir ao vídeo de “Baba Yetu”, por exemplo, a sensação é de um arrebatamento silencioso. Há ritmo, cor, alegria e uma espiritualidade natural, algo que nasce do corpo e da terra e se transforma em comunhão sonora. É um canto que parece vir do coração da África, mas que ecoa em todos nós.

O que mais me toca, contudo, é a vibração humana que o coro transmite. Há alegria, há entrega, há uma espécie de fé na música que atravessa o tempo e o idioma. E isso é o que mais admiro em um grupo vocal: quando a arte não se impõe pela perfeição, mas pela emoção.

O Stellenbosch University Choir é, para mim, um belo exemplo do que o canto coral pode ser quando não se limita à forma, quando se transforma em encontro, energia e emoção compartilhada.

 

>Baba Yetu - Stellenbosch University Choir

 

Grupo de pessoas posando para foto

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sábado, 8 de novembro de 2025

Leonardo Dreams of His Flying Machine - quando o coral sonha em asas e ar

Aproveitando minhas reflexões do post anterior, lembrei-me do bom, e difícil, trabalho que tive na preparação desta peça de Eric Whitacre. Uma obra que nos faz pensar no que significa sonhar em voar... não apenas no sentido literal, mas no musical.

Leonardo Dreams of His Flying Machine foi composta em 2001, sob texto de Charles Anthony Silvestri, inspirado nos cadernos de Leonardo da Vinci. Desde o início, a peça se revela como um verdadeiro drama coral. Ela coloca o maestro e o conjunto diante de uma narrativa intensa: a de um gênio inquieto, atormentado pela imagem do voo, pela necessidade de vencer a resistência do ar, pela urgência de imaginar asas onde até então havia apenas matéria bruta.

Whitacre e Silvestri constroem uma linguagem musical que é quase pictórica, onde cada som parece pintar um quadro. É quase possível ver/ouvir o ateliê de Leonardo, repleto de pergaminhos, esboços e pombos soltos no amanhecer toscano e perceber o sussurro do céu chamando em italiano: “Leonardo, Leonardo, vieni à volare...”. Dá pra sentir, através da combinação rítmica e sonoro, a metáfora do engenho: a máquina de voo, as asas projetadas contra o ar e o fogo, o homem que tenta subir: carry a man up, up into the sun. Essas imagens não descrevem o voo: elas o fazem sentir.

Ao trabalharmos essa obra no contexto coral, percebemos o quanto a metáfora de Leonardo se concretiza. O coro torna-se a própria máquina de voo, um organismo coletivo que tenta vencer a resistência do ar (da combinação sonora), ou seja, superar cada obstáculo de afinação, de equilíbrio, de entrega, e transformar tudo isso em impulso criador. O gesto, nesse caso, é o ponto de ignição: convoca as asas, ajusta a máquina e prepara o salto; e o público é o céu, o espaço que acolhe o voo, onde o coro se eleva não apenas para performar, mas para transcender.

Para o cantor, essa peça pede mais do que técnica. Pede imaginação: imaginar o ar, o movimento, a vertigem do voo. Para o regente, pede visão: perceber o coro como uma engrenagem de sonho, onde cada voz é uma peça essencial, a harmonia é o motor e o silêncio, o trampolim. E para todos nós, intérpretes, ouvintes, formadores, ela lembra que o som mais verdadeiro é aquele que se atreve a voar.

No fim, Leonardo Dreams of His Flying Machine não é apenas sobre Leonardo, nem sobre o sonho da máquina. É sobre o desejo humano de subir, de transformar o peso em leveza, o esforço em beleza, o som em voo, e de descobrir, a cada nota, o ar que nos sustenta.

 

Vale ver/ouvir o próprio compositor regendo a sua obra:

Eric Whitacre conducts "Leonardo Dreams of His Flying Machine"

 

Grupo de homens de terno e gravata

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O texto

I.

Leonardo sonha com sua máquina voadora...

Atormentado por visões de vôo e queda,

Mais maravilhoso e terrível cada um do que o anterior,

Mestre Leonardo imagina um motor

Para levar um homem ao sol ...

E enquanto ele está sonhando, os céus o chamam,

sussurrando suavemente seu canto de sereia:

"Leonardo. Leonardo, vieni á volare". ("Leonardo. Leonardo, venha voar".)

L'uomo colle sua congiegniate e grandi ale,

facciendo forza contro alla resistente aria.

(Um homem com asas grandes o suficiente e devidamente conectadas

pode aprender a superar a resistência do ar.)

II.

Leonardo sonha com sua máquina voadora...

Enquanto as velas queimam baixo, ele anda de um lado para o outro e escreve,

Liberando os pombos comprados um por um

No dourado nascer do sol da Toscana ...

E enquanto ele sonha, novamente o chamado,

O próprio ar dá voz:

"Leonardo. Leonardo, vieni á volare". ("Leonardo. Leonardo, venha voar".)

Vicina all'elemento del fuoco...

(Perto da esfera do fogo elemental...)

Riscando a pena no papel amassado,

Rete, canna, filo, carta.

(Rede, cana, linha, papel.)

Imagens de asa, armação e tecido bem presos.

... Sulla suprema ária sottile.

(... na atmosfera mais alta e rara.)

III.

Mestre Leonardo Da Vinci sonha com sua máquina voadora...

Enquanto a torre de vigia da meia-noite dobra,

Sobre telhado, rua e cúpula,

O triunfo de um ser humano ascendendo

No sonho de um homem mortal.

Leonardo se fortalece,

dá um último suspiro e pula...

"Leonardo, Vieni á Volare! Leonardo, Sognare!" ("Leonardo, venha voar! Leonardo, sonhe!")

Charles Anthony Silvestrin.1965

 

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Consonância e dissonância - o equilíbrio entre o som, o conflito e a beleza

Um comentário que me chegou: não gosto dessas músicas dissonantes. Não posso me furtar:

Há muito se discute sobre o antagonismo entre consonância e dissonância, como se uma pudesse existir sem a outra. Desde os primeiros tratados sobre harmonia, aprendemos que a expressividade musical nasce do atrito  o repouso e a tensão, o conforto e o desequilíbrio. A expressividade do barroco, por exemplo, não existiria sem a dissonância que traz o prazer da resolução.

Mas o que acontece quando ela não vem? Se a dissonância permanece suspensa, a música se torna inacabada? Ou ela apenas nos convida a escutar de outro modo, a aceitar o som como experiência aberta, onde o tempo e o silêncio ganham protagonismo? Isso é um problema?...

Na música coral, essa relação se manifesta de forma muito humana. Cada voz é uma linha independente, e a harmonia nasce do encontro entre diferenças. Consonância e dissonância convivem lado a lado como pessoas num mesmo grupo: às vezes se chocam, às vezes se abraçam, mas é desse movimento que surge a beleza do conjunto. A dissonância é o gesto que busca. A consonância, o que encontra. E entre ambas há um espaço precioso, o instante de escuta, onde a emoção acontece. Quando um coro canta, não há som puro que não se construa sobre alguma tensão. O acorde perfeito é resultado de pequenos desequilíbrios que se ajustam no ar, de respirações que se alinham por intuição e de intenções que se afinam mais pelo olhar do que pela nota.

Cantar em conjunto é aprender, a cada compasso, o valor da diferença e da escuta atenta. Por isso, pensar em música coral é pensar na vida. A dissonância não é inimiga da beleza, é o seu caminho. É ela que move o som, que cria o sentido, que transforma a emoção em matéria audível. Sem ela, tudo repousaria demais, e o repouso em excesso é o início do silêncio.

Um conselho: não tema o atrito. Ouça-o. Viva-o. É da dissonância que nasce o coro, e é nela que a música reencontra sua humanidade.

Aqui, uma dissonância/consonância branda: VOCES8 - Sigurbjörnsson: Heyr himna smiður

 

Grupo de pessoas em pé

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quinta-feira, 6 de novembro de 2025

A solidão e a beleza de conduzir emoções humanas (uma reflexão pessoal)

Nós, os maestros, apesar de lidarmos constantemente com emoções e sentimentos no fazer musical, somos, na verdade, bastante impessoais nas relações humanas. Isso acontece porque os conflitos que surgem ao longo da preparação de um concerto ou evento, quase sempre sob forte pressão, já que um deslize pode significar a diferença entre o sucesso e o fiasco, são constantes e, de certo modo, naturais.

Por outro lado, muitas vezes, a cobrança sobre um cantor cria tensões que geram rancores, mágoas e, às vezes, até ódios. E nem preciso dizer que, como as palavras são o nosso principal instrumento, elas nem sempre são bem medidas ou equilibradas. Tudo, no fim, pelo bem da música e pela felicidade do nosso alvo maior: o público.

Mas há outros caminhos possíveis dentro da música. Caminhos em que é possível manter a harmonia e as boas relações, mesmo dentro de uma hierarquia firmemente determinada. São caminhos em que a música se torna o elo motivador de uma cumplicidade, entendida como a reunião de esforços para alcançar aquilo que mais importa a quem sobe num palco: emocionar o público.

Esses caminhos podem ser traçados com palavras como respeito, paciência, credibilidade, confiança, valorização da competência, ousadia, alegria, bondade… e tantas outras que dão sentido humano à arte.

De todo modo, a vida de um maestro é solitária. Desde o momento em que mergulha no estudo das partituras, buscando compreender o que deve ser feito com seu conjunto, até aquele instante, após a apresentação, em que é o último a sair do evento, com a sensação de ter entregue ao mundo um filho, a obra, o som, o instante. Fica, então, aquela pergunta que sempre retorna: onde estão os cantores que estavam comigo?

Dentro dessa relação de harmonia grupal, a vida ainda nos reserva surpresas. E às vezes elas não vêm da música em si, mas daquilo que há de mais simples e humano. Um gesto singelo, uma palavra, um olhar de gratidão, e o maestro, tão acostumado à distância, é surpreendido pela proximidade. Talvez porque o trabalho musical seja, por natureza, duro, incessante e estressante. Ele gera satisfação, sim, mas é um processo exigente, repetitivo, marcado por cobranças e reinícios, uma sequência de esforços que se renova a cada concerto.

O músico vive nessa espiral: cria, entrega e recomeça. É alguém pouco habituado a medir o tempo ou a acumular méritos, porque o tempo, para ele, é sempre o próximo ensaio. Por isso, quando o reconhecimento vem, quando um gesto singelo rompe o silêncio e se transforma em gratidão, é impossível não se comover.


                                                        @jorgepereirafotografo


 


quarta-feira, 5 de novembro de 2025

O Pato - um coro virtual e a reinvenção do som

Em julho de 2020, no quarto mês do lockdown em BH, o Coro Madrigale lançou um novo vídeo que, de certa forma, marcou mais uma pequena revolução na nossa história: O Pato, de Jayme Silva e Neuza Teixeira, em arranjo de Hely Drummond, que também nos acompanha ao piano.  

O texto que acompanhava a publicação dizia:

“Continuando nosso trabalho musical em tempos de isolamento social, apresentamos a vocês um novo vídeo: O Pato! Apreciem sem moderação! Curtam e compartilhem!”

Era simples, direto, alegre, mas por trás dele havia uma conquista enorme. Esse arranjo, escrito por Hely Drummond para vozes femininas, fazia parte do espetáculo HelyElas, um projeto dedicado à valorização da criação feminina e ao repertório coral interpretado por mulheres. No vídeo, as cantoras do Madrigale assumem esse protagonismo com leveza e humor, trazendo ao conjunto um brilho especial.

Foi também nesse projeto que comecei a fazer pessoalmente as edições de áudio do coro. A descoberta de novas ferramentas digitais me permitiu algo que eu sempre sonhei: reproduzir diretamente o som que eu queria ouvir, mesmo à distância. Assim como nos ensaios presenciais, eu podia construir os naipes a partir das gravações individuais das cantoras, montando camadas de vozes, ajustando timbres, dinâmicas e respirações até alcançar a sonoridade coletiva que sempre buscamos.

Paralelamente, os editores de vídeo, cantores do coro, aprendiam a ousar cada vez mais. Eles exploravam novas formas de mostrar o grupo brincando com enquadramentos, movimentos e gestos, e conseguiam dar às imagens a mesma vitalidade que o som carregava. Foi um tempo de descobertas e de muita criatividade silenciosa por trás das telas.

O resultado? Um coro leve, divertido e afinado, que ria e cantava, cada uma em sua casa, mas juntas na mesma intenção musical. O Pato trouxe, naquele momento difícil, um sopro de alegria. Mostrou que o canto coral pode atravessar qualquer distância, e que, quando há vontade de cantar, não há silêncio que impeça o som de nascer.

Naquele momento, já tínhamos aprendido que a leveza também é força, e que o humor, quando nasce da música, é uma das formas mais puras de esperança.

 

 HELYELAS - O pato - Coro Madrigale

 

Foto em preto e branco

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terça-feira, 4 de novembro de 2025

Lô Borges - O som que ficou no ar

A notícia chegou como um tsunami na manhã de segunda aqui em Portugal: Lô Borges se foi. E foi como se uma parte do céu mineiro se abrisse em silêncio... Aos 73 anos, partiu em Belo Horizonte, deixando atrás de si um rastro luminoso de sons, melodias e memórias que moldaram a alma de uma geração inteira. 

Lô não foi apenas um músico do Clube da Esquina, foi um dos seus corações pulsantes. Das ruas de Santa Tereza às tardes de janela aberta, ele nos ensinou que o som pode ser horizonte, que o violão pode ser reza e que a canção pode ser abrigo. Suas melodias nasceram no cruzamento improvável entre Beatles, jazz, montanhas e solidão. E o resultado foi essa música feita de vento e ternura, “O Trem Azul”, “Paisagem da Janela”, “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, hinos que se tornaram parte da paisagem afetiva de Minas e do Brasil.

Ontem, revi um vídeo que editei a parte de áudio, em 2021, para o Coral da ABT. Senti essa mesma vibração que sempre encontrei nas canções do Clube. Naquele projeto, a maestrina Lívia Itaborahy conduzia e preparava o grupo em uma sequência de coros virtuais, um trabalho de arte e sensibilidade em meio ao silêncio do isolamento. Cada voz gravada em casa se transformava, depois, em presença coletiva: um sopro de vida, um gesto de resistência, um modo de continuar cantando quando o mundo pedia distância.

Hoje, ao ouvir novamente o som daquelas vozes e pensar em Lô, percebo que é o mesmo espírito que nos move: aquele desejo mineiro de cantar o que não se explica; de transformar ausência em melodia, silêncio em comunhão.

Lô Borges partiu, mas a sua música continua no ar, leve, azul, eterna. E talvez seja esse o segredo da arte verdadeira: fazer da despedida um começo, e da saudade, um canto que nunca se cala.

 

Morre Lô Borges, ícone do Clube da Esquina e um dos grandes nomes da MPB,  aos 73 anos

 

Aqui, o vídeo desses queridos do Coral ABT. Mal sabia eu que pediria a eles esse trabalho emprestado para uma homenagem ao Lô. Ao clicar, serão levados diretamente à música, mas se quiserem ver a apresentação do mesmo, voltem ao princípio e lá estaremos inseridos no contexto da pandemia. 

Trem Azul - Coral Imprensa ABT | Série Canto Coral 4/5 (Cover)

 

Homem de boca aberta

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Explicações corais: o que significa dividir um naipe?

Em uma partitura coral, é bastante comum encontrarmos a palavra divisi . Ela vem do italiano e significa, simplesmente, divididos . Num coro...